O Tal Podcast

Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião, com autoria de Georgina Angélica e Paula Cardoso.

  1. Cátia Severino: “É importante esta sociedade começar a assumir que ser português não é ter um perfil específico. A Cova da Moura é tão Portugal como o Saldanha”

    16 hr ago

    Cátia Severino: “É importante esta sociedade começar a assumir que ser português não é ter um perfil específico. A Cova da Moura é tão Portugal como o Saldanha”

    Veio de Angola na barriga da mãe, e foi no Algarve que nasceu e cresceu antes de se mudar para Lisboa, onde construiu uma trajetória académica na área da Linguística. Convidada deste episódio d’ “O Tal Podcast”, Cátia Severino descreve a entrada no ensino superior como a “realização de um sonho de sobrevivência”, enquanto única via possível de mobilidade e dignidade, numa vida marcada pela precariedade, e guiada pela resiliência e educação. Do Algarve para Lisboa, Cátia trouxe não apenas o desejo de estudar, mas também um percurso atravessado pelo esforço contínuo: trabalhar de noite, estudar de dia, e sustentar um ritmo de sobrevivência que se prolongou muito além da licenciatura. Mesmo após o mestrado, doutoramento e pós-doutoramento, o descanso parecia sempre adiado. Só mais tarde, com apoio pessoal, conseguiu finalmente reconhecer e habitar as suas conquistas. Ao longo da sua trajetória, confrontou-se com várias experiências de discriminação, inclusive dentro da academia. Para começar, o seu sotaque “afro-algarvio” era frequentemente lido como menos legítimo. Somou-se a isso uma reprovação no 12.º ano, que alterou profundamente o seu percurso escolar, episódio que a obrigou a mais um ano de esforço, e que expõe as desigualdades muitas vezes naturalizadas no sistema educativo.  Cátia reflete ainda sobre o “branqueamento social” do seu percurso, num meio académico onde se tornou frequentemente a única pessoa negra portuguesa. A sua experiência é também marcada por uma reflexão profunda sobre identidade, pertença e colorismo. Entre o Algarve e Lisboa, Portugal e Angola, Cátia descreve o impacto constante da pergunta “de onde és?”, apesar de ter nascido em Portugal.  As suas viagens a Angola ativaram uma ligação íntima com a terra dos pais, mas também a consciência de uma identidade híbrida, que define como afro-portuguesa ou portuguesa negra. Neste episódio, Cátia revisita ainda a história familiar atravessada pela guerra, pelo colonialismo e pela migração, destacando figuras como a sua avó Angelina. Ao mesmo tempo, recorda os efeitos dolorosos do colorismo dentro da própria família e comunidade, onde o tom de pele podia determinar aceitação ou exclusão. Para Cátia, negar essa complexidade seria negar a própria história. Ouça aqui a conversa completa, com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    59 min
  2. Grada Kilomba: “Temos que aprender a aceitar quem as pessoas são e saber negociar, estar com essas almas. Há dificuldade em dialogar, porque há dificuldade em escutar”

    25 Jun

    Grada Kilomba: “Temos que aprender a aceitar quem as pessoas são e saber negociar, estar com essas almas. Há dificuldade em dialogar, porque há dificuldade em escutar”

