RFI Convida

Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

  1. قبل ١٧ ساعة

    Paris: Luiz Martins imprime vestígios do ‘homem primário’ brasileiro em porcelana icônica de Limoges

    O artista visual Luiz Martins apresenta, a partir deste sábado (6), em Paris, a exposição “Nhorinhá”, na Galeria Ricardo Fernandes. Nascido em Machacalis (MG), o artista reúne pinturas, esculturas e instalações para discutir a história do Brasil sob uma perspectiva pós-colonial, com foco nos vestígios do “homem primário” brasileiro. A mostra propõe reescrever narrativas coloniais ao intervir em objetos franceses e tensionar conceitos como memória, território e identidade. Luiz Martins abre a exposição a partir de um título que carrega uma referência literária de peso no cânone brasileiro. “Esse nome vem do livro [Grande] Sertão Veredas, do Guimarães Rosa, e quando eu trabalho um projeto, eu sempre procuro colocar títulos que despertam curiosidade nas pessoas”, afirma o artista. A escolha dialoga com a tradição do escritor mineiro de criar palavras e deslocar sentidos, ao mesmo tempo em que Martins articula esse gesto com sua própria pesquisa: “o Guimarães Rosa foi um grande criador de palavras. E aí, juntando ‘Nhorinhá’ com a minha pesquisa de arqueologia e antropologia, criamos esse projeto”, diz o artista visual. A mostra apresenta um conjunto híbrido de linguagens, articulado em torno da ideia de confronto histórico. “Essa exposição foi pensada pelo Ricardo Fernandes e, desde 2025, a gente trabalha junto, e nesse projeto nós trouxemos pintura, escultura e instalação, trabalhando sempre essa questão relacionada do colonizador e do colonizado”, afirma Martins. O galerista, radicado na capital francesa, tem ampliado a presença de artistas brasileiros contemporâneos no circuito parisiense, historicamente influente na legitimação internacional da arte. "Alma de escultor" O trânsito entre linguagens também reflete a própria formação do artista. “Acho que eu nasci com a alma de escultor, com o tridimensional. Eu sou uma pessoa criada na terra, no barro, lá em Minas, lá em Machacalis”, afirma. Para ele, a escultura permite uma relação física que a pintura não alcança: “o que a escultura, a massa, me permite, que a pintura não dá, é sentir, é sentir a força da terra, sentir a força da matéria”, diz Martins, ao explicar a centralidade da materialidade em sua obra. O contexto de origem do artista aparece como elemento estruturante da produção. Nascido em território ligado ao povo indígena Maxakali, Martins trabalha a partir de um espaço que preserva língua e tradições orais, inserido em uma memória que atravessa dimensões indígenas, afro-brasileiras e pós-coloniais. Essa complexidade territorial se traduz em uma abordagem que recusa a narrativa oficial da história brasileira. “Eu sou um artista que quer falar da minha própria história. Eu quero ser sujeito da minha própria história, vendo que o Brasil é contado a partir da visão do colonizador”, afirma. Para ele, o apagamento do período anterior a 1500 continua estruturando o imaginário histórico do país. “O estado não nos permite conhecer a história do Brasil antes disso. E o que eu procuro é mostrar que falar da minha história é falar do meu povo, do meu território”, diz Martins. Leia tambémArtista brasileira reflete olhar decolonial sobre mantos tupinambás em Paris Reescrever a história brasileira A dimensão política da obra aparece de forma direta na pesquisa do artista. “Nada mais significante para mim do que falar desse homem primário brasileiro, algo que nos foi negado desde sempre”, afirma. Ao recorrer à arqueologia e à antropologia, Martins tenta reconstruir uma narrativa que antecede a colonização europeia, deslocando o eixo da história nacional. A abordagem ganha forma concreta em uma das principais instalações da exposição, construída a partir de objetos franceses. “Quando o Ricardo e eu pensamos nesse projeto, a gente pensou como desenvolver um trabalho estando nesse território, que foi um país colonizador”, afirma. O artista se define como um “arqueólogo da cidade”, buscando materiais que dialoguem com o contexto local. Foi nesse processo que surgiram os pratos de Limoges, tradicional porcelana francesa do início do século 20. “Eu saí pelas ruas de Paris garimpando, buscando essa matéria”, diz. A escolha do objeto carrega tanto valor simbólico quanto histórico, já que "a porcelana é associada à tradição europeia e à circulação de bens culturais durante o período colonial". Ao intervir nos objetos, o artista propõe uma inversão narrativa. “Quando eu pego essa matéria e faço uma intervenção, eu estou trabalhando uma questão que para mim é muito importante politicamente, que é fazer um apagamento da memória do colonizador e sobrepor a história do meu povo”, afirma. A operação se aproxima da ideia modernista de antropofagia, reinterpretada em chave contemporânea. Martins vai além da representação do indígena contemporâneo e busca referências mais profundas. “Eu não procuro fazer uma transposição do indígena contemporâneo brasileiro. Eu vou mais atrás, em busca dos vestígios do homem primário brasileiro de 20 mil, 10 mil anos atrás”, diz. O artista defende a ideia de que o território brasileiro possui uma história milenar anterior à colonização europeia. “Quando temos um líder, uma religião e um meio de sustento, nós temos uma sociedade”, afirma, ao descrever o que considera os elementos constitutivos dessas formações antigas. Para ele, esse reconhecimento implica uma revisão profunda da narrativa nacional. “O Brasil precisa reescrever a sua história. O Brasil não foi descoberto, foi invadido”, diz. Crítica decolonial A crítica se estende à dimensão demográfica e histórica da colonização. “Quando os europeus chegaram no Brasil, existia mais de 5 milhões de habitantes”, afirma Martins. Segundo ele, houve um processo violento de extermínio: “houve um grande genocídio brasileiro, que matou muito mais de 2 milhões de pessoas”, diz, ao justificar a urgência de revisão histórica que orienta sua obra. Essa perspectiva também se apoia em referências culturais brasileiras. Para Martins, há registros dessa continuidade em sítios arqueológicos no país, especialmente em cavernas com inscrições e pinturas rupestres. O contraste com a Europa aparece no plano visual. “Os vestígios arqueológicos deixados por esse indivíduo são totalmente diferentes, no sentido gráfico e visual, dos encontrados na Europa, como nas cavernas de Lascaux, por exemplo”, afirma. A comparação reforça a singularidade das culturas pré-coloniais brasileiras, muitas vezes invisibilizadas. Ao sintetizar a exposição em uma única imagem, Martins aponta diretamente para a instalação dos pratos. “É a instalação dos pratos”, afirma, ao destacar o caráter central da obra dentro do conjunto apresentado em Paris. A instalação se organiza com as porcelanas dispostas de forma ritualística. “É quase como uma mesa posta. É uma antropofagia ao inverso”, explica.  “Eu estou mostrando uma história sendo apagada e reescrita a partir desses vestígios”, afirma. Martins ressalta que a intervenção não busca desrespeitar a tradição do objeto: “eu não estou procurando ser radical, estou tentando politicamente e artisticamente fazer o prato como suporte para receber a minha história”, conclui.

