Artes

RFI Português

Um dia por semana, em média, veja aqui os nossos destaques no mundo da cultura e das artes. Excepcionalmente, em função da actualidade, esta rubrica pode ter vários destaques.

  1. HÁ 11 H

    Produtora portuguesa Rosa Filmes garante estreia de filme francês em Cannes

    "Les Roches Rouges" do francês Bruno Dumont é produzido pela portuguesa Rosa Filmes, a obra rodada essencialmente no sudeste francês, perto de Cannes, aborda temas de uma infância neste cenário de escarpas vermelhas, junto ao Mar Mediterrâneo. A película estreia na Quinzena dos cineastas. O produtor Joaquim Sapinho comentou à RFIa obra e este certame, em curso até 23 de Maio. Temos o privilégio de acolher de novo o Joaquim Sapinho da Rosa Filmes. Boa tarde! Bem vindo a mais uma edição do Festival de Cinema de Cannes. Estamos juntos para falar, nomeadamente do filme "Les Roches Rouges" de Bruno Dumont, com quem já tinham colaborado no passado. E é a Rosa Films, então produtora principal por detrás desta obra. Exacto. Nós tínhamo-nos conhecido no "L'Empire" e éramos co-produtores e quando chegou a oportunidade de fazer este filme, lá estávamos nós a querer colaborar e a ajudar. Mas as dificuldades de produção do filme obrigaram nos a nós a passar a produtores principais, porque todas as dificuldades de dinheiro e também de coordenação.... O realizador queria filmar este verão que passou. E, pela primeira vez na história das relações cinematográficas dos dois países, fez-se um filme em França com uma equipa inteiramente portuguesa. É muito ao contrário, habitualmente !   É sempre ao contrário. Portanto, foi uma coisa absolutamente mágica. Quando nós tomamos conta da produção, ficou uma arquitectura com filmagem em França. Filmagem em Portugal é filmagem em Itália. Mas toda a produção é portuguesa e os outros "partners" italianos, franceses e espanhóis ficaram apenas a ajudar. Portanto, foi uma experiência única. Nós já tínhamos vivido esta experiência com o filme do Magalhães, que tinha rodagens em Portugal.   No ano passado !   Com filmagens em Espanha e tinha filmagens nas Filipinas e também do lado espanhol. Tinha corrido tudo mal. Mandámos a equipa portuguesa depois nas Filipinas também correu mal. Mandámos também a equipa portuguesa. Portanto, aqui foi o mesmo. Foi só continuar esta estratégia, Se os outros não conseguem fazer, nós conseguimos. E então o filme é de facto rodado essencialmente no sul de França, na região onde nós nos encontramos um bocadinho, também em Itália, mas também em Portugal !? O filme também teve uma parte rodado em Portugal e é sempre este prazer de fazermos filmes cosmopolitas em que quer à produção quer às histórias, retratam esta Europa que nós amamos e não apenas a ideia de nacionalismos em que toda a gente está separada.   Bruno Dumont que já teve também projectos cá em Cannes no passado, já teve prémios cá, por exemplo, com "La vie de Jésus", "L'Humanité". Agora é um filme muito sobre a infância ou sobre uma parte do litoral do sul de França, onde a fotografia tem um papel absolutamente descomunal ! Eu acho que é só olhar à volta no sítio onde estamos a fazer esta conversa aqui em Cannes e ver este mar esmeralda. O que é que há de tão especial em Saint Raphaël ? É que para lá do mar esmeralda há umas rochas vermelhas. O filme em português chama se "Escarpas Vermelhas". Encontramos um título muito bonito em francês "Les Roches Rouges". Porque, digamos, é este espaço mágico, esta jóia que é a cor azul. Mas do lado da infância. Ou seja, é um filme sobre crescer, sobre como é que se cresce. Sobre as violências de crescer e sobre os amores também. É um filme... Sobre o bem e o mal? O bem e o mal., mas é um rapaz e uma rapariga que estão apaixonados. Fazem uma escapadela para Itália no comboio, mas têm só cinco anos. Portanto, o que é fascinante aqui é que nós somos humanos, logo a partir do momento em que nascemos e começamos a crescer apaixonados e a viver riscos. Portanto, é um filme, como direi? A dizer que a vida é apaixonante e que vale a pena correr riscos. E não lhe parece que eles eram, de facto, todos bastante precoces ? Teriam cerca de cinco anos. Efectivamente viajam juntos. Ele, de forma muito fácil, acaba por passar por cima do portão para ir ter com a namorada. Ele está muito determinado, não é o rapaz? O Géo está determinado ! Ele está determinado. E o que é bonito é que porque é que o filme também é "Les Roches Rouges" ? Não é apenas uma questão plástica. É porque essas rochas são umas rochas em que em França se faz uns saltos muito arriscados. E ele está sempre a demonstrar o seu valor saltando dessas rochas vermelhas. Saltos para mergulho ! Para mergulhar e, portanto, é um filme que defende a ideia de viver como uma ideia apaixonada. É uma ideia em que não podemos, digamos, estar esmagados pelo medo para viver, mas de que é possível viver com intensidade. E aqui o americano Carlos Alfonso Coral deve ter tido um papel