Desta vez, tivemos de nos ficar pelos trabalhos preparatórios, já que este texto, que costuma ser redigido depois, teve de ser apressado, vindo antes, e a previsão é que Victor Barros (cabo-verdiano, historiador doutorado pela Universidade de Coimbra, com uma tese sobre a construção da memória do império português nas colónias em África, investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa e autor de vários artigos sobre Amílcar Cabral) se tenha juntado a nós para discutirmos as questões do colonialismo, o papel de Cabral como figura sediciosa decisiva para aquele enredo revoltoso que viria a encorajar a nossa própria luta de libertação, fazendo estalar o regime desde as colónias portuguesas até à metrópole, permitindo um raro momento de combate político em que chegou a supor-se que Portugal pudesse ser uma responsabilidade comum, e não um assunto decidido por muito poucos, com uma cultura reservada à contemplação dos seus interesses. Mas agora, aqui, e para os efeitos deste exercício, que nunca se quis ficar por um descritivo dos episódios, antes uma contribuição acessória, um devaneio ulterior, desta vez, e para permitir uma leitura das linhas de tensão que organizam, hoje, a única verdadeira fractura no nosso campo político, vamo-nos ficar por um exercício de colagem de dois textos. Começamos pelo longo excerto de um ensaio de Vivian Abenshushan, em Escritos para Desocupados, quando recorda que no Génesis, Adão e Eva tentaram repartir de modo equitativo a penitência da chamada divisão do trabalho – entre os seus filhos: Caim obteria a propriedade de toda a terra; Abel seria dono de todo o gado. Um deles dedicar-se-ia ao cultivo; o outro, à pastorícia. É provável que os irmãos tivessem pouco tempo livre para pregarem partidas e brincarem juntos na encosta do vasto campo, algo que a longo prazo teria ajudado a criar um vínculo entre eles, evitando assim o desenlace fratricida. Um dia, Abel e Caim fizeram as suas oferendas a Deus (um deles sacrificou um carneiro; o outro ofereceu um fruto da terra), mas Deus, sempre insondável, só aceitou a oferenda de Abel. Furioso, Caim matou, como toda a gente sabe, o seu irmão. As interpretações deste episódio sangrento não se fizeram esperar. De entre todas elas, há uma que aponta para o nascimento de um antagonismo ancestral: aquele que existe entre trabalhadores e ociosos. Assim o indicam as raízes dos seus nomes: Caim (do árabe gain, «o ferreiro») poderia ser identificado com o homo faber, o homem que fabrica ferramentas, aquele que exerce a sua vontade transformadora sobre a matéria. Ele forja o arado para lavrar e também o martelo para acertar o golpe. Tem uma mão equipada, uma mão presa ao trabalho, uma mão plena. Raras vezes essa mão se põe a tamborilar. Ela é puro músculo: abre sulcos, aplana a terra, subjuga brotos, edifica. É a mão do trabalhador. Graças à ferramenta, essa extensão incisiva do corpo, Caim e os seus descendentes conseguem dominar as vastidões selvagens e criar um novo mundo artificial. São os construtores das primeiras cidades, mais tarde associadas à corrupção e à perda de sentido espiritual. A alma de Caim é sedentária; enraíza-se na terra que cultiva, funda os costumes, adquire direitos sobre o solo. Assim o expressa outra raiz do seu nome, a proveniente do verbo hebraico kanah: adquirir, subjugar. Caim é, então, obter, possuir e, portanto, governar ou o proprietário, o que possui, e também o praticante das artes da tecnologia necessárias para abrir caminhos e conquistar. Nele, convergem as forças contraditórias da civilização: a ferramenta e a arma, a invenção criadora e a violência. Abel, do hebraico hebel: alento, sopro, nada, pertence, por seu turno, à estirpe dos nómadas, dos que se deslocam continuamente como o ar. Em vez de assentar como o agricultor, move-se por onde o seu rebanho o leva. Abel não depende de nenhum lugar concreto, pois o seu sustento vai com ele para toda a parte. E multiplica-se sem necessidade de trabalhar! Na primeira repartição laboral da humanidade, coube ao pastor o lado menos áspero, menos sujeito aos rigores do clima e ao esforço físico da vida agrária. Talvez por isso, contrariamente a Caim, Abel não se extenue. É mais livre, mais leve e tem muito tempo para a ociosidade. Sempre que os seus animais encontram o sítio exacto para se alimentarem, ele descobre-se no meio de um tempo vazio, distendido, o tempo que o homo ludens dedica aos seus jogos e meditações. Ei-lo auto-absorto à sombra das árvores, vendo as horas a passar como se não existissem. Opõe-se totalmente ao tempo programado de Caim, tempo associado à produção, ao cultivo e ao trabalho, um tempo útil em torno do qual a vida se ordena. Abel é um habitante natural do ócio, ser tranquilo e errabundo, cioso da sua autonomia, alheio às hierarquias da aldeia. Nele, não germinou a vontade de