No Fim do Ano, Uma Conversa Sobre o Que Está em Causa Com Rui Cardoso Martins, no Pergunta Simples No último dia do ano, o Pergunta Simples oferece uma conversa que nos obriga a parar, escutar e pensar. Num tempo de urgências e distrações, Rui Cardoso Martins senta-se ao microfone para falar da única coisa que nunca sai de moda: a palavra — e tudo o que ela transporta. Escritor, cronista, argumentista, dramaturgo, repórter de guerra e professor universitário. Rui é um dos mais versáteis criadores da língua portuguesa. Um faz-tudo da escrita, como diz de si mesmo, capaz de passar do teatro à televisão, da reportagem à literatura, do humor à tragédia — sem perder a integridade, nem a humanidade. Esta conversa percorre décadas de jornalismo, atravessa fronteiras geográficas e morais, revisita tribunais e zonas de guerra, e detém-se naquelas perguntas que importam sempre: o que está em causa aqui? O que fazemos com o que vemos? Como escrevemos a memória? A Escrita como Resistência Rui começou no jornalismo nos anos 90, no nascimento do jornal Público. Foi repórter nos Balcãs durante o cerco de Sarajevo, embarcou no Lusitânia Expresso rumo a Timor, e cobriu as primeiras eleições livres na África do Sul. Testemunhou a História em carne viva — e sobreviveu a ela escrevendo. Um olhar atento, uma ironia serena, e uma linguagem afinada como um motor de avião: porque escrever mal, diz ele, pode ser mais perigoso do que um mecânico incompetente. Do jornalismo passou para a ficção, sem nunca abandonar o rigor. As crónicas judiciais Levante-se o Réu revelaram o teatro trágico e grotesco da justiça portuguesa, num tom que une Fernando Namora e Monty Python. A sua literatura — premiada e traduzida — transporta o peso da experiência, mas também a leveza de quem sabe rir do absurdo. Rui escreve como quem repara o mundo. De madrugada, antes que os Pokémons acordem, com uma folha branca como animal de companhia. O tempo da escrita é anterior ao ruído, à velocidade, à obrigação. É o momento em que a linguagem ainda não foi contaminada. A Memória e o Corpo da Palavra A entrevista percorre também o terreno íntimo da memória. Rui fala do papel dos cadernos, dos rituais, dos mestres como Cardoso Pires e Lobo Antunes — e da descoberta inesperada de que, sim, talvez seja mesmo um escritor. Há pudor, mas não pose. Há humor, mas não cinismo. Há sobretudo uma preocupação com a precisão: “tudo o que acontece no mundo passa pela linguagem”, diz ele. E acrescenta: quando a mentira tem o mesmo peso da verdade, estamos à beira da desgraça. A sua voz não é a de um moralista, mas a de um observador treinado. Rui descreve Sarajevo como um lugar onde o vizinho passou a ser o inimigo. Fala de genocídio, da escolha de um lado — e da ilusão de neutralidade em tempos de barbárie. Fala da Avenida dos Snipers, dos campos de futebol transformados em cemitérios, da ausência de cães, de gatos, de calor. A sua literatura é feita dessa matéria: o choque entre o que era e o que se tornou. Do Humor à Tragédia: a Responsabilidade de Dizer Criador de frases como o célebre “Penso eu de que…”, Rui ajudou a moldar o humor político com Contra-Informação, Herman Enciclopédia e Conversa da Treta. Mas vê nessa sátira algo mais profundo do que entretenimento. O humor é uma forma de resistência. Uma forma de pensar por dentro da linguagem, de devolver o ridículo ao poder, de encontrar o ponto fraco do discurso dominante. Fala da responsabilidade de quem escreve. De como se pode usar a palavra para curar ou para envenenar. De como a verdade se perde quando todas as versões da realidade parecem ter o mesmo valor. E de como o jornalismo, quando feito com rigor, ainda pode ser um antídoto para a manipulação. O Mundo que Vem A conversa fecha com uma pergunta que nos interpela a todos: a Europa está pronta para viver sozinha? Num tempo de guerras em curso, de democracias frágeis e de redes que amplificam o boato, Rui não tem ilusões: ou lutamos pela liberdade, pela educação, pela justiça, ou perdemos. A escrita, nesse contexto, é mais do que estética — é ética. No fim do episódio, Rui confessa: só quer contar histórias úteis. Úteis no sentido mais profundo da palavra. Histórias que sirvam para entender o mundo e para não esquecer. Histórias que transformem o banal em universal, o pequeno em essencial. Porque, como diz, não há escritor sem memória. E não há futuro sem narrativa. Este episódio foi originalmente publicado no Pergunta Simples, mas regressa agora como parte da nossa coleção Essencial. Uma conversa profunda, com valor reconhecido. Ouça ou reveja com tempo: continua atual, necessário e transformador. LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO Esta transcrição foi gerada automaticamente. A sua exatidão pode variar. 