    ٩ د
  2. قبل ٤ أيام

    'Cinemateca Negra' lista mais de mil obras e desafia história oficial do audiovisual brasileiro

    A cineasta e produtora cultural Fernanda Lomba lançou a publicação "Cinemateca Negra", livro que reúne mais de mil filmes realizados por pessoas negras entre 1949 e 2022 e propõe uma reorganização inédita da memória do cinema nacional. Em entrevista à RFI em Paris, a fundadora do Instituto Nicho 54 afirma que o projeto altera de forma estrutural a forma de pensar o setor. Fernanda Lomba apresenta a "Cinemateca Negra" como uma inflexão no modo de compreender o cinema brasileiro, ao consolidar um acervo até então disperso e, muitas vezes, invisibilizado. “[O livro] muda exatamente a organização desse pensamento e a organização da memória negra no cinema brasileiro. O que me permite, inclusive, ter a expectativa de que muda a forma como a gente pensa cinema brasileiro”, afirma. Segundo ela, o levantamento, que reúne 1.104 obras produzidas entre 1949 e 2022, estabelece uma referência incontornável para pesquisadores, gestores e realizadores, além de tensionar leituras consolidadas sobre a história do audiovisual no país. Leia tambémAntônio Pitanga e a polêmica do Oscar: “No Brasil, personagem negro nem tem família” Ao estruturar essa memória, o projeto também se projeta como ferramenta de reorganização do debate contemporâneo no setor. “Agora, com um documento que é uma fonte incontornável, não é possível ignorar qual tem sido a contribuição negra à criação e ao pensamento de cinema brasileiro nas últimas sete décadas”, diz Lomba. Para a cineasta, o impacto ultrapassa a dimensão simbólica e alcança temas concretos, como financiamento, acesso e políticas culturais. “Reposiciona, para a nossa contemporaneidade, uma nova forma de pensar cinema, de fazer cinema e, consequentemente, de discutir formas de financiar o nosso cinema.” Embora conte com menção institucional na abertura da publicação, a iniciativa não é estatal, ressalta Lomba. “A Nicho 54 tem buscado uma autonomia de projeto, enquanto organização brasileira, que vem trabalhando a partir de um pensamento negro brasileiro”, afirma. Segundo ela, a parceria com o Ministério da Cultura tem caráter simbólico, sem comprometer a independência metodológica e política do trabalho. “Foi importante contar com algumas palavras da ministra pela sua representação simbólica, mas isso não é uma iniciativa pública do Ministério da Cultura.” Leia também“O cinema me deu cidadania”: Antônio Pitanga é homenageado no Festival de Cinema Brasileiro de Paris A própria existência de um acervo dessa natureza expõe um apagamento histórico persistente, avalia Lomba. “A nossa existência vinha sendo ignorada”, diz. Ao comentar a baixa familiaridade do público com cineastas negros de gerações anteriores, ela aponta para dinâmicas estruturais do campo cultural. “Tem a ver com todo um ecossistema de poder dentro do próprio campo do cinema, que decide quem deve ou não deve fazer parte da história oficial da produção artística e simbólica.” Nesse sentido, a "Cinemateca Negra" surge como resposta direta a um processo de exclusão que, segundo a cineasta, ainda se manifesta de forma concreta. “Esse projeto não existiu antes por uma persistência colonial, de apagamento”, afirma. Para ela, a recepção da iniciativa em 2024 indica que há hoje maior disposição para reconhecer essa lacuna histórica, embora o problema esteja longe de ser superado. A discussão ganha contornos mais concretos quando confrontada com dados recentes do setor audiovisual. Ao comentar estatísticas da Agência Nacional do Cinema (Ancine), que indicam forte concentração de diretores brancos em produções de maior orçamento, Lomba destaca a importância de pesquisas sistemáticas. “A maior dificuldade é materializar uma experiência violenta que qualquer artista ou empresário negro no Brasil sabe que existe”, afirma. Segundo ela, a ausência de dados contribui para a desqualificação do debate público. Financiamento e estrutura Para a produtora, o enfrentamento das desigualdades passa necessariamente pela revisão dos mecanismos de financiamento. “Se a gente não tiver condições de rediscutir como a distribuição de financiamento se organiza, não há nenhuma outra discussão artística que vai ter condições de se estabelecer”, afirma. Lomba observa que o setor audiovisual brasileiro depende majoritariamente de recursos públicos, o que torna ainda mais urgente a revisão de critérios e políticas de acesso. Nesse contexto, a "Cinemateca Negra" desempenha também uma função estratégica, ao fornecer dados e evidências que podem orientar decisões institucionais. “Me interessa muito poder olhar para o futuro de uma forma totalmente diferente do que foi feito até agora, incluindo a discussão financeira”, diz. A publicação, bilíngue e estruturada em ensaios, infográficos e catálogo de obras, busca justamente ampliar a base empírica do debate. A trajetória do projeto, no entanto, foi marcada por obstáculos, inclusive internos, relata a cineasta. “Foi difícil de ser compreendido do ponto de vista da gestão”, afirma. Segundo ela, a complexidade da iniciativa exigiu ajustes ao longo do processo, tanto na condução quanto na articulação institucional. Leia tambémCamila Pitanga participa pela 1ª vez do Festival de Cannes e reverencia o legado do pai Além das dificuldades operacionais, Lomba destaca dimensões subjetivas e simbólicas do percurso. “A resistência que eu precisei exercer foi de quem está lidando com o racismo estrutural no Brasil”, afirma. Para ela, a condução do projeto se insere em uma história longa de desigualdades, que remonta a mais de quatro séculos. “A minha experiência através de gerir esse projeto é uma experiência radical de liberdade”, atesta. O lançamento internacional da "Cinemateca Negra", em diálogo com iniciativas e agentes de outros países, como durante o Festival de Cannes, no sul da França, também integra a estratégia do Nicho 54. Em Paris, onde participou de encontros ligados ao circuito cinematográfico, Lomba tem buscado estabelecer conexões que possam reverberar no Brasil. “Venho estabelecendo relações acerca do que pensamos sobre o cinema no mundo de hoje, como a potência e o senso de liberdade que as imagens carregam”, afirma. Entre essas articulações está o diálogo com o cineasta Abderrahmane Sissako, referência do cinema africano contemporâneo. “Tive a honra de jantar com ele e fazer o convite para vir ao Brasil como convidado de honra do Festival Nicho”, diz. Para Lomba, esse tipo de intercâmbio pode fortalecer tanto a circulação internacional quanto o debate interno no país. “Tenho certeza de que esse tipo de relação privada vai ser suficientemente forte para movimentar a cena cultural na esfera pública.”

