Pergunta Simples

Jorge Correia

O Pergunta Simples é um podcast sobre comunicação. Sobre os dilemas da comunicação. Subscreva gratuitamente e ouça no seu telemóvel de forma automática: https://perguntasimples.com/subscrever/ Para todos os que querem aprender a comunicar melhor. Para si que quer aprender algo mais sobre quem pratica bem a arte de comunicar. Ouço pessoas falar do nosso mundo. De sociedade, política, economia, saúde e educação.

  1. 4 DAYS AGO

    O que é um bom livro para ler? Ana Daniela Soares

    Num tempo em que quase tudo é reduzido a título, excerto ou opinião instantânea, a pergunta pode parecer ingénua: o que é um bom livro para ler? Mas talvez seja precisamente por isso que ela importa tanto. Ler exige hoje aquilo que se tornou raro no espaço público: tempo, atenção, silêncio e disponibilidade para escutar o outro. Um livro não compete bem com a pressa. Não cabe em trinta segundos, não se resume num post e não se explica em três frases. E, ainda assim — ou talvez por isso mesmo — continua a ser um dos últimos lugares onde o pensamento pode amadurecer sem pedir desculpa. A conversa com Ana Daniela Soares, no mais recente episódio do Pergunta Simples, parte dessa pergunta simples para uma reflexão mais ampla sobre leitura, empatia e responsabilidade cultural. Não é uma conversa sobre tendências editoriais nem sobre listas de recomendações. É uma conversa sobre critérios. A história antes do estilo Para Ana Daniela Soares, a resposta começa sem rodeios: um bom livro tem de contar uma boa história. Não precisa de exibicionismo formal nem de complexidade gratuita. Pode ter uma escrita simples, limpa, direta — desde que haja história. Um livro que é apenas um exercício de estilo pode impressionar por momentos, mas raramente fica. Esta defesa da história não é conservadora nem simplificadora. Pelo contrário: é uma defesa da inteligibilidade. Uma boa história organiza o mundo, cria sentido, permite ao leitor entrar. Mesmo a escrita mais experimental precisa de um eixo que a sustente. Sem ele, o livro fecha-se sobre si próprio. O que faz um livro ficar Nem todos os livros que são publicados resistem ao tempo. A maioria desaparece com a corrente — não por falta de mérito, mas porque o tempo é um juiz implacável. Os livros que ficam tendem a partilhar um traço menos óbvio do que o talento: empatia. Ao longo de quase duas décadas a entrevistar escritores, Ana Daniela Soares identifica esse padrão com clareza. Os grandes autores são, regra geral, profundamente atentos ao humano. Observam, escutam, tentam compreender o outro — mesmo quando escrevem ficção. Essa empatia não é sentimentalismo; é método. É a capacidade de olhar para fora de si, de manter a “janela aberta para a rua”. É também por isso que tantos grandes livros parecem falar do presente antes de o presente se tornar evidente. A literatura funciona como radar. Capta movimentos subterrâneos da sociedade, conflitos ainda difusos, tensões que só mais tarde se tornam notícia. Quando a realidade explode, muitas vezes o livro já lá estava. Ler no tempo do algoritmo Num ecossistema mediático dominado pelo algoritmo, pela velocidade e pela simplificação, a leitura longa tornou-se um gesto quase contracultural. Hoje pede-se ao leitor que decida rápido, que consuma rápido, que passe à frente se algo exige esforço. Mas um livro não funciona assim. Exige insistência. Exige entrega. Exige, sobretudo, a liberdade de largar — e de regressar mais tarde. Há livros que não são para um determinado momento da vida. E isso não os torna menores. Ler tudo não significa ler bem. O valor está na variedade, no risco, na disposição para sair do confortável. E também na capacidade de reconhecer quando um livro não nos está a dizer nada — sem culpa excessiva, mas com honestidade. O risco de deixarmos de ler a sério A pergunta final é talvez a mais inquietante: o que acontece se deixarmos de ler a sério? A resposta não é abstrata. Há consequências cognitivas, emocionais e culturais. O cérebro muda. A capacidade de atenção diminui. A empatia enfraquece. A compreensão do outro torna-se mais pobre. Ler não é apenas entretenimento. É treino. É exercício mental. É uma forma de aprender a viver com complexidade sem fugir dela. Uma sociedade que deixa de ler com tempo e exigência empobrece — não apenas culturalmente, mas democraticamente. Um critério simples, uma exigência alta No fim, a resposta à pergunta inicial é simples — e exigente. Um bom livro é aquele que conta uma boa história, nasce da empatia, resiste ao tempo e nos obriga a parar. Não para escapar ao mundo, mas para o compreender melhor. Num tempo acelerado, ler continua a ser uma forma de resistência. E talvez, ainda, uma das formas mais profundas de comunicação que nos restam. LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO Para mim, um bom livro, e isto se calhar vai chocar algumas pessoas que nos estão a ouvir, para mim, um bom livro conta-nos uma boa história. Não é só um exercício de escrita, não é só… Não. Um bom livro tem que ter uma boa história, porque mesmo a escrita mais simples, mais limpa, mais… mais direta pode resultar num bom livro. Ora vivam, bem-vindos ao Pergunta Simples, o vosso podcast sobre comunicação. Num tempo em que quase tudo é reduzido a título, certo ou opinião instantânea, ler tornou-se um gesto radical. Radical, porque exige aquilo que hoje mais falta faz. Tempo, atenção e disposição para escutar o outro. Os livros não competem bem com a pressa, não cabem em 30 segundos, não se explicam em três frases e talvez, por isso, continuem a ser um dos últimos lugares onde o pensamento ainda pode amadrucer. Há quase 20 anos que Ana Daniela Soares, jornalista, habita este território raro, na rádio, na televisão, criou ou apresentou programas como A Volta dos Livros, Todas as Palavras e Palavras do Mundo, construindo um dos percursos mais consistentes na divulgação literária em Portugal. E vamos, por isso, falar de livros, claro. Espaços onde os livros são um pretexto, mas ponto de partida para pensar o mundo. Entrevista escritores, não para os promover, mas para os compreender, não para simplificar ideias, mas para as tornar habitáveis para quem as ouve. Nesta conversa falamos, claro, sim, de livros, muito, mas falamos sobretudo de empatia, de permanência, de responsabilidade social e cultural perante este mundo novo, do que distingue um livro que passa de outro que fica por décadas, por anos e do que acontece a uma sociedade quando deixa de ler, com tempo, com silêncio e com exigência. Porque ler hoje não é um passo a tempo, é uma forma de resistência, uma forma de comunicação. Se valoriza conversas com tempo e ideias que ficam, como é o caso deste episódio, subscreva o Pregunta Simples, está tudo em perguntasimples.com barra subscrever. É gratuito e é serviço público. Ana Daniela Soares, jornalista, divulgadora cultural, tu és a pessoa mais furtuda do mundo porque, na realidade, deves ter centenas de livros para ler que te chegam todos ao mesmo tempo à caixa de correio. Tens a maior sorte do mundo, quer ter muitos livros para ler. E uma grande desgraça porque só podes ler uma pequena parte daquilo que te… que te cai em cima da secretária. Sim, é verdade. E tem outro problema, que é já não tenham de guardar livros. Porque, na verdade, há quase 20 anos, é verdade, há quase 20 anos que entrevisto escritores entre a rádio e a televisão. Já se passaram 20 anos. E como é que tu organizes a tua biblioteca? Na verdade, eu já tenho um apartamento em Aveiro, onde eu nasci, que não está habitado e que só tem livros. Está habitado? É uma biblioteca na realidade? É uma biblioteca na realidade. E todas as divisões da minha casa, cá em Lisboa, exceto a casa do bem, têm livros. E tens uma ideia de percentagem. Quantos é que tu já conseguiste ler de todos aqueles que tens armazenados? Uma ínfima parte. Gostava de acreditar que consegui ler metade, 50%, mas estou a confiar que depois na reforma vai ser em grande. Havia um escritor que punha lá umas etiquetas brancas, não era? Para saber que aquele livro ainda não tinha sido lido, mas não resolve… Eu não preciso disso, sabes? A minha memória é muito fotográfica. Por exemplo, muitas vezes falam-me de um título e eu posso não perceber logo ou não associar logo qual é o livro, mas basta eu ver a capa. Ah, sim, já sei qual é. E muitas vezes, vá lá, digo, já tenho. O que é que é um bom livro para ti? Olha, para mim um bom livro, e isso se calhar vai chocar algumas pessoas que nos estão a ouvir, para mim um bom livro conta-nos uma boa história. Tem que ter uma história? Eu, sim. Portanto, não pode ser uma manta de retalhos, não pode ser um farrapo. Uma manta de retalhos pode também contar uma boa história. O que eu acho é que o livro tem que ter uma boa história. Não é só um exercício de escrita, não é só… Não, um bom livro tem que ter uma boa história, porque mesmo a escrita mais simples, mais limpa, mais direta, pode resultar num bom livro. E para mim a história é o mais importante. E todas as histórias são interessantes, ou há algumas que tu ameio e tens que ter quase um ato de resistência, de dizer, não, eu vou continuar, porque eu sei… Há uns escritores que são assim, não é? Que se fazem difíceis na sua escrita. Sim, sim. Embora eu acho que essa tendência hoje já está um bocadinho a desaparecer, porque com esta crise entre aspas que vivemos, sim, há muita gente que diz, e muitos estudos mostram, não, os portugueses estão a ler mais, sobretudo os jovens. E eu gosto sempre de acrescentar uma pergunta, que é esta, e o que é que estes jovens estão a ler? Será alguma coisa de qualidade e que vai formar um público leitor para o futuro? Então, mas não vale ler tudo? Eu acho que vale ler tudo desde que depois nos atrevamos a ler outras coisas. A arriscar. Porque às vezes há momentos em que nós estamos a ler determinados livros, e os livros são densos, são complexos, e nós não estamos com essa capacidade de atenção, de estar ali preso, e apetece ir em busca daquele livro que tem capítulos de três Exato. É isso mesmo. E eu acho que essa é que é