preponderante em relação à questão da imagem, de captar este litoral e estas escarpas vermelhas? Ele é um director muito sensível, muito poético, tem trabalhado essencialmente com o Roberto Minervino, que tem tido também os filmes aqui em Cannes. Mas e vive neste momento em Los Angeles. Ele é do México e, claro, ficou. Nunca tinha estado aqui na Côte d'Azur. E estas cores e esta dramaticidade do filme, evidentemente, permitiram-lhe a ele também responder, dando estas cores e essa dramaticidade ao cinema. Que sabor tem, então, esta estréia aqui na Quinzena dos Cineastas com este filme ? A Rosa Filmes, desde 2016 tem sempre um filme seleccionado em Cannes. Nem sei se haverá outra produtora no mundo ? Desde 2016, portanto vamos para 11 anos, não é? Todos os anos sempre um filme, e já tivemos vários filmes em que éramos nós os produtores principais, mas estes dois últimos também, quer com o Magalhães, com o Gael Garcia Bernal, realizado pelo Lav Diaz, quer agora com este filme do Bruno Dumont isto se repete. Portanto, não há outra palavra. É um prazer ! Eu acho que Cannes é um festival em que a paixão pelo cinema se sobrepõe a tudo, a todas as outras questões. E toda a gente se sente atraída por isto e, portanto, é o sítio certo para mostrar os filmes que nós fazemos. E a nossa imagem de marca também está ligada a Cannes. Então e esta septuagésima nona edição do Festival interessa-o ? Se sim, que mais lhe interessa aqui neste certame? Eu acho que há um realizador francês extraordinário. Eu acho que é o grande jovem realizador francês que é o Arthur Harari e é a sua terceira longa metragem. Também ganhou o Oscar de melhor Argumento no ano passado. Está em competição nas longas metragens, na selecção principal ! Sim, na selecção principal, nas longas metragens. E é esse filme de que foi argumentista ganhou também a Palma de Ouro há dois anos. Eu acho que o grande realizador francês agora da Nova geração é este filme. Será o filme mais entusiasmante para ver. Muitos filmes franceses, precisamente na competição, Se calhar mais do que é habitual, portanto, também se calhar provar a boa forma do cinema hexagonal, neste momento, o que é que acha ? Muitos filmes franceses e também muitos actores e actrizes franceses nos filmes estrangeiros. Exactamente. Até em filmes estrangeiros, japoneses, austríacos ! Portanto, é uma grande... Eu acho que a França é o centro do cinema europeu e pouco a pouco está a tornar-se também o centro do cinema, porque a gente vê que os Óscares estão a copiar o modelo. Este modelo europeu de Cannes e portanto temos todos que nos adaptar uns aos outros. Mas dá me a impressão que este nosso modelo do cinema europeu que tem como centro a França e Cannes, é o que está mais vivo neste momento. E finalmente, o cinema português. No meio desta dinâmica toda, como é que o vê nesta altura? Eu bem sei que é sempre complicado. É sempre a mesma dificuldade de acesso a financiamentos. No entanto, surgem sempre propostas que vão singrando internacionalmente, não é?   Dou-lhe o meu exemplo vou filmar este ano em África. Fazer um filme sobre Angola. Eu acho que vai ser o primeiro filme em que um português vai fazer o ponto de vista do outro ponto de vista dos movimentos de independência e não um filme nostálgico sobre "Ah, que pena, Portugal perdeu África". Há uns filmes que são mais engraçados a falar desse assunto, outros mais dramáticos, outros mais melancólicos. Eu não estou interessado nisso. Estou interessado é o "como é que foi este conflito e qual é o ponto de vista do outro" ? E, portanto, vou fazer um filme pela primeira vez sobre como é que os movimentos de independência se confrontavam connosco. Mas o meu ponto de vista ainda é mais complexo. Esse confronto connosco era de portugueses com portugueses. Toda a gente tinha o mesmo bilhete de identidade. Portanto, tentar ter um ponto de vista que ajude a que Portugal possa viver com o seu passado, de outra maneira.   E vão rodar também na África Equatorial, nomeadamente. A dinâmica do cinema português está em cada filme que é feito. E de quem é o argumento ? É meu. É uma história extraordinária que eu descobri, já ando a preparar o filme há cerca de dez anos, porque descubro um dia um folheto em francês sobre cinco mulheres que tinham sido presas. Não pelos portugueses lá em Angola, mas sim pela UPA, que era um movimento rival que depois se transformou no FNLA. E essas mulheres são presas e depois são mortas. Portanto, é uma tragédia enorme. E, portanto, é a primeira vez que acontece. Cinco mulheres entram na guerrilha e entram. Vêm do Congo, no quadro do MPLA, entram em Angola e depois vão ser atacadas pela UPA e vão ser mortas. E portanto é contar esta tragédia do que é que estava a acontecer de complexo dentro dos movimentos de libertação. Quando eu descobri estas mulheres, a lider chama-se Deolinda Rodrigues. Ela é actualmente o símbolo da mulher angolana. Há um dia feriado que é o dia em que ela foi morta,