    ٦ د
  3. قبل ٦ أيام

    ‘Se economia não melhorar, Trump pode perder maioria no Senado e na Câmara’, prevê pesquisador

    Em meio às guerras no Oriente Médio, à escalada da inflação e às promessas de campanha não cumpridas, o presidente americano, Donald Trump, vê sua popularidade despencar. Em entrevista à RFI, Lucas de Souza Martins, pesquisador da Temple University, na Filadélfia, analisa o cenário e avalia que o líder republicano pode sofrer um revés nas eleições de meio de mandato, em novembro, e perder o domínio das duas casas legislativas do país. Eleito em um delicado contexto econômico em 2024, Trump vem batendo recordes de impopularidade nos Estados Unidos. Pesquisas de opinião indicam que mais de 60% da população está insatisfeita com a atual administração.  “A principal discussão que existe por lá é a questão da inflação, a questão da dificuldade de você alcançar, por exemplo, o sonho americano: a casa própria, a troca de carro com facilidade. Os jovens americanos e também as famílias já constituídas têm muita dificuldade de alcançar exatamente o que Donald Trump disse que traria novamente aos Estados Unidos”, aponta Martins. Segundo o pesquisador, além das promessas não cumpridas, as estratégias do líder republicano para tentar conter a inflação e turbinar a economia — como os tarifaços impostos ao mundo inteiro em 2025 e 2026 — não trouxeram o resultado esperado. “A popularidade dele cai muito mais por conta de uma questão de economia interna do que necessariamente uma situação que tem a ver, por exemplo, com os conflitos no Oriente Médio, a situação um pouco engessada com relação ao Estreito de Ormuz e o abastecimento do petróleo”, observa. O pesquisador acredita que a principal consequência desse descontentamento da população americana ocorrerá nas eleições de meio de mandato, em 3 de novembro. A votação renovará os 435 assentos da Câmara, cerca de um terço do Senado, além dos governos de alguns estados e outros cargos estaduais e locais.  Na última semana, Trump minimizou a situação, afirmando, durante uma reunião na Casa Branca não se importar com as eleições de meio de mandato. No entanto, para o professor da Temple University, o quadro não é dos melhores para Trump: “há a leitura de que, se esse cenário se agrava, se a economia não traz sinais de melhora, ele pode sim perder as duas casas”, ressalta. Apatia do Congresso dos EUA O especialista aponta “uma apatia” geral no Congresso, que não reage às controversas decisões do presidente americano, como as declarações de guerra sem aprovação dos parlamentares, as controversas concessões ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ao tarifaço que não teve o retorno esperado, entre outros. “O Congresso tem falado muito pouco sobre isso, até porque o presidente da Câmara dos Representantes [Mike Johnson] é republicano. E os democratas, por conta de serem minoria, têm pouco espaço também para impor a sua agenda, até porque eles têm poucos instrumentos também para colocar a sua voz”, diz. “Mas agora, com uma perspectiva de mudança nessas maiorias destas duas casas, o presidente Trump estará sujeito a mais pressão por parte da oposição, cenário que hoje não existe”, reitera. Por outro lado, Lucas de Souza Martins ressalta que, se houve uma promessa de campanha cumprida por Trump, foi a de trazer de volta uma agenda conservadora e “até imperialista” em alguns setores. Para o pesquisador, essa é a grande diferença neste segundo mandato do magnata — um posicionamento que provocou rachas e transformou o Partido Republicano. “Quando Trump ainda era um presidente inexperiente, sem habilidades políticas, ele fez uma composição de ministérios em que você tinha pessoas do Partido Republicano mais clássico, mais ligado a outras gestões, como a de George W. Bush. E, curiosamente, essas pessoas acabaram saindo do primeiro governo Trump exatamente por divergências”, aponta. “Portanto, nós temos um Trump muito mais conservador neste segundo mandato, muito mais consciente da importância da formação de sua equipe, com uma coesão maior e claramente conservadora, nada ligado ao que representava anteriormente o Partido Republicano clássico”, destaca. 250 anos da independência dos EUA No próximo 4 de julho, os Estados Unidos comemorarão o aniversário de 250 anos de sua independência. Trump está planejando um grande evento para celebrar a data, em que deve ostentar as grandes reformas estruturais que vem promovendo em Washington. O aniversário coincide com outro evento festivo, a Copa do Mundo de Futebol Masculino, que terá os Estados Unidos como uma de suas sedes. Segundo o pesquisador, a polarização não deve atrapalhar os dois eventos porque, para a população americana, as comemorações estão acima das diferenças partidárias. “Existe uma perspectiva e até um nível de pacifismo político com relação a estas celebrações, até pela questão da tradição política americana que separa um pouco essa questão da fundação do país com relação a questões atuais da política interna dos Estados Unidos”, avalia. Martins prepara um livro em parceria com o jornalista Duda Teixeira que aproveita a efeméride dos 250 anos da independência dos Estados Unidos para abordar a vanguarda americana na criação e instituição dos pilares da democracia. Segundo ele, a obra trará ideias novas à historiografia e à produção literária do Brasil com relação à perspectiva de se olha os Estados Unidos. “Tradicionalmente, o Brasil tem uma relação delicada com os americanos, pensando também na participação dos americanos na questão da ditadura militar, a forma como nós fomos encarados também durante aquele período da pré-Segunda Guerra Mundial, em que a questão cultural foi muito usada no Brasil para influenciar os brasileiros a se alinharem. O Brasil sempre foi utilizado historicamente como — ou pelo menos percebido pelos americanos —  como parte de um grupo que está aliado aos interesses de Washington. Então, por isso que há uma relação de tensão.” Mas, para o especialista, o trabalho será uma oportunidade para o público enxergar os Estados Unidos de uma outra maneira, “pensando que as principais inovações da forma como nós constituímos hoje governos, democracia, a estrutura de presidência, Câmara dos Deputados, Senado, o sistema de pesos e contrapesos, a execução desse sistema, tudo isso parte dos Estados Unidos”. Segundo Martins, o livro propõe “uma forma de enxergar os americanos através das suas contribuições para processos democráticos em todo o mundo”. Solidez das instituições norte-americanas O pesquisador da Temple University salienta que, apesar das medidas controversas e antidemocráticas da parte do líder republicano, o aniversário de 250 anos também será uma oportunidade para os americanos comemorarem a solidez nas instituições do país. “Na transição entre o presidente Donald Trump e o presidente Joe Biden em 2020, nós tivemos a insurreição que aconteceu no Capitólio e nada disso afetou as instituições. Houve uma troca de governo, houve uma troca de partido na Casa Branca e as instituições prevaleceram, por mais que o outro lado não reconheça até hoje o resultado daquela eleição”, observa. “Mas o fato é que um presidente da oposição foi empossado e o mesmo presidente que foi derrotado dizendo que houve fraude eleitoral, ele se candidatou novamente, venceu as eleições e agora está novamente no poder, o que mostra também que existe um princípio de consolidação democrática através, sobretudo, das sólidas instituições que foram instauradas pelos Estados Unidos”, conclui.

