Neste programa, vamos conhecer o universo da artista francesa Nina Laisné que está em exposição no FRAC Franche-Comté, em Besançon, entre 14 de Junho e 3 de Janeiro. A retrospectiva chama-se “Un monde renversé” [“Um mundo derrubado” ou “virado do avesso”] e mostra obras que propõem outras formas de ver o mundo e que esbatem as fronteiras entre teatro, música, cinema e arte contemporânea. O mundo de Nina Laisné situa-se na intersecção entre as artes performativas e as artes visuais. As suas instalações têm uma dimensão teatral e as suas criações para a cena também se deixam contaminar pelas artes plásticas. Com a exposição “Un monde renversé”, Nina Laisné transformou o museu num vasto palco onde o público pode ver o mundo a partir de outros pontos de vista, incluindo alguns ângulos escondidos da Historia, da Arte e da História da Arte. Nina Laisné interessa-se por personagens, comunidades e minorias situadas à margem das narrativas oficiais e trabalha a partir de arquivos, repertórios musicais antigos e lendas populares para construir "contra-narrativas" que questionem a História que nos é ensinada nas escolas e nos museus. Também tem aprofundado questões relacionadas com colonialismo, identidade e metamorfose. É este o mundo que ela leva ao FRAC Franche-Comté, em Besançon. “’Un monde renversé’ significa olhar para o mundo de outro ponto de vista, ao contrário, de forma diferente, inversa (…) Nesta exposição reunimos muitas obras de várias épocas, quase dez anos, e o mais óbvio, ao reunir tudo, foi falar de minorias, de hibridação, de coisas que realmente são a essência do meu trabalho, mas que eu não percebia assim tão frontalmente. Esta oportunidade de apresentar todas estas obras juntas realmente muda a forma de ler, de receber essa mensagem. E claro, no meu mundo, sempre tem um espaço muito grande, uma importância muito grande para narrativas diferentes, narrativas contrárias, coisas que sempre ficam na sombra dos relatos oficiais, figuras marginais ou figuras que foram apagadas, silenciadas”, conta à RFI. Nos últimos anos, a artista nascida em 1985 ganhou maior projecção em França e no estrangeiro graças ao seu trabalho em palco, nomeadamente com as colaborações com o coreógrafo francês François Chaignaud -“Romances inciertos, un autre Orlando” (2017) e “Ultimo Helecho” (2025) - que combinam canto, dança e música instrumental. Além das artes performativas, Nina Laisné é também artista plástica, música, fotógrafa, cineasta e apaixonada pela História. As suas pesquisas artísticas envolvem o estudo de arquivos históricos de diversos formatos que vão do século XV ao XIX, mas também a procura de músicas antigas, mitos populares e lendas esquecidas que depois transforma em experiências visuais, sonoras, imersivas, poéticas e políticas. Em Besançon, através de instalações, vídeos, esculturas, fotografias, livros, gravuras, pinturas e dispositivos sonoros, Nina Laisné propõe uma viagem por universos onde mito, memória, identidade, tradição, história e ficção se entrelaçam. Às vezes não se sabe onde fica a fronteira a realidade e a ficção. Às vezes, a lenda é a base para criar novas ficções. No centro deste “mundo revirado” e da sua investigação artística há lendas populares, tradições orais e repertórios musicais ancestrais que revisitam figuras híbridas ou em permanente transformação. É o caso do projecto “A mulher ursa”, que ela tem desenvolvido com a escritora Célia Houdart, a partir de lendas e tradições ouvidas em terras portuguesas, nomeadamente junto das adufeiras de Monsanto. Numa das salas do FRAC, além do adufe, há gravuras, livros, fotografias, arquivos sonoros e um vídeo que serve de prólogo ao filme que Nina Laisné está a escrever com Célia Houdart. A figura da “mulher ursa” acaba por questionar fronteiras entre humano e animal, mas também os próprios mecanismos intemporais que definem quem pertence e quem permanece à margem. “Estamos a escrever um filme de ficção que vai acontecer na zona de Monsanto, essa linda região da fronteira com a Espanha. É um lugar quase mitológico, por ser uma aldeia muito antiga, que tem uma história bem complexa, com muitas camadas, muitos níveis de história e também mitologia própria. Também apareceu essa tradição das adufeiras de Monsanto, um grupo de mulheres que tocam adufe e que também cantam. Eu gosto de chegar neste lugar e mudar um pouco a tradição, virar um pouco a história para abrir a outras mitologias, convidar outras histórias da Península Ibérica e, neste lugar, mudar um pouco o repertório, chegar com novas letras e também fazer aparecer nessa ficção a figura da mulher ursa, que seria uma mulher selvagem que convive com animais da montanha e, aos poucos, se aproxima dessa aldeia e começa a criar uma relação com o grupo de