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  2. HÁ 4 DIAS

    Filme português em competição nas curtas metragens de Cannes

    O Festival de cinema de Cannes decorre até dia 23 no sul de França. Em competição nas curtas metragens da selecção oficial está o filme português "Algumas coisas que acontecem ao lado de um rio". Uma obra de Daniel Soares, realizador que já tinha sido distinguido em 2024 com uma menção especial para a outra curta com "Mau por um momento". Desta feita Daniel Soares põe em cena um corpo que flutua no rio, perante a impassividade das pessoas, distraídas com os seus afazeres. O cineasta começa por se declarar supreso com o facto de ter sido seleccionado uma segunda vez para a mais prestigiosa das mostras deste certame.   Para já, ficámos muito surpreendidos. Matematicamente falando, é muito complicado ter um filme seleccionado. Há dois anos acho que eram 4 700 filmes ou o quê que foram submetidos ! E os escolhidos este ano acho que são 3000 e tal e 10 escolhidos ! Então ou seja matematicamente é muito complicado e consegui-lo uma segunda vez é muito difícil. Então não estava com muita expectativa em relação a isso, voltar a ser seleccionado. Portanto, se calhar desta vez foi... A primeira vez é claro que é muito especial, mas da segunda vez já é "Espera aí ser selecionado uma vez, dá-te aquela sensação de "ok, consegui enganá-los, enganaram-se, sei lá !" E a segunda vez... pronto, se calhar há aqui qualquer coisa em que eu posso confiar mais na minha intuição quando escrevo especialmente.   Porém, se teve essa sensação de ter enganado alguém, acabou por sair de lá com uma distinção. Eles acabaram por lhe enviar uma mensagem, algo contrária de alguma fé, pelo menos no seu cinema. Então, mas agora que está seleccionado uma segunda vez, já teve a curiosidade de ver com quem é que vai estar a competir aqui nesta seleção das curtas metragens da competição oficial? Sim, desta vez. Pessoalmente, eu não conheço ninguém. Da última vez eu conhecia. Tinha um amigo que tinha sido seleccionado, desta vez pessoalmente, não conheço ninguém, mas já vi o filme do realizador do Vietname, uma longa metragem de que eu gostei muito na altura. Lembro-me de ver e vai estar com uma curta. "O sonho é um caracol", não é? Exacto. "Le rêve est un escargot", na tradução francesa do título original vietnamita. Ao fim e ao cabo Cannes, agora já conhece. Já podemos fazer um rescaldo. Como foi para si? Gostou de lá ter ido? Está entusiasmado por voltar? O que é que pretende fazer nesta edição?   Sim, estou entusiasmado. Gostei muito da primeira experiência. Se calhar agora, se puder, gostaria de ver mais filmes do que da última vez. Da última vez não consegui ver muitos filmes, mas isso talvez será assim uma coisa que eu tentarei fazer. É assim, há muitas reuniões também, não é que, que acontecem? Pois claro. Há todo um espectáculo que se calhar não é muito a minha cena, mas ao mesmo tempo é importante para dar visibilidade ao filme e aos próximos filmes e construir dessa forma, sei lá, um percurso que me permita continuar a fazer filmes, o que é sempre difícil. Por tudo isso. Pois é, isso é um lugar onde durante duas semanas o pessoal se encontra e celebra o cinema como em nenhum outro lugar, acaba por ser muito especial.   Vamos falar do seu filme "Algumas coisas que acontecem ao lado de um rio". Se calhar, antes de entrarmos na história, no argumento, falemos um pouco do elenco. Você foi buscar, por exemplo, valores consagrados do cinema português. Penso em Teresa Madruga, que já colaborou com pessoas como Manoel de Oliveira, Miguel Gomes, que são consagrados em Cannes. E depois há valores menos conhecidos. Por exemplo, os dois rapazes que dão corpo ao grupo de imigrantes e de estafetas que vão tomar banho no rio. Como é que foi pegar neste leque heterogéneo de pessoas para filmar esta obra?   Isto é um filme de elenco. E a ideia foi sempre essa. Foi misturar actores incríveis, como a Teresa, como o João Vicente e misturá-los com pessoas menos conhecidas. Para mim, estes dois estafetas não faria qualquer sentido que fossem actores profissionais, caras conhecidas, não é? Acho que isso muitas vezes te tira de um filme, de uma experiência ou te lembra que estás a ver um filme. Então a ideia foi essa, foi misturar e encontrar as pessoas que fossem as mais indicadas para aqueles papéis. E às vezes são, como no caso da Teresa, actrizes com uma grande história e outras vezes são pessoas que nunca estiveram à frente de uma câmara. E eu gosto desse...   É o caso do Dilip, é o caso do Amarjeet ? É o caso deles. Como é que os conheceu? Como é que chegou até eles?   Fizemos um casting de rua. Encontrámo-los em grupos de estafetas, onde eles se encontram muitas vezes em Lisboa há vários pontos onde eles se encontram, se juntam e aí foi sobretudo a Romina e o Tomás que lideraram esse processo. E foi assim que fomos encontrando essas várias pessoas. Alguns deles estavam interessados em fazer parte de um filme, outras nem tanto. Então, aí já houve assim uma primeira filtragem e depois foram chamados. Fizemos casting. Eu acho que com os dois escolhidos, O Dilip e o Armajeet fizemos três vezes casting para ter a certeza. E eu acho que eles saíram super bem. Tinha algum receio, sim, mas. Mas não correu tudo muito bem.   Já nos filmes anteriores você tinha filmes que podiam passar ou pelo menos ser interpretados como um retrato de alguma denúncia, de algum cinismo da nossa sociedade. Fosse, por exemplo, em relação à especulação imobiliária em torno da capital portuguesa. Aqui, nomeadamente, as pessoas estão demasiado preocupadas e não vêem sequer um cadáver que, de facto, está a flutuar no rio. É um pouco isso ? Você pretendia, de facto, pôr o dedo na ferida, não é? Em relação à forma como a nossa sociedade vive, como está estruturada ?   É assim, eu não acho que é cinismo. Eu acho que é, pelo contrário, se calhar. Ou seja, se calhar a ideia inicial tenha algo irónico, não é, isso sim. Agora o cinismo, acho que não. Porque se fosse cinismo, se calhar não faria um filme. Eu acho que é mais um olhar humano, só que pronto... Os personagens no filme estão assim, todos em piloto automático. Todos nas suas bolhas, sem com os seus problemas do dia a dia, sem conseguirem ver o corpo. Só que para mim era super importante de mostrar todas as classes sociais, mostrar todas as idades. Não acho que seja cinismo, porque eu acabei de encontrar um pouco de mim em todos esses personagens. Ou seja, não é de cima para baixo. Pelo contrário, eu estou aí também. Ou seja, eu também sofro desses problemas contemporâneos.   A dependência em relação aos ecrãs, às redes sociais, por exemplo.   Por exemplo. Sim, sobretudo isso. Mas não só. Muitas vezes, esta questão de não conseguir estar presente no momento e muitas vezes. Ou seja, de estar com as minhas filhas e estar preocupado com outras coisas e não conseguir estar ali, não é? Ou seja, fisicamente sim, mas com a cabeça sempre a pensar no futuro, já ou no passado. Também esta ideia da fragmentação de como consumimos filmes ou conteúdos, tudo cada vez mais rápido, o YouTube, Instagram, TikTok, tudo cada vez mais acelerado. E como muitas vezes os telefones já são donos de nós, do nosso foco, da nossa atenção. Esta era do "Short attention span" [Atenção de curta duração], esta coisa que é muito violenta, que aos poucos nos foi conquistando e que agora chegamos a um ponto que é para aí onde é que vamos a partir daqui, não é? Então não é um cinismo, porque existe uma esperança para mim neste filme.   A esperança são as crianças ?   E do amor pela vida. Não é que as crianças seja isso. É uma leitura do filme, que é esta coisa das crianças serem a solução ou, para um futuro melhor. Eles vão fazer melhor do que nós. Não sei o quê. Só que muitas vezes esquecemos que as gerações anteriores fizeram isso connosco, não é? Então, nós somos a geração do futuro, da esperança, da geração anterior. Então, acho que é muito fácil falar isso, achar que a próxima geração. Mas como ? Se nos vêem a viver desta forma, como é que eles vão de repente dar uma volta de 180 graus ? Eu acho que é mais na nossa geração ainda. Nós é que temos que encontrar uma forma de lidar com isso, de viver de uma forma diferente. Talvez seja quase uma ideia utópica, ou seja. Mas talvez não também, porque também não é assim tão utópico, não é? De tentar sair desse mundo digital e viver no mundo real.   E finalmente, que cinéfilo é o Daniel Soares? Mais que não seja em relação à sua trajectória que passa por Portugal, mas também, e em larga escala, pela Alemanha. Que tipo de filmes é que retém a sua atenção e que foram construindo o responsável de cinema que hoje é e que deve ter sido? Um cinéfilo de longa data, presumo ?   Por acaso, não por acaso, nunca cresci muito com cinema. Nunca tive ninguém que me mostrou filmes. Comecei a ver cinema, sei lá, uns sete ou oito anos atrás. Na verdade, até porque os filmes que eu via quando era criança não me revia neles. Sempre achei muito ter esta noção de estar a ver um filme e pronto. Mas sei lá, os primeiros filmes que eu comecei a ver que na verdade não têm muito a ver com os meus filmes que eu faço hoje em dia, mas foram os filmes do Kiarostami, que era o cinema que se calhar se aproxima um pouco mais...   Abbas Kiarostami do Irão.   Sim, mas por exemplo, o Michelangelo Franmartino. Eu lembro-me de ver o "Quatro volte" e achar que, sei lá. Primeiro ficaste super inspirado e ao mesmo tempo sentir que isto seria um tipo de filme que eu conseguisse fazer, mesmo sendo super complicado, obviamente. Eu lembro também Lisandro Alonso, primeiros filmes. Lembro me também do "Toni Erdmann", da Maren Ade. E aí já se aproxima, de cert