    ١٥ د
  4. قبل ٦ أيام

    Aos 37 anos, Marcelo Demoliner vive seu melhor Roland-Garros e desafia o tempo

    Especialista em duplas e presença constante no circuito internacional de tênis há quase duas décadas, o brasileiro Marcelo Demoliner construiu uma carreira sólida desde que se profissionalizou, em 2006. De volta a Roland-Garros, aos 37 anos, ele atinge o seu melhor resultado no torneio, avançando para as quartas, depois de derrotar uma dupla alemã, entre as melhores do mundo, pela terceira rodada das duplas masculinas. Maria Paula Carvalho, de Roland-Garros Para chegar até aqui, Marcelo Demoliner e o parceiro indiano N. Sriram Balaji bateram o alemão Constantin Frantzen e o holandês Robin Haase (em três sets) na estreia, na terça-feira (26). Depois, derrotaram os alemães Jakob Schnaitter e Mark Wallner (por dois sets a zero) na segunda rodada, na sexta-feira (29) e, nas oitavas de final, nesta segunda-feira (1°), venceram os alemães Kevin Krawietz e Tim Puetz, cabeças de chave nº 6, em partida encerrada com parciais de 7/5 e 6/4. Demoliner e Balaji disputam as quartas de final na quarta-feira (3) contra o inglês Henry Patten e o finlandês Harri Heliövaara. É mais um ponto marcante na carreira do tenista gaúcho, que atingiu o auge em 2017 com o 34º lugar no ranking mundial da ATP. Dono de cinco títulos de nível ATP e com resultados expressivos em Grand Slams, Marcelo Demoliner vive em 2026 um momento simbólico em Roland-Garros, como contou nesta entrevista exclusiva à RFI Brasil. Em sua décima participação no torneio parisiense, ele alcança pela primeira vez as quartas de final, quebrando uma barreira pessoal no saibro francês. Representante frequente do Brasil em competições como a Copa Davis, os Jogos Olímpicos e medalhista no Pan de Santiago 2023, Demoliner mantém regularidade em Paris e segue competitivo. “Acho que essa aqui é a décima participação”, calcula o gaúcho, que segue avançando nesta edição do torneio. “Eu sempre ganhei o primeiro jogo, mas não conseguia avançar. Foi a primeira vez que consegui quebrar esse tabu – e agora vamos por mais”, afirma. Se a comparação fosse com o vinho francês, como sugerido na entrevista, a longevidade ajuda: “Com certeza. Totalmente”. Depois de passar por uma cirurgia no joelho, ele diz ter reencontrado a forma ideal. “Demorou alguns anos para eu voltar ao meu melhor. Mas desde o ano passado estou muito bem fisicamente, mesmo com 37 anos.” Preparo físico A manutenção do alto nível, explica, passa por uma rotina cada vez mais exigente fora das quadras. “Depois dos 30, 35, a cartilagem vai diminuindo drasticamente. Então, quanto mais eu me mantiver bem fisicamente, mais longeva vai ser minha carreira.” Demoliner conta que dedica mais tempo à preparação física do que ao treino técnico, confiando na experiência acumulada ao longo de 20 anos no circuito. “Se eu estou bem fisicamente, minha técnica vai estar bem aperfeiçoada pelos tantos anos jogando”, avalia. O desgaste mental, no entanto, pesa tanto quanto o físico. “Cada ano que passa é mais difícil estar longe da família”, relata. Viagens longas e constantes fazem parte da rotina de quem passa até 35 semanas por ano fora de casa. “O mais difícil é estar longe da minha esposa, da minha família. De repente, ano que vem a gente vai ter filhos, então vai ser uma mudança de vida também grande”, espera. Além disso, “um voo de 10, 12 horas é mais sofrido”, diz. “Para mim, viajar de econômica é um martírio, pois tenho 1,95 de altura. Preciso de uns dois dias para recuperar.” Ainda assim, a motivação segue intacta. “Eu ainda tenho muita gana de competir. É isso que me motiva continuar jogando e conquistando alguns sonhos”, diz, projetando a tentativa de disputar os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 2028. Redes sociais e os bastidores do tênis Fora das quadras, o tenista também tem investido em uma presença ativa nas redes sociais, onde acumula mais de 130 mil seguidores no Instagram ao mostrar os bastidores do circuito. A iniciativa começou de forma espontânea, em 2019. “Pensei: como posso dar um pouquinho para as pessoas do que o tênis me proporciona?”, explica. Com quadros como o “Respondemo” e o “Demonstrando”, ele busca aproximar o público de uma realidade pouco visível. “As pessoas não têm ideia da grandiosidade dos bastidores e de como é difícil chegar lá.” Entre fuso horário, custos elevados e a necessidade de gerir a própria carreira, Demoliner resume: “Eu sou o CEO da minha empresa e o limpador da privada”. Apesar das dificuldades, ele reforça que o sucesso financeiro no esporte existe, mas é restrito: “Dá para ficar rico, mas a porcentagem é muito pequena. Tem que ser muito profissional.” Pensando no futuro, o brasileiro ainda testa possibilidades, mas sem pressa para definir o próximo passo. “Eu sei que vou ser um bom empresário”, afirma. A experiência como comentarista já foi experimentada, mas ainda sem entusiasmo. “Tenho facilidade, mas não foi algo que eu pensei ‘quero fazer isso’. Eu estou testando um monte de coisas. A minha carreira está no final. Mas comentar é algo que eu preciso entender se eu gosto ainda”, continua. “Eu já fiz algumas vezes, não desfrutei tanto fazendo”, diz. Fenômeno João Fonseca: tem "aura" Observador atento da nova geração, Demoliner deseja sorte a João Fonseca, uma das promessas do tênis brasileiro. “Ele é uma estrela. Se fosse dizer uma palavra para ele, seria carisma, aura”, elogia. Demoliner lembra, no entanto, que o talento precisa ser acompanhado de paciência. “As pessoas têm que entender que o tênis é um esporte de processo. A gente perde mais do que ganha. Uma derrota não é o fim do mundo, e uma vitória também não é tudo isso.” Em Paris, Demoliner segue escrevendo novos capítulos de uma carreira marcada pela persistência – agora, enfim, com a sensação de que ainda há espaço para ir além.