    Inaugurou, no passado dia 2 de junho, em Paris, o “Memorial para o Genocídio dos Tutsis no Ruanda”, numa cerimónia de Estado, que contou com a presença do Presidente da França, Emmanuel Macron, e do seu homólogo ruandês, Paul Kagame. Dias antes, a 30 de maio, estava em Sintra, na abertura da exposição “O Fundo do Mundo”, patente até 26 de setembro na Albuquerque Foundation. Dona de uma abordagem artística que corre mundos, Grada Kilomba é a convidada deste episódio d’ O Tal Podcast. Reconhecida internacionalmente pelo seu trabalho sobre memória, colonialismo, raça, género, linguagem e poder, Grada Kilomba tem desenvolvido uma prática artística que cruza literatura, performance, instalação, vídeo e encenação. “O conhecimento tem que ser cruzado, estar constantemente em diálogo”, afirma. Artista transdisciplinar, com raízes em Angola e São Tomé e Príncipe, Grada fala sobre o seu mais recente projeto: "O Memorial para o Genocídio dos Tutsis no Ruanda", instalado em Paris.  Encomendada pelo Estado francês, como reconhecimento da cumplicidade naquele genocídio, a obra representou o maior desafio da sua carreira. “A maior honra para um artista é ser convidado para pensar, elaborar e criar uma obra em honra de um milhão de pessoas  assassinadas num genocídio”, partilha. Ao longo da conversa, Grada reflete sobre o processo de criação de uma obra que procura representar o aparentemente irrepresentável: a violência, a perda, o silêncio e a memória. Fala sobre as viagens que realizou a Kigali, dos encontros com sobreviventes e descendentes das vítimas, e da influência da tradição artística ruandesa Imigongo na construção do memorial. “Uma coisa é trabalhar sobre um tema, outra coisa é vivenciar e conversar diretamente com as pessoas que vivenciaram esse tema”, sublinha. Grada aborda também o papel da arte numa sociedade marcada por conflitos, desigualdades e traumas históricos. Na sua leitura, a tarefa do artista passa por abordar os assuntos com os quais a sociedade tem dificuldade em lidar, criando novos vocabulários e imaginários. “Trabalho com temas extremamente violentos, como a morte, a exclusão, a desumanidade, o genocídio, o esquecimento. É extremamente importante trabalhá-los, criando o belo, a poesia”. Num diálogo que atravessa a arte, a educação, a espiritualidade e a transformação pessoal, Grada Kilomba reflete ainda sobre a importância da transdisciplinaridade, do corpo como linguagem artística, e da necessidade de cultivar espaços de escuta e colaboração. Critica modelos educativos assentes na fragmentação do conhecimento e defende formas de aprendizagem baseadas no diálogo e na construção coletiva. Entre memórias, silêncios e processos criativos, a artista deixa uma reflexão sobre um dos grandes desafios do nosso tempo: a incapacidade de escutar verdadeiramente o outro. “Estamos num momento absolutamente catastrófico, rodeados de guerras, genocídios, ocupações, cumplicidades internacionais, violência explícita e o que parece absolutamente constante é a incapacidade de diálogo.” Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    53 min
  3. Assunção Fernandes: “Agradeço ao universo por esta visão que tenho. Não demoro muito ao pé das pessoas para perceber aquilo de que a comunidade precisa”

    18 Jun

    Assunção Fernandes: “Agradeço ao universo por esta visão que tenho. Não demoro muito ao pé das pessoas para perceber aquilo de que a comunidade precisa”