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  3. 6 DE MAI.

    Livraria Portuguesa e Brasileira é e quer continuar a ser local de encontro da lusofonia em Paris

    O Dia Mundial da Língua Portuguesa foi celebrado em Paris pela Livraria Portuguesa e Brasileira, dedicada a livros e autores lusófonos. O dia foi assinalado com uma série de eventos desde leituras de poesia até espectáculos de rua, com a livraria a apostar agora em reunir todos os amantes da lusofonia em Paris. O Dia Mundial da Língua Portuguesa foi assinalado em Paris na terça-feira, dia de 5 de Maio, pela Livraria Portuguesa e Brasileira com espéctaculos de rua, conversas e poemas, num esforço para promover a língua e também atrair novos falantes para o Mundo lusófono. A livreira Corinne Saulneron, que dirige esta livraria, explicou à RFI a importância de assinalar este dia. "Porquê estudar português? Eu fi-lo porque namorei com um português. Então eu tive interesse em conhecer a sua cultura e acabei por entrar num outro mundo e acho que é uma riqueza. Quanto mais línguas as pessoas souberem, mais Mundo conhecem. E o português traz isso. Traz histórias histórias, histórias africanas, histórias brasileiras. E é isso que nós temos de fazer. Temos de colocar a língua em cima da mesa. A língua portuguesa tem de atrair as pessoas porque esta livraria tem 40 anos de existência o que quer dizer que as pessoas têm vontade de aprender o português e vontade de aprender sobre a cultura portuguesa. Tem de se voltar às raízes portuguesas. E então temos também nós, actores desta língua, de fazer que esta língua ressoe", explicou Corinne Saulneron. Para trazer a lusofonia até à Praça de l’Estrapade, no coração do quinto bairro da capital francesa, a Livraria Portuguesa e Brasileira contou com a de associações, como o grupo teatral brasileiro Quarto Além, a associação Herança Brasileira que divulga o português junto dos mais jovens, mas também autores, editores e outros actores da língua de Camões e de Machado de Assis em França. Uma das atracções do dia foi Camila Shwafaty, encarnando a palhaça June Piruá Abramovich, que chegou há cerca de dois anos a Paris e que alterna entre o francês e o português nos seus espéctaculos de rua, o que lhe mostra a diversidade e amplitude do domínio de diferentes línguas. "Dá para brincar muito, porque são culturas similares, mas ao mesmo tempo têm grandes diferenças. E também porque quando a gente fala mais de uma língua, o cérebro - quando você tá falando português, francês, aí vem uma pessoa que fala inglês porque Paris é muito turístico, então a coisa fica tipo você tenta falar uma língua e vai outra - dá um nó. Mas isso é óptimo para o jogo de palhaço, então funciona super bem. Tem os desafios, mas também é um desafio que para o palhaço serve muito bem, porque os palhaços trabalham com o erro, com com o perigo de errar, com essas coisas. A minha cultura está no meu corpo, as músicas. Então, assim, por mais que eu faça um espectáculo em francês, uma intervenção em francês, vai ter coisas que vão ser em português", explicou Camila Shwafaty. A Livraria Portuguesa e Brasileira tem apostado nos últimos meses numa maior presença nas redes sociais e também num programa de eventos intenso, continuando a renovar-se. Corinne Saulneron quer agora criar uma rede de falantes de português em França de forma a mapear e divulgar da melhor forma a língua portuguesa. "A nossa chegada ao Instagram foi um pedido dos nossos clientes brasileiros. Os brasileiros estavam sempre a dizer-me, mas não, não está no Instagram, não pode ser. Eu tenho muita ajuda de pessoas brasileiras com as redes sociais. Estão a fazer isso gratuitamente. Estão a fazer isso porque elas também acham que a livraria é um lugar que não só é um lugar de venda, é um lugar onde as pessoas se encontram, podem fazer coisas, juntar-se e o tempo agora é de nos juntarmos. E eu tenho também esta ideia de fazer um salão de livrarias estrangeiras em Paris. Há 38 livrarias estrangeiras com a Rachel, a minha estagiária. Já pedimos a opinião das livrarias estrangeiras, da livraria italiana, polaca e todos estão a dizer: claro que sim. Temos de fazer isso. É uma boa ideia. Então vamos fazer isso também", concluiu Corinne.