    ٦ د
  5. ١ يونيو

    'Campo evangélico não se resume à direita', diz conselheira da Presidência que acompanha Janja

    Nilza Valéria Zacarias, jornalista e coordenadora da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, afirma que o campo religioso no Brasil vive disputa aberta e rejeita a associação automática entre evangélicos e direita. Em entrevista à RFI em Paris, ela critica o uso político da fé, defende o diálogo com o governo Lula e sustenta que pautas como feminismo e justiça social também encontram respaldo na tradição bíblica. Jornalista, ativista social e uma das principais vozes do protestantismo progressista no Brasil, Nilza nasceu em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, ela é uma das fundadoras e principais coordenadoras da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, criada em 2016, durante o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. O movimento surgiu como contraponto à chamada "bancada evangélica" conservadora no Congresso Nacional e passou a defender a democracia, a justiça social e a participação política de evangélicos, fora do campo da direita. Em suas intervenções públicas, Nilza sustenta que a maioria dos evangélicos brasileiros é composta por mulheres negras, pobres e moradoras de periferias urbanas – um grupo que, segundo ela, não se vê representado por lideranças religiosas tradicionais. “O que nós notamos no Brasil, que se aplica aos Estados Unidos, é essa apropriação da linguagem religiosa, que vem sendo cooptada e utilizada como instrumento de poder”, afirma. Ela associa esse movimento à atuação de grupos organizados no Congresso Nacional. “No caso brasileiro, isso aparece na atuação da bancada evangélica”, diz. “E isso exige de nós todo o tempo atenção”. A defesa da laicidade, afirma, tem raízes históricas dentro do próprio protestantismo. “Esse valor é muito caro, sobretudo para mim. Os protestantes fomentaram essa discussão sobre a laicidade do Estado há centenas de anos”, explica.  Disputa pelo voto evangélico Nila Valéria, hoje conselheira especial da presidência da República, diz que a iniciativa de acompanhar a primeira-dama em encontros com mulheres evangélicas partiu da própria Janja. "Eu tenho que fazer uma referência a ela. Isso não foi uma estratégia do governo. Isso é uma estratégia pessoal que partiu dela e, obviamente, que beneficia o governo", avalia. "Foi uma experiência muito bacana, porque ela tem uma preocupação com os temas que se relacionam com a vida da mulher. Basta ver o empenho da primeira-dama agora na assinatura do pacto de combate ao feminicídio. Ela se empenhou pessoalmente e a gente tem levado esse tema, inclusive para os nossos grupos, fazendo com que a Igreja se ocupe também do tema do feminicídio, entendendo que o feminicídio não é um problema da mulher, é um problema de todos nós e que a gente precisa, sobretudo, de pastores e líderes engajados nesse tema, porque eles precisam falar sobre isso em seus púlpitos", considera. Ao comentar o cenário eleitoral, Nilza Valéria afirma que há mudança em curso. “Neste momento, são nove pontos de diferença do presidente Lula para o segundo colocado, que é o Flávio Bolsonaro”, diz. Ela contesta, no entanto, a leitura de que o campo evangélico teria alinhamento histórico com o bolsonarismo. “Eu não diria que o campo evangélico é historicamente ligado a Bolsonaro. Como toda a sociedade brasileira, Bolsonaro, em algum momento, apresentou um canto da sereia. E as pessoas caíram nesse canto da sereia. Entre essas pessoas, evangélicos também”, afirma. A jornalista ressalta que identidade religiosa não define, por si só, posicionamento político. “Ninguém é só evangélico. Evangélico não é a única identidade de uma pessoa”, diz. “Eu sou só evangélica, mas tenho uma multiplicidade de identidades. Eu sou uma mulher negra, eu sou jornalista”, afirma. Ela reconhece, porém, o peso de temas morais no comportamento eleitoral recente. “Obviamente, a gente não pode negar o peso das pautas morais”, diz, mencionando o “pânico” e o “medo” disseminados durante campanhas de fake news evocando, "por exemplo, a multiplicação de casamentos homoafetivos" caso a esquerda fosse eleita. Laicidade? Para Nilza Valéria, a laicidade não representa ameaça à religião. “A laicidade do Estado protege a igreja”, afirma.“O que é religioso continua sendo religioso. A gente tem liberdade de culto e quer que o Estado proteja todas as religiões”, diz. Segundo ela, isso não implica imposição de valores externos às comunidades de fé. “Isso não faz com que uma determinada igreja tenha que viver segundo pautas que não considera adequadas.” Para ilustrar, recorre a uma metáfora. “É como aderir a um clube. Se eu faço adesão a um clube, eu sei que tem regras. Eu vou seguir conforme as regras que eu aderi”, afirma. Nesse contexto, ela observa mudança no comportamento do eleitorado. “O que a gente percebe agora é que evangélicos também estão em disputa.” Diálogo com o governo Lula A aproximação entre governo e lideranças evangélicas progressistas é vista por ela de forma positiva. “Eu acho que fortalece, neste momento fortalece muito”, afirma. Segundo Nilza Valéria, o diálogo já vinha sendo construído. “A gente já vinha dialogando sobre a importância dessa aproximação.” Em 2025, esse processo se intensificou. “Nós conseguimos propor e organizar encontros com mulheres evangélicas. Foram sete encontros que tinham essa troca. A primeira-dama ouvia as mulheres. Depois, ela falava sobre políticas públicas, encaminhando respostas”, afirma. Para a jornalista, o resultado é claro. “Isso foi muito significativo, porque mostrou que o diálogo é sempre um bom caminho.” Trajetória e identidade política A própria trajetória de Nilza Valéria ilustra a convivência entre fé e engajamento político à esquerda. “Eu sempre fui evangélica. Sou a quarta geração de uma família de batistas. Na minha família, nunca foi contraditório ser evangélico e ser de esquerda”, afirma. “Meu avô era militante do Sindicato dos Estivadores”, diz. “Isso não era estranho à nossa fé”, afirma. Para ela, não há vínculo obrigatório entre religião e ideologia. “Não é uma condição sine qua non. Ser evangélico não significa automaticamente ser de direita. É só olhar [Martin] Luther King.” Questionada sobre o tamanho do campo progressista entre evangélicos, ela evita estimativas. “Eu não saberia te responder o tamanho real desse campo”, afirma. Para ela, generalizações prejudicam esse processo. “Ao rotular essas pessoas, a gente acaba perdendo”, diz. “E a oportunidade de trazê-las para mais perto”, completa. Nilza Valéria destaca o perfil social predominante. “Os evangélicos brasileiros, em sua maioria, são pobres, periféricos e negros. Mas quando eu digo que essa pessoa é reacionária, eu me impossibilito de debater com ela”, conclui. *Para assistir a entrevista na íntegra, clique na imagem principal da matéria

