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Em pauta, temas consagrados pela tradição humanista. A cada edição três estudiosos põem em foco questões seminais da história da cultura. Produção e apresentação: Marcelo Consentino, doutor em filosofia da religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, editor da revista de humanidades Dicta e Contradicta e membro do Grupo de Avaliação Editorial do jornal O Estado de São Paulo.

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Em pauta, temas consagrados pela tradição humanista. A cada edição três estudiosos põem em foco questões seminais da história da cultura. Produção e apresentação: Marcelo Consentino, doutor em filosofia da religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, editor da revista de humanidades Dicta e Contradicta e membro do Grupo de Avaliação Editorial do jornal O Estado de São Paulo.

    O Aleijadinho

    O Aleijadinho

    “O novo Praxíteles… que honra igualmente a arquitetura e a escultura. … Superior a tudo e singular nas esculturas de pedra … é Antônio Francisco … Tanta preciosidade se acha depositada em um corpo enfermo que precisa ser conduzido a qualquer parte e atarem-se-lhe os ferros para poder obrar”. Afora uns parcos registros cartoriais, este trecho de um memorando de 1790 sobre a capitania das Minas Gerais é praticamente a única notícia conhecida sobre o Aleijadinho enquanto vivo. Entre estes dois extremos de uma obra gloriosa e uma vida miserável a obscuridade é tamanha que a partir dela já se inferiu e se questionou de tudo: a autoria de suas obras, seu valor, as motivações do artista, sua doença e até sua existência. Já sua primeira biografia, escrita 44 anos após sua morte, é para muitos suspeita de magnificar em chave romântica o herói artista; de dramatizar o gênio marginalizado pela sua cor, sua classe, sua doença; o monstro sublime que triunfa sobre o sofrimento com um esforço criativo sobre-humano. Ironicamente, o biógrafo, Rodrigo Bretas, já alertava para as “exagerações que se vão sucedendo e acumulando” sobre os indivíduos admiráveis até se compor “uma entidade ideal”. Os modernistas o reconfiguraram como um ícone do sincretismo nacional que deglutiu os cânones europeus e o imaginário africano e indígena para dar à luz uma obra original. O entusiasmo encomiástico de Mario de Andrade chega a proporções épicas: “O artista vagou pelo mundo. Reinventou o mundo. O Aleijadinho lembra tudo! Evoca os primitivos italianos, esboça o Renascimento, toca o Gótico, às vezes é quase francês, quase sempre muito germânico, é espanhol em seu realismo místico”. Mas é um caso exemplar das oscilações interpretativas sobre sua obra que enquanto Mario enxergava nas desproporções de suas estátuas a antecipação visionária do expressionismo, Oswald de Andrade só via “ignorância crassa” sobre anatomia, a mesma que acusaram tantos estrangeiros desinteressados dos cultos nacionais. Por outro lado, para um escritor com a sensibilidade e erudição do mexicano Carlos Fuentes o mulato foi o maior “poeta” da América colonial; Lezama Lima o considerava a “culminação do barroco” na América; e para o crítico, historiador da arte e diretor de desenho e pintura do Louvre, Germain Bazin, este “Michelangelo brasileiro” foi “o último grande criador de imagens cristãs”. A controvérsia entre os construtores do mito e seus demolidores promete não ter fim. Mas embora estes últimos estejam escorados em sólidas inconsistências sobre a vida e a obra do Aleijadinho, não seriam as próprias torrentes de tinta e saliva consumidas nesta batalha em torno a elas o maior testemunho da sua potência plástica e indelével?







    Convidados







    André Tavares: professor de História da Arte da Universidade Federal de São Paulo







    Angela Brandão: professora de História da Arte da Universidade Federal de São Paulo







    Mozart Bonazzi: professor da Faculdade de Filosofia, Comunicação, Letras e Artes da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo















    Referências







    * O Aleijadinho: sua vida, sua obra, seu gênio de Fernando Jorge.* O Aleijadinho e a escultura barroca no Brasil de Germain Bazin.* Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho de Rodrigo Jose Ferreira Bretas. * O Aleijadinho e Alvares de Azevedo de Mario de Andrade.* Aleijadinho: passos e profetas e O Santuário de Congonhas e a arte de Aleijadinho de Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira. * Aleijadinho e o aeroplano: o paraíso barroco e a construção do herói colonial de Guiomar de Grammont.* Iniciação ao barroco mineiro de Affonso Avila. * Congonhas Bíblia de cedro e de pedra de Marcos Barbosa.*  História da arte brasileira de Pietro M. Bardi. * Arquitetura e