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  4. 27 DE ABR.

    À descoberta da artista portuguesa Rita RA em Paris

    Neste programa, fomos até a um atelier em Belleville, em Paris, para conhecermos Rita RA, uma artista multidisciplinar, de 34 anos, que se define como “caçadora recolectora” de materiais e de momentos. Entre instalação, vídeo, arte digital, design, fotografia, pintura, colagem e tanto mais, Rita RA vive a arte como uma forma de aproximar as pessoas e isso reflecte-se nos seus workshops, exposições e projectos associativos. Rita Rebelo de Andrade, nome artístico Rita RA, chegou a Paris em 2023 e vive e trabalha entre a capital francesa e a portuguesa. A aventura Paris-Lisboa começou com um estágio em Paris com a artista portuguesa Carolina E. Santo e com a sua associação, a "Assembler du Dehors", agora instalada num acolhedor atelier no bairro de Belleville. Depois do estágio, a artista continuou a trabalhar com Carolina E. Santo e alguns dos seus trabalhos poderão ser vistos entre 28 e 31 de Maio neste atelier, no âmbito das chamadas “portas abertas dos artistas de Belleville”. Rita RA formou-se em Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, fez Erasmus em Arte Multimédia em Ljubljana, na Eslovénia, e um mestrado em Artes Cénicas na Universidade Nova de Lisboa. Trabalhou na produção de eventos da Galeria Underdogs (fundada por um dos mais internacionais artistas portugueses contemporâneos, Alexandre Farto, aka Vhils) e na produção artística do Festival Iminente, em Lisboa, que junta música, artes visuais e cultura urbana. Também ajudou a desenvolver o Centro Cultural Brotéria e está a co-criar o projecto associativo Casa Redonda, igualmente em Lisboa (que vai ser oficialmente lançado a 21 de Maio). Para ela, a arte é uma forma de se estar na vida e reflecte-se em projectos criativos colaborativos com outros artistas e com o próprio público. Rita diz que quer "aproximar pessoas, gerar pensamento crítico e desenvolver pontes" e é isso que tem feito e promete continuar a fazer. Uma das peças que ela mais acarinha chama-se “Comunhão” e é uma obra impressa em papel hóstia e destinada a ser comida pelos visitantes. No dia da entrevista à RFI, em cima da mesa de trabalho do atelier de Belleville, estavam livros, postais e uma resma enigmática de papéis de tom pastel que têm muitas histórias para contar. Quisemos conhecer algumas dessas histórias, das criações em curso, dos projectos e ambições e foi por essas andanças que a conversa divagou. Para ouvir neste programa.

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  5. 20 DE ABR.

    Cabo Verde: Contagem decrescente para o Festival Kontornu na ilha de Santiago

    A quarta edição do Festival Kontornu - Dança e Artes Performativas vai decorrer de 11 a 16 de maio, na ilha de Santiago, em Cabo Verde. O evento abre com um espectáculo da companhia Raiz di Polon e fecha com uma “battle” de danças urbanas. Pelo meio,  há um workshop dirigido pela coreógrafa cabo-verdiana Marlene Monteiro Freitas, uma das principais autoras da dança mundial contemporânea. O Festival Kontornu afirma-se como uma plataforma internacional dedicada à dança e às artes performativas e reúne artistas e profissionais da cultura de diferentes geografias.  Este ano, o evento vai ter um workshop dirigido pela coreógrafa cabo-verdiana Marlene Monteiro Freitas.  O Kontornu abre a 11 de Maio com Raiz di Polon, uma companhia histórica da dança contemporânea de Cabo Verde, e vai terminar com uma “battle” de danças urbanas, a 16 de Maio. Há, ainda, uma iniciativa integrada no festival que se chama KOPANO – Plataforma de Encontro e Cooperação Internacional, que junta programadores, curadores, artistas e representantes de festivais internacionais. O director do Festival Kontornu, Bruno Amarante (nome artístico Djam Neguin) falou-nos sobre a edição deste ano, novamente marcada pelo “milagre” porque se faz graças à “generosidade” dos artistas. Desta vez, o festival decorre nas vésperas das eleições legislativas e o seu director espera que o novo Governo olhe para a cultura com “políticas públicas sólidas e não só com micro-apoios”. Oiça aqui o programa.