    ٦ د
  6. ٢٧ مايو

    Francês impulsiona cultura brasileira na Alsácia com festival e cooperação agroecológica com a Bahia

    Antropólogo, ex-prefeito de Eschbach e hoje vice-presidente de um consórcio intermunicipal no norte da Alsácia, Hervé Tritschberger se tornou um dos principais articuladores da difusão da cultura brasileira na região. Também à frente da associação IPÊ (Iniciativa para a Etnologia), ele organiza a segunda edição do Festival Boitatá, marcado para sábado (30) na pequena cidade de Preuschdorf, e aprofunda uma cooperação inédita com a cidade de Botuporã, na Bahia, que combina intercâmbio cultural e projetos ambientais. O Festival Boitatá é um evento idealizado por Hervé Tritschberger, dedicado à cultura brasileira, que reúne música, dança, gastronomia e debates. Organizado pela associação IPÊ, o festival chega à sua segunda edição e se afirma como um espaço de intercâmbio cultural e cooperação internacional, fortalecendo laços entre a França e o Brasil. A edição de 2026 ganha ainda mais relevância com a presença de uma delegação oficial da cidade de Botuporã, na Bahia, composta por sete representantes, que participarão de atividades culturais e institucionais que reforçam a parceria entre os dois territórios. “O objetivo é fazer descobrir ao povo da Alsácia a cultura brasileira”, explica Tritschberger. “Na primeira edição, foi a descoberta de especialidades, gastronomia e também música com samba, pagode e forró”, conta. O organizador destaca que o festival desperta interesse não apenas dos franceses, mas também de públicos da região fronteiriça com a Alemanha e dos próprios brasileiros que moram na região. “A gente gosta muito da cultura brasileira. Tem uma comunidade brasileira aqui da Europa que vem nesse momento para compartilhar a cultura deles. São brasileiros que vivem tanto na França quanto na Alemanha, já que é bem pertinho”, diz. Cooperação agroecológica entre Alsácia e Brasil Além do aspecto festivo, o Festival Boitatá também abre espaço para discussões sobre desenvolvimento sustentável. Duas mesas-redondas estão previstas: uma sobre agroecologia e outra sobre gestão de resíduos, reunindo agricultores e especialistas franceses e brasileiros. A cooperação promovida por Hervé Tritschberger entre Botuporã, na Bahia, e a França se deu quando ele ainda era prefeito de Eschbach. O antropólogo francês explicou à RFI que o interesse pelo Brasil foi inspirado por sua experiência pessoal. Inicialmente, em 2016, estudou antropologia na Universidade de São Paulo (USP). Em 2018, realizou uma pesquisa na Bahia, que mais tarde – durante seu mandato de prefeito na pequena Eschbach – desencadeou uma cooperação profissional com Botuporã, inicialmente voltada para agroecologia e gestão de resíduos, e que hoje se desdobra também em intercâmbios culturais.  A parceria evoluiu para uma estrutura mais consolidada. “Foi uma descoberta. Foi um amigo de um amigo que falou com o prefeito de Botuporã, o professor Edmilson [Saraiva]. Minha ideia era fazer a mesma coisa que foi feita com o festival, de fazer descobrir, uma cooperação com uma cidade”, relata Tritschberger. “Aí começamos a fazer um projeto sobre agroecologia. O prefeito e uma delegação de Botuporã vieram para a Alsácia”.  Da troca de experiências sobre as práticas agroecológicas surgiu um livro disponível em francês e português no site da associação IPÊ. Para Hervé Tritschberger, o Brasil, sobretudo Botuporã, tem uma conexão forte com práticas da economia circular, em que “os resíduos são transformados pelos artesanatos, por exemplo”, ou outras coisas. “Aqui na França eu acho que esse hábito é menor. (...) Então, essa troca de ideias tem por objetivo melhorar de cada lado, melhorar as práticas que temos”, afirma. Leia tambémAçúcar orgânico produzido no Brasil é exemplo bem-sucedido da economia circular Brasil no radar profissional  Para o antropólogo, a parceria também contribui para ampliar horizontes, sobretudo em um território rural como Botuporã. “Quando chegamos, foi já uma abertura sobre a questão internacional, a questão de como funcionam os outros países, como funcionam outros territórios”, explica. Hoje fora da prefeitura, Tritschberger segue atuando na gestão de serviços públicos e projetos locais no consórcio intermunicipal da região de Sauer-Pechelbronn, no norte da Alsácia, um organismo que reúne várias pequenas cidades. Ele afirma que pretende seguir engajado em projetos ligados à ecologia e à cooperação internacional, principalmente com o Brasil. “Claro que eu quero continuar sobre essa questão de ecologia, mobilidade sustentável. E tenho o objetivo de continuar com esse consórcio, fazer cooperação com Botuporã para manter essa ajuda mútua entre os dois povos”, conclui.

