Calango Sagrado

Calango Sagrado

Um podcast para falar sobre estudos da religião, história, mitologia antiga, livros, séries, filmes e temas ligados à linguagem religiosa e seus efeitos na cultura, política e sociedades.

  1. Hillazon-Tekhelet: Azul da cor do mar

    07/06/2023

    Hillazon-Tekhelet: Azul da cor do mar

    Entre essas culturas do Mediterrâneo e do Levante houve um momento em que era difícil a separação das cores púrpura e o tekhelet. Sendo que a primeira cor ficou com o uso restrito a quem pudesse pagar e durante os vários impérios da antiguidade, apenas a alta nobreza e posteriormente o uso fica exclusivo à realeza e ao palácio.   Na cultura dos hebreus essa cor sofreria algum tipo de especificidade para diferenciar-se dos demais tons de lilás dos cananeus da famosa cidade de Tiro que aprenderam dos outros povos do Mediterrâneo a extração de um pigmento de um caracol, o conhecido Murex Trunculus que estava presente por toda a costa mediterrânea. Deste caramujo era extraída a cor púrpura que logo ficou restrita e relacionada à realeza e à nobreza.   O processo de separação cultural, linguística, dietética e de elementos políticos dos povos cananeus e dos antigos hebreus envolveu um período de rejeição da cultura original do Levante, adaptação e apropriação com fatores diferenciados da cultura de origem. Nesse processo de apropriação houve a criação de histórias e mitologias que justificassem essa separação e distinção dos hebreus de seus vizinhos. Esse processo também envolveu historiografia e historiosofia que pudesse explicar tal distinção. Essa diferença não podia meramente acontecer por razões humanas, era preciso haver algo divino, fora do comum para que as gerações futuras não se aproximassem dos cananeus.   No períodopós-exílio quando o texto do Pentateuco foi compilado e organizado, uma das ordenanças da classe sacerdotal, os prováveis redatores da Torá. Os textos da Torá, marcam especificamente várias dessas diferenças dos hebreus com os outros povos cananeus, e relatam o possível porquê, como ordem divina para estas distinções. Voltando ao tema de nobreza e elite que nesse tempo eram compostos necessariamente pela classe sacerdotal e uma elite que coordenava e financiava a redação dos texto era que os sacerdotes usassem um tecido com uma que representasse o azul messiânico.   Criaram-se várias histórias sobre a origem desse azul messiânico, como a cor preferida do rei Davi, além de ser também a cor do trono do “Din” (julgamento) e simboliza o Shamayim (céus) pois, seria dessa mesma cor o trono de Javé. Os diversos tons de azul, mudam de acordo com cada escola de pensamento judaico. Em suma, esse azul messiânico e exclusivo dos hebreus, o tekhelet estava associado à realeza e à classe sacerdotal, que no pós-exílio também ocupou a função real/política nesse “novo Israel.” Até que chegassem os romanos, e instituíssem que esse azul, agora conhecido como púrpura seria exclusividade da nobreza romana. Os judeus, agora colonizados, não condiziam com o status de exclusividade para usar a tal cor. Por volta do século 5 E.C. Apenas o imperador podia usar a cor púrpura, no que ficou conhecido como a lei suntuária, o Sumptuariae leges.   Textos extra bíblicos como a mishnah, o talmude e reflexões de Maimônides trataram de explicar alguns dos mandamentos da Torá que apresentam esse azul messiânico. Bem como a sua origem, o mítico  animal Hillazon. Como um segredo que perde pela história o Hillazon desapareceu e com ele a esperança do cumprimento do estabelecimento do reino sacerdotal com o azul messiânico e o trono de Javé.   No final do século 19 um rabino polonês seguiu em sua busca pelo Hillazon e pelo azul messiânico. Esse rabino chegou a dizer que sem que houvesse as roupas sacerdotais com o azul messiânico, tekhelet, o Messias não podia chegar. E ele como Elias, em sua busca estava preparando o caminho para a construção do terceiro templo e o estabelecimento do reino sacerdotal comandado pelo Messias e seu trono azul, tekhelet.   Mas o que era o Hillazon? Como todo o segredo antigo a ser decifrado, a busca pelo animal que supostamente traria o Messias, teve suas controvérsias e milhares de páginas escritas, em livros, dissertações e incansáveis debates entre vários segmentos judaicos.