    49 min
  2. 7 JAN

    Qual é o papel da arte na conversa pública? Rui Melo

    Escuta, empatia , arte, polémica e comunicação Porque é que ouvir se tornou tão difícil? No Pergunta Simples, a conversa com Rui Melo cruza teatro, polémica e criação artística para refletir sobre escuta, mudança de opinião e o lugar da arte na discussão pública. No mais recente episódio do Pergunta Simples, Rui Melo passou pelos principais temas do seu trabalho artístico e pelas ideias que têm marcado a sua reflexão pública sobre comunicação, escuta e o papel da arte na sociedade contemporânea. Ator, encenador, músico e argumentista, Rui Melo está atualmente em cena com a peça “Arte”, de Yasmina Reza, um texto centrado na amizade, no desacordo e na dificuldade de aceitar o ponto de vista do outro. A peça serviu como ponto de partida para uma conversa mais ampla sobre a forma como lidamos com opiniões divergentes, tanto no espaço público como nas relações pessoais. Logo no início da conversa, Rui Melo afirmou que um dos maiores problemas do nosso tempo é a perda da capacidade de ouvir. Para o ator, ouvir não é apenas escutar palavras, mas estar genuinamente disponível para mudar de opinião quando confrontado com novos argumentos ou factos. Essa disponibilidade, defende, tornou-se rara numa sociedade cada vez mais rígida e polarizada. A conversa passou depois para a forma como o debate público se transformou nos últimos anos. Rui Melo criticou a ideia de que todas as opiniões têm o mesmo peso, independentemente do conhecimento ou da experiência de quem as emite, e sublinhou que a proliferação dessa lógica dificulta o diálogo e a aprendizagem. As redes sociais, acrescentou, não criaram este fenómeno, mas amplificaram-no, dando visibilidade a discursos que antes ficavam circunscritos a espaços mais limitados. No plano artístico, Rui Melo defendeu uma visão da arte como espaço de provocação e fricção. Para si, a função da arte não é confortar nem agradar, mas provocar um efeito emocional e intelectual, mesmo que isso implique desconforto ou polémica. É nesse enquadramento que surge a sua participação em projetos que suscitaram debate público. Ao falar do trabalho em “O Arquiteto”, Rui Melo fez questão de sublinhar que se trata de uma obra de ficção e não de um documentário. O objetivo, explicou, nunca foi oferecer respostas fechadas, mas levantar questões e incentivar a discussão sobre temas sensíveis, como o abuso de poder, o assédio ou o silêncio coletivo em torno de determinados assuntos. As reações opostas ao projeto — críticas por ir longe demais e por não ir suficientemente longe — foram, para si, um sinal de que a discussão estava a acontecer. A conversa abordou também os limites da escuta. Rui Melo reconheceu que nem todas as opiniões merecem diálogo e que existem fronteiras pessoais que não está disposto a ultrapassar, sobretudo quando o discurso do outro não procura diálogo ou aprendizagem, mas apenas provocação. Ainda assim, distinguiu essas situações do debate genuíno, que pressupõe escuta mútua e abertura. No contexto profissional, o ator descreveu o trabalho artístico como um processo de afinação constante: de ritmo, de tom e de relação com o outro. A chamada “química” entre pessoas, afirmou, não é um dado fixo, mas algo que se constrói através da escuta, da atenção e da disponibilidade para ajustar. Ao longo do episódio, Rui Melo regressou várias vezes à ideia de maturidade e dúvida. Citando uma canção que o marcou, afirmou sentir-se numa fase da vida em que as certezas caducam — não como sinal de fragilidade, mas como consequência natural de quem continua disponível para aprender. A conversa terminou sem conclusões fechadas, mas com uma ideia transversal a todos os temas abordados: comunicar bem exige tempo, escuta e a capacidade de aceitar que o outro pode ter razão. Num contexto marcado por respostas rápidas e posições rígidas, essa atitude surge como um exercício cada vez mais raro – e cada vez mais necessário. Uma conversa para ouvir devagar. LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO Esta transcrição foi gerada automaticamente. A sua exatidão pode variar. 0:00 A Incapacidade de Ouvir e Mudar de Opinião Ultimamente ando muito aborrecido com a incapacidade das pessoas serem empáticas e tolerantes. E mais uma coisa, um bocadinho mais mais complicada, que é a capacidade que as pessoas deixaram de ter para ouvir. 0:18 E quando eu digo ouvir, é no sentido de ter uma predisposição para mudar de opinião se for preciso. Não é ouvir, é isso. 0:38 Pessoa 2 Vivemos num tempo em que toda a gente fala, mas pouca gente escuta. Um tempo em que as opiniões chegam antes das perguntas e em que mudar de ideias passou a ser visto como uma fraqueza. Hoje me pergunta simples. Partimos do teatro para falar de comunicação. 0:55 O nosso convidado é Rui Melo, ator, encenador, músico e argumentista. Está atualmente em cena com a peça Arte 1 texto sobre a amizade, desacordo e dificuldade, tantas vezes dolorosa de aceitar o ponto da vista do outro. Uma peça onde um simples quadro branco desencadeia uma discussão profunda sobre o gosto, sobre a identidade e sobre a relação. 1:18 É também. A partir daqui que começa esta conversa, ao longo do episódio, falamos de escuta, da Liberdade, de humor, de arte como provocação. E falamos de teatro, de televisão, de projetos como o pôr do sol, o taskmaster, Oo arquiteto, a série. 1:34 Mas, sobretudo, falamos daquilo que parece estar a faltar mais nas conversas de hoje, a capacidade de ouvir sem reagir de imediato e de mudar de opinião, se for caso disso. Esta não é uma entrevista de respostas rápidas, é uma conversa lenta, é uma conversa com o tempo, porque comunicar bem começa quase sempre por saber ouvir, e isso implica tempo. 1:58 Eu sou o Jorge Correia, isto é o pergunta simples, vamos à conversa? 2:05 Por Que as Certezas Caducam e a Flexibilidade Importa Muito. 2:10 Pessoa 1 Gira a caneca, pá. 2:11 Pessoa 2 Pá, eu decidi fazer o meu ato de propaganda. Pensei assim, se eu fizer 111 caneca a dizer perguntas simples, isso pelo menos vai inspirar a Malta a fazer perguntas simples, que são as mais difíceis, não é? É sempre a. É sempre a. 2:27 Pessoa 1 Não sei muito bem o que é que são perguntas simples, mas. 2:30 Pessoa 2 Não é as das crianças são as perguntas mais simples do mundo. Às vezes não, não, ainda não estou a dizer as respostas. Depois a gente fica à rasca, mas mas eles. Objetividade não é. Eles sabem fazer a pergunta, EEE não é. Não é só objetividade, é. As crianças têm uma capacidade e um despodor de fazer a pergunta certa. 2:50 Olham e dizem, mas porque é que isto é assim? E a gente dizia, é pá. É porque sim, porque sim, não é resposta, não é. Quer dizer, EE, essa e essa coisa e a gente perde isso, que é uma coisa para para mim, que é assustadora, porque porque é que a gente perde? Porque é que nós perdemos a capacidade de fazer perguntas? 3:07 Pessoa 1 Pois. 3:07 Pessoa 2 É uma boa pergunta, não é porque é que a gente perde? É uma, é sempre uma, é sempre uma cena, um bocado pá. Quer dizer, eu não consigo. É difícil perceber, porque é que a gente perde a capacidade de fazer perguntas viva. 3:20 Pessoa 1 Olá. 3:20 Pessoa 2 Rui Melo ator, encenador, argumentista, apresentas te como quando vais lá às como o Rui? Rui, Rui, Rui, olá, eu sou o Rui, olá, sou o Rui, sou Rui. Olha OOO, Rui quando não está a interpretar ninguém é o quê? 3:35 Pessoa 1 Depende da da circunstância. Quando sou em casa, sou um chato. 3:39 Pessoa 2 Então, aborreço quem? 3:41 Pessoa 1 Aborreço me a mim e aborreço me os que estão comigo, não eu. Eu acho que nós estamos sempre, de alguma forma, a representar. Não é nem que seja porque queremos ser boas pessoas, ou simpáticos, ou. E há dias em que às vezes não estamos nem nem simpáticos, nem boa, nem boas pessoas. 3:58 Mas AA educação não é obriga nos entre aspas. Pelo menos tentar a. 4:04 Pessoa 2 Comportar nos. 4:05 Pessoa 1 Sim. Pelo menos tentar sim. 4:07 Pessoa 2 Então, EE, naqueles dias de neuro, como é que como é que tu fazes poupas os dias, os outros desapareces do mapa o. 4:12 Pessoa 1 Que é que? O que é que te faço? Sempre que possível? Sim, sim. Aqueles dias, como diz a canção do do Rui, não é hoje não me reconheço. Há dias assim, EE faço os possíveis para para não me misturar o. 4:26 Pessoa 2 Que é que te aborrece verdadeiramente? 4:29 Pessoa 1 Aborrece? É. Há muita coisa que me aborrece ultimamente. Ando muito aborrecido com a incapacidade das pessoas serem empáticas e tolerantes. E mais uma coisa, um bocadinho mais mais complicada, que é a capacidade que as pessoas deixaram de ter para ouvir. 4:51 E quando eu digo ouvir, é no sentido de ter uma predisposição para mudar de opinião se for preciso. Não é ouvir, é isso? 4:58 Pessoa 2 Não é só estar lá e fingir que estamos a ouvir o outro. 5:00 Pessoa 1 Hoje em dia não há essa disponibilidade, as pessoas têm as suas opiniões formadas e mesmo que alguém apresente um facto novo ou um dado novo, ou mesmo que alguém desconstrua por inteiro a opinião que essa pessoa tem, é muito difícil haver uma mudança. 5:17 Pessoa 2 Ficamos. 5:18 Pessoa 1 Rijos, estamos cada vez mais rijos sim, rígidos, rígidos No No sentido de. Pouco flexíveis à à mudança de opinião. 5:28 Pessoa 2 Alguém inventou agora a minha verdade e a tua verdade, que é que é uma coisa absolutamente extraordinária que é. Mas é isso, essa. Essa ideia de que, por um lado, 11 maior egocentrismo somos nós. É as nossas ideias, a nossa ideia sobre as coisas. 5:45 Mas isso depois está numa. Terrível inc