    Maria Assunção Fernandes Lopes Tavares, mais conhecida como “São”, nasceu em Fundura, no interior da ilha de Santiago, em Cabo Verde, e emigrou para Portugal com 22 anos. A convidada deste episódio d’“O Tal Podcast” cresceu numa família onde o serviço à comunidade fazia parte do quotidiano – os pais eram catequistas e ensinaram-lhe, desde cedo, que ninguém constrói nada sem os outros. “Não fazemos nada sozinhos. Temos de ter sempre alguém a apoiar, de uma forma ou de outra.” Ao chegar ao bairro da Pedreira dos Húngaros, entretanto demolido, São deparou-se com uma realidade que a inquietou: a falta de oportunidades para crianças e jovens, e uma forte segregação social. Sem recursos, mas movida pela vontade de fazer a diferença, recuperou a paixão pelo andebol que tinha desenvolvido na juventude, e lançou um projeto que viria a mudar centenas de vidas. “Começámos a treinar num campo de futebol, um descampado. No início nem tínhamos bolas”, recorda. O que começou com algumas raparigas curiosas tornou-se um espaço seguro de crescimento, pertença e desenvolvimento pessoal. Ao longo dos anos, o desporto abriu horizontes, fortaleceu a autoestima de muitas jovens filhas de imigrantes e ajudou-as a desenvolver competências que transportaram para a vida adulta.  Paralelamente ao trabalho comunitário, São nunca desistiu da sua formação. Entre a família, o emprego e os treinos, estudou à noite para completar o ensino secundário e, mais tarde, ingressou na universidade. Licenciou-se em Serviço Social e concluiu um mestrado com uma tese dedicada ao impacto do andebol na integração social de jovens raparigas. “A [autoestrada] A5 foi onde eu estudei mais, de noite, de madrugada”, conta, lembrando os anos de esforço e perseverança. Neste episódio, fala também sobre os projetos que continua a dinamizar, como o grupo de mulheres “As Marias”, e os Centros de Apoio ao Estudo em bairros municipais de Oeiras, onde procura criar novas oportunidades para crianças e famílias. Reflete ainda sobre os desafios pessoais que enfrentou ao longo do caminho, incluindo os sacrifícios familiares que a sua dedicação exigiu. “Em alguns momentos, esqueci-me dos meus filhos. Dos filhos dos outros, nunca me esqueci”, confessa com honestidade. Entre histórias de resiliência, liderança e serviço, São Fernandes partilhou com ‘O Tal Podcast’ a visão que orienta a sua vida: a crença de que a empatia, a educação e o trabalho coletivo têm o poder de transformar comunidades. “O universo ajuda quando a pessoa trabalha com sinceridade, com empatia.” Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    57 min
  4. Wilds Gomes: “Poderíamos ser todos melhores humanos se tivéssemos terapia por cada indivíduo que está aqui nessa terra”

    11 Jun

    Wilds Gomes: “Poderíamos ser todos melhores humanos se tivéssemos terapia por cada indivíduo que está aqui nessa terra”

    Jornalista, apresentador, gestor de marca e autor do livro infantil “A girafa do Noah”, Wilds Gomes é o convidado desta semana d’ “O Tal Podcast”. Natural de São Tomé e Príncipe, veio para Portugal quando tinha apenas 4 anos, e desde sempre se viu rodeado de afectos, razão pela qual se confessa “uma pessoa de amor”, com facilidade para falar de sentimentos e expressá-los. Comunicador nato, Wilds conta que a grande transformação na forma como passou a olhar para si, e a procurar ser uma melhor pessoa, foi a experiência da paternidade. “Acho que me tornei adulto de verdade após o nascimento do meu filho”. A separação da mãe dos filhos mais velhos foi um momento que o fez parar e refletir sobre quem realmente era e o que queria na vida. Esse período mais sombrio levou-o a valorizar mais o auto-cuidado, e a procurar terapia.  Uma das formas de conexão que tem desenvolvido com os filhos é a leitura noturna, algo que não teve na infância. Foi também por esta razão que escreveu o livro “A girafa do Noah”, publicado no final do ano passado, e no qual aborda o luto de uma forma adaptada para crianças. “Eu quero escrever sobre algo que faça sentido, que os pais consigam refletir e falar com os seus filhos, embora sejam conversas difíceis de ter.” Ao “O Tal Podcast”, o apresentador de 34 anos revelou que uma das maiores inspirações da sua vida é a relação dos pais que, após mais de três décadas de união, recentemente subiram ao altar. Wilds teve um papel fundamental na boda, tendo sido responsável pela compra do anel para o pedido de casamento feito pelo pai.  Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, o são-tomense falou ainda sobre a sua “Carta aberta aos homens negros que odeiam as mulheres negras”, onde desafia preconceitos, e convida a uma reflexão sobre a forma como mulheres da sua comunidade são tratadas. Para o apresentador, o amor, o respeito e a proteção das mulheres negras são também uma forma de resistência e transformação.  Ouça aqui a conversa completa. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    1hr 6min
  5. Victória Pauferro: “Estava na fila da escola para lanchar e um menino disse que a minha amiga era burra. Eu disse que não, e ele falou: ‘Cala a boca macaca’. Decidi fazer uma app para ajudar pessoas que sofrem preconceitos”