    20 min
  2. Nephilim - Gigantes pela própria natureza

    20/05/2023

    Nephilim - Gigantes pela própria natureza

    הָאֱלֹהִים אֶל-בְּנוֹת הָאָדָם, וְיָלְדוּ לָהֶם:  הֵמָּה הַגִּבֹּרִים אֲשֶׁר מֵעוֹלָם, אַנְשֵׁי הַשֵּׁם.  {פ} (Bíblia Hebraica – Texto Massorético)   “Os Nephilim estavam sobre a terra e aconteceu que os filhos de Deus [Elohim] deitaram-se com as filhas do homem e geraram filhos: eles são os herois, homens de renome.” tradução de Gênesis 6:4 de Robert Alter. (versão em português, tradução livre)   Estamos no episódio 4 de nossa série Monstros Bíblicos. No episódio de hoje falaremos sobre os Nephilim.  No mundo antigo em diversas culturas havia uma história sobre um dilúvio que inundou o mundo conhecido. A criação de histórias e mitos, na maioria das vezes serve como um recurso linguístico para explicar uma narrativa, e lidar com o imaginário de povos e culturas distintas. A construção de histórias precisa de sustentação narrativa e também de justificavas para entrar no mundo da oralidade, onde verossimilidade poderia ser apenas um simples detalhe. No mundo do folclore/mitologia dos antigos hebreus também era assim. A história do dilúvio precisa encontrar um mote que fizesse sentido à audiência hebreia, permeada naquele momento pela idealização moral de uma desordem cósmica que apenas Javé, e Javé somente, era capaz de reordenar. Não entraremos nos motivos teológicos do dilúvio (campo dogmático), mas apenas no recurso narrativo, folclórico onde uma das justificativas para tal evento cataclísmico seria a união sexual entre um grupo de seres celestes e mulheres. Os B’nei Elohim, traduzido como “anjos” em algumas versões, são seres que podem habitar o mundo dos deuses, não necessariamente anjos, no sentido em que entendemos hoje em dia. A história dos Nephilim é contada e recontada com mais propriedade na literatura apócrifa do período que conhecemos como judaísmo do segundo templo. Essa religião do segundo templo absorveu com mais ênfase aspectos do pensamento persa, egípcio e o próprio folclore hebreu/cananeu antigo é retomado e revisto. A relação causa e efeito agora torna-se uma constante na explicação de fenômenos históricos, onde o metafisico entra no mundo físico. Numa área conhecida, como historiosofia, aquilo que está por trás das histórias contadas. Os livros de Enoque (1Enoque)  e o Livro do Jubileu são literaturas que mencionam a possível origem dos Nephilim. Na literatura enoquita está escrito que 200 seres celestes, chamados de sentinelas coabitaram com mulheres e geraram os Nephilim. Esses seres, sentinelas, também ensinaram às mulheres a mística, encantamentos e como usar plantas e raízes para a cura, além da arte das pinturas, adereços e cosmética. O livro canônico de Daniel também apresenta a palavra sentinela para referir-se a uma classificação de ser angelical. O livro de Enoque relata ainda que os sentinelas foram punidos, aprisionados em correntes num abismo e no Dia do Messias, serão julgados e condenados. No Livro dos jubileus é relatada a suposta origem, caráter e julgamento dos nephilim. No dia do juízo final.  O desenvolvimento da história narrada no livro diz que os espíritos deles transformaram-se em demônios. O Livro do jubileu também confirma a tese que a presença da maldade dos nephilim causou um desiquilíbrio cósmico na criação e Javé não teve uma alternativa a não ser o dilúvio que destruiria o avanço dessas criaturas. A presença dos Nephilim no mundo traria a maldade e segredos que os humanos não poderiam saber. Na narrativa bíblica parece existir descendentes dos nefilim ainda em terras cananeias a serem conquistadas, na contação de história do êxodo e os habitantes de Canaã e até no mítico embate do jovem Davi e o famoso gigante Golias. Seriam os nefilim, gigantes ou apenas homens sanguinários? De todos os modos, estamos vendo nessa série que alguns dos monstros relatados nas histórias do imaginário hebreu são mais humanos que bestiais.