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  6. 17 DE ABR.

    O abraço da nova voz de Cabo Verde, Mário Marta

    O cantor Mário Marta, com origens cabo-verdiana e bissau-guineense, morreu esta quinta-feira, em Portugal, no dia Mundial da Voz. Em jeito de homenagem, a RFI torna a publicar uma entrevista realizada com o artista em Outubro de 2021, em Lisboa. O cantor Mário Marta é a nova voz da música Cabo Verde. Inconfundível, faz-nos embarcar nos mais diferentes ritmos de forma tão sedutora e quente que sentimos toda a Morabeza das ilhas embaladas pelo Atlântico. O cantor, que partilha raízes com Guiné-Bissau e Cabo Verde, já está a ver os frutos da aposta em gravar temas originais. Logo com o primeiro single, Aguenta, um funaná onde Mário Marta conta com a colaboração de Lura, conquistou o reconhecimento internacional. Recentemente, nos Estados Unidos da América, Aguenta venceu os International Portuguese Music Awards na categoria Best World Music. E, enquanto aguardamos pelo lançamento do álbum, Mário Marta continua a somar reconhecimento pelo trabalho desenvolvido. Com o single Boa, o cantor está nomeado para os prémios CVMA (Cabo Verde Music Awards) nas categorias Melhor Interprete e Melhor Coladeira do Ano. Mas, se só agora é que Mário Marta assume o centro do palco ao lançar os primeiros trabalhos discográficos em nome próprio, um facto é que o menino que nasceu numa família de músicos desde criança que vive no planeta música. Por exemplo, Cesária Évora e Tito Paris são apenas dois dos nomes da música de Cabo Verde que sempre fizeram parte do quotidiano de Mário Marta e das tocatinas que aconteciam na casa da família em São Vicente. A RFI foi ao encontro de Mário Marta para conhecermos um pouco melhor a nova voz de Cabo Verde.

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  7. 15 DE ABR.

    França aprova lei de restituição de obras de arte: “Restituir é confessar”

    O Parlamento francês aprovou esta segunda-feira, 13 de Abril, por unanimidade uma nova lei que cria um mecanismo permanente para a restituição de bens culturais saqueados durante parte do período colonial, dispensando votações caso a caso. A medida é vista como uma mudança na relação da França com a sua memória imperial. O artista plástico guineense, Nu Barreto, saúda o avanço, mas lembra que “o facto de restituir não quer dizer que a reparação foi feita”. A França deu esta semana um passo simbólico e político ao aprovar por unanimidade uma nova lei sobre a restituição de bens culturais retirados das antigas colónias durante o período colonial. Depois do voto favorável no Senado, o texto segue agora para comissão mista partidária, nesta que é a última etapa antes da adopção definitiva da lei. Na prática, a legislação estabelece um mecanismo permanente que vai permitir devolver obras de arte, objectos rituais e peças patrimoniais sem precisar de aprovar uma nova lei para cada processo. Até aqui, cada restituição exigia um procedimento legislativo autónomo, tornando moroso e politicamente complexo o regresso de peças reclamadas pelos países de origem. Para o artista guineense, Nu Barreto, a decisão representa um avanço claro: “Só posso considerar positivo”, afirma. “Vai permitir que as obras sejam restituídas no seu contexto e talvez possa permitir uma certa independência aos países que sofreram este fenómeno de obras que foram tiradas, roubadas.” O artista sublinha que a devolução não se resume ao acto jurídico. Trata-se também de devolver às populações o acesso a um património que lhes pertence. “Permite que essas obras estejam na disponibilidade do povo, e que o povo possa usufruir dessa riqueza toda.” A nova lei surge num momento em que vários países europeus são pressionados a rever o legado colonial presente nos seus museus e colecções. Em causa estão milhares de peças levadas para a Europa em contextos de guerra, ocupação, pilhagem e desigualdade. Ainda assim, Nu Barreto considera que a restituição, por si só, está longe de fechar o debate histórico. “A memória exige processos muito mais profundos do que isso”, sustenta. “Não é o facto de terem devolvido aquilo que foi retirado ao continente africano que fará com que as coisas sejam repostas.” E acrescenta: “A história da colonização é uma história longa, uma história profundamente sangrenta. O facto de restituir não quer dizer que a reparação foi feita.” Na sua leitura, o essencial passa também pelo reconhecimento moral e político das violências cometidas. “Faltou o humanismo, sobretudo da parte dos colonizadores”, sublinha. “Restituir é confessar” O artista guineense espera que a decisão francesa tenha impacto além-fronteiras. “Gostaria que isto fosse uma espécie de bola de neve”, afirma. “Que os outros países também possam ter esse dinamismo, essa vontade de olhar para trás e reconhecer que efectivamente certas coisas que temos aqui não são nossas.” Para Nu Barreto, restituir é também um acto de verdade histórica. “Restituir é confessar”, resume. O artista guineense lembra que vários países africanos já deram passos relevantes neste domínio, citando Benim, Nigéria e Costa do Marfim. Refere igualmente a Guiné-Bissau, cujo património se encontra disperso por museus de vários continentes. “A Guiné também tem peças espalhadas pelo mundo. Já visitei museus onde encontrei peças da Guiné e fiquei a pensar como é que essas peças chegaram ali”, recorda. A restituição levanta questões práticas: conservação, segurança, musealização e acesso público. Nem todos os países dispõem ainda de infra-estruturas preparadas para acolher acervos devolvidos. Nu Barreto reconhece essa realidade, mas insiste que o processo deve avançar. “Há países já com passos muito mais adiantados. Sei que o Benim, por exemplo, já está a construir museus para albergar essas peças que estão a chegar aos poucos.” Apesar das dificuldades, considera que o valor simbólico supera os obstáculos materiais. “É algo muito positivo, porque vai permitir aos nativos voltarem a apropriar-se das peças, das obras que têm, para poderem enriquecer psicologicamente ou intelectualmente.” A restituição não empobrece quem devolve, abre novas possibilidades de diálogo Nu Barreto insiste no papel decisivo da criação artística para recontar a história e reconstruir relações entre continentes. “Não conseguimos descartar a arte da nossa vida. A arte caminha connosco da nascença à morte”, afirma. Na sua visão, a restituição não empobrece quem devolve, abre novas possibilidades de diálogo. “Os que restituem hoje não perdem alguma coisa”, lembra. “É só uma questão de viajarem para entrarem em contacto com aquilo que tanto gostaram e tanto amaram.” E conclui com uma ideia de reciprocidade cultural: “A arte vai permitir esse intercâmbio. Esse intercâmbio é bastante valioso nos dois sentidos, porque vai permitir uma reconsideração do outro enquanto ser humano.”

