Cosme Rímoli

Cosme Rímoli

Jornalista esportivo Cosme Rímoli entrevista grandes nomes do universo do esporte em um bate-papo sobre o que rola dentro e fora de campo.

  1. 4d ago

    JUNINHO FONSECA: 'ENFRENTAMOS O SISTEMA. O SONHO TEVE FIM QUANDO VENDERAM  SÓCRATES. NÓS FOMOS BANIDOS'

    "Eu nem acreditava quando nos via na Praça da Sé, lutando pela volta da democracia no Brasil. Nós jogadores de futebol ao lado dos políticos mais importantes do país, enfrentando a Ditadura Militar. Foi um ato inesquecível. Expusemos nossas vidas em uma luta pelo país. A Democracia Corinthiana não pode ser esquecida jamais. Mas não sou ingênuo. Fomos ouvidos porque ganhamos. Formamos um timaço que conquistou títulos. Ou seja: os troféus nos deram espaço obrigatório na mídia.'Juninho Fonseca fala com todo o orgulho, e inteligência, do que viveu no Corinthians. Ele foi um dos principais articuladores do movimento que enfrentou não só a Ditadura Militar, mas o coronelismo que dominava o futebol brasileiro. Conseguiram impor direitos fundamentais aos atletas. Como definir o que seria melhor para o time. Como a escolha de jogadores, horário de concentração, rotina de treinamento e até o melhor esquema tático. Tudo era aberto, discutido. "Nós tivemos atletas inteligentíssimos que se juntaram: Sócrates, o maior deles, Casagrande, Vladimir, Paulinho, Zenon. Eu já tinha experiência nesse assunto. Porque, de forma muito mais silenciosa, fizemos algo parecido na Ponte Preta. O que aconteceu no Corinthians teve repercussão nacional. Conseguimos colocar a força popular do futebol a favor da vida democrática.'Zagueiro talentoso, que misturava técnica e força física, surgiu em Campinas como substituto de Oscar. O Palmeiras sonhava em contratá-lo, negociou até. 'Mas o Sócrates já havia me convencido a ir para o Corinthians. O convencimento aconteceu durante a Copa de 1982', que disputamos juntos.'Juninho relembra com tristeza a queda daquela Seleção inesquecível. 'Caímos diante da Itália, que era um grande time. Só que não me conformo até hoje. Tínhamos uma equipe melhor, mas que foi montada apenas para atacar. Tivemos três vezes o resultado que nos levaria à semifinal. 0 a 0, 1 a 1, 2 a 2. Mas o Telê não montou nem banco para a Seleção se defender. O Batista não estava entre os reservas. Ele era o melhor marcador da Seleção. Fez muita falta. E perdemos, querendo atacar, quando o empate servia."Juninho ficou com uma recordação marcante daquele jogo. 'Não entrei em campo, mas queria uma camisa da Itália como recordação. Acabei ficando com a do Paolo Rossi, que marcou os três gols contra nós. Ele acabou valendo muito dinheiro. Vendi a um colecionador."Muito sincero, Juninho relembra o ódio com que a Democracia Corinthiana terminou. 'Os dirigentes que a bancaram perderam a eleição. Sócrates foi vendido. O Casagrande também. Eles decidiram se livrar de todos que participaram do movimento. Eu fui proibido de entrar no Corinthians para pegar as minhas coisas. Foi muito triste. Os dirigentes recém eleitos representavam o atraso, a maneira ditatorial que o futebol era tratado. Onde o jogador não tinha direito de opinar para nada. Era tratado como mão de obra e só."Juninho Fonseca foi vendido para o Juventus. Depois, Cruzeiro, Vasco. Foi para o Yomiuri no Japão. Trabalhou como técnico. Como coordenador técnico. Aos 68 anos, inteligente, comunicativo, trabalha como comentarista esportivo.'Tenho muito orgulho da minha trajetória no futebol. Principalmente pelo que fizemos no Corinthians, pela Democracia Corinthiana, que inspirou clubes do mundo todo. E que o ódio do sistema, que acabou com ela, não conseguiu que ela fosse esquecida. Pelo contrário. Nunca será. Qualquer sistema opressivo em qualquer lugar, principalmente no Brasil, vai saber que atletas não são massa de manobra. 'A Democracia Corinthiana despertou a relevância da importância das opiniões dos jogadores. Somos seres humanos com direito de nos posicionar em qualquer situação. Inclusive politicamente. Jogador de futebol deixou de ser alienado, como o sistema estava acostumado. Fizemos história no Corinthians. No mundo do futebol.'