adufeiras”, descreve a artista. Nina Laisné vai à procura dos arquivos esquecidos ou censurados, de iconografias marginais, de relatos de resistência e vai destapando os silêncios da historiografia oficial. É o que acontece na sala que acolhe duas obras inéditas: uma extensão em grande formato da instalação “Na maré cheia, lá no meio da mata. Na maré baixa, surge a resistência” (2026) e a nova instalação “Portulanos virados” (2026). A primeira é constituída por duas pinturas em grande escala, frente a frente, que fazem uma releitura das imagens do Brasil colonial. Vemos escravos a trabalharem na vasta paisagem a preto e branco e vemos montanhas de vermelho-sangue, a cor extraída do pau-brasil, a invadirem a tela. No meio, estão os “Portulanos virados”, ou seja, 16 violinos abertos dentro dos quais a artista desenhou os tais “portulanos” (mapas de navegação) em que se vêem figuras da resistência à escravatura e ao colonialismo. “O problema é que, além de não falarmos do que aconteceu, também apagámos e silenciámos toda a memória das grandes figuras de resistência. Houve revoltas por todo o lado no Brasil, mas só se apresenta a dominação, a humilhação, coisas de violência. Só agora, nestes últimos dez anos, é que historiadores do Brasil começaram a recuperar essas histórias e a identificar gente - para além do Luís Gama e do Zumbi dos Palmares que já são ícones no Brasil - como Maria Filipa de Oliveira, que atacava barcos portugueses e franceses, ou também Zacimba Gamba que foi uma princesa da Etiópia que foi escravizada e que envenenava proprietários de fazendas. Houve muitas coisas de resistência e de criar quilombos e também as crenças de matriz africana, todas essas festas populares que hoje em dia são bem fortes no Brasil, mas que fora dessa fronteira são totalmente silenciadas”, explica. Nina Laisné quis lembrar também o papel de França na exploração do pau-brasil. “Já sabemos que Portugal foi muito importante nesta história e a responsabilidade é muito grande, mas nunca se fala da responsabilidade também da França na primeira época do coloniaismo. A França também foi nessas costas para roubar esse pau-brasil que foi muito usado para pinturas de tela e também na fabricação de arcos de violino”, recorda, sublinhando que o pau-brasil era comercializado pela sua capacidade tintorial e também para a produção de arcos para instrumentos de corda. O título “Un monde renversé” é também uma referência a um libreto barroco do compositor Estienne Moulinié e ilustra, desde logo, a importância que a música tem na vida da artista transdisciplinar. Nesta exposição, há, de facto, repertórios das tradições ibéricas, brasileiras, venezuelanas e italianas, de tempos idos e de outros mais recentes. Uma das obras mais impressionantes no FRAC é a monumental “Arca ostinata” (2021), concebida em parceria com o músico Daniel Zapico e que reproduz, de forma imersiva, um pouco do espectáculo com o mesmo nome. A instalação é musical e transforma um instrumento de música barroca, a teorba, numa construção escultórica em grande escala, decorada por criaturas fantásticas. “É verdade que esta exposição é muito musical porque, fora das imagens, a minha primeira linguagem seria a música. Especificamente, podemos falar da música tradicional, da música folclórica e da música antiga. A música antiga, para mim, é muito interessante quando tem algo popular e colectivo, seja do século XVI ou XVII. Comecei a trabalhar, a colaborar com muita gente, muitos músicos que trabalham também para recuperar músicas sobre instrumentos históricos, como a teorba, que é um instrumento europeu de corda pulsada da família do alaúde. Tem um braço muito grande, quase dois metros e é um instrumento muito híbrido, muito fascinante pelo som. Com o músico Daniel Zapico, com quem pensamos essa obra, quisemos ampliar e abrir novas portas do repertório para não ficarmos fechados no repertório barroco, e quisemos propor novas leituras de folclore sul-americano, português, italiano e também mais contemporâneo”, acrescenta Nina Laisné. A música também é basilar nas obras “esas lagrimas son pocas” (2015), “Marisol/Mariluz” (2015), “En présence” (2013) e “Frati Uccelli” (2023). Em todas, mais uma vez, há várias camadas de significados, muitos jogos de percepção, questionamentos e, sobretudo, o cruzamento de diferentes disciplinas artísticas. “Un monde renversé” é uma viagem ao labirinto teatral de várias artes, mas é também uma reflexão sobre a capacidade de a arte dar voz aos que dela foram excluídos. Algures entre arquivo e ficção, entre investigação histórica e criação poética, entre provocação e jogo, Nina Laisné constrói uma “cartografia da resistência”, um lugar mais inclusivo e assumidamente político, onde passado e presente se vêem com outros olhos. “O