    • 58 min
    Joaquim Nabuco

    Joaquim Nabuco

    Joaquim Nabuco foi, a um tempo, uma síntese de sua época e um sinal de contradição para ela. Dionisíaco mundano e vulcânico na juventude, apolíneo elevado e moderador na maturidade; menino de engenho de estirpe aristocrática, bacharel inconformado com as injustiças sociais, deputado campeão do abolicionismo, acusado de “agitador” e “comunista” pelos latifundiários patriarcais de sua classe; criticou acerbamente a Igreja brasileira pela sua resignação à escravidão, mas tornou-se profundamente ortodoxo e comprometido com o supranacionalismo de Roma; cosmopolita, à vontade nas cortes europeias e nas altas rodas americanas, seu fervor por Pernambuco o teria levado, se necessário, ao separatismo; liberal, democrata, federalista convicto, mas leal à monarquia, com a ascensão da República, infligiu-se, aos quarenta anos, o ostracismo como estadista para imergir-se nos livros e documentos do passado, na história da família e do Império, gerando obras seminais para a nossa formação nacional. Quando os republicanos criaram a primeira Embaixada do Brasil, nos Estados Unidos, foi ao velho Nabuco que recorreram para representar a jovem República.







    Nabuco foi, em resumo, um “pensador alongado em homem de ação, com olhos de revolucionário e pés quase sempre de conservador”, como disse sobre seu precursor, José Bonifácio, seu conterrâneo Gilberto Freyre, o qual fez ainda, em meados do século passado, esta constatação amargamente atual: “Numa época, como esta que atravessamos, marcada pela desconfiança ou pela suspeita de que todo político brasileiro seja ou tenha sido um politiqueiro e todo homem público, um mistificador; e de que a política, os parlamentos, os congressos sejam inutilidades dispendiosas, senão palhaçadas ou mascaradas prejudiciais ao povo ingênuo, necessitando apenas de governo paternalescamente forte; Nabuco é uma das maiores negações dessa lenda negra com que se pretende desprestigiar, entre nós, a vida pública, a figura do político, a ação dos parlamentos”. Enfim, teria sido Nabuco um homem de contradições ou o centro virtuoso entre as contradições de seu tempo? E como a sua mensagem pode ajudar a sanar as contradições do nosso tempo?  







    Convidados







    Angela Alonso: professora de sociologia da Universidade de São Paulo e autora de Joaquim Nabuco – Os salões e as ruas.







    Izabel Marson: professora de história da Universidade Estadual de Campinas e autora de Política, história e método em Joaquim Nabuco.







    Marco Aurélio Nogueira: professor de ciência política da Universidade Estadual Paulista e autor de O encontro de Joaquim Nabuco com a política. 















    Referências









    * O Encontro de Joaquim Nabuco com a Política de Marco Aurélio Nogueira. 

    * Joaquim Nabuco de Angela Alonso. 

    * Política, história e método em Joaquim Nabuco de Izabel Andrade Marson. 

    * Em torno de Joaquim Nabuco de Gilberto Freyre. 

    * A vida de Joaquim Nabuco de Luiz Viana Filho.

    * Joaquim Nabuco e os Abolicionistas Britânicos de L. Bethell e José Murilo de Carvalho. 

    * A vida de Joaquim Nabuco de Carolina Nabuco.

    * Machado de Assis e Joaquim Nabuco de Graça Aranha.  

    * Joaquim Nabuco e o Brasil na América de Olímpio de Souza Andrade.

    * Joaquim Nabuco – O homem de ação de Jorge Buarque Lira.

    * Joaquim Nabucode Virgílio Pereira da Silva Costa.

    * Joaquim Nabuco – A Política como Moral e Como História de Maria E. Prado.

    * Joaquim Nabuco, um Pensador do Império de Ricardo Salles.

    * Joaquim Nabuco – Retrato de uma Época de Moisés Gicovate. 

    * Joaquim Nabuco e o Novo Brasil organizado por Humberto França. 