  2. Sep 22

    CRISTIAN: 'CORRI PELO RONALDO FENÔMENO COM GOSTO. GORDO? ELE CALOU TODO MUNDO.'

    "Passei por situações surreais na minha carreira. Derrubar os gigantes brasileiros e ser campeão da Copa do Brasil com o Paulista, de Jundiaí é histórico. "Ter sido treinado pelo Lothar Matthaus, ver o Souza me proteger para não apanhar de torcedores do Flamengo, jogar ao lado do Ronaldo Fenômeno e ser campeão com ele, pelo Corinthians. Escapar de ser preso por mostrar os dedos médios para os são paulinos, no Pacaembu. Me tornar ídolo na Turquia. Tudo muito intenso para um garoto que saiu da periferia de Belo Horizonte."'Quando era adolescente fui recusado pelo Cruzeiro, pelo América. Sabia que tinha condições, mas os testes muitas vezes nos clubes são inexplicáveis. Fui para a Coréia do Sul tentar jogar. Acabei tendo de limpar as ruas. E passei fome. No Paulista, em Jundiaí, morava debaixo das arquibancadas. Com ajuda de custo de R$ 300,00.O grande salto foi a conquista inesperada da Copa do Brasil pelo Paulista de Jundiaí. 'O Mancini começou seu trabalho como treinador. Montou uma equipe que misturava os veteranos e nós, garotos. Nem a gente acreditava que iria longe no torneio. Eliminamos o Juventude, depois veio a zebra, tiramos o Botafogo. A zebra galopou, quando foi a fez de o Internacional cair. Aí, passamos a acreditar na gente. Chegamos com personalidade e ganhamos do Figueirense. 'Aí chegou o Cruzeiro, clube que havia me dispensado, na semifinal da Copa do Brasil. Nós ganhamos por 3 a 1 em Jundiaí. E eles se preparam para nos golear, em Belo Horizonte. Abriram 3 a 0 no primeiro tempo e eu pensei: isso não pode acontecer. No segundo tempo, falta para nós. Cobro e faço 3 a 1. Depois, o segundo gol. 3 a 2. Estamos na final. Contra o Fluminense. Estávamos encantados. Vencemos por 2 a 0, em Jundiaí. E empatamos em 0 a 0, no Rio. Campeões. Nunca mais o Paulista vai conseguir essa façanha.'Cristian foi para o Athletico Paranaense. 'Não rendi. Muito frio, sei lá. Não me adaptei.' Nei Franco, técnico que o havia dispensado do Cruzeiro, pediu sua contratação para o rubro-negro do Rio. 'O Flamengo vivia em crise. Desorganizado. Foi um período bem caótico.' Aí chega o convite de Mano Menezes para jogar no Corinthians. "Cheguei na minha casa. Foi incrível a identificação. Eu sempre fui corintiano de arquibancada. Sou maloqueiro, sofredor, graças a Deus. Dei a raça de um torcedor apaixonado em campo. E para culminar, chega o Fenômeno. Jogar com Ronaldo foi o maior prazer como jogador. Ele era meu ídolo. Pedi para ele assinar as minhas chuteiras, guardo até hoje."Ele chega no Corinthians desacreditado, com aquela história de 'gordo'. Mas ele era fo... Ninguém o pegava nos piques curtos. Era um gênio com a bola nos pés. Um dos melhores de todos os tempos. Os dribles curtos, as arrancadas, o raciocínio à frente de todos. E muito companheiro, amigo de todos."Lógico que corremos com gosto por ele, para fazer dele campeão de novo. Foi incrível vencer o São Paulo na semifinal do Paulista, tricampeão brasileiro. E nós, o Corinthians da Segunda Divisão. Calamos a boca de todo mundo. E na final, Ronaldo foi espetacular contra o Santos."Cristian formou uma dupla perfeita com Elias. Ganharam também a Copa do Brasil, em 2009. "Aí fui vendido, sem saber, para a Turquia. Queria ter ficado mais. Para ganhar títulos e brigar por um lugar na Seleção. Mas tive de ir. Só que acabei sendo muito feliz no Fenerbhaçe. 'Joguei com Alex, que é outro gênio. Foi maravilhoso. Ganhamos cinco títulos.Foi campeão brasileiro em 2015. Só que entrou em conflito com o ex-jogador Alessandro, que era o executivo de futebol. 'Fiquei muito chateado. E acabei saindo do clube que amava.' Cristian foi para o Grêmio. E lá descobriu vários problemas em relação a como seu dinheiro estava sendo tratado, ao longo dos anos. E tratou de lutar pelo que perdeu. A partir daí, sua carreira caminhou para o final.@cosmerimoli

