A seis dias do segundo turno, o Chutando a Escada volta a fazer algo que não fazia desde 2018: um editorial. Em 2018, pedimos voto em Fernando Haddad e, depois da derrota, prometemos seguir juntos e juntas. Em 2026, com Flávio Bolsonaro à frente depois do primeiro turno, Filipe Mendonça explica por que o podcast pede abertamente o seu voto em Lula: em defesa da ciência e da universidade pública, do SUS e da vacina, da democracia e da soberania nacional. O editorial passa pela memória da pandemia, com um estudo publicado no American Economic Journal que mostra como o discurso de Bolsonaro reduziu o isolamento social; pelas dez perguntas da comunidade científica que só Lula respondeu; pelo “modelo El Salvador” que Flávio diz ser “pouco”; pela adesão ao Escudo das Américas de Trump e pela ameaça de “faxina” no Itamaraty; pelas propostas para energia e terras raras; e pela promessa de “mudar a Constituição para redemocratizar o país”. Porque o Brasil não cabe no quintal de ninguém. Quer apoiar o Chutando a Escada? Acesse chutandoaescada.com.br/apoio Mande um café usando nossa chave PIX: perguntas@chutandoaescada.com.br Comentários, críticas, sugestões? Escreva pra gente em perguntas@chutandoaescada.com.br Participou deste episódio: Filipe Mendonça Escute também no Spotify, no YouTube ou Apple Podcasts. Citados no episódio AJZENMAN, Nicolás; CAVALCANTI, Tiago; DA MATA, Daniel. More than Words: Leaders’ Speech and Risky Behavior during a Pandemic. American Economic Journal: Economic Policy, v. 15, n. 3, p. 351-371, 2023. SBPC e ABC. Editorial: O silêncio também é uma resposta e Lula responde às dez questões da comunidade científica. Entidades científicas e educacionais. Em defesa da democracia e do futuro do Brasil. OPEB/UFABC. PEB nas Urnas 2026: Flávio Bolsonaro e Lula; Propostas para energia expressam a diferença radical entre os candidatos. CIDH/OEA. Nota 066/26 sobre o regime de exceção em El Salvador; Human Rights Watch, World Report 2026: El Salvador; Anistia Internacional, Mil dias de regime de exceção. Editoriais anteriores: Editorial: Eleições 2018 e Editorial: O que vem após as eleições. Capítulos: 00:00 — Abertura: por que um editorial 03:00 — O que o primeiro turno mostrou 05:00 — Por que não podemos apoiar essa candidatura 09:00 — Quem você quer na presidência na próxima pandemia? 16:00 — A ciência perguntou. Só um respondeu. 21:00 — “El Salvador é pouco” 30:00 — Política externa: o Brasil não cabe no quintal de ninguém 32:00 — O Escudo das Américas 38:00 — A “faxina” no Itamaraty 43:00 — O projeto de Lula para a política externa 46:00 — Energia: a escada também é feita de petróleo, sol e terras raras 49:00 — “Redemocratizar” o quê? A Constituição de 1988 na mira 53:00 — O que está em jogo 55:00 — E agora, o que a gente faz? Leia o editorial na íntegra Seja bem-vindo e seja bem-vinda a mais uma edição do Chutando a Escada. Aqui quem fala é Filipe Mendonça, nesta segunda-feira, 19 de outubro de 2026. O episódio de hoje é diferente. Não tem convidado nem entrevista: é um editorial. Quem acompanha o Chutando a Escada há mais tempo sabe que a gente já fez isso antes. Em outubro de 2018, depois do primeiro turno, a gente gravou um editorial pedindo voto em Fernando Haddad. Em novembro daquele ano, com Jair Bolsonaro eleito, a gente gravou outro, dizendo que os anos seguintes iam exigir luta, resiliência e solidariedade. Oito anos depois, cá estamos de novo, numa situação parecida e diferente ao mesmo tempo. Não existe neutralidade O Chutando a Escada é um podcast de política internacional e de divulgação científica. A gente fala de Estados Unidos e China, de Rússia e América Latina, de clima, de extrema-direita, de comércio, de soberania. Mas nossos ouvintes sabem que a gente nunca deixou de falar do Brasil e que nunca deixou de ter lado. Em 2018 a gente disse uma coisa que continua valendo: não existe neutralidade num processo eleitoral. Toda posição é política, inclusive a abstenção. Não escolher também é escolher, e quem não escolhe aceita o que está aí. Nesse segundo turno, não votar em Lula é, na prática, ajudar Flávio Bolsonaro. Por isso a gente não vai fingir equidistância. O Chutando a Escada pede o seu voto em Luiz Inácio Lula da Silva no dia 25 de outubro. O que o primeiro turno mostrou Vamos ser honestos com vocês, porque honestidade é o mínimo que a gente deve a quem nos escuta. