Aos 12 anos, Bianca era uma criança que acreditou ter encontrado na internet um amigo que finalmente enxergava nela tudo aquilo que ela mesma não conseguia ver. Do outro lado da tela, porém, estava um homem adulto de 24 anos. Durante três anos, enquanto ela ainda crescia, ele foi transformando aquela amizade em uma relação de controle, até fazer Bianca acreditar que obedecê-lo era uma forma de não perdê-lo. Tudo começou quando ela, aos 7 anos, começou a jogar um jogo para crianças no computador. Nesse jogo, ela fez muitos amigos virtuais, mas todos jogavam de forma anônima. Até que um adulto, se passando por criança, começou a demonstrar interesse não pelas partidas, mas por saber quem era a Bianca. Ele começou a encher ela de elogios, e isso a motivava a continuar naquela relação digital. Aos poucos, o homem passou a influenciar suas roupas, seu cabelo e sua rotina, e o que parecia cuidado começou a se transformar em controle. Ele queria saber onde Bianca estava, com quem falava e o que fazia. Fez com que ela se afastasse de outras pessoas, inclusive da própria mãe, e passou a usar cobranças e ameaças para controlar suas emoções. A relação chegou a um ponto em que Bianca era pressionada a enviar imagens do próprio corpo diariamente. Ela se sentia mal, mas tinha mais medo de desobedecer. Foi quando ele pediu que ela viajasse sozinha até sua casa para acompanhá-lo em uma suposta cirurgia. Nesse momento, Bianca finalmente percebeu que precisava interromper aquilo. O fim não trouxe alívio imediato. Durante anos, Bianca acreditou que a culpa era dela, pensava que não deveria ter respondido a um adulto, que não deveria ter confiado, que talvez tivesse provocado tudo aquilo. Só muito tempo depois começou a compreender: ela era uma criança. Quando conseguiu contar para a mãe, foi à delegacia e reuniu tudo o que ainda tinha sobre aquele homem. Ele desapareceu depois do fim da relação, e o processo segue em sigilo. Bianca decidiu transformar aquilo que viveu em informação. Criou um canal para falar sobre violência e passou a ajudar outras pessoas a reconhecer situações que, assim como ela, talvez ainda não consigam nomear. Porque uma criança não tem como saber se proteger da manipulação de um adulto. E Bianca passou anos precisando aprender isso depois que tudo aconteceu.