0:12 Rui Cardoso Martins: Jornalista, Escritor e o Faz-Tudo da Palavra Neste episódio, vamos aprender a contar uma boa história, a contar a vida, a usar as técnicas do jornalismo da ficção e a usar a memória esta conversa com Rui Cardoso Martins. É uma daquelas que nunca se esquecem, porque não se limitou a falar sobre a escrita, falou sobre a vida, sobre o luto, sobre a escuta, sobre o silêncio, sobre como contar uma história sem ferir quem a viveu e sobre como dar palavras às dores que tantas vezes não têm. 0:38 Nome Rui Cardoso Martins é jornalista, cronista, argumentista e, agora, principalmente, escritor. Mas está aqui, sobretudo como alguém que escuta, que observa, que transforma o caos em sentido, sem trair a realidade de uma testemunha profissional. É uma conversa Serena, mas cheia. 0:53 Uma conversa para quem acredita que comunicar bem também é saber calar no tempo certo. Este episódio regressa agora porque há silêncios que merecem ser visitados uma e outra vez. E porque há histórias. Que nos obrigam a que? As contemos está disponível em todas as plataformas de podcast também no YouTube. 1:11 Em vídeo, todos os links estão em perguntasimples.com pode ser uma boa oportunidade para subscrever o canal, deixar um comentário ou partilhar este episódio com alguém que, como tu, sente que as boas histórias fazem sempre falta. 1:27 Viva Rui Cardoso Martins tens um comboio de funções, escritor, cronista, argumentista, derramaturgo, professor, jornalista. Que és, Paulo? O que é que és hoje? 1:38 Pessoa 2 Não faz tudo? 1:39 Pessoa 1 Não faz tudo, porque é que o que é que faz um faz? 1:41 Pessoa 2 Tudo não faz tudo na num, numa visão, uma visão, numa numa perspetiva geral de literatura, que é uma palavra que eu uso sempre no, no bom sentido, no sentido sem, sem, sem rodriguinhos, sem sem jogos florais. 2:00 Sou uma pessoa que que usa a linguagem, a língua portuguesa para para várias, digamos, artes da escrita, e, portanto, são. Faz tudo no sentido. Eu gosto muito, faz de tudo, aquelas pessoas que sabem resolver não sei quantos problemas e então está com os mesmos, às vezes com os com os mesmos instrumentos, o meu instrumento, enfim, OA minha maneira de trabalhar é. 2:24 É a língua que uso em em jornalismo, que uso em em literatura, enfim, em em romance, em conto e em em guiões de cinema e de televisão. 2:34 Os Tempos Heroicos do Público e a Influência dos Mestres Mas há há frequências diferentes, porque quando tu és jornalista puro e duro e tens que dar a notícia é uma coisa, quando te permites fazer as maravilhosas crónicas como tu fazias do levantes, o réu no. No caso do público, crónicas judiciais. 2:52 Ah, é diferente do que do que fazer depois? Humor, como fizeste nas produções fictícias ou como fazes quando escreves um romance? 2:58 Pessoa 2 Sim, sim, a minha formação é de jornalista. Porquê? Porque tirei o curso de comunicação social na universidade nova EE, entrei imediatamente no. Foi um tempo, um tempo histórico, heroico. Interessante que foi quando apareceu as candidaturas para um novo jornal, que veio a ser o público e, portanto, entrei como estagiário no público depois de uma. 11. 3:22 Formação de enfim, de de uma seleção. E aí aprendi tudo da da quase da chamada tarimba. Ainda há uns vários meses, ainda antes do jornal sair. Quem? 3:32 Pessoa 1 Quem foram os teus mestres? 3:33 Pessoa 2 Os meus mestres foram em grande parte, os meus mestres no Julio foram o Adelino Gomes, o Rogério Rodrigues, o pai do Tiago Rodrigues, do do teatro, que é um que é um amigo meu, foi o Rogério Vidigal, foi o. 3:50 Foi o Eduardo Rebelo, foi o torcato Sepúlveda e foi obviamente, em grande parte Oo vice Jorge Silva. Portanto, tive, tive a sorte. 4:00 Pessoa 1 Tive a. 4:01 Pessoa 2 Trabalhar outro, seja a de Camacho. Agora podia. Podia continuar a lista. Éramos uns jovens que estavam ali com com com mestres. E, portanto, o que é que aprendi a fazer? 4:12 Pessoa 1 O que é que se aprende? 4:13 Pessoa 2 Desde as Breves às notícias e às reportagens, muito cedo começámos. Eu tive a sorte de começar AA sair de Lisboa, ou ou ir a Lisboa aos bairros de Lisboa, ou ou ir para o estrangeiro escrever reportagem. 4:30 Portanto, tive ainda antes da internet, ainda antes dos computadores. Hoje parece quase graça, mas eu não consigo escrever coisas à mão. Não é porquê? Porque fiz uma transição e uma aprendizagem. 4:41 Pessoa 1 Do analógico para o digital. 4:42 Pessoa 2 Sim, enfim, acho que somos AA última, somos nós, aqueles ali. A última geração que passou por isso tudo? 4:50 Pessoa 1 Eu quando quando comecei a trabalhar na telefonia, era fita, era era bobines também. 4:54 Pessoa 2 Passei por isso, não havia. 4:55 Pessoa 1 Computadores. 4:56 Pessoa 2 Enfim, nós quando? 4:57 Pessoa 1 Não havia internet. 4:58 Pessoa 2 Tínha