  3. Sep 15

    JOANA DE ASSIS: 'GANHEI PRÊMIOS ENFRENTANDO TABUS: MACHISMO, ABUSOS, HOMOFOBIA. É MINHA MISSÃO.'

    A feição fica séria, pesada. Desaparece a figura da apresentadora carismática. E se deixa tomar pela alma de corajosa repórter, quando é perguntada sobre que tabus enfrentou. "Há várias portas trancadas no esporte. Aquelas que ninguém quer mexer. Mas a sociedade não avança se não enfrenta os tabus. É difícil, sofrido, cobra um preço alto. Mas é essa a minha missão como jornalista. Enxergar e ter força para enfrentar as várias barreiras. E elas existem. Mas neste momento é que surge o jornalismo puro, sem medo. Posso levar meses,anos, como já levei com algumas matérias investigativas que fiz. É isso que me move." Ganhou o prêmio Latino Americano de Jornalismo Investigativo, na Colômbia. Depois de meses juntando provas, convencendo atletas a vencer a vergonha, Joanna conseguiu demonstrar que, um dos mais importantes técnicos de ginástica olímpica da história deste país, abusou sexualmente de, pelo menos, 42 ginastas. Meninos entre sete e 12 anos. Fernando de Carvalho Lopes foi banido do esporte. E também julgado e condenado a 109 anos de prisão. 'Mas ele recorre há anos. A justiça no Brasil é assim. Ele não está preso. Pelo contrário. Foi para Portugal e vive uma vida normal, como se nada tivesse acontecido", lastima Joanna. 'Mas toda semana, eu me atualizo sobre sua situação. Um dia será feita a justiça. Imagine o trauma destas crianças, destes pais que confiaram nele. É revoltante. Esse abusador é um monstro!'Criou o podcast 'Nos Armários dos Vestiários', que trata da sexualidade, dos jogadores, técnicos. "É algo que todos sabem que existe, mas ninguém quer falar abertamente. Por conta da homofobia. Tanto que fiz apenas áudio, sem câmeras, sem filmagem." O ex-jogador e comentarista Richarlison, o ex-goleiro, e hoje presidente do Bahia, Emerson Ferretti e o árbitro Igor Benevenuto assumiram suas preferências.Como se não bastasse, escreveu o livro Para-heróis. Ela conta a história de vida de dez campeões paraolímpicos brasileiros. Além de 'Verônica, a Magrela que Era Forte', onde conta a história de Verônica Hipólito, campeã paraolímpica, que enfrentou AVCs e tumores, para crianças.Joanna tem uma carreira muito sólida. Fez jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, passou pelo jornal, sim, jornal, Gazeta Esportiva. Pelo portal Terra. Pela revista Placar. Até chegar à TV Globo.'Comecei em 2006. Me identifiquei com a reportagem. Enfrentei o machismo. Criei fontes e acumulei vários furos, notícias em primeira mão. Fui correspondente nos Estados Unidos. Voltei e me tornei apresentadora do Sportv. Mas não parei de apurar, de conseguir entrevistas exclusivas. Me sentia em casa. Criei raízes. Mas tudo acabou no dia 12 de agosto. 'Fui normalmente trabalhar, nem imaginava o que iria acontecer. Foi quando a minha chefia me chamou e me demitiu. Fiquei em choque, não tinha problema algum. Pelo contrário. Além de apresentar, dava informações em primeira mão, que eu apurava."Joanna foi forte com seus chefes. Mas chegou em casa e desabou com sua filha Agata. 'Chorei. Ela chorou também, me vendo chorar. E perguntou se não me veria mais na televisão. Respondi para ela: 'vou continuar, sim. Só saí de um trabalho e vou para outro'. E não vou fazer mais a minha filha chorar."E foi além do baque pela demissão. "Lógico que estava triste. Mas não iria seguir o caminho normal de uma mulher que perde o emprego e se lamenta. Sou muito mais do que isso. Me encaixo onde quiser. Procurei uma marca de carnes, a Swift, e falei que iria fazer um post nas minhas redes sociais, anunciando a minha saída da Globo, depois de 20 anos. E que iria fazer um churrasco. Toparam a ideia. Ganhei cachê e muita carne com a demissão. Sou assim, enfrento as situações. E ninguém me define. Me coloca em uma caixinha, me rotula. Eu defino onde e como quero estar.' E nestes 34 dias, que a entrevista irá ao ar, dia 15 de setembro de 2026, Joanna já recebeu quatro propostas. Estuda o que fazer. 'Fiz da Globo a minha casa. Mas vou fazer de outras casas as minhas."