    ٦ د
  7. ٢٦ مايو

    Após sucesso em 2024, segundo volume do livro 'Caixinhas de Música' trará entrevistas com Fernanda Takai, Tom Zé, Alceu Valença e Wanderléa

    O livro “Caixinhas de Música – Conversas sobre Música Brasileira Tempo e Cidades”, que reúne entrevistas com grandes artistas brasileiros, fez um grande sucesso no Brasil em 2024. A obra da editora Autonomia Literária, organizada por Fabio Maleronka e Renata Rocha, ganhará um segundo volume, com previsão de lançamento em 2027. “Os lugares onde a música acontece”: essa foi a ideia que guiou o projeto que faz recortes da trajetória de grandes artistas de diferentes gerações, estilos musicais e todas as regiões do Brasil. Fabio Maleronka e Renata Rocha se concentraram nos locais que muitas vezes “parecem detalhes na trajetória”, mas dizem muito sobre a essência de ícones da cultura brasileira. “O Mato Grosso de Ney, a esquina do Clube da Esquina, a Governador Valadares da Wanderléa, a Irará de Tom Zé”, lista Fabio. Como o próprio nome do projeto diz, “Caixinhas de Música” traz conversas com dezenas de artistas brasileiros sobre suas trajetórias, em diferentes espaços e contextos, onde vida e carreira se misturam. Desta forma, a conversa de Alice Caymmi se encontra com a de Michael Sullivan; a de Moraes Moreira, com Armandinho e Spok. “Essas entrevistas vão se cruzando por afinidade, como se elas fossem fazendo parcerias inusitadas”, diz Fabio. No primeiro volume do livro, os organizadores explicam que as entrevistas, gravadas entre 2020 e 2024 não são diálogos ensaiados ou previamente estabelecidos, o que abre a possibilidade a revelações e histórias inesperadas. “O Ney conta que o fato de ele usar no sobrenome Mato Grosso como nome artístico – e diferente do estado, ele escolhe usar tudo junto, Matogrosso –  isso faz com que ele possa ser algo muito questionável na década de 70. Ninguém queria ser latino, diferente de hoje, que todo mundo quer”, observa. “Mas o Matogrosso do Ney permite que ele grave frevo, que ele grave baião, músicas de todos os gêneros, porque esse ‘Matogrosso’ dá essa proteção a ele”, reitera. Fabio também relembra a gravação da entrevista com Hermeto Pascoal, realizada em 2024, alguns meses antes de sua morte. “Na preparação, eu disse: ‘não vou falar que o Hermeto Pascoal é um gênio, para ser a milésima pessoa fala isso’”, brinca. “Então essa é uma entrevista muito conduzida sobre pintura, comida, como ele pinta as próprias capas dos discos, porque, no caso do Hermeto, a gente não está falando de um artista que a música é uma linguagem artística, mas uma dimensão da vida”, diz. Volume 2 Se no primeiro volume de “Caixinhas de Música” histórias contadas pelos artistas deram o que falar – como a jaguatirica que Rita Lee tinha como animal de estimação – a sequência do projeto promete. Na lista de estrelas entrevistadas, há Fernanda Takai, Tom Zé, Alceu Valença e Wanderléa, que contou a Fabio episódios do início de sua carreira que o surpreenderam. “Wanderléa inventa toda a forma de comportamento no Brasil, de usar bota, adereços de cabelo, de uma forma de dançar”, destaca. “Praticamente todas as artistas, inclusive Gal [Costa], Nara [Leão], iam para o show da Wanderléa para ver uma como era um show da Jovem Guarda. Ninguém podia declarar publicamente isso, mas Wanderléa era uma inspiração para todas as cantoras da época”, afirma. Outra história surpreendente que trará o segundo volume do projeto “Caixinhas de Música” diz respeito ao encontro entre o cantor e guitarrista da banda Talking Heads e o músico baiano Tom Zé. “David Byrne entra numa loja, vê um disco com o nome ‘Estudando o samba’ e se pergunta quem é aquele cara. E o Tom Zé sai praticamente de um exílio em território nacional para para estourar nos Estados Unidos de novo depois de tanto tempo graças a essa descoberta”, destaca. Várias facetas de um mesmo artista Para Fabio, contar essas e outras histórias tão inusitadas e surpreendentes é também uma forma de revelar os diversos personagens dentro de um artista. “Por exemplo, o filme ‘Meu Nome é Gal’, de Dandara Ferreira, retrata a jovem Gal. Mas quantas artistas existiram naquela pessoa? Quantas artistas existiram na da Rita Lee? Quantas fases elas viveram? Isso é muito perceptível quando você ouve uma entrevista daquela época e você entende aquela fase específica também da pessoa”, diz. Por isso, segundo Fabio, entrevistar grandes artistas da música brasileira é uma experiência particular. “Quando a gente grava, muitas vezes a gente não entende direito a entrevista depois que a gente sai dela. A gente vai entender às vezes um mês depois. E cada entrevista tem mesmo um tempo”, avalia. Por isso, para Fabio, na execução de Caixinhas foi essencial levar em consideração que “histórias vão acontecendo”, de “personagens profundos e o que eles estão vivendo” mas, segundo o coautor, “sempre com um pouco de humor”. “É um livro que a gente chama de livro de avião, livro de ônibus. Você pode ver de qualquer jeito, de qualquer forma, de trás para frente. É um livro de entrevistas. Ele também tem o sentido de se divertir”, resume.