    52 min
  3. 31/12/2025

    Contas-me uma boa história? Rui Cardoso Martins [ESSENCIAL]

    No Fim do Ano, Uma Conversa Sobre o Que Está em Causa Com Rui Cardoso Martins, no Pergunta Simples No último dia do ano, o Pergunta Simples oferece uma conversa que nos obriga a parar, escutar e pensar. Num tempo de urgências e distrações, Rui Cardoso Martins senta-se ao microfone para falar da única coisa que nunca sai de moda: a palavra — e tudo o que ela transporta. Escritor, cronista, argumentista, dramaturgo, repórter de guerra e professor universitário. Rui é um dos mais versáteis criadores da língua portuguesa. Um faz-tudo da escrita, como diz de si mesmo, capaz de passar do teatro à televisão, da reportagem à literatura, do humor à tragédia — sem perder a integridade, nem a humanidade. Esta conversa percorre décadas de jornalismo, atravessa fronteiras geográficas e morais, revisita tribunais e zonas de guerra, e detém-se naquelas perguntas que importam sempre: o que está em causa aqui? O que fazemos com o que vemos? Como escrevemos a memória? A Escrita como Resistência Rui começou no jornalismo nos anos 90, no nascimento do jornal Público. Foi repórter nos Balcãs durante o cerco de Sarajevo, embarcou no Lusitânia Expresso rumo a Timor, e cobriu as primeiras eleições livres na África do Sul. Testemunhou a História em carne viva — e sobreviveu a ela escrevendo. Um olhar atento, uma ironia serena, e uma linguagem afinada como um motor de avião: porque escrever mal, diz ele, pode ser mais perigoso do que um mecânico incompetente. Do jornalismo passou para a ficção, sem nunca abandonar o rigor. As crónicas judiciais Levante-se o Réu revelaram o teatro trágico e grotesco da justiça portuguesa, num tom que une Fernando Namora e Monty Python. A sua literatura — premiada e traduzida — transporta o peso da experiência, mas também a leveza de quem sabe rir do absurdo. Rui escreve como quem repara o mundo. De madrugada, antes que os Pokémons acordem, com uma folha branca como animal de companhia. O tempo da escrita é anterior ao ruído, à velocidade, à obrigação. É o momento em que a linguagem ainda não foi contaminada. A Memória e o Corpo da Palavra A entrevista percorre também o terreno íntimo da memória. Rui fala do papel dos cadernos, dos rituais, dos mestres como Cardoso Pires e Lobo Antunes — e da descoberta inesperada de que, sim, talvez seja mesmo um escritor. Há pudor, mas não pose. Há humor, mas não cinismo. Há sobretudo uma preocupação com a precisão: “tudo o que acontece no mundo passa pela linguagem”, diz ele. E acrescenta: quando a mentira tem o mesmo peso da verdade, estamos à beira da desgraça. A sua voz não é a de um moralista, mas a de um observador treinado. Rui descreve Sarajevo como um lugar onde o vizinho passou a ser o inimigo. Fala de genocídio, da escolha de um lado — e da ilusão de neutralidade em tempos de barbárie. Fala da Avenida dos Snipers, dos campos de futebol transformados em cemitérios, da ausência de cães, de gatos, de calor. A sua literatura é feita dessa matéria: o choque entre o que era e o que se tornou. Do Humor à Tragédia: a Responsabilidade de Dizer Criador de frases como o célebre “Penso eu de que…”, Rui ajudou a moldar o humor político com Contra-Informação, Herman Enciclopédia e Conversa da Treta. Mas vê nessa sátira algo mais profundo do que entretenimento. O humor é uma forma de resistência. Uma forma de pensar por dentro da linguagem, de devolver o ridículo ao poder, de encontrar o ponto fraco do discurso dominante. Fala da responsabilidade de quem escreve. De como se pode usar a palavra para curar ou para envenenar. De como a verdade se perde quando todas as versões da realidade parecem ter o mesmo valor. E de como o jornalismo, quando feito com rigor, ainda pode ser um antídoto para a manipulação. O Mundo que Vem A conversa fecha com uma pergunta que nos interpela a todos: a Europa está pronta para viver sozinha? Num tempo de guerras em curso, de democracias frágeis e de redes que amplificam o boato, Rui não tem ilusões: ou lutamos pela liberdade, pela educação, pela justiça, ou perdemos. A escrita, nesse contexto, é mais do que estética — é ética. No fim do episódio, Rui confessa: só quer contar histórias úteis. Úteis no sentido mais profundo da palavra. Histórias que sirvam para entender o mundo e para não esquecer. Histórias que transformem o banal em universal, o pequeno em essencial. Porque, como diz, não há escritor sem memória. E não há futuro sem narrativa. Este episódio foi originalmente publicado no Pergunta Simples, mas regressa agora como parte da nossa coleção Essencial. Uma conversa profunda, com valor reconhecido. Ouça ou reveja com tempo: continua atual, necessário e transformador. LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO Esta transcrição foi gerada automaticamente. A sua exatidão pode variar. 0:12 Rui Cardoso Martins: Jornalista, Escritor e o Faz-Tudo da Palavra Neste episódio, vamos aprender a contar uma boa história, a contar a vida, a usar as técnicas do jornalismo da ficção e a usar a memória esta conversa com Rui Cardoso Martins. É uma daquelas que nunca se esquecem, porque não se limitou a falar sobre a escrita, falou sobre a vida, sobre o luto, sobre a escuta, sobre o silêncio, sobre como contar uma história sem ferir quem a viveu e sobre como dar palavras às dores que tantas vezes não têm. 0:38 Nome Rui Cardoso Martins é jornalista, cronista, argumentista e, agora, principalmente, escritor. Mas está aqui, sobretudo como alguém que escuta, que observa, que transforma o caos em sentido, sem trair a realidade de uma testemunha profissional. É uma conversa Serena, mas cheia. 0:53 Uma conversa para quem acredita que comunicar bem também é saber calar no tempo certo. Este episódio regressa agora porque há silêncios que merecem ser visitados uma e outra vez. E porque há histórias. Que nos obrigam a que? As contemos está disponível em todas as plataformas de podcast também no YouTube. 1:11 Em vídeo, todos os links estão em perguntasimples.com pode ser uma boa oportunidade para subscrever o canal, deixar um comentário ou partilhar este episódio com alguém que, como tu, sente que as boas histórias fazem sempre falta. 1:27 Viva Rui Cardoso Martins tens um comboio de funções, escritor, cronista, argumentista, derramaturgo, professor, jornalista. Que és, Paulo? O que é que és hoje? 1:38 Pessoa 2 Não faz tudo? 1:39 Pessoa 1 Não faz tudo, porque é que o que é que faz um faz? 1:41 Pessoa 2 Tudo não faz tudo na num, numa visão, uma visão, numa numa perspetiva geral de literatura, que é uma palavra que eu uso sempre no, no bom sentido, no sentido sem, sem, sem rodriguinhos, sem sem jogos florais. 2:00 Sou uma pessoa que que usa a linguagem, a língua portuguesa para para várias, digamos, artes da escrita, e, portanto, são. Faz tudo no sentido. Eu gosto muito, faz de tudo, aquelas pessoas que sabem resolver não sei quantos problemas e então está com os mesmos, às vezes com os com os mesmos instrumentos, o meu instrumento, enfim, OA minha maneira de trabalhar é. 2:24 É a língua que uso em em jornalismo, que uso em em literatura, enfim, em em romance, em conto e em em guiões de cinema e de televisão. 2:34 Os Tempos Heroicos do Público e a Influência dos Mestres Mas há há frequências diferentes, porque quando tu és jornalista puro e duro e tens que dar a notícia é uma coisa, quando te permites fazer as maravilhosas crónicas como tu fazias do levantes, o réu no. No caso do público, crónicas judiciais. 2:52 Ah, é diferente do que do que fazer depois? Humor, como fizeste nas produções fictícias ou como fazes quando escreves um romance? 2:58 Pessoa 2 Sim, sim, a minha formação é de jornalista. Porquê? Porque tirei o curso de comunicação social na universidade nova EE, entrei imediatamente no. Foi um tempo, um tempo histórico, heroico. Interessante que foi quando apareceu as candidaturas para um novo jornal, que veio a ser o público e, portanto, entrei como estagiário no público depois de uma. 11. 3:22 Formação de enfim, de de uma seleção. E aí aprendi tudo da da quase da chamada tarimba. Ainda há uns vários meses, ainda antes do jornal sair. Quem? 3:32 Pessoa 1 Quem foram os teus mestres? 3:33 Pessoa 2 Os meus mestres foram em grande parte, os meus mestres no Julio foram o Adelino Gomes, o Rogério Rodrigues, o pai do Tiago Rodrigues, do do teatro, que é um que é um amigo meu, foi o Rogério Vidigal, foi o. 3:50 Foi o Eduardo Rebelo, foi o torcato Sepúlveda e foi obviamente, em grande parte Oo vice Jorge Silva. Portanto, tive, tive a sorte. 4:00 Pessoa 1 Tive a. 4:01 Pessoa 2 Trabalhar outro, seja a de Camacho. Agora podia. Podia continuar a lista. Éramos uns jovens que estavam ali com com com mestres. E, portanto, o que é que aprendi a fazer? 4:12 Pessoa 1 O que é que se aprende? 4:13 Pessoa 2 Desde as Breves às notícias e às reportagens, muito cedo começámos. Eu tive a sorte de começar AA sair de Lisboa, ou ou ir a Lisboa aos bairros de Lisboa, ou ou ir para o estrangeiro escrever reportagem. 4:30 Portanto, tive ainda antes da internet, ainda antes dos computadores. Hoje parece quase graça, mas eu não consigo escrever coisas à mão. Não é porquê? Porque fiz uma transição e uma aprendizagem. 4:41 Pessoa 1 Do analógico para o digital. 4:42 Pessoa 2 Sim, enfim, acho que somos AA última, somos nós, aqueles ali. A última geração que passou por isso tudo? 4:50 Pessoa 1 Eu quando quando comecei a trabalhar na telefonia, era fita, era era bobines também. 4:54 Pessoa 2 Passei por isso, não havia. 4:55 Pessoa 1 Computadores. 4:56 Pessoa 2 Enfim, nós quando? 4:57 Pessoa 1 Não havia internet. 4:58 Pessoa 2 Tínha

