Olá, que bom ter você mais uma vez na Zysk: além do lucro. Com a proximidade da Copa, um movimento nostálgico e muito vivo começa a tomar conta das bancas de jornal, praças, shoppings e salas de estar: o vai e vem dos pacotinhos de figurinhas. Para quem olha de fora, ou com lentes puramente matemáticas, colecionar um álbum pode parecer um gasto supérfluo, ou uma distração dos objetivos financeiros maiores. Mas, como você já sabe que por aqui nós olhamos além do lucro, eu convido você a dar um passo para trás e observar essa dinâmica com um olhar um pouco mais atento. O álbum de figurinhas pode ser uma ferramenta excelente de atividade fora do ambiente digital entre pessoas de todas as gerações. Além de ensinar e treinar habilidades importantes que podem ser aplicadas no planejamento financeiro. Se você está na dúvida se vale a pena entrar nessa brincadeira este ano, ou se já está com o seu álbum em mãos, separei três lições e um alerta essencial que essa atividade nos traz: 1. O treino sutil do longo prazo Vivemos na era em que tudo se resolve com um clique. Queremos o resultado agora, a entrega no mesmo dia, o investimento que rende absurdos amanhã. O álbum vai na contramão de tudo isso: ele é um exercício obrigatório de paciência. Se você comprar o álbum e a quantidade exata de pacotinhos que precisa para completá-lo não há garantia de que vai conseguir completá-lo de primeira (na verdade é quase certo de que não vai, porque basta uma repetida pra que o álbum não seja completado). Existe uma jornada ali. Existe a frustração da figurinha repetida, a resiliência de continuar procurando e a clareza de que grandes conquistas são feitas de pequenos passos consistentes. Finanças pessoais funcionam exatamente igual. O patrimônio que traz paz de espírito não nasce de um golpe de sorte; nasce da constância dos nossos “pacotinhos” mensais de investimento, da nossa capacidade de contornar imprevistos e das nossas habilidades de escolhas no dia a dia. 2. Orçamento como ferramenta de autonomia (e limites) Se você tem crianças em casa, o álbum é a oportunidade perfeita para tirar a educação financeira da teoria. Em vez de apenas dizer “está caro” ou “não vou comprar”, que tal estabelecer um orçamento semanal fixo para as figurinhas? Quando a criança tem um valor delimitado (por exemplo, R$ 50,00 por semana), ela precisa fazer escolhas. Será que é melhor comprar todos os pacotinhos da semana de uma vez ou é melhor comprar aos poucos? Se faltam poucas figurinhas, vale mais a pena comprar mais e mais pacotinhos ou só trocar? Ela aprende, de forma lúdica, a lidar com a escassez, com a priorização e com as consequências das próprias decisões. Isso é ouro para a formação de adultos financeiramente maduros. 3. Conexão real e negociação além das telas Em um mundo onde os olhos estão quase sempre colados nos smartphones, o momento de trocar figurinhas força o olho no olho. Para avançar no álbum, você precisa ir para a rua, conversar, negociar. Essa dinâmica estimula algo precioso: a interação social, muitas vezes até entre gerações. As crianças (e nós também) aprendem a perceber o valor para o outro — afinal, uma figurinha comum para mim pode ser a última que falta para alguém. Aprendemos que, na vida e nos negócios, muitas vezes precisamos criar conexões genuínas com as pessoas para alcançar nossos objetivos. O Alerta: Cuidado com o “Custo do Quase” e os excessos Toda escolha envolve riscos, e com o álbum não seria diferente. No planejamento financeiro, nós olhamos muito para a eficiência do dinheiro. E aqui moram dois perigos opostos: * O perigo da desistência: O verdadeiro desperdício não é o dinheiro que você gastou nos primeiros pacotinhos, mas parar no meio do caminho por falta de foco. Um álbum incompleto, esquecido no fundo da gaveta, vira apenas uma despesa sem a satisfação da conclusão. Terminar o que começamos é um dos maiores ativos que podemos cultivar. * O perigo do descontrole: No afã de ver o projeto concluído, é fácil cair na armadilha do impulso. Endividar-se, usar o cartão de crédito sem controle ou tirar dinheiro do que é essencial para comprar caixas fechadas de figurinhas destrói o propósito da brincadeira No final das contas, o álbum nunca foi apenas sobre pedaços de papel colados. Ele é sobre os momentos compartilhados na mesa da sala, as negociações e as risadas em família. …Além da planilha Devo dizer que eu nunca fui de completar um álbum, mas ao contrário