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    • 59 min
    Villa-Lobos Villa-Lobos

    Villa-Lobos Villa-Lobos

    Se os brasileiros são mundialmente celebrados por sua música popular, poucos entraram no cânone erudito. Dentre eles, Heitor Villa-Lobos é comumente aclamado como o maior compositor das Américas. Foi dos mais prolíficos e ecléticos: são mais de mil peças entre sinfonias, fantasias, música sacra, canções, óperas, balés ou concertos para violão, piano e violoncelo. Autodidata, foi regente, violoncelista e ganhou a vida animando noites em teatros, cafés e cinemas com seresteiros e chorões. Para o seu amigo, o pianista Arthur Rubinstein, sua música, além de bela e impressionante, era incomparável na “particularidade de estilo”. Seu gênio foi não só fabuloso, mas fabulador, beirando a mitomania. Contava aos europeus que gostava de comer mãozinhas de macacos nas selvas tropicais onde quase fora devorado por canibais. Chegava a ser cabotino, nutrindo a imagem algo ufanista do “índio de casaca” sem formação e antiformalista. “Nunca na minha vida procurei a cultura, a erudição, o saber e mesmo a sabedoria nos livros, nas doutrinas, nas teorias, nas formas ortodoxas”, dizia ele. “Nunca! Porque o meu livro era o Brasil. Não o mapa do Brasil na minha frente, mas a terra do Brasil onde eu piso, onde eu sinto, onde eu ando, onde eu percorro”. Mas apesar de bravatas iconoclastas como “logo que sinto a influência de alguém, me sacudo todo e pulo fora”, foi claramente influenciado por Chopin, Debussy, Stravinsky entre outros. Criou a Academia Brasileira de Música, e disciplinou com paixão os estudantes brasileiros, chegando a organizar manifestações cívicas com massas corais de 40 mil crianças treinadas em sua pedagogia orfeônica. E lembrava com gratidão de quando seu pai o obrigava não só “a discernir o gênero, estilo, caráter e origem das obras”, mas “a declarar com presteza o nome da nota dos sons ou ruídos que surgiam incidentalmente, como, o guincho da roda do bonde, o pio de um pássaro, a queda de um objeto de metal”. A verdade é que, entre a musicalidade popular e a erudita, a tradicional e a de vanguarda, a regional e a universal, o maestro foi grande não por trombetear uma em detrimento de outra, mas por harmonizá-las em suas melodias inimitáveis. No fim, Villa, como gostava de ser chamado, foi um grande criador, não intérprete, nem mesmo de sua música, tampouco de si mesmo. Talvez o mais exato fosse defini-lo como ele definia Bach – influência consagrada em suas Bachianas Brasileiras–: um manancial folclórico universal, intermediário de todos os povos. 







    Convidados







    Fabio Zanon: violonista e mestre em música pela Universidade de Londres. 







    Marcelo Bratke: pianista formado pela escola Juliard de Nova York e apresentador do programa radiofônico Alma Brasileira dedicado a Villa-Lobos.







    Paulo de Tarso Salles: professor da Universidade de São Paulo, coordenador do seminário PAMVILLA e autor de Villa-Lobos: processos composicionais. 















    Referências







    * Villa-Lobos um compêndio: Novos desafios interpretativos organizado por P. de T. e N. Dudeque.* Heitor Villa-Lobos Compositor Brasileiro de Vasco Mariz.* Villa-Lobos: Processos Composicionais de Paulo de Tarso Salles * PAMVILLA – Simpósio Villa-Lobos da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo.  * Heitor Villa-Lobos: The search for Brazil’s musical soul de Gerard Béhague.* Heitor Villa-Lobos: o caminho sinuoso da predestinação de Paulo Renato Guérios.* O Pensamento Vivo de Heitor Villa-Lobos organizado por João Carlos Ribeiro.* Villa-Lobos: ja Brasilian sielu (Heitor Villa-Lobos: the life and works) de Eero Tarasti. * Alma Brasileira – Programa radiofônico sobre Villa-Lobos apresentado por Marcelo Bratke.

    • 59 min
    Maimônides

    Maimônides

    Imagine um clínico tão competente que foi recrutado pelos chefes de estado mais poderosos de sua época e ainda encontrou tempo para redigir grossos tratados de medicina. Agora imagine um rabino consumido pelas agruras de sua comunidade, capaz de compilar a primeira codificação integral da lei dos judeus e escrever um comentário em 14 volumes às suas tradições exegéticas e jurisprudenciais reunidas no Talmud. E pense num filósofo capaz de sintetizar criticamente toda a filosofia anterior a ponto de determinar os rumos da filosofia contemporânea e da subsequente. Por fim, fusione, se sua imaginação puder, todas essas pessoas numa só. Eis Moisés Maimônides, a “Grande Águia”. 