  4. Sep 1

    LUISÃO:'FUI HOMEM. PEDI PARA O MANO NÃO ME CONVOCAR MAIS PARA A SELEÇÃO BRASILEIRA.'

    "É a maior honra que um jogador brasileiro tem, vestir a camisa da Seleção. Mas sabia que o Benfica precisava de mim. E sempre negavam uma chance de verdade para mim. Fui para duas Copas do Mundo. E foi sempre a mesma coisa. Fui homem. Tive a dignidade de pedir para o Mano não me convocar mais."Luisão sempre foi um homem de atitude. Forjado nas dificuldades. Com a família lutando para sobreviver na pobreza, em Amparo. Com o espaço cedido para viver, 'de favor', dividido por lençóis pendurados. Separavam os 'quartos' da 'sala'. Ajudava o pai que trabalhava em um sanatório. "Jogava futebol com os loucos. Eles jogavam segurando cobertores. Quando eram driblados, jogavam os cobertores na gente. Eu sabia que tinha de dar certo, fizesse o que fizesse, para tirar a minha família desta pobreza. Foi a missão que dei para mim. E cumpri."Muito alto e com personalidade fortíssima, mostrava talento desde cedo para atuar como zagueiro. E nasceu para ser capitão dos times que jogava. Levado pelo empresário Giuliano Bertolucci ao Corinthians, não ficou por conta da chegada da MSI. Bertolucci era dono do futebol do Juventus, da capital paulista, e a Mooca virou o destino do garoto. Com a camisa grená, Luisão foi capitão e vice campeão da taça São Paulo, perdendo a final para o São Paulo, por 2 a 1, em 2000. O talentoso beque de 1m94 despertou a atenção do Corinthians, São Paulo e Palmeiras. Só que já estava negociado com o Cruzeiro."No começo, o clube passava por uma grande reformulação. Mas em 2003, o Vanderlei Luxemburgo formou um time fabuloso. Ganhamos o Mineiro, a Copa do Brasil. Eu joguei metade do Brasileiro, quando ganhamos a Tríplice Coroa. Não fui até o fim porque o Cruzeiro me vendeu para o Benfica. Aliás, o presidente Zezé Perrella havia me prometido me dar um apartamento por eu aceitar ir para Portugal. Era um direito meu. Fui cobrar e ele me disse que não se lembrava de ter prometido nada. Não coloquei no papel. Tem gente que só a palavra não basta. Tenho pena de pessoas assim."Depois de um curto, e sofrido, período de adaptação, Benfica e Luisão perceberam que nasceram um para o outro. Sua personalidade forte, mas ao mesmo tempo agregadora, vibrante, exigente fez com que se transformasse no capitão dos capitães no Benfica. Ninguém na história do clube exibiu a tarja de capitão por tantos jogos."Um brasileiro chegar a 414 partidas como capitão do português Benfica, um dos gigantes do mundo, é uma honra enorme. O meu amor, a minha dedicação pelo Benfica foram totais. Assim também como o clube, a torcida me amam até hoje. Foram 15 temporadas em Lisboa. 538 partidas. Tenho muita saudade da nossa relação", admite.A carreira é extremamente vitoriosa. São 31 títulos. 20 com a camisa do Benfica. Heptacampeão português. Dois vices da Liga Europa. O Brasil não tem ideia da idolatria de Luisão em Portugal. Não tem paz para andar na rua, de tão amado.A Seleção o subestimou. Ele nunca teve chance real, continuidade. "Respeito demais Lúcio e Juan. E Thiago Silva e David Luiz. Eles foram os titulares em 2006 e 2010. Mas eu vivia uma fase maravilhosa. Só que nunca me deram chance. Fiquei na reserva das duas Copas. Na terceira, avisei ao Mano que não queria mais. A grande alegria da Seleção na vida de Luisão foi o jogo das Eliminatórias, contra a Bolívia, que ele e seu irmão, Alex Silva, zagueiro do São Paulo, foram convocados. "Foi uma festa inesquecível para a família. No Brasil acho que nunca houve algo assim. Dois irmãos convocados."Luisão foi diretor e coordenador de futebol por mais seis anos no Benfica. Jorge Jesus exigiu que estivesse com ele comandando o futebol.No Brasil, para ficar, Luisão se apaixonou pelo jornalismo esportivo. Comentou a Copa dos Estados Unidos, com muita visão e sinceridade, na ESPN. "Quero seguir comentando. Me sinto muito bem. Com a experiência de quem viveu como jogador e dirigente. Sem medo de dizer a verdade."Anderson Luís da Silva nasceu para ser capitão nesta vida...