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na frente, com cerca de dois milhões de votos a mais que Lula. Na história da Nova República, nenhum candidato que chegou em primeiro no primeiro turno perdeu o segundo. Se Lula vencer, vai ser a primeira vez. É difícil, mas não é impossível. E precisamos mais agora do otimismo da ação do que do pessimismo dos acadêmicos. A diferença é pequena num país de mais de 150 milhões de eleitores. Mais de um em cada cinco eleitores não foi votar no dia 4. Tem muita gente que votou em outros candidatos, muita gente que ainda está em dúvida, muita gente que ainda não ouviu a conversa certa. Em 2018 a gente escreveu que não aceitava a ideia de que o jogo estava perdido. Repetimos isso agora: o placar foi zerado e começou outra partida. O primeiro turno também confirmou uma coisa que a gente vem discutindo aqui no podcast há anos, sobretudo nos episódios com o Observatório da Extrema-Direita: o bolsonarismo não foi um acidente de 2018. Ele se organizou, criou raízes, montou redes dentro e fora do país e hoje volta à disputa com outro sobrenome no topo da chapa. Ou melhor, com o mesmo sobrenome. Por que a gente não pode apoiar essa candidatura Já teríamos motivos objetivos de sobra. Mas aqui eu quero falar do lugar de onde eu falo: sou professor de universidade pública, pesquisador e divulgador científico. E nessa eleição eu faço parte de um grupo amplo de cientistas, professores, estudantes e técnicos que decidiu se posicionar, em defesa da ciência, da universidade pública e da soberania nacional. Nesta eleição, a SBPC, a Academia Brasileira de Ciências, a Andifes, a ANPG, a UNE, o Andes e outras entidades da ciência e da educação lançaram uma carta chamada “Em defesa da democracia e do futuro do Brasil”. Eu assino embaixo de cada palavra, e vou pegar emprestadas algumas delas. A carta diz: não falamos de cima, falamos de dentro. Muitos de nós somos a primeira geração da família a entrar numa universidade. A gente aprendeu a ler na escola pública, estudou com bolsa e pesquisa em laboratórios pagos pelo povo brasileiro. E a gente sabe o que foram os anos de 2019 a 2022, porque viveu esses anos. Foram anos em que se atacou a ciência. Em 2019, o diretor do INPE foi exonerado depois que o instituto divulgou dados de desmatamento na Amazônia que contrariavam o governo. Eram imagens de satélite, não opinião. Como diz a carta das entidades, quem quebra o termômetro não cura a febre, só impede que ela seja vista. Foram anos em que se desqualificaram cientistas. Volto a isso daqui a pouco, porque merece um capítulo à parte. Foram anos em que se tentou sufocar quem forma. As universidades públicas foram chamadas de lugares de “balbúrdia”. As bolsas de mestrado e doutorado ficaram uma década sem reajuste, até 2023. E, em 2022, foram 2,9 bilhões de reais bloqueados no orçamento da ciência. E foram anos em que se fabricou a desconfiança nas urnas, sem nenhuma prova, até o 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos Três Poderes foram invadidas e depredadas. A candidatura de Flávio Bolsonaro reivindica esse governo, não esconde isso. Então é legítimo perguntar se ela mudou alguma coisa. Quem você quer na presidência na próxima pandemia? Eu quero fazer uma pergunta simples a você que está ouvindo, e quero que você pense nela até domingo: quem você quer na presidência quando vier a próxima pandemia? Não é uma pergunta retórica. Gripe aviária, novos coronavírus, doenças que saem da floresta desmatada e chegam às cidades: quem estuda o assunto sabe que é questão de tempo. E nós já sabemos como cada um desses projetos se comporta numa emergência sanitária, porque já vimos. Mais de 700 mil brasileiros morreram de covid. Durante a pandemia, o presidente da República chamou a doença de “gripezinha”, disse que não era coveiro, imitou gente com falta de ar, fez propaganda de cloroquina e de ivermectina, fez campanha contra a máscara e contra o isolamento e colocou em dúvida a vacina. Enquanto isso, o governo deixou sem resposta ofertas de vacina, inclusive do Instituto Butantan. Em janeiro de 2021, em Manaus, faltou oxigênio e gente morreu asfixiada em hospital. A CPI da Covid concluiu que muitas dessas mortes eram evitáveis e pediu o indiciamento do presidente. E tem gente que ainda diz que “foi só discurso”, que palavra não mata ninguém. A ciência estudou isso. Três economistas, Nicolás Ajzenman, Tiago Cavalcanti e Daniel Da Mata, publicaram em 2023 no American Economic Journal: Economic Policy, uma das revistas mais respeitadas da economia no mundo, um artigo com um título que diz tudo: “Mais do que palavras”. Eles usaram dados de localização de cerca de 60 milhões de celulares em quase quatro mil municípios brasileiros e cruzaram com o voto de 2018 e com gastos de cartão de crédito. Olharam para dois momentos do começo da pandemia: 15 de março de 2020, quando o presidente foi para a rua cumprimentar apoiadores numa manifestação contra o Congresso e o Supremo, e 24 de março, quando ele foi à rede nacional de rádio e TV dizer que a covid seria uma “gripezinha” e que o país tinha que voltar à normalidade. Me lembro como se fosse ontem aquele dia. 24 de março foi meu aniversário. Foi o primeiro dia que eu chorei na pandemia. Logo depois desses