    Unindo energicamente prática e conceito, observância externa e sentido interior, ação visível e experiência invisível, lei e filosofia, Maimônides – que longe de gozar da paz de um gabinete acadêmico ou palaciano, peregrinou por anos e milhares de quilômetros como refugiado – foi não só um dos mais versáteis, competentes e hiperativos polímatas de todos os tempos, como nos legou o título possivelmente mais engenhoso da história das letras, o Guia dos Perplexos. Pensador pressionado entre Jerusalém e Atenas, influenciou a teologia medieval, dos muçulmanos aos cristãos, além de uma linhagem de filósofos e cientistas modernos como Leibniz ou Newton. Fiel à fé de seu povo, combateu o racionalismo, fonte do ceticismo, do agnosticismo e do relativismo que ameaçam a religião positiva. Fiel à razão universal, combateu o puritanismo dogmático que prega a oposição absoluta entre a sabedoria divina e a humana, ameaçando com sua intolerância a cultura secular e cosmopolita. Como disse Kenneth Seeskin, “Ao tentar aproximar o judaísmo e a filosofia, ele não deixou nenhum dos dois como os encontrou. Se o judaísmo se tornou mais rigoroso na defesa de suas crenças centrais, a filosofia se tornou mais disposta a enfrentar suas limitações.” Desde então, a história intelectual judaica é em certa medida um debate sobre a posição de Moisés Maimônides. Não à toa um dito já popular em sua época acabou gravado pelos séculos dos séculos em seu túmulo no litoral do mar da Galileia: “De Moisés a Moisés, não houve ninguém como Moisés”







    Convidados 







    Francisco Moreno: doutor em Língua, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo, médico e pesquisador de História da Medicina.   







    Nachman Falbel: professor de História, Filosofia Medieval e Cultura Judaica na Universidade de São Paulo.  







    Ruben Sternschein: Doutor em Filosofia Judaica pela Universidade de São Paulo e rabino da Congregação Israelita Paulista. 







    Referências







    * Maimônides de Gerard Haddad.* Maimônides, o Médico de Sefarad de César Vidal.* Maimônides de Rubén Luis Najmanovich.* Maimônides de Tobias Fenster.* A História de Maimônides de Rachel Yaffe. * Maimônides, um Espírito Universal de Samuel Buzaglo.* Maimônides, o Mestre – Uma pedagogia para o século XXI de Samy Pinto.* The Cambridge Companion to Maimonides editado por Kenneth Seeskin.* Maimonides: The Life and Times of a Medieval Jewish Thinker de Abraham Joshua Heschel.* “Maimonides” verbetes na Jewish Encyclopedia, Stanford Encyclopedia of Philosophy e Biblioteca Filosofica Bompiani.* Du prophète au savant : L’horizon du savoir chez Maïmonide e Maïmonide ou la nostalgie de la sagesse de Géraldine Roux.* Maimonides: Life and Thought de Moshe Halbertal. * “Maimonides”entrevista com John Haldane, Jack Ormut e Peter Adamson para o programa In Our Time, da rádio BBC 4.

    • 58 min
    Buracos Negros

    Buracos Negros

    “De todas as concepções da mente humana, dos unicórnios às gárgulas à bomba de hidrogênio, a mais fantástica talvez seja o buraco negro: um buraco no espaço com uma margem definida dentro da qual qualquer coisa pode cair e fora da qual nada pode escapar, um buraco com uma força gravitacional tão forte que mesmo a luz é capturada e mantida em seu poder, um buraco que dobra o espaço e distorce o tempo.” Assim o físico Kip Thorne descreveu esse ícone cultural celebrizado como uma metáfora para toda perda irreversível, toda voragem irrefreável, o desespero que aniquila. Ironicamente os buracos negros não são nem buracos nem negros. São estrelas colapsadas, incapazes de resistir à própria gravidade que concentra toda a sua matéria num ponto de volume zero e densidade infinita no qual espaço e tempo são aniquilados. Envoltos em geral num nimbo luminoso que define as margens de sua atração irreversível, o  chamado “horizonte de eventos”, ante eles Stephen Hawking disse que se poderia glosar o que Dante leu às portas do Inferno: ‘Abandonai toda esperança, oh vós que entrais’.” 







    Por outro lado, assim como o poeta entrou sem abandonar a esperança até o fundo do inferno para emergir ao pé da montanha do Purgatório sob o céu estrelado, lá em cima os inumeráveis buracos negros concentram suficientes mistérios para que não só fantasistas mas cientistas possam fantasiar cientificamente sobre suas potências criativas. As evidências mostram que esses fantasmas de estrelas estão intimamente associados a muitas propriedades e processos do universo, como a gravidade, a evolução estelar e os efeitos do tempo no espaço e vice-versa. “A gravidade opressiva [de buracos negros supermassivos] pode ter disparado condensações que eventualmente levaram às rodas majestosas das galáxias em espiral tal como a Via Láctea” (F. Melia). “Dentro de cada buraco negro que colapsa” disse o cosmólogo Martin Rees, “podem estar as sementes de um novo universo em expansão.” E segundo Carl Sagan“buracos negros podem ser aberturas para outro lugar. Se mergulhássemos dentro de um buraco negro, conjectura-se que reemergiríamos em uma parte diferente do universo e em outra época no tempo … Buracos negros podem ser entradas para Países das Maravilhas. Mas haverá Alices ou Coelhos brancos?”