    ١٣ د
  8. ٢٢ مايو

    Coprodução brasileira 'Elefantes na Névoa' vence Prêmio do Júri da mostra Un Certain Regard de Cannes

    O filme, dirigido pelo nepalês Abinash Bikram Shah, foi ovacionado na estreia no Festival de Cannes na quarta-feira (20) e recebeu nesta sexta-feira o Prêmio do Júri da mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar). A coprodução brasileira também recebeu um prêmio especial de criação de som, que foi totalmente realizado no Brasil. “Um orgulho imenso participar desse primeiro longa nepalês selecionado no Festival de Cannes”, reagiu a produtora brasileira Tatiana Leite logo após a premiação. Adriana Brandão, enviada especial da RFI a Cannes A mostra Un Certain Regard, da seleção oficial de Cannes, celebra um cinema jovem, de autor e de descobertas. A seleção de 2026 apresentou 19 longas-metragens, incluindo 6 filmes de estreia que também concorrem à Caméra d’Or. Presidido pela atriz francesa Leïla Bekhti, o júri reompensou com o prêmio Un Certain Regard “Everytime”, da austríaca Sandra Wollner. “Elefantes na Névoa”, de Abinash Bikram Shah, ficou com o Prêmio do Júri. “Um filme de uma beleza incrível, com uma narrativa que recusa etiquetas e explora a fronteira entre o realismo e o fantástico”, justificou o júri na cerimônia de premiação na noite desta sexta-feira. Primeiro longa nepalês em Cannes O primeiro longa-metragem do cineasta nepalês se passa em um vilarejo no Nepal, nos arredores de uma floresta habitada por elefantes selvagens. A líder da comunidade Kinnar local sonha em fugir com o homem que ama. Mas o desaparecimento de uma de suas filhas impõe a escolha entre o desejo de liberdade e suas responsabilidades com seu povo historicamente marginalizado. Essa é a primeira vez na história que um filme nepalês é selecionado em Cannes. O filme é uma coprodução do Nepal, Alemanha, França e Noruega. A participação brasileira é fruto de uma parceria inédita entre Tatiana Leite, da Bubbles Project, e Leonardo Mecchi, da Enquadramento Produções. Tatiana Leite estava presente na cerimônia de premiação e não escondeu sua emoção. “Esse é um filme muito importante, muito urgente e maravilhoso cinematograficamente. Um orgulho imenso participar desse primeiro longa nepalês selecionado no Festival de Cannes”, afirmou. O produtor Leonardo Mecchi em entrevista à RFI em Cannes falou da força de "Elefantes na Névoa". Ele é um filme de uma sensibilidade incrível e realizado de uma maneira impecável, o que é muito impressionante para um primeiro de estreia do Abinash. Ele tem essa força de trazer uma história extremamente fincada nas raízes e na cultura do Nepal, com um olhar para o ser humano, para as relações pessoais, para a complexidade da vida em locais como esse. E isso ressoa em qualquer lugar", salienta. Melhor som Foi o segundo prêmio do dia. Pela manhã, o longa foi premiado pela melhor criação de som, cuja responsabilidade coube ao Brasil nessa coprodução. “Durante a filmagem, nós enviamos o Pedro Sá, que é um técnico de som brasileiro, para o Nepal. E toda a finalização de som, edição e mixagem foram feitas no Brasil. O Abinash foi para São Paulo e ficou lá três semanas acompanhando a finalização de som. Então, a parte criativa brasileira nessa coprodução foi justamente através do som”, ressaltou o produtor Leonardo Mecchi em entrevista à RFI em Cannes. “A gente já tinha ficado muito feliz com esse prêmio de melhor som, mas o Prêmio do Júri é enorme. Um orgulho imenso ser uma coprodução brasileira, ter um pouquinho de Brasil e ter descoberto este país tão especial que é o Nepal”, reiterou Tatiana Leite. O prêmio consolida a carreira do diretor nepalês. Abinash teve seu curta-metragem “Lori” premiado com Menção Especial na competição de curtas de Cannes em 2022 e também assinou o roteiro do longa “Shambhala”, exibido na competição da Berlinale em 2024. Distribuído no Brasil pela Imovision, a estreia mundial do filme em Cannes posiciona “Elefantes na Névoa” como um dos títulos mais aguardados deste ano, reforçando a presença brasileira no circuito internacional. Participação minoritária do Brasil em coproduções Antes do anúncio do Prêmio do Júri em Cannes, o produtor brasileiro Leonardo Mecchi explicou, em entrevista à RFI Brasil, como surgiu a coprodução de “Elefantes na Névoa”. Segundo ele, o projeto nasceu no CineMart de Roterdã, onde ele e a produtora Tatiana Leite “se apaixonaram completamente pelo roteiro” e pela visão do diretor. A entrada do Brasil só foi possível graças a um acordo de coprodução internacional, após a participação de França e Alemanha, o que permitiu financiamento e envolvimento criativo brasileiro. Eles participaram e venceram o primeiro edital de coprodução da política pública que amplia a presença do Brasil no cinema internacional.  Mecchi destacou ressaltou o papel essencial das políticas públicas nesse processo, observando que elas são “fundamentais para fomentar o cinema autoral e a internacionalização do nosso cinema”, embora tenham sido enfraquecidas nos últimos anos e estejam sendo gradualmente reconstruídas. Sobre a presença brasileira em Cannes, o produtor relativizou a ausência de longas nacionais na competição principal, defendendo que a força do cinema está na diversidade e não apenas no reconhecimento internacional. “Uma indústria não se faz com um filme por ano”, disse, acrescentando que a coprodução minoritária é “mais um caminho para fortalecer esse cinema”.

    ٥ د

حول

Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

المزيد من RFI Brasil

قد يعجبك أيضًا