    50 min
  4. 24/12/2025

    Para que serve a literatura quando a realidade é demasiado dura? Tânia Ganho

    Escrever no escuro: Tânia Ganho, a linguagem e o dever de olhar Há escritores que procuram a luz. Outros preferem começar no escuro. Não por gosto do choque, mas porque sabem que há zonas da experiência humana que só se tornam visíveis quando se abdica do conforto. A escrita de Tânia Ganho pertence claramente a este segundo grupo. Ao longo da conversa no Pergunta Simples, torna-se evidente que não se trata de uma escolha estética nem de uma estratégia narrativa. É uma posição ética: escrever é olhar para aquilo que existe, mesmo quando é incómodo, perturbador ou socialmente evitado. Nos seus livros — e no modo como fala deles — a literatura não surge como refúgio, mas como instrumento de análise. Ganho escreve sobre violência, abuso, maternidade falhada, infância em risco, sistemas de justiça imperfeitos. Não para moralizar. Não para oferecer respostas simples. Mas para tornar visível uma complexidade que tende a ser empurrada para fora do discurso público. A escrita como trabalho — e não como epifania Um dos pontos mais consistentes da conversa é a recusa da ideia romântica do escritor inspirado. A escrita, diz Ganho, é trabalho. Trabalho disciplinado, solitário, muitas vezes árido. Há momentos de fluxo, mas são exceção. O essencial acontece sentado, a cortar, reescrever, eliminar palavras, escolher sinónimos, testar frases até ao limite. Este rigor não é preciosismo. É resistência. Num tempo em que a linguagem se acelera, se empobrece e se uniformiza — em parte pela delegação crescente da escrita em ferramentas automáticas — insistir na escolha exata das palavras é um ato deliberado de diferenciação humana. A preocupação com a inteligência artificial atravessa a conversa não como alarme tecnofóbico, mas como constatação prática. Na tradução literária, onde Ganho trabalha há décadas, as ferramentas automáticas já produzem resultados aceitáveis ao nível estrutural. O problema está noutro lugar: o vocabulário limitado, a previsibilidade sintática, a perda de nuance. A língua funciona, mas deixa de pensar. Escrever, neste contexto, torna-se também um gesto de defesa da linguagem como espaço de liberdade e não apenas de eficiência. Traduzir é recriar — e assumir a imperfeição A tradução literária surge como um dos campos mais reveladores da conversa. Longe da ideia de equivalência perfeita, Ganho insiste num princípio clássico da teoria da tradução: toda a tradução é, por definição, imperfeita. E é precisamente por isso que exige criatividade. Traduzir trocadilhos, humor, ambiguidades culturais implica reconstruir, adaptar, escolher. Às vezes, mudar nomes de personagens secundárias. Às vezes, sacrificar a literalidade para salvar o efeito. É um trabalho que combina técnica e intuição, fidelidade e traição controlada. Esta visão coloca a tradução no centro da criação literária, e não na sua periferia. Tradutores não são mediadores invisíveis: são autores de segunda ordem, responsáveis por decisões que moldam profundamente a experiência de leitura. Ler devagar num mundo rápido A leitura ocupa um lugar central no pensamento de Tânia Ganho — não apenas como hábito pessoal, mas como prática social ameaçada. Ler exige tempo, concentração, disponibilidade emocional. Exige parar. E parar tornou-se uma raridade. Ao longo da conversa, surge uma defesa clara do direito de abandonar livros, de mudar de leitura conforme a fase da vida, de aceitar que nem todos os textos servem todos os leitores em todos os momentos. Longe do moralismo cultural, esta abordagem devolve à leitura uma dimensão viva e plural. Nesse contexto, livreiros, bibliotecários e clubes de leitura ganham uma importância renovada. São mediadores num mercado saturado, curadores num mar de títulos, guias num tempo de excesso de escolha e escassez de atenção. Violência contra crianças: o que preferimos não ver O momento mais duro da conversa surge quando Ganho fala de violência doméstica e sexual sobre crianças. Não como abstração, mas como realidade recorrente. A referência direta ao trabalho da Polícia Judiciária — e à frequência com que são detidos abusadores — desmonta a ilusão de excecionalidade. A dificuldade social, sublinha, está em aceitar que o mal não se apresenta sempre como monstruoso. Pode ser bem-vestido, integrado, respeitável. Essa dissonância cognitiva leva muitas vezes à negação, ao silêncio, à recusa de olhar. É aqui que a literatura assume, para Ganho, uma função insubstituível: obrigar à atenção prolongada. Não ao choque momentâneo, mas à compreensão lenta. Um romance não resolve o problema, mas pode criar consciência. Pode alterar comportamentos marginais — como a exposição excessiva de crianças nas redes sociais — e introduzir dúvida onde antes havia automatismo. Imagem, verdade e desconfiança A conversa cruza ainda fotografia, vídeo e tecnologia. Num mundo em que imagens podem ser manipuladas com facilidade crescente, a relação com a verdade visual degrada-se. Já não sabemos se uma fotografia documenta ou simula. Se um vídeo regista ou inventa. Esta erosão da confiança tem consequências profundas, não apenas mediáticas, mas morais. Se tudo pode ser falso, tudo pode ser descartado. A resposta proposta não é paranoia, mas discernimento: parar, verificar, desconfiar com método. Mais uma vez, a leitura surge como treino essencial. Ler ensina a lidar com ambiguidade, a sustentar atenção, a adiar julgamentos. Competências cada vez mais raras — e cada vez mais necessárias. Escrever para não se afundar No final da conversa, a escrita surge também como estratégia de sobrevivência. O livro dedicado ao pai, escrito após a sua morte, não é um exercício de luto terapêutico simplista. É uma tentativa de reorganizar o mundo depois da perda, de reconstruir camadas identitárias, de encontrar equilíbrio entre memória e continuidade. Humor, dança, desporto, isolamento voluntário: são estratégias práticas para lidar com a carga emocional de quem passa a vida a investigar o sofrimento humano. Não há romantização da dor. Há gestão consciente da tensão. A literatura como exercício de responsabilidade O que atravessa toda a conversa com Tânia Ganho é uma ideia simples e exigente: a literatura não serve para nos proteger do mundo. Serve para nos preparar para ele. Escrever, ler, traduzir, pensar — tudo isto exige tempo, atenção e coragem. Num espaço mediático dominado pela reação imediata e pela simplificação, essa exigência pode parecer anacrónica. Mas talvez seja precisamente por isso que se tornou indispensável. No Pergunta Simples, esta conversa não oferece respostas fáceis. Oferece algo mais raro: ferramentas para pensar melhor. E, num tempo como o nosso, isso já é uma forma de resistência. LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO Esta transcrição foi gerada automaticamente. Por isso, ela pode não estar totalmente precisa. 0:00 Tânia Ganho: Escrever sobre o Lado Sombrio da Vida Eu escrevo sobre lugares muito sombrios e sobre situações muito cruéis, grotescas, macabras. Interessa, me interessa, me interessa me analisar. O ser humano e o ser humano tem uma capacidade enorme para a bondade, para o altruísmo, mas também tem uma capacidade enorme para a crueldade e para para uma violência muito pérfida. 0:20 E não há semana que passe em que a polícia judiciária portuguesa não apanhe 1234. Pedocriminosos, portanto, pedófilos, como as pessoas lhes chamam. 0:30 Pessoa 2 Fala Tânia. Ganho escritora e tradutora literária. O que acabamos de ouvir não é uma metáfora, não é um exagero retórico. Melhor fosse, é uma descrição fria de uma realidade que preferimos manter fora do campo de visão. Uma espécie de não comunicação, de não inscrição. 0:47 É a linguagem da violência, sobretudo sobre os mais vulneráveis. 1:04 Vivam bem vindos ao pergunta simples, o vosso podcast sobre comunicação, Tânia ganho escreve a partir de lugares difíceis, não para chocar, mas para olhar de frente naquilo que a sociedade tende a empurrar para as margens. Nesta conversa, falamos de violência sexual sobre as crianças, sobre violências várias, assumidas, escondidas, envergonhadas. 1:24 E não são atos só de violência física, do mal que vive entre nós, da dificuldade coletiva em aceitar que o mal não tem sempre cara de monstro, de forma como o discurso público fala de direitos. Mas falhamos muitas vezes na proteção real. 1:40 Falamos também do papel da literatura nestes contextos, não como consolo, mas como instrumento de lucidez. Como forma de dar tempo, espessura consciência a temas que exigem mais do que indignação rápida. Mas esta também é uma conversa luminosa sobre leitura e leitores, sobre ler devagar no mundo acelerado, sobre quando existir num livro e quando o abandonar, sobre livreiros, bibliotecários e clubes de leitura como mediadores essenciais, num tempo de excesso de títulos e pouca atenção para responder à pergunta, afinal, que próximo livro é que eu vou ler? 2:15 Falamos ainda. De linguagem, da escolha rigorosa das palavras, do empobrecimento do vocabulário da inteligência artificial e do risco de começarmos todos a escrever, a falar e a pensar da mesma maneira. O pergunta simples existe para isso, para criar um espaço onde é possível pensar melhor, comunicar melhor e enfrentar dilemas reais sem simplificações. 2:37 Esta é uma dessas conversas. 2:42 O Trabalho Diário do Escritor, Longe da Epifania Romântica Tânia, ganho tu auto defines te. Como escritora eremita e leitura compulsiva, que é mais ou menos a mesma coisa, forges para ir ler, forges para ir escrever és escritora. Tens 2 livros de que e