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  8. 7 DE ABR.

    História inédita de português na Guerra Civil de Espanha publicada em França

    Alberto de Oliveira Martins foi um anónimo que se deixou levar pelos ventos da história e que, no final da sua vida, decidiu contar o que viveu com a ajuda de uma velha máquina de escrever que o filho lhe ofereceu. Alberto nasceu em Portugal durante a Primeira Guerra Mundial, viveu a chegada da ditadura, combateu o franquismo na guerra civil de Espanha, foi preso num campo de internamento em França na Segunda Guerra Mundial e esteve detido nas prisões salazaristas em Portugal. Tudo isso escreveu nas suas memórias no final dos anos 80. Quarenta anos depois, o seu filho, Joaquim, partilhou o texto com o historiador Victor Pereira que foi à procura dos rastos desta história invulgar. O resultado é um livro intitulado “Les Carnets d’Alberto. De Porto à la guerre d’Espagne” [“Os Cadernos de Alberto. Do Porto à Guerra de Espanha”] que vai ser publicado em Maio em França, pela editora Chandeigne & Lima, e sobre o qual estivemos à conversa com Victor Pereira. RFI: Do que fala o livro “Les Carnets d’Alberto. De Porto à la guerre d’Espagne” ? Victor Pereira, Autor e historiador: “Há mais de um ano, Joaquim de Oliveira Martins veio ter comigo dizendo que o pai tinha combatido durante a Guerra de Espanha e que tinha combatido na coluna Durruti, uma coluna dirigida pelo próprio Durruti, que foi um dos mais célebres anarquistas espanhóis. Disse-me que o pai dele tinha combatido lá e que no fim da vida, isto é, no fim dos anos 80, ele tinha escrito não propriamente um livro, mas umas Memórias que, depois, ele me emprestou para eu ler. É um relato fantástico de uma vida que começa em 1915 no Porto e cujas Memórias acabam em 1943,1944, quando regressa a Portugal. O que eu fiz foi convencer - e não foi muito difícil -a Anne Lima da editora Chandeigne & Lima para publicar este texto, que é inédito e há muito poucas obras sobre a participação de portugueses na Guerra de Espanha.   O que eu fiz foi ir aos arquivos em Portugal, em Espanha e em França para tentar encontrar rastos da vida dele, pensando que ele tinha vivido várias aventuras pouco comuns. Encontrei documentos, nomeadamente no Arquivo da Guerra Civil de Espanha, em Salamanca, e fui encontrando várias coisas sobre ele. Muitas vezes, eram coisas que não parecem importantes, como recibos de consulados portugueses em Espanha, e fui conseguindo conferir o que ele dizia porque ele escreveu 40, 50 anos depois e a memória distorce um pouco os eventos. Então, o livro é feito das memórias dele e de uma introdução minha que é bastante longa que é uma introdução biográfica com o que eu consegui encontrar nos arquivos nos vários países para compreender o percurso pouco comum dele.” Há dois textos no mesmo livro: o texto de Alberto de Oliveira Martins, que ele escreveu como testemunho autobiográfico, e a investigação do historiador Vítor Pereira sobre este anónimo... “É isso mesmo. São dois textos. Começa com o meu, mais ou menos 200 páginas, baseado no texto dele, nos arquivos, nas memórias de pessoas que combateram na Guerra de Espanha. Ele combateu numa frente em Aragão, com milicianos que vinham de Barcelona. Li muitas coisas sobre esse combate à volta de Saragoça, onde ele esteve mais. Depois, ele tem o que aconteceu com milhares de espanhóis quando os republicanos foram perdendo a guerra e houve a Retirada, isto é, a entrada de 475.000 pessoas que atravessaram a fronteira entre a Catalunha espanhola e a francesa. Ele faz parte desse milhares de pessoas e é internado num campo de internamento em França. Depois regressa a Portugal e é preso no Aljube. Então, eu vou também contando a história dele, a história de outras pessoas, nomeadamente portugueses, que combateram na Guerra de Espanha e também das pessoas que foram presas durante os anos 1940, 41 em Portugal - no Aljube e em Caxias. Depois, há o texto dele, que começa na infância até quando ele tem mais ou menos 30 anos.” A história de Alberto de Oliveira Martins também ilustra um ângulo morto da História? A história dos portugueses que lutaram na guerra civil de Espanha não é uma história muito conhecida, pois não? “Não é muito conhecida. Foram menos de dez portugueses que escreveram sobre a guerra que eles fizeram e, muitas vezes, são Memórias muito politizadas, o que é bastante normal. Há Memórias de um comunista, há Memórias de um anarquista, alguns textos biográficos de pessoas republicanas. São pessoas mais cultas que contam isto do ponto de vista da mobilização política.” Pode dizer-nos nomes? “Por exemplo, o anarquista Manuel Firmo, o comunista Francisco Ferreira, o Jaime Cortesão, o Jaime de Morais. Foram textos que foram publicados desde os anos 70 até há pouco tempo, como o texto de Jaime de Morais que foi publicado pela Cristina Clímaco e Heloísa Paulo. Mas, no caso de Alberto, ele já está em Espanha e é