domínio, nem a ambição de poder. (E quiçá por isso que São João e Cristo o consideram «um justo».) Como não lhe interessa deixar marca – ele é apenas um sopro, efémero como a própria vida –, a sua existência alijou propósitos e a sua única ocupação é ver. Enquanto escuta o adejar do vento ou observa o cortejo dos pássaros, Abel vigia o seu rebanho. Necessita de abrir bem os olhos e compreende que isso é outrossim contemplação: habitar o mundo com o olhar. Essa destreza ocular, treinada sem esforço nas tardes do seu tempo livre, torna-se numa forma de observação distinta, o nascimento da especulação intelectual e do temperamento artístico. Abel sentou-se a pensar pela sua própria cabeça; o seu ócio é uma forma de reflexão e, talvez, também de melancolia. E não havia sido este o pecado dos seus progenitores, o desejo de saber? Ah, o ócio, mãe de todos os vícios! Certamente, Caim também sentiria uma inveja secreta pelo ocioso. Por que razão, ao contrário dele, o pastor de ovelhas evidencia tanto prazer enquanto realiza as suas actividades diárias? Quiçá porque, na sua transumância, Abel se mantenha longe do fardo da civilização e dos seus múltiplos artifícios. Na cidade de Caim, cada edifício se faz acompanhar de novas tarefas, a correria quotidiana duplica-se, o peso das cargas triplica e o suplício dos escravos não tem fim. «Raça de Caim» – escreveu Baudelaire –, «a tua tarefa ainda não se cumpriu o bastante». A grande calamidade das cidades é que nelas nunca deixa de se trabalhar. Merece a busca pelo conforto tanta inquietação, tanto esgotamento? Se o ócio é o propósito final do trabalho, porque não se entregar a ele simplesmente, sem remorsos? É isso o que faz Abel, uma vez satisfeitas as suas necessidades primárias. Abel poderia ser o símbolo de toda a uma estirpe amante da simplicidade, refractária à fama ou à riqueza, esses fardos da vida oficial. Sendo nómada, leva dentro de si a sua choça e as suas posses; não acumula, não se deixa prender ao peso da vida material; ele prefere flutuar, como o fazem os seus pensamentos ao entardecer. Algo dessa leveza, uma leveza malquista segundo a estirpe de Caim, sobrevive no luftmensch, palavra iídiche que designa pejorativamente o vagabundo, o homem improdutivo, sem trabalho nem salário fixo, dedicado a perder tempo e a fazer conjecturas. Perdido entre livros e divagações, o luftmensch é literalmente um «homem dos ares», «um homem flutuante». A que aspira? Para onde se dirige? Como Abel, este ocioso não tem planos nem projectos, é um filho errante que angustia sempre a sua mãe. Se Caim representa a técnica e a responsabilidade da idade adulta, o seu irmão, por sua vez, é um tratante, um adolescente livre de deveres. Caim é pragmático; Abel, gárrulo. Um ama a pachorrice; o outro crê na diligência como profissão de fé. Em tudo parecem espíritos contrários. E as duas formas de habitar o espaço a que deram origem, sedentários e nómadas, representam duas formas, talvez irreconciliáveis, de encarar os dilemas da sobrevivência: sucumbir ao peso do trabalho em nome do progresso, ou aprender a viver em nome da própria vida. É curioso que Deus tenha desdenhado de Caim precisamente porque, no seu sacrifício, procedia por simples apego ao dever, em vez de o fazer por generosidade, por amor genuíno, como Abel. (Se considerarmos a explicação de São João, Deus procurava os homens e não as coisas que eles faziam com as mãos, do mesmo modo que preferia o que crescia naturalmente em lugar daquilo que se obtinha através de impulsos gananciosos, como o arado com que se obriga a terra a germinar para logo lucrar com o seu fruto.) Quanta ira terá palpitado nas têmporas do agricultor ao ver, ao fim do dia de trabalho, o seu irmão, o ocioso, a ser premiado! Aquilo era, de facto, razão para o matar. E, assim, num assomo de fúria destrutiva, o homo faber liquida de vez o homo ludens. Que temos aqui? A forma como o trabalho reprime enfim a propensão para o lúdico, inclinação que só pode causar intranquilidade e desconfiança num mundo que levou a sua loucura ao ponto de considerar a própria existência como um castigo. Num mundo assim, a penitência termina com o jogo; a obrigação, com o prazer. E a esquiva possibilidade de fazer do trabalho uma coisa alegre, ou, pelo menos, passageira – após a qual o homem poderia dedicar-se ao que bem lhe aprouvesse –, tornou-se inviável para a grande massa de pessoas sobre as quais recaíram as funções mais servis e rotineiras. É uma pena que tenha sido a estirpe de Caim a servir de inspiração a numerosas gerações posteriores dedicadas ao trabalho compulsivo, chegando até Benjamin Franklin, que definiu o homem, no século XVIII, precisamente como «o animal que fabrica ferramentas», tendo banido da sua agenda a possibilidade de descansar. «Não perder tempo; manter-se sempre ocupado com algo útil; suprim