  5. Aug 25

    GIL: COMO O CORINTHIANS SABOTOU O TALENTO DE GIL | COSME RÍMOLI

    'Kaká, Kaká, Kaká... A imprensa só fala no Kaká. Bom mesmo é o Gil." Com esta frase em 2001, o então dirigente do Corinthians expôs o grande talento que saía da base do Parque São Jorge. O comparou ao jogador do São Paulo que seis anos depois seria escolhido como o melhor do mundo.'Essa comparação só me prejudicou na carreira. Eu nunca me comparei ao Kaká, que acabou como melhor do planeta, por merecimento. Estava no auge a rivalidade entre Corinthians e São Paulo. E eu acabei exposto de uma maneira que só me atrapalhou', desabafa Gil.Ele, Kléber e Ricardinho formaram o trio que foi batizado no início dos anos 2000 como o melhor lado esquerdo do mundo, nas mãos do Parreira. E era excepcional mesmo."Nós nos completávamos de forma incrível. Vivi um período maravilhoso no Corinthians. O clube vinha da conquista do Mundial de Clubes. O ambiente era de transição, com jogadores importantes saindo, como Rincón. Mas a nossa base tinha atletas com muito talento."Gil logo chamou a atenção por sua velocidade, arrancadas, dribles e faro de gols. A direção do Corinthians não quis negociá-lo com clubes importantes da Europa. Lyon, Bayer Leverkusen, Atlético de Madrid. "A postura era clara. Me seguraram. Me seguraram. Até que veio a MSI', relembra.Pouco importava se ele era o maior destaque do time campeão da Copa do Brasil, do Rio-São Paulo 2002, do Paulista 2003. Já tinha vencido o Paulista de 2001.Com a chegada do dinheiro russo, Kia Joorabchian, o responsável pela empresa formada por investidores, foi direto. Jogadores que não pertencessem à MSI ficariam em segundo plano. Gil passou de ídolo para reserva de Carlos Alberto, Tevez. Vergonhosa foi a postura de Kia, que mandou tirar a sua camisa 10 e repassá-la para Tevez. Desrespeito público. Pressão para que ele fosse embora. O medo é que Gil tirasse o brilho dos jogadores da MSI, que estavam no Parque São Jorge para se valorizarem. 'Foi ordem do Kia. Lógico que me chateou. Não esperava essa postura comigo.'Ficou até o primeiro semestre de 2005. Mas, encostado na reserva, foi vendido ao Verdy Tokio. 'Estava tão chateado que queria sair e não analisei direito. O time estava para ser rebaixado no Japão. Deu tudo errado. Acabamos caindo." Voltou para o Cruzeiro, também com situação complicada. Mas ganhou o Mineiro. Aceitou ir para uma equipe fraca espanhola, Gimnástica. "Ela havia subido para a Primeira Divisão. Mas não tinha estrutura. Caí de novo."Voltou para o Internacional e foi campeão gaúcho em 2008. Tite não o quis na equipe, por ser 'frágil' fisicamente. Passou pelo Botafogo, Flamengo, ABC e Juventus, da Mooca."Na verdade, a minha grande fase foi no Corinthians. O nosso casamento foi perfeito. E de lá, deveria ter saído antes da MSI. O clube não vendeu e deu no que deu. Mas sou muito grato, muito feliz por tudo que vivi no Parque São Jorge. O Corinthians é a minha paixão." "Kaká foi melhor do mundo. Mas teve algo fundamental. Saiu do São Paulo na hora. O Gil, não. Foi um erro o Corinthians segurá-lo. Perdeu o timing. O Gil poderia ter sido um jogador muito mais importante, se chegasse na Europa cedo. Potencial ele tinha." A análise foi feita por Wagner Ribeiro. O empresário que vendeu Kaká para o Milan...REDE SOCIALInstagram: @cosmerimoli