do alerta financeiro que fiz aqui, a minha desistência não acontecia no meio do caminho por falta de foco, na verdade era uma priorização financeira. Eu tinha uma mesada com regras (vamos falar sobre isso em uma newsletter futura) e eu tinha que escolher entre comprar figurinhas ou outras coisas. E logo, o álbum que eu quis porque meus amigos tinham não era tão interessante quanto as outras escolhas que eu podia fazer com o meu dinheiro. E eu trocava as figurinhas por outras coisas antes que o investimento no álbum já tivesse sido alto demais para desistir. O único álbum que eu já completei foi justamente um álbum da Copa. O de 2014. Decidi que ia querer o álbum e, já que nunca tinha completado um, ia completar justo o do Brasil! Fui comprando as figurinhas, mas não tinha muitas oportunidade de troca, porque não via pessoas trocando figurinha no trabalho. Foi então que eu descobri o tal: ponto de troca. Pra quem não sabe são alguns lugares onde em dias e horas marcados, ou direto como em shoppings, os colecionadores de figurinhas se juntam para trocar as repetidas. E aí está um ponto importante: eu sempre fui muito tímida, ainda mais para pedir coisas para alguém, como eu ia em um lugar cheio de estranhos perguntar se eles queriam trocar figurinhas??? Mas era a única oportunidade que eu tinha de completar meu álbum… Eis que eu aviso em casa, antes do almoço de domingo, que eu ia no ponto de troca de figurinhas que tinha na rua de cima. E que ia sem telefone porque é claro que eu ficaria no máximo 30 minutos, já que ia falar provavelmente com no máximo 2 pessoas, me arrepender de ter ido e voltar. Quando eu cheguei lá, tinha muita gente! Eu vou ser sincera que não lembro como comecei a trocar as figurinhas, provavelmente alguém que também estava sozinho falou comigo. Gente, eu não sei explicar o que aconteceu naquele lugar! Tudo começou da maneira que eu já estava acostumada na escola: eu estava falando com uma pessoa, ele pegou o meu bolinho de repetidas e conferiu com o papel dele, eu peguei as repetidas dele e conferi coma as minhas, o problema foi que ele só precisava de uma das minhas figurinhas e que eu precisava de 10 das dele: “Aqui ó, eu preciso só dessa aqui! Pode ser?” Eu já chateada “Pode sim, é que eu precisava de dez das suas, vou escolher uma aqui então…” “Não, se você precisa de 10, pode ficar com as 10!” “Ué, mas…” “Eu pego mais nove repetidas suas pra mim. Vai que alguém que tem uma que eu preciso, precisa justo de uma que você tem repetida e eu não…” Gente, isso pode parecer tão lógico pra alguns, mas nunca tinha me passado isso pela cabeça! Na escola era tudo tão justinho: brilhante por brilhante, de time por de time… Eu achei incrível. De repente eu estava vendo as repetidas de alguém e meu pai chega no posto de trocas… “O que você está fazendo aqui?” “Filha, já faz duas horas que você está aqui! Você veio sem celular e a gente está te esperando pra almoçar…” “Mas é que eu não sei mais com quem estão as minhas figurinhas…” E eu ouço de resposta “Estão comigo.” E de complemento “Já passou por mim e peguei 3” “E por mim e peguei 5” “Eu peguei 10” Olhei para o meu pai e respondi “Vou só resolver essas que já foram trocadas e a gente já volta!” Foi uma experiência tão legal! Tanto que me lembro até hoje, mais de 10 anos depois! Há 10 anos a gente nem ficava tanto no celular assim, mas essa experiência foi no mundo real e eu ainda me lembro, agora me conta: quais foram os últimos 10 vídeos que você viu nas redes sociais? É claro que o planejamento financeiro tem foco em utilizar os recursos da melhor forma para que você atinja seus objetivos, mas isso não quer dizer que qualquer experiência gratuita seja melhor que experiências que envolvem gastos. Tudo vai depender dos benefícios que cada uma delas traz, não só para o bolso, mas para a vida como um todo. Meu conselho pra você essa semana é: Se você decidir colecionar, faça disso um projeto planejado. Defina o teto de gastos, curta a caminhada e lembre-se: quando a Copa passar e as figurinhas ficarem guardadas na estante, o que vai durar de verdade são as memórias e os aprendizados que vocês construíram juntos. Até a próxima sexta, Stephanie Kenig Planejadora Financeira, CEA Se essa forma de ver o dinheiro faz sentido para você, te convido a assinar a nossa newsletter para receber as próximas edições This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit zyskconsultoriafinanceira.substack.com