Programa Ficha Técnica

Programa Ficha Técnica

Discos que marcaram a música popular brasileira, álbuns que marcaram as últimas décadas. Opiniões, informações e curiosidades... Ficha Técnica! Criação/produção/apresentação: Larissa Campos e Raul Fortes.

Episódios

  1. Programa Ficha Técnica | 17 | Nó na orelha (Criolo)

    18/10/2019

    Programa Ficha Técnica | 17 | Nó na orelha (Criolo)

    A décima sétima edição do Programa Ficha Técnica traz uma análise sobre o disco "Nó na orelha", do rapper Criolo. Produção/criação/apresentação: Larissa Campos e Raul Fortes Edição: Luciano Campbell Como descobri Criolo Acho que demorei para conhecer o rapper Criolo, assim como deve ter acontecido com várias pessoas. Mas a ocasião em que o conheci ficou gravada na minha memória. Faz um tempo que adquiri o hábito de pesquisar bandas e cantores novos. Isso se transformou em uma rotina na minha vida. Volta e meia faço uso do “Radar de novidades” do Spotify e outros canais e neles encontro algumas pérolas. Cheguei até Criolo num desses trabalhos de busca musical. O ano era 2011 e, ao navegar pelo Youtube, encontrei uma versão diferente da música “Cálice”, composta por Chico Buarque e Gilberto Gil. A versão, que me arrebatou imediatamente, começava em tom de provocação: “Como ir pro trabalho sem levar um tiro, voltar pra casa sem levar um tiro”. Mas além das indagações sobre violência urbana, outros trechos da versão me deixaram reflexiva. “Os saraus tiveram que invadir os botecos, pois biblioteca não era lugar de poesia. Biblioteca tinha que ter silêncio e uma gente que se acha assim muito sabida”. Nesses versos, a mensagem clara de que é preciso democratizar a cultura, o conhecimento, afinal, eles podem salvar almas. A versão de “Cálice” escrita por Criolo é um hino da favela, da periferia e dos perigos que seus moradores enfrentam. Pensando nisso, Criolo canta: “Pai, afasta de mim a biqueira, afasta de mim as biate, afasta de mim a cocaine, pois na quebrada escorre sangue, pai”. Depois de assistir o vídeo com a versão de Cálice, comecei imediatamente a procurar outros trabalhos de Criolo e sigo acompanhando o rapper. Além do trabalho musical expressivo que desenvolve, Criolo também não foge das discussões e posicionamentos políticos, bastante importantes nos trabalhos mais recentes do cantor, como Boca de lobo e Etérea. Hoje, ao lembrar da primeira vez em que ouvi a versão de Criolo para Cálice, lembrei de imediato de um verso em que o rapper fala “Me chamo Criolo, o meu berço é o rap, mas não existe fronteira pra minha poesia, pai”. De fato, Criolo permanece fiel às origens, mas o trabalho dele se expande, cresce e ultrapassa mais e mais fronteiras.

    40min
  2. Programa Ficha Técnica | 14 | Tribalistas (2002)

    27/09/2019

    Programa Ficha Técnica | 14 | Tribalistas (2002)