  6. Aug 18

    JOÃO PAULO: 'SOFRI O PÊNALTI MAIS CLARO DA HISTÓRIA DESTE PAÍS. FICO REVOLTADO TODA VEZ QUE REVEJO.'

    21 de fevereiro de 1987.Final do Campeonato Brasileiro de 1986.Pela primeira vez um clube seria bicampeão deste país.Guarani e São Paulo fariam o jogo derradeiro. No Morumbi, haviam empatado em 1 a 1. O estádio Brinco de Ouro da Princesa teria o privilégio da decisão.41 minutos do segundo tempo, a partida estava empatada em 1 a 1. João Paulo invade a área do São Paulo, Wagner Basílio dá um carrinho absurdo, violento. E que acerta as duas pernas do atacante. Pênalti claríssimo. O Guarani tinha nada menos do que Evair, um dos maiores cobradores de pênaltis da história deste país. O árbitro José Roberto Aragão de maneira inacreditável não marcou.Ele tinha visão clara do lance.É com certeza o maior erro das decisões de Campeonatos Brasileiros da história deste país."Mesmo depois de 40 anos, quem acompanha futebol de verdade já viu este lance. Eu fico revoltado. Não há como não ver o pênalti. O carrinho do Wagner Basílio atingiu só as minhas duas pernas. Foi um escândalo. Não sei como o Aragão teve coragem de não marcar. Foi o maior erro da história do Guarani. Nós tínhamos o Evair para bater o pênalti. Uma vergonha", lastima, de forma exclusiva, o personagem principal deste inesquecível lance: João Paulo.Ele marcou história como um dos pontas mais habilidosos e velozes da história deste país. João Paulo não ficaria marcado só por esse vice brasileiro. E por essa polêmica com a arbitragem. 'Nós decidimos o Módulo Amarelo com o Sport. A decisão foi em Recife, com um juiz (Josenil dos Santos Souza, da Federação Maranhense) que nos prejudicou o jogo todo. Fomos para os pênaltis. Ele seguiu ajudando o Sport, quando eles erravam, cobravam de novo. Foi absurdo. Quando ficou empatado em 11 a 11, nós vimos que não poderíamos vencer.A direção do Guarani mandou que abandonássemos o campo. E o título ficou para eles."João Paulo também perderia a final do Paulista de 1988, para o Corinthians. Com o gol decisivo de Viola, em Campinas. 'Fomos muito melhores do que eles. Mas deram sorte", lastima. João Paulo teve propostas de clubes europeus importantes. Mas a direção do Guarani escondeu. Quando ele descobriu que o Bari, o queria, enfrentou os dirigentes e foi para a Itália. 'O time era pequeno, lutava para não cair. Mas consegui virar ídolo por lá. Conseguimos vitórias históricas como contra o Milan. Vivi uma fase espetacular.'Foi injustiçado. Sabe que deveria ter ido à Copa de 1990. Em 1993, veio o segundo baque. "O Parreira ligou e disse que iria me convocar para a Copa dos Estados Unidos. Eu seria o primeiro jogador da Segunda Divisão a ir a um Mundial. Mas tive uma contusão séria e perdi a chance." Sua passagem marcante com a camisa da Seleção foi a medalha de prata, na Olimpíada de 1988, na Coreia do Sul.No Bari veio uma lesão muito séria. Fratura na perna direita, por conta de uma entrada maldosa do italiano Marco Lana, em setembro de 1991, contra a Sampdoria.' Perdeu um ano e meio de sua carreira. Por falta de sorte, houve erro médico na sua cirurgia.Ficou cinco anos em Bari. Fez 24 anos. Voltou para o Brasil, acreditando que o Vasco formaria uma grande equipe em 1994. Foi seu erro. Decepcionado com a promessa falsa, com a falta de pagamentos, teve rápida passagem pela Ponte. Foi muito bem no Goiás. Cometeu outro erro. Aceitou a proposta do Corinthians, em 1996."O clube é um gigante. Acontece que não encontrei um bom ambiente." João Paulo foi boicotado no Parque São Jorge. Encontrou um elenco rachado e ele não foi aceito.Jogou até os 40 anos. Encerrou sua carreira na Inter de Limeira. Hoje trabalha na base do Guarani, buscando jovens talentos para o clube, que está na Terceira Divisão do Brasil. "Tenho muito orgulho da minha carreira. Só não vou me conformar nunca em não ter conquistado o Brasileiro de 1986. Nunca vi um juiz tirar o título de um clube como o Aragão fez com o Guarani. Ele fez o São Paulo bicampeão do Brasil."REDE SOCIALInstagram: @cosmerimoli