    4 Jun

    Victória Pauferro: “Estava na fila da escola para lanchar e um menino disse que a minha amiga era burra. Eu disse que não, e ele falou: ‘Cala a boca macaca’. Decidi fazer uma app para ajudar pessoas que sofrem preconceitos”

    Victória Vasconcelos Pauferro tem apenas 11 anos, mas já passou pela Faculdade de Ciências Tecnológicas de Lisboa, para apresentar o jogo "Aventuras com a  Zoom Boom", que criou para combater preconceitos e todas as formas de discriminação. Sempre a pensar na inclusão, a convidada deste episódio de “O Tal Podcast” juntou-se à nossa celebração do Dia da Criança, com planos para programar um mundo melhor, com consciência social e inteligência artificial.  Para festejar o 1 de junho, “O Tal Podcast” conversou com esta aluna do 5.º ano, que começou a programar e a utilizar inteligência artificial através do projeto “Technovation Girl”, no qual teve a ajuda de uma mentora para aprender a criar códigos e programar um mundo melhor através da tecnologia.  Se tivesse um botão mágico no qual carregasse e pudesse mudar o mundo, “acabava com as guerras e o preconceito”, e criaria um mundo com pessoas de todas as cores: amarelas, roxas, verdes, rosas”.  A preocupação com a injustiça social fez com que Victória criasse a “Aventuras com a Zoom Boom” - um jogo de perguntas e respostas, que utiliza inteligência artificial para combater preconceitos como o racismo, educando os jogadores sobre o significado destes conceitos, e a forma correta de agir perante estas situações. Este resultou num termo novo que inventou: “euquipa”, já que este foi um trabalho individual.   Mais tarde, a “euquipa” expandiu-se, e juntou-se a outras colegas com as quais desenvolveu a aplicação “Hug Connect”, que tem como objectivo ajudar crianças e adolescentes com dificuldade de comunicação, criando salas anónimas onde podem partilhar e discutir problemas como racismo ou bullying com outras pessoas que enfrentam as mesmas situações.  Fora do mundo da programação, Victória interessa-se por desporto, nomeadamente vólei e ténis, e faz planos artísticos, a partir do gosto pelo desenho, a que junta a diversão de brincar às bonecas.  Com ascendência brasileira, a estudante mantém contacto diário com a avó, que está do outro lado do oceano, na Bahia, através de videochamadas. Orgulhosa das origens, no final do quarto ano, a convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso, usou um vestido de “princesa africana”, simbolizando a importância de recordar as suas raízes e história familiar.  Ouça aqui a conversa. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    38 min
  6. Ana Martins: “Sempre vi a minha mãe e a minha avó a correrem riscos e irem atrás de coisas em que as pessoas diziam: ‘Não podes. Isto não é para ti’. Então, eu sempre quis ser mais”

    28 May

    Ana Martins: “Sempre vi a minha mãe e a minha avó a correrem riscos e irem atrás de coisas em que as pessoas diziam: ‘Não podes. Isto não é para ti’. Então, eu sempre quis ser mais”

