À partida, poucos portugueses acreditavam que a selecção nacional fosse capaz de resistir à máquina trituradora da Espanha. Mas a selecção contrariou as piores previsões e resistiu. Pelo menos até ao momento em que o jogo exigia respostas vindas do banco. Respostas que implicavam frescura física, força moral e determinação para equilibrar o crescente ascendente da Espanha. Não veio essa resposta e Portugal sucumbiu. Não porque se ficasse com a sensação de que a equipa nacional era claramente inferior aos seus adversários. Sucumbiu principalmente porque lhe faltou um líder capaz de lhe incutir determinação, vigor e coragem para acreditar que a vitória estava, como esteve na primeira parte, ao seu alcance. Faltou-lhe um treinador. Como a generalidade dos especialistas, jornalistas ou treinadores, tinham avisado, a selecção estava viciada numa escolha de onze jogadores que não se explicava pela sua forma, mas pelo seu estatuto. Neste jogo com a Espanha, o aviso fez mais sentido do que nunca. Como se em causa estivesse uma corte de nobres, havia duques e marqueses com lugar garantido à mesa do rei, mesmo que estivessem fora de forma ou mesmo que o seu desgaste fosse mais do que evidente. Ao insistir em Ronaldo todo o jogo ou num Bruno Fernandes claramente abaixo do que vale, Roberto Martínez subverteu por completo a noção do mérito e da justiça relativa que fazem a coesão das equipas. Não, Portugal não jogou mal. Mas não merecia a vitória, como não mereceu mais do que o empate frente à Colômbia ou ao Congo. Da mesma forma, Cristiano Ronaldo, que com 41 anos viveu o seu último mundial, não merecia esta exposição que tornou claro aos olhos do mundo o seu natural declínio físico – como nós, é um ser humano. Jogar todos os jogos até ao fim, com excepção do jogo com a Croácia, foi um castigo que o treinador lhe impôs. Já tinha acontecido no Catar e aconteceu contra a Croácia: Gonçalo Ramos só não jogou este jogo porque Portugal não tinha um treinador. Portugal merecia mais, porque tem jogadores de qualidade mundial – Diogo Costa, merece especial menção neste Mundial. Os que foram à América e outros que só não foram, lá está, porque Martínez escolheu não uma equipa de futebol, mas uma corte de nobres fechada. Felizmente para Portugal, Martínez vai embora. Depois de ter enterrado uma das melhores selecções da Bélgica, enterra uma geração de ouro do futebol nacional. Que tenha sorte na Arábia, onde as sheiks e os próximos da casa de saud têm lugar garantido à mesa do rei. Mas vamos tentar saber o que aconteceu com quem sabe mesmo de bola. Com o Nuno Sousa, um dos editores de Desporto do PÚBLICO. See omnystudio.com/listener for privacy information.