    O próprio Stephen Hawkingreviu suas ideias e não surpreende – ou não surpreenderia se não tivesse vivido na carne a aniquilação do desespero até a raiz dos ossos – que no fim da vida tenha dito sobre esses monstros cósmicos: “Os buracos negros não são tão negros como os pintam. Não são as prisões eternas que outrora se pensava … as coisas podem sair de um buraco negro tanto para fora quanto possivelmente em outro universo. Assim, se você sente que está num buraco negro, não desista – há uma saída.”







    Convidados







    Daniel Vanzella: professor do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo e co-autor de Buracos Negros: Rompendo os limites da ficção. 

    • 57 min
    Átomos

    Átomos

    Você já viu um átomo? Uma vez que todas as coisas são feitas deles, sim. De fato, ninguém jamais viu outra coisa senão átomos. São 94 tipos com variações que formam os bloquinhos de montar do universo, determinando todas as propriedades dos gases, líquidos e sólidos. O nome vem da Grécia antiga, significando “indivisível”. Quando Demócrito e outros filósofos os conceberam, possuíam características divinas: eram infinitos, não criados, omnipresentes e eternos. A existência dos átomos foi defendida por criadores das ciências modernas como Newton e Boyle, mas só no século XIX se constataram as primeiras evidências experimentais. Hoje sabemos que os primeiros átomos foram formados há mais de 13 bilhões de anos, pouco depois do Big Bang. E sabemos também que não são os últimos corpos indivisíveis da matéria, mas são formados por outros menores. Até os inícios do século XX, eram conhecidas três partículas subatômicas, que configuravam como um microssistema solar com elétrons orbitando em torno a um núcleo de prótons e nêutrons. Mas hoje conhecemos inúmeras outras partículas elementares, com nomes exóticos como quarks, gluons, mesons ou muons. Só o hidrogênio, o menor de todos os átomos, com um único elétron e um próton, é na verdade formado por 12 partículas subatômicas, que, de acordo com a superposição quântica, podem se comportar como ondas, existindo simultaneamente em múltiplos estados.







    Mas além de conhecer o âmago da matéria, nos tornamos capazes de criá-la! No início do século XIX, John Dalton, o pioneiro da teoria atômica moderna, afirmava que a criação ou destruição de partículas jamais estaria ao nosso alcance, “seria como tentar introduzir um novo planeta no sistema solar, ou aniquilar algum existente”. Hoje porém, além dos 94 elementos naturais da tabela periódica, já foram sintetizados em laboratórios ou reatores nucleares outros 24, e espera-se produzir mais. Apesar disso, ainda em 1927, Ernest Rutherford foi enfático: “esperar uma fonte de energia da transformação dos átomos é papo furado”. Mas enquanto os químicos coligavam as nuvens orbitais de elétrons para produzir novas moléculas, os físicos descobriram que era possível desintegrar ou fundir os núcleos atômicos como fazem o sol e as estrelas, desencadeando quantidades explosivas de energia na terra. Após Hiroshima e Nagasaki, Einstein declarou: “se eu soubesse, teria me tornado relojoeiro”. Mas tudo somado, a física atômica salvou muito mais vidas do que destruiu, possibilitando a criação dos raios X, ressonâncias magnéticas, tomografias, lasers e radioterapias amplamente empregados pela medicina, além de energia e combustíveis nucleares, nanotecnologia, materiais sintéticos e outros prodígios utilizados rotineiramente em nossa indústria.







    Convidados







    Alexandre Reily Rocha: Professor do Instituto de Física Teórica da Universidade Estadual Paulista especialista em Estrutura Eletrônica e Propriedades elétricas de superfícies.







    Marcelo Pires: Professor da Universidade Federal do ABC especialista em física da matéria condensada e condensados de Bose-Einstein.







    Marcelo Yamashita: Professor do Instituto de Física Teórica especialista em física quântica de poucos corpos.







    Referências







    * A Física do Século XX de Michel Paty.* A Matéria – Uma aventura do espírito de Luís Carlos de Menezes.* History of Atomic Theory, vídeo conferência na Khan Academy. * From Atomos to Atom: The History of the Concept Atomde Andrew G. Van Melsen.

    • 58 min

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