  7. Aug 11

    GENINHO: 'ANCELOTTI PERDEU A COPA. POR NÃO CONHECER A ESSÊNCIA DO BRASILEIRO'

    Os segredos de Geninho vão muito além do incrível, e único, título brasileiro do Athletico Paranaense. Sua participação silenciosa, discreta, na conquista do pentacampeonato mundial foi decisiva. 'Eu não iria torná-la pública. Mas foi o Felipão que resolveu revelar. Vou te dizer, com mais detalhes, Cosme. Ele levou a Seleção para treinar no CT do Caju, do Athletico. Conversamos muito sobre conceitos de futebol. "Ele nunca havia jogado no 3-5-2, que foi como eu ganhei o Brasileiro. E queria detalhes. Expliquei. E ainda recomendei que colocasse o Edmilson como terceiro zagueiro. Aproveitei e recomendei o Kléberson. Deu tudo certo, como eu imaginava. O Brasil foi pentacampeão. E ele me agradeceu muito."Geninho sempre foi estudioso e técnico vencedor. Acumula títulos com o Corinthians, Atlhetico, Atlético Mineiro, Goiás, Al-Shabab, Vitória Guimarães. 48 anos como treinador. E tinha uma missão importantíssima neste ano. Fazer a CBF pressionar a Conmebol para que os treinadores brasileiros tivessem suas licenças equiparadas aos dos europeus. E pudessem trabalhar, sem problema, na Europa."Amarrei tudo com o coordenador de Seleções, Gustavo Caetano, que foi meu jogador. Convidamos o Ancelotti para nos apoiar. Mas o Leão e o Osvaldinho estragaram tudo. Atacaram o Ancelotti. O auditório da CBF estava lotado. Havia órgãos de comunicação. Ele ficou acuado. Todo o plano foi sabotado. Sabe quando a CBF vai brigar pela equiparação dos diplomas dos técnicos brasileiros? Nunca!""Se eu fui cobrar o Leão, que é meu amigo há mais de 50 anos? Fui. E ele disse que falou o que pensa: que Seleção Brasileira não é lugar para técnico estrangeiro. Respondi que ele falou no lugar errado, na hora errada. E que o assunto era importantíssimo para a nova geração dos treinadores. E ele estragou."Quanto a Ancelotti, Geninho foi direto. 'Ele perdeu a Copa do Mundo por um motivo simples. Por não conhecer a essência do brasileiro. Do futebol brasileiro. O italiano pensa primeiro na defesa e depois no ataque. Nós somos o contrário. E um ano, poucos jogos pelas Eliminatórias e amistosos, não foram o suficiente. "Na Copa ele não conhecia a fundo os jogadores para tirar o melhor deles. Com quatro anos de preparação será diferente. Por tudo que ele fez no futebol, merece esse ciclo.'Sobre sua carreira, Geninho tem inúmeras histórias importantes. Como a do título brasileiro do Athletico. 'Cheguei e havia uma manchete no jornal. Ou o time do Athletico acaba com a noite. Ou a noite acaba com o Athletico. Oito jogadores iam ser dispensados. Chamei a todos, mostrei a manchete. Disse que não mandaria ninguém embora. E fizemos um pacto. Montei um esquema, 3-5-2, há 25 anos. E fomos ganhando na tática, na força física, na técnica. Tudo nasceu daquela manchete de jornal."Ganhou o Paulista com o Corinthians. E viveu sua experiência mais surreal com o lateral Roger, marcando D'Alessandro, que jogava no River Plate. O famoso 'pega, pega'. "Eu mandei pegar, mesmo. Mas era cercar, fechar o espaço. O Roger entendeu errado. Entrou duro no D'Alessandro. A pancada nem pegou. Mas D'Alessandro fez um teatro. E o Roger foi expulso. Acabou a carreira dele no Brasil. Se não acontece esse lance, o Corinthians iria ganhar a Libertadores da América, em 2003.Geninho, aos 78 anos, se aposentou como técnico. Mas mostra vigor para trabalhar no futebol. "Posso contribuir como coordenador, como o Felipão faz no Grêmio. Tenho muita saudade do futebol..."