    A décima quarta edição do Programa Ficha Técnica tem como tema o disco "Tribalistas", de 2002. Criação/produção/apresentação: Larissa Campos e Raul Fortes Edição: Luciano Campbell Mi casa, su casa As batidas na porta eram certeiras. Ninguém batia daquele jeito. Ela já conhecia até mesmo o jeito como ele chegava, manso, quieto, sem anúncios. Sempre preparava algo para recebê-lo e, mesmo que ele não quisesse comer, ela insistia. Havia sempre um suco ou chá para acompanhar. Com aquelas visitas, no meio da tarde, ela sentia a vida mais leve, mas não era apenas isso. Sentia também um carinho, um cuidado e a vontade de dividir o tempo (precioso tempo) com aquela pessoa que, no fundo, ela nem conhecia direito. Ou será que conhecia? Quando ele vinha, o tempo sempre corria mais rápido. No entanto, independente do tempo disponível, havia sempre aquela sensação de paz, de entrega e tudo o que acontecia era acompanhado pelos doces passos da naturalidade.  Fosse num domingo à noite ou numa atribulada tarde de quarta-feira, algumas coisas sempre estavam presentes. Entre elas, o cheiro de lavanda francesa e as batidas fortes, aceleradas, do coração dela. Saber que ele estava a caminho já era motivo de alegria, mas não adiantava: quando ele batia à porta, o coração pulava no peito. O sonho dela era que, um dia, ele viesse para dormir, passar a noite, ficar mais tempo, sem se preocupar com o tempo. A vontade dela era tê-lo mais perto e, isso, ela nunca escondeu. Mas havia situações, impedimentos, fatores, ponderações que tornavam aquele sonho muito distante. Impossível? Um dia ele avisou que viria mas, provavelmente, não seria para dormir. Mesmo assim, ela ficou feliz. Providenciou algo para comerem, colocou umas bebidas para gelar e arrumou o apartamento, enquanto ouvia “Passe em casa”, dos Tribalistas. Esperou durante toda a noite. Ele não apareceu. Quando o sono chegou, a encontrou impaciente e aflita, para combinar com a música que ela tanto havia escutado aquele dia. Caminhou até a cama e dormiu pesado, triste, mas resiliente. Na madrugada, enquanto ela dormia, ele chegou. Tinha uma cópia da chave e entrou com cuidado, sem fazer barulho. Tomou água gelada, tirou os sapatos, apagou as luzes e deitou ao lado dela, que nem mesmo se mexeu. Dormia um sono profundo. Ele a abraçou. Sentiu a paz que o corpo dela emanava, a sensibilidade, a tranquilidade. Porém, ele também sentiu o cansaço daquele corpo, a angústia e, sobretudo, a esperança de quem passou tanto tempo à espera daquele amor.

    31min
  3. Programa Ficha Técnica | 11 | Tim Maia (1970)

    16/09/2019

    Programa Ficha Técnica | 11 | Tim Maia (1970)

    A décima primeira edição do Programa Ficha Técnica tem como tema o disco "Tim Maia", de 1970. Criação/produção/apresentação: Larissa Campos e Raul Fortes Edição: Luciano Campbell Acesse: www.instagram.com/programafichatecnica Primaverou! Larissa Campos/Raul Fortes Setembro chegou e, toda vez que ele chega, uma mesma palavra invade o pensamento de muitas pessoas: primavera! Na teoria, aquela estação bonita, em que as flores invadem os cenários e embelezam as cidades. Mas não é assim em todos os lugares. Em algumas regiões do Brasil, os meses que antecedem a chegada da primavera são marcados pela seca e pelas altas temperaturas. Nessas localidades, quando a estação das flores começa, ainda traz consigo longos dias de seca e calor. No Centro-Oeste brasileiro, por exemplo, haja ar-condicionado, umidificador e banho de cachoeira para dar conta dos dias de secura. E, partindo desse princípio, algumas pessoas poderiam até pensar que, aqueles que vivem nessas regiões, não teriam tanto a comemorar com a chegada da primavera. Mas não é nada disso! Nesses casos, a chegada da primavera é um fôlego, uma ponta de esperança que renasce e se instala no peito dos que viveram dias tão sofridos, com suor intenso brotando no corpo, baixa umidade no ar e garganta seca em boa parte do dia. Quando a primavera chega, as pessoas começam a pensar que as chuvas não vão demorar, que logo o céu vai se abrir para as gotas descerem e banharem a todos que aqui esperam, sedentos e necessitados. A esperança de chuva deixa o clima mais leve, os sorrisos mais fáceis e faz brotar a certeza de que dias mais bonitos virão, com céu mais azul, menos fumaça e o cheiro gostoso da terra molhada. Esse cheiro é uma espécie de perfume para quem vive em regiões de clima seco e quente. Os efeitos da primavera são tão importantes que ela virou verbo: primaverar! Segundo alguns dicionários, é o ato de desfrutar, de aproveitar essa estação do ano. Em breve ela começará e este texto é um simples convite para viver os dias que virão com mais intensidade, mais esperança e leveza. É hora de primaverar em todos os sentidos da vida! É hora de regar, fazer brotar os sonhos e viver os dias com um colorido diferente. Os dias estão nebulosos, é verdade. A fumaça no céu quase não nos deixa ver o sol, mas em breve os parques estarão mais verdes, a chuva chegará intensa, as flores aparecerão e, como na música do Tim Maia, você encherá a boca para dizer que “hoje o céu está tão lindo!”.