    55 min
  5. 17/12/2025

    Que lições do palco ajudam a comunicar melhor no dia a dia? Diogo Infante

    Quando a comunicação deixa de ser talento e passa a ser trabalho Há pessoas que parecem ter nascido com presença. Quando falam, o silêncio organiza-se à volta delas. Quando entram numa sala, sentimos qualquer coisa mudar. A tentação é chamar a isso carisma. Ou talento. Ou dom. A conversa com Diogo Infante desmonta essa ideia logo à partida. Antes da presença houve timidez. Antes da voz segura houve dificuldade em falar. Antes do palco houve desajuste, deslocação, a sensação de não pertencer completamente ao sítio onde se estava. O teatro não surgiu como ambição, mas como solução. Uma forma de aprender a comunicar quando comunicar não era natural. Um lugar onde a palavra podia ser ensaiada, onde o corpo podia ganhar confiança, onde o erro não era um fim — era parte do processo. Talvez por isso a noção de presença apareça nesta conversa de forma tão concreta. Não como algo abstrato, mas como um estado físico e relacional. Presença é perceber se o outro está connosco. Presença é sentir quando uma frase chega — ou quando cai no vazio. E esse vazio, quando acontece, dói. Não por vaidade. Mas porque revela uma falha de ligação. Há um momento particularmente revelador: quando fala do silêncio do público. Não o silêncio atento, mas aquele silêncio inesperado, quando uma deixa cómica não provoca riso. “Aquilo dói na alma”, diz. E nessa frase está tudo o que importa saber sobre comunicação: falar é sempre um risco. O outro não é cenário. É parte ativa do que está a acontecer. A conversa avança e entra na exposição pública. Aqui, Diogo Infante faz uma distinção interessante: entre a pessoa privada e a figura pública. Não como máscara, mas como responsabilidade. Há um “chip” que se ativa — uma disciplina interna que permite aguentar expectativas, projeções, rótulos. A maturidade está em não confundir esse papel com a verdade interior. É uma ideia útil num tempo em que confundimos visibilidade com autenticidade. Falamos também de televisão, cinema, teatro. Dos ritmos diferentes. Das exigências técnicas. Mas a ideia central mantém-se: a verdade não depende do meio. Depende da intenção. Comunicar para milhões não dispensa rigor. Simplificar não é empobrecer. Outro ponto forte da conversa é a vulnerabilidade. Num espaço público cada vez mais dominado por certezas rápidas e discursos blindados, assumir fragilidade continua a ser um gesto arriscado. Mas aqui a vulnerabilidade surge como força tranquila. Como forma de aproximação. Como autoridade que não precisa de se impor. Quando a conversa entra no território da família, tudo ganha outra densidade. Dizer “amo-te”. Pedir desculpa. Estar disponível. A comunicação íntima aparece como o verdadeiro teste. Se falhamos aí, o resto é técnica. E só técnica não chega. No plano mais largo, surge a pergunta maior: para que serve a arte num tempo acelerado, ruidoso, polarizado? A resposta não vem em tom grandioso. Vem simples: para nos salvar. Não salvar o mundo. Salvar-nos a nós. Da pressa. Do cinismo. Da incapacidade de escutar. No fim, fica uma conclusão exigente: a presença não é talento — é trabalho. A comunicação não é performance — é relação. E a verdade, quando existe, dá sempre algum trabalho a dizer. Talvez seja por isso que esta conversa não é apenas sobre teatro. É sobre como falamos, como ouvimos e como estamos uns com os outros. E isso, hoje, é tudo menos simples. LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO Esta transcrição foi gerada automaticamente. A sua exatidão pode variar. 0:00 Abertura do Episódio e a Angústia do Impostor Muitos de nós temos o síndroma de um impostor. Achamos sempre que que somos uma fraude, que na verdade, estamos só a replicar uma mentira. Não estamos a ser suficientemente verdadeiros ou estamos a repetir um padrão de comportamento que já fizemos. Achamos sempre que não estamos à altura do desafio. 0:15 É muito doloroso. É por isso que as pessoas acham que isso ser ator é. É maravilhoso, mas é um processo de grande angústia, angústia criativa, porque estamos perante a expetativa. Tu já estás a pensar aí, a peça do do clube dos poetas mortos, e eu e eu começo a pensar, AI, meu Deus, se aquilo for uma merda, o que é que eu faço, não é? 0:44 Pessoa 2 Ora, digam bem vindos ao pergunta simples, o vosso podcast sobre comunicação? Hoje conversamos com alguém que encontrou no palco não apenas uma profissão, mas uma espécie de casa interior. Diogo Infante contou me que na infância começou pela timidez e pelo desajuste, por aquela sensação de ser observado, de ser o lisboeta gozado no Algarve, de não ter ainda um lugar onde a voz encaixasse e que foi o teatro que lhe deu essa linguagem, a presença e, nas palavras dele, uma forma de se adaptar ao mundo. 1:13 À medida que foi crescendo como artista, veio uma outra descoberta. É de que existe um chip, uma espécie de mecanismo, um parafuso que se ativa quando ele entra no modo figura pública. Um mecanismo de responsabilidade, de expectativa e, às vezes, de peso. 1:30 Mas o mais interessante veio quando falou do silêncio do público, do que acontece quando diz uma frase que ele sabe que devia provocar o riso. E ninguém reage. Esta frase diz tudo sobre a comunicação. O público não é cenário, é organismo vivo, é uma reação em tempo real, é a energia que mexe connosco. 1:48 E é essa conversão entre a técnica e a vida, palco, intimidade, presença e vulnerabilidade que atravessa a conversa de hoje. Falamos do medo de falhar, daquele perfeccionismo que vive colado na pele dos artistas e que o Diogo conhece tão bem. Falamos da comunicação dentro de casa, da importância de dizer. 2:06 Gosto de ti ao filho do valor de pedir desculpa do que se aprende ao representar os outros e do que se perde quando acreditamos demasiado na imagem que o público tem de nós. E falamos dessa ideia luminosa que ele repete com ternura. A arte no fim existe para nos salvar da dureza do mundo, da dureza dos outros e, às vezes, da dureza que guardamos para nós próprios. 2:28 Esta é, portanto, uma conversa sobre teatro, mas não só. É, sobretudo uma conversa sobre. Comunicação humana sobre como nos mostramos, como nos escondemos, como nos ouvimos e como nos reconstruímos. Se eu gostar desta conversa, partilhe, deixe o comentário e volte na próxima semana. 2:44 E agora, minhas senhoras e meus senhores. Diogo Infante, Diogo Infante, ponto. Não tem mais nada para dizer. UI é só isto, Diogo Infante. 2:56 Como a Timidez Moldou o Caminho para o Palco Diogo Infante, ator, encenador. Quando eu disse que que IA conversar contigo, que IA ter o privilégio de conversar contigo, uma minha amiga disse, Ah, diz lhe que eu gostei muito do do sirano de bergerak. E eu pensei, mas isso já passou algum tempo? Sim, sim, mas eu continuo. Adorei aquela peça, deixar a marca das pessoas. 3:13 É isso que tu fazes todos os dias. 3:15 Pessoa 1 É isso que eu tento, se consigo umas vezes mais, outras vezes menos, antes mais. Olá, como estás? Muito obrigado por este convite. Sim, eu, eu, eu tento comunicar. Se é esse o tema. Acho que percebi cedo que tinha dificuldade em comunicar. 3:35 Era muito tímido, tinha dificuldade em em em fazer me ouvir, tu sabes. 3:41 Pessoa 2 Que ninguém acredita nisso? 3:42 Pessoa 1 Mas é verdade, é verdade, é absolutamente verdade. 3:44 Pessoa 2 Como é que é isso? Como é que tu tens? Como é que tu tens? 3:47 Pessoa 1 Dificuldade porque era talvez filho único, porque fui muito cedo para o Algarve e era um meio que me era estranho com um. Um linguajar diferente e eu sentia me deslocado. Eu tinha para aí 11 anos e no início foi difícil e eles olhavam, achavam que eu era Beto e não era nada Beto. 4:03 E falava a lisboeta, e eles gozavam comigo e depois, à medida, fui crescendo. Foi uma adaptação e percebi que representar era algo natural em mim, porque era uma forma de me adaptar ao meio e de conseguir encontrar plataformas de comunicação. 4:20 E quando finalmente expressei que queria ser ator, a minha mãe sorriu porque pensou, estás lixado e pronto. E vim para o conservatório EE. Foi. Foi me natural representar, ou seja, esta ideia de eu assumir um Alter Ego que não sou eu é me fácil. 4:42 Às vezes é mais difícil ser eu própria. 4:45 Pessoa 2 Tu criaste uma capa no fundo que resolve o teu problema, que pelo menos que tu imaginavas como sendo 11 não comunicador, não era um mau comunicador, um não comunicador 11 alguém que tem timidez para para conseguir falar e então toca a pôr a capa de super herói e eu vou superar. 5:00 Todavia, quando eu vejo os teus trabalhos, a última coisa do mundo que o se me ocorre é que tu estás a fingir, porque é que ele tresanda à verdade? Bom, esse é o truque. 5:11 Pessoa 1 Não é? É acreditarmos tão tanto na mentira que ela se torna verdade. Estou a brincar, claro, mas hoje em dia acho que já ultrapassei a minha timidez, mas sempre que tenho que estar aqui, por exemplo, ou tenho que assumir uma persona pública, eu meto um chip. 5:27 É o Diogo Infante que está a falar, não é o Diogo, é o Diogo Infante, é a figura, é pessoa com responsabilidade, com uma carreira, diretor de um teatro que tem. Há uma expectativa, não é? 5:37 Pessoa 2 Isso pesa? 5:38 Pessoa 1 Claro que pesa, claro que pesa. Eu quero dizer a coisa certa. Quer? Quer corresponder às expectativas? Não quer desiludir? Quer que gostem de mim? Bem, isso parece uma terapia. 5:46 Pessoa 2 Estamos todos a fazer isso, não é um. 5:47 Pessoa 1 Bocadinho, acho que sim, então. 5:49 Pessoa 2 E quando é que tu és, Diogo? Só Diogo. 5:51 Pessoa 1 Bom, olha, quan