  8. Aug 4

    ÁLVARO JOSÉ: 'NARREI DUAS LUTAS DE JUDÔ NA OLIMPÍADA DE 82, COM OS OLHOS FECHADOS. SÓ IMAGINANDO. FUI APLAUDIDO'.

    "Seja de direita, seja de esquerda, o governo do Brasil não investe no esporte olímpico. Não tem plano algum. Há enorme dificuldade em entender que o esporte serve como base da educação. "Não a meta não é conseguir medalhas de quatro em quatro anos. Mas desenvolver a educação, a disciplina, a saúde de milhões de crianças nas escolas. Muitas delas sequer têm quadras. "Como fazem as grandes potências olímpicas. Os medalhistas servem como motivação. O plano é desenvolver o esporte como educação. E a educação é a base de um povo."Álvaro José é sinônimo de credibilidade. Por trás do apelido 'A Voz da Olimpíada', há algo muito mais profundo, do que sua espetacular mistura de emoção, carisma e informação ao narrar qualquer esporte.Formado em história, ele faz questão de educar, explicar cada nuance do esporte que transmite. Emociona e educa.'Vejo como minha obrigação, passar todo o meu entusiasmo no que transmito. Mas sei que o Brasil, de forma geral, só é especialista em futebol, faço questão de detalhar, explicar, contextualizar os outros esportes. Seja ginástica olímpica, judô, hipismo, corrida, salto em distância, vôlei, NBA."Somos mais de 200 milhões de pessoas. A maioria sem acesso a outros esportes que não seja o futebol. A tevê serve também para difundir, mostrar, educar, atrair crianças para novos esportes. Insisto que esporte é educação."Álvaro José é filho do histórico jornalista Álvaro Paes Leme. Extremamente comunicativo, culto e talentoso, passou pelos maiores veículos do país. Band, Globo, Record.Suas paixão são as Olimpíadas. Narrou in loco 12 delas. Ninguém transmitiu mais medalhas brasileiras nestas competições: 47.Acompanhou a Guerra Fria, os boicotes de Estados Unidos e Rússia. Foi a voz das mais marcantes conquistas brasileiras. Em Barcelona, uma façanha incrível. 'Eu estava no estádio Olímpico de Montjuic. A primeira luta de judô, de Rogério Sampaio, foi contra o português Augusto Almeida era no tatame B. E eu só tinha o tatame A."Aí fechei os olhos. Colocaram no meu ouvido o retorno do nosso editor Rogério Carneiro, que foi árbitro de judô. "Ele falava. 'Eles estão em pé. Agora, no solo.' Imaginei a luta com a ajuda dele. Fui narrando. Quando a luta acabou, o pessoal da Band duvidou que eu não tinha sinal. Quando tiveram a certeza, todas as pessoas me aplaudiram. Narrei sem enxergar, com o mesmo entusiasmo é a minha marca."Entre as milhares de narração, a medalha de ouro, de Cesar Cielo, em Pequim, na Olimpíada de 2008, é inesquecível. Para ele e para quem teve a sorte de acompanhar a prova. Sorte que está nas redes sociais do narrador, apresentador, historiador, jornalista. Imperdível.É inacreditável acreditar, mas Álvaro José tem 70 anos. E segue entusiasmado, narrando, mostrando caminhos para o esporte deste país.Espera ansioso a Olimpíada de Los Angeles, em 2028. "Pode ser que seja a minha última...", diz, emocionado.Mas quem o conhece já antevê planejando a Olimpíada de Brisbane, na Austrália. Em 2032".Que ninguém duvide de Álvaro José...

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Jornalista esportivo Cosme Rímoli entrevista grandes nomes do universo do esporte em um bate-papo sobre o que rola dentro e fora de campo.

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