    21 min
  3. Ziz - A cacatua de Javé

    05/05/2023

    Ziz - A cacatua de Javé

    Ziz (זיז‎) (Salmos 50:11)   יאיָדַעְתִּי כָּל־ע֣וֹף הָרִ֑ים וְזִ֥יז שָֹ֜דַ֗י עִמָּדִֽ “Eu conheço todas as aves das montanhas e as Ziz dos campos [são] minhas.” (tradução minha)   Estamos em nosso terceiro episódio da série monstros bíblicos e hoje vamos falar de um dos pets de Javé menos conhecidos, a ave Ziz.   “Aconteceu uma vez que um viajante em sua embarcação viu um pássaro. Quando essa ave se levantou das águas, as águas cobriam apenas suas pernas e sua cabeça tocava o céu. Os que a viram pensaram que as águas não eram profundas naquele ponto e pensaram que podiam se banharem ali. O pássaro que os viajantes viram, não era outro, se não o Ziz. Suas asas são tão grandes que podem encobrir a luz do sol. Elas (asas) protegem a terra contra os ventos do sul; sem a ajuda das asas de Ziz a terra não seria capaz de resistir aos ventos que sopram do sul. O fluido delas uma vez inundou sessenta cidades e o seu revoar destruiu trezentos cedros”.                                                                                  ( Haggadot judaica-Tradução livre)     Ziz é um animal grifo da mitologia judaica, é dito que com suas asas é capaz de cobrir a luz do sol. É uma das bestas primevas criadas por Javé e domina sobre os céus e seus dois consortes Leviatã e Behemoth governam sobre as águas e a terra respectivamente. Ziz foi também criado no quinto dia, juntamente com as outras bestas primevas. Ziz era quem dominava os céus. Pode ter tido influência das histórias sumério-acadianas, assírias, e até mesmo dos persas. Em histórias como a de Lamassu, que era uma divindade feminina protetora, representada em amuletos, portais e palavras de encantamento. Na mitologia suméria havia uma divindade híbrida homem-pássaro chamada Anzu, que pode também ter dado origem a Ziz. Anzu era o guardião dos céus e a personificação dos ventos do sul. Anzu causava medo e terror em muitos deuses e apenas o poderoso deus Marduk foi capaz de derrotar a grande ave. Anzu aparece em embates na Epopéia de Gilgamesh. Anzu pode ter sido a narrativa influenciadora para a fênix grega bem como de Ziz, na mitologia hebreia. A figura bíblica/hebraica dos querubim também podem ter tido influência na língua acadiana-suméria, a palavra que deu origem pode significar: portador de bençãos, e tinham um papel protetor, tais como os leões chineses presentes até os dias de hoje em vários lugares na China nas entradas de cidades e locais importantes. As histórias contadas da mitologia sumério-acadiana espalharam-se desde o crescente fértil, à península arábica e chegaram até ao levante mediterrâneo. Na sua função linguística mitológica em um determinado momento Ziz, simbolizou o império persa e a sua religião, o zoroastrismo. A religião persa, assim como as histórias do império acadiano, influenciou vários povos, inclusive mitologias hindus como a ave mitológica garuda, símbolo de países como a Indonésia, nos dias de hoje. Ziz assim como Leviatã e Behemoth estará presente no Dia do Messias, será parte do banquete servido aos justos por Javé. Diferentemente de Leviatã e Behemoth a Ziz foi mantida a capacidade de procriação. É dito que Ziz punha ovos e uma vez um de seus ovos quebrou e com o líquido desse ovo, sessenta cidades foram destruídas. A extensão das asas de Ziz era tão grande que podia cobrir toda a terra e encobrir a luz do sol. Ziz controla os ventos, as aves dos céus e causa tempestades. Controlando elementos da natureza e destruindo cidades inteiras com um simples revoar de suas asas.