    51 min
  6. 10/12/2025

    Como comunicar a guerra de hoje e a paz de amanhã? Manuel Poejo Torres

    Comunicar a Guerra, Pensar a Paz: O Mundo Explicado sem Eufemismos Num tempo em que a guerra voltou ao continente europeu e a ameaça nuclear regressou ao vocabulário político, comunicar tornou-se tão decisivo quanto negociar, tão estratégico quanto deter armamento. A forma como entendemos o conflito — e a forma como os líderes o explicam — determina a capacidade de uma sociedade se proteger, se posicionar e, sobretudo, de construir paz. Nesta conversa profunda com um dos mais atentos analistas de geopolítica e segurança internacional, exploramos não apenas o que acontece nas frentes militares, mas aquilo que raramente chega ao espaço público: a lógica das decisões, o medo que move líderes, a propaganda que molda percepções e a fragilidade das democracias perante um mundo multipolar, competitivo e cada vez mais turbulento. A Guerra Não Desapareceu — Apenas Mudou de Forma A guerra do século XXI já não é apenas feita de tanques, artilharia ou drones. É feita de comunicação, de opinião pública, de gestos diplomáticos e de ameaças que pairam mais do que disparam. O conflito na Ucrânia tornou visível uma realidade que muitos preferiam não ver: o regresso do imperialismo territorial, a competição entre grandes potências e a erosão lenta da ordem internacional construída após a Guerra Fria. E, como explica o especialista entrevistado, esta realidade é o resultado direto de um mundo onde já não existe uma potência única capaz de impor regras — e onde vários Estados procuram afirmar a sua posição, mesmo à força. “Falamos Demasiado de Guerra e Demasiado Pouco de Paz” Esta frase, dita logo no início da nossa conversa, resume uma das grandes preocupações: a paz tornou-se um bem adquirido, quase dado por garantido, e deixou de ser pensada como projeto político. Hoje discutimos armamento, sanções, alianças, ofensivas e contra-ofensivas, mas muito raramente discutimos planos reais de paz. A diplomacia parece muitas vezes refém de hesitações, cálculos eleitorais e receios de perder posição. Faltam líderes com visão e coragem para assumir compromissos difíceis. Falta clareza estratégica. Falta, em suma, o que sempre faltou antes dos grandes pontos de viragem da História: vontade de mudar o rumo. Propaganda: A Arma que Já Não Precisa de Mentir A propaganda moderna não opera através de falsidades grosseiras — opera com ângulos, omissões e narrativas cuidadosamente organizadas. Divide sociedades, instala ruído, confunde consensos. E, como lembra o convidado, é um mecanismo estrategicamente desenhado, não um acidente. Hoje, qualquer conflito é também uma batalha pelo centro emocional das populações. A pergunta já não é “quem dispara primeiro?”, mas sim “quem controla a interpretação do que acabou de acontecer?”. E esta disputa é tão séria como qualquer avanço militar. Num ambiente onde autocracias investem fortemente em desinformação, países democráticos só sobrevivem se investirem tanto em educação mediática quanto investem em equipamento militar. A Ameaça Nuclear: Entre a Política e o Medo Há uma década, a maioria das sociedades ocidentais consideraria inaceitável ouvir líderes políticos falar com leveza sobre o uso de armas nucleares. Hoje, essa retórica tornou-se comum. A ameaça nuclear voltou a ser utilizada como instrumento de coerção psicológica — não necessariamente para ser usada, mas para moldar decisões, atrasar apoios, dividir alianças e impor limites invisíveis. E, como explica o analista, esta ameaça não é apenas militar: é emocional. Desestabiliza, silencia, intimida. Perante isto, a resposta das democracias deve ser equilibrada, firme e prudente. Nem ceder ao medo, nem alimentar a escalada. Europa: Entre a Vulnerabilidade e a Oportunidade A União Europeia confronta-se com uma verdade desconfortável: não tem poder militar proporcional ao seu peso económico. E num mundo onde a força voltou a ser a linguagem dominante, esta assimetria torna-se perigosa. Apesar disso, a Europa tem vantagens únicas: capacidade económica para modernizar as suas defesas; alianças históricas que multiplicam o efeito da sua ação; e, sobretudo, uma rede de Estados democráticos cujo valor estratégico reside no coletivo e não no individual. Mas falta ainda algo fundamental: coragem política para agir antes de ser tarde. A Ética da Guerra: A Linha que Nos Define No final, chegamos ao ponto mais difícil: a ética. O que separa uma guerra justa de uma guerra injusta? O que é aceitável negociar? Que compromissos violam princípios fundamentais? E como explicar a uma criança porque é que um país decidiu invadir outro? A resposta do convidado é simples e trágica: as guerras deixam sempre lições — mas as sociedades nem sempre as aprendem. A história mostra que a Europa só foi corajosa em momentos de desespero. É urgente quebrar esse padrão. Lições que Ficam A paz não é natural — é construída. A guerra renasce sempre que a coragem política desaparece. A propaganda moderna vence pela dúvida, não pela mentira. A ameaça nuclear é sobretudo psicológica e estratégica. As democracias enfraquecem quando imitam autocracias. Sem educação mediática, não há defesa possível. A Europa precisa de visão — não apenas de verbas. A ética não é luxo: é a fronteira que nos impede de nos tornarmos como os regimes que criticamos. Porque Esta Conversa Importa Num tempo de ruído, medo e incerteza, precisamos de vozes que consigam explicar, com clareza e rigor, como funciona o mundo — e o que depende de nós para que esse mundo não se torne mais perigoso. É isso que esta entrevista oferece: contexto, profundidade e, acima de tudo, um convite à responsabilidade cívica. Se este artigo o ajudou a compreender melhor o que está em jogo, partilhe-o. Deixe o seu comentário, traga as suas dúvidas, participe na conversa. Só uma sociedade informada consegue resistir ao medo — e escolher a paz. LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO Esta transcrição foi gerada automaticamente. Por isso, ela pode não estar totalmente precisa. 0:00 Como comunicar a guerra de hoje e a paz de amanhã? A guerra é tão natural quanto a paz, faz parte da imperfeição da natureza humana. 0:19 Pessoa 2 Ora, vivam bem vindos ao pergunta simples, o vosso podcast sobre comunicação? Hoje falamos de guerra, de paz e, acima de tudo, de como se comunica um mundo que já não é estável. Um mundo onde a diplomacia hesita, onde a propaganda acelera e onde a ameaça militar, incluindo a ameaça nuclear. 0:39 Volta a moldar as decisões políticas. O meu convidado é Manuel pués de Torres, analista geopolítico e investigador em segurança Internacional. Alguém que conhece por dentro os bastidores da nato, a lógica da dissuasão, o Tabuleiro da diplomacia e aquilo que raramente se explica ao público. 0:57 Que a guerra não é apenas força, é também narrativa, psicologia e comunicação estratégica. Nesta conversa, vamos tentar perceber o que está realmente a acontecer na Ucrânia, o que está em jogo nas negociações. Porque é que falamos tão pouco de paz? Como funciona a propaganda Moderna? 1:13 Que riscos esconde a ameaça nuclear? E como é que tudo isto mexe com as democracias, com a opinião pública e com a vida de cada um de nós? Se esta conversa vos fizer pensar e vai fazer, subscrevam o canal. Deixem o vosso comentário. E partilhem com quem precisa de ouvir estas explicações. 1:34 Manuel pues de Torres, posso apresentar te como um especialista em estratégia militar, em guerra híbrida, em diplomacia, em política Internacional, em comunicação também, porque a comunicação está aqui no meio disto tudo. Longa experiência junto da nato. 1:50 Como é que nós conseguimos conversar e comunicar sobre um tema tão difícil? Como a guerra, que é o sítio onde morrem pessoas. 2:01 Pessoa 1 É verdade, são tudo perguntas simples de resposta, muito complexa. Mas acima de tudo e em primeiro lugar, um agradecimento pelo convite, por estar aqui contigo e para podermos falar de algo que é fundamental não apenas à política Moderna, mas também à forma de se fazer a paz no futuro. 2:18 E começo por dizer fazer a paz e não fazer a guerra, porque falamos muito de guerra e pouco de paz. 2:24 A imperfeição humana e a competição no sistema internacional Porquê? Porque a paz foi adquirida depois da queda do do muro de Berlim e a própria influência da paz Moderna Na Na nas relações diplomáticas. 2:39 Tornou a 11 bem garantido e, portanto, não se fala tanto da continuação da paz, mas da ausência da paz em prol daquilo que é naturalmente o conflito, o conflito das palavras, o conflito da política e, por último, contra tudo e contra todos, a ressurreição da do grande conflito convencional no continente europeu e, portanto, isto é um é um tema que preocupa qualquer governante. 3:06 É um tema que tem que preocupar qualquer estadista. É um tema que tem que preocupar garantidamente as populações, as sociedades, aquelas que se dizem, aquelas que vivem e aquelas que pensam ser ainda sociedades democráticas e abertas. 3:22 Pessoa 2 Mas no tempo em que nós estamos, a ideia de guerra ainda faz sentido. 3:28 Pessoa 1 A ideia de guerra? Faz sempre sentido. 3:30 Pessoa 2 Porque é que acontece a guerra, no fundo, é um bocadinho essa a pergunta que que eu tenho para te fazer? 3:34 Pessoa 1 A guerra é tão natural quanto a paz, faz parte da imperfeição da natureza humana. E enquanto que o ser humano, enquanto o ser humano for um ser imperfeito que sempre seremos, nunca, nunca seremos divinos divinos, está no está em Deus, Deus nosso senhor, e portanto, enquanto existir essas incapacidades human