    Empreendedora, fundadora da Mella Supply e co-fundadora do The Fam Kitchen Group, Ana Martins constrói pontes dentro da comunidade negra, com foco na promoção de uma maior representatividade e solidariedade. Neste episódio de “O Tal Podcast”, a convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso revisita o percurso que a levou da diplomacia à restauração, sem nunca abandonar a missão de criar impacto social. Formada em Relações Internacionais e Estudos de Conflitos no Reino Unido, Ana sonhava trabalhar em diplomacia, mas cedo percebeu as barreiras de acesso a determinados lugares.  Entre Inglaterra e Estados Unidos da América, foi construindo um olhar crítico sobre representatividade, pertença e liderança, até regressar a Portugal por motivos familiares e decidir abraçar o sonho da mãe: transformar o The Fam Kitchen num projeto familiar que honra o legado da avó cabo-verdiana, imigrante que enfrentou inúmeras dificuldades para construir uma vida melhor. Ao longo da conversa, partilhou também a relação complexa com o pai ausente, reencontrado apenas aos 20 anos durante os estudos no estrangeiro. Foi precisamente entre o luto, a pressão do empreendedorismo e a solidão da pandemia que nasceu a Mella Supply.  O projeto começou ligado ao autocuidado e à beleza negra, mas rapidamente evoluiu para uma plataforma focada em conexão, mentoria e partilha de conhecimento entre talentos negros .“Como é que nos reconhecemos como líderes dentro dos nossos próprios nichos?”, questiona Ana, que defende a importância de fortalecer redes internas, combater a fragmentação da comunidade e esbater as barreiras que impedem acessos a lugares. Entre workshops, encontros e debates, a fundadora da Mella Supply procura criar espaços onde a comunidade se possa ouvir, organizar e apoiar mutuamente. A gastronomia surge também como ferramenta de encontro e diplomacia, enquanto os novos projetos do The Fam Kitchen Group — como as casas de hospedagem no norte de Portugal — prolongam essa ideia de acolhimento, descanso e pertença. Entre memórias de imigração, empreendedorismo e viagens em família organizadas através de um mealheiro coletivo, Ana Martins revela-se uma “super connector”: alguém que acredita que abrir portas para os outros também é uma forma de transformar o mundo. Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.       See omnystudio.com/listener for privacy information.

    56 min
  7. Marco Mendonça: “O humor é uma porta de entrada para um lugar de empatia, escuta, compreensão. Ou mesmo que não seja compreensão, de respeito”

    21 May

    Marco Mendonça: “O humor é uma porta de entrada para um lugar de empatia, escuta, compreensão. Ou mesmo que não seja compreensão, de respeito”

    Em 2024 criou, encenou e interpretou o espetáculo “Blackface”, a partir de uma velha prática racista. No ano seguinte, juntou a direção artística ao currículo, com “Reparations, Baby!”, peça que usa um concurso de TV para debater reparações históricas. Agora planeia um musical ‘fora de tom’, em que o hino nacional promete desafinar ideias. Marco Mendonça é o convidado deste episódio d’ “O Tal Podcast”, e sobe hoje ao palco do Planetário da Marinha, em Lisboa, com “Hotel Paradoxo”, em cena até sábado, 23.  Entre histórias da infância em Moçambique, o fascínio precoce pela performance e a descoberta do teatro como espaço de liberdade, Marco Mendonça reflete sobre o impacto pessoal das suas investigações em torno do passado colonial português e da presença negra na cultura contemporânea.  Com a honestidade e ironia que atravessam criações como “Blackface” e “Reparations, Baby!”, o ator e encenador falou sobre o impacto pessoal das suas investigações em torno do passado colonial português, da presença negra na cultura contemporânea e das dinâmicas de poder que persistem dentro e fora das artes. “Uso muitas vezes os espetáculos que faço para aprender mais. Facilmente me esqueço de coisas importantes: factos, datas. É bom ter várias notas nestes processos de investigação e de pesquisa, para ter acesso direto à história, e àquilo que vou recolhendo como material de uma forma mais acessível para mim também.” O humor e o riso acompanharam Marco Mendonça desde a sua juventude, tornando-se cedo uma forma de relação com o mundo: “Achavam que eu fazia bem imitações, porque eu sempre fiz questão de ser um dos palhaços da turma. Quando havia situações mais risíveis, eu tentava estar sempre envolvido nelas.” Esse impulso para “mandar larachas” foi-se construindo ao longo do tempo, até resultar na criação em palco.  Depois do secundário em Artes Visuais, entrou em Estudos Artísticos na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mas bastaram duas semanas para perceber que o melhor seria avançar para a Escola Superior de Teatro e Cinema. “De repente, ali era um espaço de liberdade total. Vamos abraçar-nos e chorar e ser vulneráveis à frente uns dos outros.” Pelo meio, houve espaço para falar da “alma velha” de Marco Mendonça, num momento em que, aos 31 anos, assume novas responsabilidades e outra relação com o trabalho e com o corpo.   A conversa trouxe ainda uma notícia esperada por muitos — o regresso do espetáculo “Blackface” a Lisboa —  a que se junta outra novidade: vem aí um musical sobre o hino nacional português, com estreia prevista na Culturgest.   Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    1hr 8min
  8. Raquel Lima: “Tendo um filho, é importante ele sentir que estou bem. Não dá para reproduzir a mãe estressada. Quero muito estar bem e feliz à volta dele”