    28min
  4. Programa Ficha Técnica | 09 | Fruto proibido (Rita Lee)

    16/09/2019

    Programa Ficha Técnica | 09 | Fruto proibido (Rita Lee)

    A nona edição do Programa Ficha Técnica tem como tema o álbum "Fruto proibido", de Rita Lee e banda Tutti Frutti.  Criação/produção/apresentação: Larissa Campos e Raul Fortes Edição: Luciano Campbell Acesse: www.instagram.com/programafichatecnica Rita é rock (Larissa Campos e Raul Fortes) Os “Doces Bárbaros” cantaram que “uma menina loira ia vir de uma cidade industrial, de bicicleta, de bermuda, mutante, bonita, solta, decidida, cheia de vida, etc e tal, cantando o yê, yê, yê...” Eles falavam de Rita Lee, uma cantora que é a cara do rock brasileiro. Além dessa canção, chamada “Quando”, Rita também é citada em Sampa, de Caetano Veloso, como a mais completa tradução da cidade de São Paulo. Rita é rock, Rita é São Paulo, Rita é a mulher que escreveu seu nome na história do Rock’n Roll brasileiro e que tem servido de inspiração para muitos outros artistas. Por isso falar de Rita Lee não é tarefa fácil. O que mais impressiona nela é, da fato, o seu lado mutante. Durante toda a carreira, ela nunca fugiu dos desafios, mesmo que o desafio fosse gravar um disco com versões de músicas dos Beatles. Alguns poderiam tremer nas bases, mas a Rita não. Se a atuação dela na música já representa um incentivo e uma referência para tantas mulheres, não significa que ela devesse parar por aí. A cantora sempre usou a música para promover reflexão, fazer críticas sociais, homenagear outras mulheres. E fez isso brilhantemente em canções como Luz del fuego e Pagu. Pagu virou um hino, lembrando o ouvinte que “só quem já morreu na fogueira sabe o que é ser carvão”. Com essa música, Rita reforça a importância da luta feminina por igualdade e reconhecimento de direitos. A história de Rita Lee se confunde com a história do Rock no Brasil. De 1966 a 1972, Rita integrou a banda “Mutantes”, ao lado de Arnaldo Baptista e Sérgio Dias. Depois de 1972, a banda seguiu sem Rita e, por tabela, sem a mesma representatividade. Os Mutantes foram pioneiros quando se fala em misturar rock a ritmos e estilos brasileiros. Por isso o trabalho da banda foi tão importante. Eles abriram as portas para bandas como Novos Baianos, da qual já falamos no programa. Mesmo após os Mutantes, Rita Lee manteve-se firme no propósito de viver a música, de dar ao rock uma cara mais brasileira e fez de seu nome um verdadeiro sinônimo para a experiência roqueira no Brasil. Vida longa ao percurso encantador de Rita Lee na música!

    25min
  5. Programa Ficha Técnica | 08 | O último romântico (Lulu Santos)

    16/09/2019

    Programa Ficha Técnica | 08 | O último romântico (Lulu Santos)