    1h 4m
  7. 03/12/2025

    O que nos torna humanos num mundo de máquinas? Albano Jerónimo

    O Corpo, o Erro e a Imaginação: Uma Conversa Aberta Sobre o Que Nos Torna Humanos Há conversas que não vivem apenas na superfície; conversas que abrem espaço para respirar, repensar e reorganizar o que levamos por dentro. A conversa de Jorge Correia com um dos atores mais intensos e inquietos da ficção portuguesa é uma dessas. Ao longo de quase uma hora, falámos de corpo, erro, infância, imaginação, afeto, tecnologia, masculinidade e do que significa estar vivo com alguma atenção. O episódio gira em torno de uma ideia simples, mas transformadora: a vida é uma negociação permanente entre o que sentimos e o que conseguimos colocar no mundo. E é isso que o convidado pratica — no teatro, no cinema, e na forma como se relaciona com os outros. Essa reflexão nos leva a perguntar: O que nos torna ainda humanos num mundo de máquinas? Albano Jerónimo O corpo como primeiro lugar de comunicação Uma das ideias que atravessa toda a conversa é o papel do corpo — não como acessório do trabalho, mas como a sua raiz. É através da respiração, do gesto, da postura e do ritmo que se organiza a verdade de uma cena. Antes da palavra, antes da técnica, antes da intenção, está o corpo. O que nos torna ainda humanos num mundo de máquinas? Albano Jerónimo Fala-se disso com uma clareza rara: o corpo não mente, não adorna, não otimiza. O corpo não tem discurso — tem presença. E na era da comunicação acelerada, onde tudo é mediado por filtros, algoritmos e versões de nós mesmos, esta é uma ideia que nos devolve ao essencial. Comunicar não é impressionar; é estar presente. O erro como método e como espaço seguro A segunda grande linha desta conversa é o erro — não como desgraça, mas como ferramenta. E aqui há um ponto forte: ao contrário da ideia dominante de que falhar é perigoso ou condenável, o convidado assume o erro como ponto de partida. É no erro que se descobrem novas possibilidades, que se afinam gestos, que se encontra o tom certo. O erro é uma espécie de laboratório emocional. E esta visão não se aplica só à arte. É também um modelo de liderança. No teatro e nas equipas, defende que o ensaio deve ser um lugar onde se pode falhar sem medo — porque a criatividade só existe quando não estamos a proteger-nos o tempo todo. Criar espaço para o erro é criar espaço para a coragem. Infância pobre, imaginação rica A conversa revisita ainda as origens do convidado — um contexto de escassez que se transformou numa máquina de imaginação. Um tapete laranja, bonecos de bolo de anos, uma casa pequena que exigia inventar mundos alternativos. “Há quem estude para aprender a imaginar. Há quem imagine para sobreviver.” Esta frase resume bem o impacto da infância na sua forma de estar. A imaginação não é um escape — é uma estrutura vital. E quando mais tarde se interpretam personagens duras, frágeis ou moralmente difíceis, não se parte de conceitos abstratos; parte-se dessa memória de observar o mundo com atenção e curiosidade. Entrar num personagem é entrar num corpo que podia ter sido o nosso. A relação com a tecnologia e o palco: carne.exe e o confronto com a Inteligência Artificial Uma das partes mais inesperadas e ricas da conversa é a reflexão sobre a peça carne.exe, em que o convidado contracena com um agente de inteligência artificial criado especificamente para o espetáculo. Uma “presença” que responde, improvisa e interage — mas que não sente, não cheira, não erra. A conversa revela uma inquietação legítima: o que acontece ao humano quando se retira o corpo da equação? Quando a imaginação é substituída pela otimização? Quando a falha desaparece? Há uma frase que se tornou icónica: “Uma máquina pode descrever um cheiro… mas não o sente.” É aqui que a arte se torna também crítica do seu tempo: o perigo não está na tecnologia em si, mas na possibilidade de nos esquecermos do que nos diferencia dela. Masculinidade, vulnerabilidade e o lado feminino O episódio toca ainda num tema essencial: as masculinidades contemporâneas. Fala-se de dúvidas, fragilidades, contradições — de como fomos educados para esconder sentimentos e de como isso nos limita. E há uma admissão honesta e importante: a presença de um lado feminino forte — não no sentido identitário, mas sensorial. Esse lado que observa, que cuida, que escuta, que sente. É talvez a parte mais desarmante da conversa: a vulnerabilidade não diminui; amplia. A sensibilidade não fragiliza; afina. A mãe, a sobrevivência e aquilo que nos organiza por dentro Um dos momentos mais humanos surge quando se fala da mãe — do que ela ensinou, do que ficou, do que ainda ressoa. A conversa entra aqui num registo íntimo, afetivo, não sentimentalista, mas cheio de verdade. É um lembrete de que, por muito que avancemos na vida, há sempre uma pergunta que nos organiza: como é que sobrevivi até aqui e quem me segurou? Cuidar dos outros: uma ética para a vida e para o palco A conversa termina com uma ideia simples e luminosa: cuidar é uma forma de estar no mundo. Cuidar do colega, da equipa, do público, de quem está ao nosso lado. Não é um gesto heroico; é uma prática diária. E é a base de qualquer comunicação que queira ser mais do que um conjunto de palavras. Albano Jerónimo está em cena entre 12 e 14 de dezembro, no CAM – Gulbenkian, com o espetáculo carne.exe, de Carincur e João Pedro Fonseca, onde contracena com AROA, um agente de inteligência artificial desenvolvido especificamente para a peça. O projeto explora as fronteiras entre corpo, tecnologia, imaginação e presença — um prolongamento direto dos temas que atravessam esta conversa. LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO Esta transcrição foi gerada automaticamente. A sua exatidão pode variar. 0:12 Por vivam bem vindos ao pergunta simples, o vosso podcast sobre a comunicação hoje com o ator e encenador albane Jerónimo, alguém que procura o erro para se fertilizar, que acha que tudo começa no corpo, numa respiração, no momento. 0:29 Albano Jerónimo, que fala neste programa, não é só o ator, é uma pessoa que aparece ora com uma simplicidade radical, ora com uma complexidade e a profundidade que nos obriga a seguir atrás. 0:51 Hoje vamos falar do corpo, da imaginação, do erro, do cuidado, do afeto e dessa coisa difícil que é ser pessoa. Porque, sejamos honestos, há dias em que não sabemos comunicar, não sabemos ouvir, não sabemos lidar, connosco e mesmo assim continuamos a tentar. 1:06 É isso que nos salva, é isso que nos torna humanos. O convidado de hoje viu exatamente nesse território onde as palavras às vezes não chegam para ele. Tudo começa numa frase, num gesto, num olhar, numa respiração, na forma como se ocupa um espaço, como se sente o chão. 1:22 Há quem passe anos a tentar treinar a dicção, mas ele comunica da maneira como está e isso, muitas vezes explica mais do que qualquer discurso. Ao longo desta conversa, percebe que o trabalho dele não é só interpretar personagens, é observar o mundo como quem escuta. 