    14 May

    Raquel Lima: “Tendo um filho, é importante ele sentir que estou bem. Não dá para reproduzir a mãe estressada. Quero muito estar bem e feliz à volta dele”

    Poeta, investigadora, arte-educadora e ativista, Raquel Lima é a primeira intelectual portuguesa, angolana e são-tomense galardoada com o Prémio Emma Goldman, recebido no último mês de março, em Viena de Áustria. A experiência, conta neste episódio de “O Tal Podcast”, permitiu-lhe refletir sobre merecimento, autocuidado e literacia financeira, e constatar como, independentemente de geografias, as mulheres partilham uma espécie de “síndrome da impostora coletivo”. Nascida em Lisboa, filha de mãe angolana e pai são-tomense, cresceu na margem sul do Tejo, entre uma infância marcada por precariedade, ruturas familiares e perdas precoces, que viriam a tornar-se matéria viva da sua escrita.   A sua assinatura literária tem passado por vários formatos, tanto no spoken word, como através da academia. Publicou livros como “Ingenuidade, Inocência e Ignorância” e “Ululu”, e hoje trabalha também a partir da oratura, ligada às tradições africanas de transmissão oral. Fundadora da União Negra das Artes, tem vindo a pensar o coletivo como espaço de criação, mas também de desgaste. “Perceber o que o coletivo quer dizer é isto: não pode recair sobre uma, duas ou três pessoas que ficam sobrecarregadas”, nota, ao refletir sobre os limites do trabalho partilhado e a necessidade de abrandar sem abandonar a comunidade. Neste episódio, a conquista recente do Prémio Emma Goldman surge como ponto de inflexão. Distinção internacional atribuída em Viena, o prémio chega num momento de transição pessoal e abre espaço para uma reflexão sobre merecimento e autocuidado. Entre outras oito mulheres de geografias diversas, Raquel reconhece um “síndrome da impostora coletivo”, como se a dúvida sobre o lugar de cada uma fosse menos individual do que estrutural.  “Ainda estou a processar”, diz, ao falar de uma distinção que mexe com a autoestima e com a forma como o trabalho é validado. Ao mesmo tempo, a artista revela que os 50 mil euros correspondentes ao prémio a fizeram questionar a relação com o dinheiro, e a importância da literacia financeira.Tudo de um lugar onde defende que aprender a receber é tão importante quanto aprender a cuidar. Raquel partilha também como a espiritualidade atravessa o seu percurso de forma central. “Eu acho que a nossa revolução só vai acontecer se a gente puser o espiritual aí dentro. Acho que a nossa batalha mesmo antirracista, feminista, é espiritual”, assinala, ao falar de práticas de espiritualidade de matriz africana que recuperou em adulta. Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    53 min

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Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião, com autoria de Georgina Angélica e Paula Cardoso.

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