    16 min
  4. Leviatã - o dragão pet de Javé

    29/04/2023

    Leviatã - o dragão pet de Javé

    Episódio 2 - Leviatã Leviatã (לִוְיָתָן)– É um animal mitológico que aparece em 6 passagens na Bíblia Hebraica (Antigo Testamento) Jó 3:8; 41:1; Isaías 27:1, 51:9 (dragão); Salmos 74:14; 104:26. Alusões a esse animal também aparecem em Amós, Ezequiel e no Novo Testamento em Apocalipse.   Os babilônios acreditavam que o mito cosmogônico da origem dos céus e da terra (Babilônia) foi a luta entre o jovem deus Marduk vence ao dragão marinho que habita nas profundezas das águas do mar, Tiamat. Tiamat era uma besta marinha que simboliza a desordem, o caos e criava deuses maus o que causava um desiquilíbrio na ordem cósmica. Marduk vence a Tiamat e partir de seus restos mortais cria os céus e a terra (Babilônia). Os cananeus em sua visão de criação também possuem uma luta cósmica de Yam e Baal. Baal num acesso de raiva e ciúmes pela predileção de El a Yam. Baal convence sua mãe a deusa Asherah e com o apoio do deus artesão/fazedor-de-armas Kothar que com suas armas mágicas o ajuda derrotar Yam, o monstro marinho que simbolizava o caos e a desordem. Baal derrota Yam, ocupando a posição de controle e poder, mais tarde usurpando um lugar de destaque no panteão ugarítico.     Apesar de serem histórias e cosmogonias distintas, a visão de mundo dos povos mesopotâmios, cananeus e posteriormente hebreus compartilham alguns paralelos de que o mundo das profundezas das águas representa o caos, a desordem algo a ser vencido. No campo dos estudos das religiões esse tema de luta cósmica como o Chaoskampf dentro da área de estudos dos povos do Antigo Oriente Próximo (ANE), ou Sudoeste Asiático.   O pensamento da antiga religião dos hebreus pode ter sido influenciado por outros mitos fundacionais e utilizando-se de historiosofia para explicar a sua origem, mas também um conceito que se desenvolveria ao passar do tempo, o fim da história. A linguagem apocalíptica, apresenta uma série de cataclismos atribuídos novamente a embates entre forças dessa vez políticas, com vendetas aos inimigos dos povos hebreus e recompensas aos justos e injustiçados hebreus, seguidores do deus combativo Javé. Leviatã é um desses inimigos símbolos do mal, do caos, do incontrolável, desconhecido que no pensamento hebreu foi criado no quinto dia da criação por Javé, junto com outros animais. Com um corpo extremamente brilhante, especialmente seus olhos, Leviatã tem o poder de “iluminar” as densas profundezas do mar. Foi criado junto com a sua contraparte Behemoth, e ambos foram esterilizados para não procriarem e assim não causarem dano à criação de Javé. Javé os mantém sob controle e nos Dias do Messias haverá uma outra luta cósmica onde os justos praticarão o esporte de caça a Leviatã e esse será o passatempo dos justos. O anjo Gabriel será empregado da tarefa de exterminar a Leviatã, mas dada a sua menor força diante da besta marinha, Javé usará sua espada e extirpará a Leviatã. Javé usará a pele de Leviatã para construir uma tenda para que os justos usem no banquete que significará o início do reinado do Messias. A carne de Leviatã abastacerá os mercados de Jerusalém. Com a pela da besta derrotada, Javé fará adornos e roupas para os justos e a pele que sobrar será estendida no muro da cidade de Jerusalém e o brilho dessa pele iluminará o mundo inteiro, como um testemunho do governo de Javé e seu Messias.  Essa história está descrita no Livro de Enoque e no livro de 2 Esdras 6:49, além do livro de orações judaicas, o Siddur. Leviatã é um dos pets de Javé. Ao mesmo tempo que representa o caos, a tirania e o poder político dos inimigos dos hebreus. É um impedimento ao reinado do Messias, com suas muitas cabeças. A serpente tortuosa, astuta e poderosa que pode comprometer a harmonia dos justos. Representa o começo e o fim da história, no mundo mitológico dos monstros bíblicos. No Apocalipse do Novo testamento, o dragão, é derrotado inaugurando o reino sem fim do Messias e dos justos.

    29 min

Sobre

Um podcast para falar sobre estudos da religião, história, mitologia antiga, livros, séries, filmes e temas ligados à linguagem religiosa e seus efeitos na cultura, política e sociedades.