bastante por acaso que ele vai começar a guerra. Então, ele não tem uma visão muito politizada e, por exemplo, quando se compara com outros textos de memórias de espanhóis, franceses ou de outras pessoas que combateram na guerra, eles têm uma visão muito ideológica. Alberto conta muito a vida quotidiana dos combatentes, o esforço para comer não muito mal, as brincadeiras entre soldados, como eles ouviam a rádio. É o relato da guerra por um homem, isto é, ele não faz um grande discurso sobre a guerra, ele conta o seu quotidiano de combatente. Então, são muito poucos os relatos [de portugueses] sobre esta guerra, ainda menos por pessoas não politizadas e que não estão a tentar legitimar o que eles fizeram ou não fizeram. É um relato do quotidiano.” Na introdução, o Victor Pereira escreve que “ele não parte para Espanha em nome de um ideal antifascista”, mas “é apanhado pela guerra quando já está em Espanha”. Por outro lado, quando está na guerra, ele não faz dos soldados heróis e até fala da confraternização com soldados do campo adversário. Isto vai ao encontro do que acaba de dizer, não é? “Sim, sim. Muitas vezes há muito essa imagem da Guerra de Espanha que foi uma guerra que mobilizou as opiniões públicas ocidentais em França, Portugal. Na minha introdução, falo sobre como é que a Guerra de Espanha também foi uma guerra quase interna a Portugal. Podemos realçar quando, em Julho de 1937, há uma tentativa de atentado a Salazar que falha e o objectivo das pessoas que tentaram matar Salazar era para tentar enfraquecer o campo nacionalista espanhol porque Salazar foi um grande apoio desde o início aos insurrectos espanhóis e a Franco. O Alberto de Oliveira Martins não tem essa visão politizada. Por exemplo, há uma parte onde ele escreve que quando começou a guerra civil, havia uma aldeia que estava do lado nacionalista e a aldeia ao lado estava do lado republicano e os combatentes dos dois lados conheciam-se pessoalmente. Por vezes, odiavam-se há vários anos, até há várias décadas, mas o que ele conta é que, por vezes, há jovens soldados que estavam muito perto uns dos outros e o que eles fizeram foram pactos dizendo: ‘Olha, não vamos matar ninguém. Vamos atirar para o ar. Assim, os nossos oficiais pensam que nós estamos a combater’. Às vezes, até falavam uns com os outros e faziam estes pactos de paz muito localizados. Isso não aparece tanto nos outros textos porque o que aparece é uma luta de vida e de morte entre o fascismo e antifascismo. Então, ele foca coisas que muitas vezes não são focadas nas memórias da Guerra de Espanha.” Mas de que lado lutou Alberto de Oliveira Martins? “No início, quando ele está em Espanha, ele não tem sorte, como aconteceu a milhares de pessoas. Ele encontra-se num comboio que vai até Saragoça. Saragoça foi tomada pelos militares rebeldes que depois vamos chamar os franquistas. Eles querem imobilizá-lo no campo dos franquistas e ele foge. Algumas semanas depois, ele encontra-se com o próprio Durruti, um dos chefes dos anarquistas que impediu os militares de tomarem o poder em Barcelona. Em 19 e 20 de Julho de 1936 há luta nas ruas de Barcelona, o Durruti e outros camaradas da CNT (do Movimento Anarquista) conseguem domar a tentativa de golpe de Estado e, a partir de 24 de Julho vão milhares de catalães e anarquistas até Saragoça para tentar libertar Saragoça, que tinha sido ocupado pelos militares. Ora, ele estava numa aldeia onde chega o Durruti e o Durruti dá-lhe uma arma e ele vai seguir e vai combater durante quase três anos. A coluna Durruti vai ser uma das mais conhecidas da guerra de Espanha e ele vai combater durante três anos em Aragão, depois na Catalunha. Como é um jovem de 1m80, bastante esperto, bastante ágil, que toda a gente considera que espanhol, ele vai participar em acções de sabotagem no curso de guerrilhas. Então, ele vai combatendo, ainda que ele não tenha ido para combater. Foi a guerra que foi ter com ele. Estando na guerra, ele combate até ao fim, até Janeiro de 1939.” Temos noção de quantos portugueses participaram nesta Guerra Civil Espanhola? “Isso é muito difícil. Há, desde os anos 80, alguns estudos, nomeadamente do César Oliveira, também de Cristina Clímaco sobre o exílio português em França e em Espanha. Há vários números, por vezes 500, vai subindo até 2.000, alguns estudos até falam em mais, e estou a falar do lado dos republicanos, aqueles que ajudaram a República espanhola a lutar contra as tropas franquistas.  Muitas vezes fala-se em alguns milhares, 2.000, talvez mais. Um dos grandes problemas - como no caso do Alberto que nunca é referido como português e o nome dele aparece em castelhano nos arquivos - nas listas de nomes ninguém pode saber se são portugueses. Talvez muitos mais portugueses tenham combatido durante a Guerra de Espanha, mas eram considerados espanhóis e havia antes da guerra mais de 20.000 até 30.000 portugueses que

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