    A oitava edição do programa Ficha Técnica apresenta o álbum "Último romântico", de Lulu Santos. Criação/produção/apresentação: Larissa Campos e Raul Fortes Edição: Luciano Campbell Acesse: www.instagram.com/programafichatecnica Tudo passa (Larissa Campos) Recentemente, ao entrar numa padaria, encontrei uma pessoa que há muito tempo não via. Uma mulher que, em outros tempos, fez parte da minha família e com quem convivi bastante durante a infância. Conversamos um pouco e eu senti uma alegria enorme de vê-la ali, com o filho mais novo. Num determinado momento da conversa, ela apontou o menino, que comia um sanduíche, e disse: Tudo passa!, o que repetiu pouco tempo depois. Fazia tempo que eu não me sentia tão comovida com um encontro, a ponto de pensar nele durante alguns dias e até escrever sobre ele, como estou fazendo agora. Aquela mulher, que eu encontrei na padaria, sofreu um golpe muito pesado da vida. Perdeu um filho, e não deve haver dor pior que essa. E perdê-lo, em decorrência de um acidente, fez com que ela precisasse lidar com muitos sentimentos, principalmente a culpa. Eu a conheci naquele momento da vida dela e tinha a sensação de que ela seria, para sempre, a personificação do sofrimento. Mas a vida é boa e nada dura para sempre, inclusive as piores dores. Encontrá-la na padaria, depois de tantos anos, com o filho mais novo, reacendeu em mim o sentimento de esperança. Ao dizer que “Tudo passa”, ela trazia um sorriso no rosto e sensação de leveza. E todas essas sensações chegaram até mim a partir daquelas palavras, daquele abraço e do sorriso aberto. Apesar de todo sofrimento, a vida deu outras chances àquela mulher. Entre outras coisas, a vida deu a ela um outro filho, para amar, cuidar e viver o amor. Ela já não carrega o semblante cansado, arrasado, de quem deseja desistir de tudo. No dia em que encontrei aquela mulher, eu ouvi Como uma onda, do Lulu Santos, e a música fez ainda mais sentido. A gente até sabe que “Tudo passa, tudo sempre passará”, mas algumas situações da vida podem nos fazer esquecer disso. A beleza está, realmente, em aceitar que “tudo muda o tempo todo no mundo” e saber viver com as mudanças. Não há como prever, não há como voltar no tempo, mas “há tanta vida lá fora, aqui dentro, sempre, como uma onda no mar”.

    33min
  6. Programa Ficha Técnica | 04 | Verde, anil, amarelo, cor-de-rosa e carvão

    16/09/2019

    Programa Ficha Técnica | 04 | Verde, anil, amarelo, cor-de-rosa e carvão

    A quarta edição do Programa Ficha Técnica analisa o disco "Verde, anil, amarelo,  cor-de-rosa e carvão", da cantora Marisa Monte. Criação/produção/apresentação: Larissa Campos e Raul Fortes Edição: Luciano Campbell Acesse: www.instagram.com/programafichatecnica Quando a música é uma prece (Larissa Campos e Raul Fortes) A natureza e seus fenômenos sempre foram uma fonte de questionamentos e inspirações para o ser humano. Quantos textos, poesias e canções falam sobre o sol, o vento, as flores, as árvores, a água e todas as suas formas de manifestação na natureza? “Segue o seco” é mais que uma música. É uma verdadeira crônica. Quando escuto, lembro Vidas secas, lembro Graciliano Ramos, lembro o retirante Fabiano e sua fiel escudeira, a cachorra Baleia. Assim como a escrita de Graciliano, os versos de “Segue o seco” transportam o ouvinte para o sertão e toda a sua secura. Quem escuta a música, se sente realmente andando pelo chão rachado, sentindo o calor do agreste e o sol quente no rosto. Mais do que isso, quem escuta a música também sente a fé que ela carrega. Essa fé de quem conversa com a natureza, troca umas palavras com a chuva e pergunta se pode subir aos céus para derramá-la. Essa chuva é uma metáfora divina. Aliás, o que mais seria a natureza do que uma série de demonstrações dessa divindade (ou dessas divindades) nas quais buscamos um pouco de conforto para viver? E mesmo quem não acredita em divindade alguma e vê a natureza apenas como um conjunto de fenômenos, não pode deixar de perceber que ela nos dá lições diárias. Ela coloca o ser humano no seu devido lugar, como uma simples parte da cadeia. Ela nos mostra o quão diminutos somos, mesmo quando insistimos em nos achar superiores. Na natureza não somos maiores, nem menores, somos parte e precisamos uns dos outros para continuar aqui. Com dois acordes, “Segue o seco” fala disso e de muito mais, dependendo da sensibilidade de quem escuta a canção. Aliás, diante de tudo isso, nem acho que se trate de uma canção. Eu diria que é uma prece.

    22min

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Discos que marcaram a música popular brasileira, álbuns que marcaram as últimas décadas. Opiniões, informações e curiosidades... Ficha Técnica! Criação/produção/apresentação: Larissa Campos e Raul Fortes.