1:37 É absorver o que acontece à volta e devolver sem couraça, sem esconder o que é frágil. E no meio disto tudo, há ali sempre um cuidado discreto, uma preocupação em não ferir, em não atropelar, em não roubar espaço ao outro. Ele fala muito de afeto, não como romantismo, mas como ética, e percebe se que para ele comunicar é isso, é cuidar. 1:58 E depois há o erro, o tema que atravessa toda a conversa. Há quem fuja dele e ele corre na direção contrária. Ele procura o erro. Não porque queira provocar, mas porque percebeu que é no erro que acontece qualquer coisa. O erro obriga nos a parar, a ajustar, a aprender outra vez. 2:15 É o momento em que a máscara cai e vemos quem somos e, no fundo, é o lugar onde ficamos mais próximos uns dos outros. Ele diz isso como a simplicidade desarmante, falhar não é cair. Falhar é encontrar. Quer sempre experimentar coisas diferentes. Agora, por exemplo, está a criar uma peça a carne ponto EXEA, peça onde contracena com uma inteligência artificial criada só para estar em palco com ele. 2:40 E aqui abre se uma porta grande, o que é a presença, o que é a relação, o que é que um corpo humano consegue fazer? Ele disse uma frase que me ficou na cabeça, uma máquina pode escrever e bem, um cheiro, mas não o consegue sentir. E percebemos que este confronto com a inteligência artificial. 2:55 Não é só teatro, é uma reflexão sobre o mundo que estamos a construir, onde tudo é rápido, mas muito pouco sentido. Falamos também de masculinidade, não a do peito feito, mas a das dúvidas e contradições. E aqui acontece uma coisa bonita. E ela admite, sem qualquer agitação, que tem um lado feminino muito forte, que contracena quase a tal masculinidade e que a sensibilidade feminina e masculina é uma ferramenta. 3:18 Ainda é uma ameaça. No fim, falamos deste tempo em que vivemos, da pressa da polarização. Do cansaço e de empatia. E eu aprendi 3 coisas principais. A primeira é que comunicar começa no corpo, antes da palavra. Há sempre uma respiração que diz tudo. Um gesto aparece no corpo antes de aparecer dentro da nossa cabeça. 3:37 A segunda? É que o erro não É o Fim, é o princípio, é o lugar onde crescemos e onde nos encontramos com os outros também da comunicação. E a terceira é que a sensibilidade não é um luxo, é uma forma de sobreviver, sim, mas muitas vezes é a única forma de percebermos quem temos à frente. 3:54 Se esta conversa o fizer, aprendar um pouco ou simplesmente respirar fundo já valeu a pena. Viva Albano Jerónimo. Apresentar te é sempre um desafio ou fácil ator? Canhoto, estamos aqui 2 canhotos, port

    55 min
  8. 26/11/2025

    Como se filma uma boa história? Manuel Pureza

    Há criadores que operam dentro das fronteiras técnicas do seu ofício. E há outros que as redesenham. Manuel Pureza pertence à segunda categoria — a dos artistas que não apenas produzem obras, mas insinuam uma forma diferente de olhar para o mundo. Ao longo da última década, Pureza foi aperfeiçoando um dialeto visual singular: um equilíbrio improvável entre humor e melancolia, entre disciplina e improviso, entre ironia e empatia. Cresceu no ritmo acelerado das novelas, onde se aprende a filmar com pressão, velocidade e um olho permanentemente aberto para a fragilidade humana. Dali trouxe algo raro: um olhar que recusa o cinismo fácil e que insiste que até o ridículo tem dignidade. Na televisão e no cinema, a sua assinatura tornou-se evidente. Ele filma personagens como quem observa amigos de infância. Filma o quotidiano com a delicadeza de quem sabe que ali mora metade das grandes histórias. Filma o absurdo com a ternura de quem reconhece, nesse absurdo, o lado mais honesto do país que habita. Um humor que pensa Pureza não usa humor para fugir — usa humor para iluminar. Em “Pôr do Sol”, o fenómeno que se transformou num caso sério de análise cultural, a comédia deixou de ser apenas entretenimento. Tornou-se catarse colectiva. Portugal riu-se de si próprio com uma frontalidade rara, quase terapêutica. Não era paródia para diminuir; era paródia para pertencer. “O ridículo não é destrutivo”, explica Pureza. “É libertador.” Essa frase, que poderia ser um manifesto, resume bem o seu trabalho: ele leva o humor a sério. Independentemente do género — seja melodrama acelerado ou ficção introspectiva — há sempre, no seu olhar, a ideia de que rir pode ser um acto de lucidez. Num país onde o comentário público tantas vezes se esconde atrás da ironia amarga, Pureza faz o contrário: usa a ironia para abrir espaço, não para o fechar. A ética do olhar Filmar alguém é um exercício de confiança. Pureza opera com essa consciência. Não acredita em neutralidade — acredita em honestidade. Assume que cada plano é uma escolha e que cada escolha implica responsabilidade. Entre atores, essa postura cria um ambiente invulgar: segurança suficiente para arriscar, liberdade suficiente para falhar, humanidade suficiente para recomeçar. Num set regido pelo seu método, a escuta é tão importante quanto a técnica. E talvez por isso os seus actores falem de “estar em casa”, mesmo quando as cenas são emocionalmente densas. A câmara de Pureza não vigia: acompanha. É aqui que a sua realização se distingue — não por uma estética rigorosa, mas por uma ética clara. Filmar é expor vulnerabilidades. E expor vulnerabilidades exige cuidado. Portugal, esse laboratório emocional O país que surge nas obras de Pureza não é apenas cenário: é personagem. É o Portugal das contradições — pequeno mas exuberante, desconfiado mas carente de pertença, irónico mas sentimental, apaixonado mas contido. É um país onde a criatividade nasce da falta e onde o improviso se confunde com identidade. Pureza conhece esse país por dentro. Viu-o nos sets frenéticos das novelas, nos estúdios apressados da televisão generalista, nas equipas improváveis de produções independentes. E filma-o com um olhar feito de amor e lucidez: nunca subserviente, nunca destructivo, sempre profundamente humano. Há nele uma capacidade rara de observar sem desistir, de criticar sem amargar, de rir sem ferir. Infância, imaginação e paternidade Numa das passagens mais íntimas desta conversa, Pureza regressa à infância — não como nostalgia decorativa, mas como território de formação. A infância, para ele, é o sítio onde nasce a imaginação, mas também o sítio onde se aprende a cair, a duvidar, a arriscar. Esse lugar continua a acompanhar o seu trabalho como uma espécie de bússola emocional. Falar de infância leva inevitavelmente a falar de paternidade. Pureza rejeita a figura do pai iluminado, perfeito, imune ao erro. Fala antes da paternidade real: aquela onde se erra, se tenta, se repara, se adia, se volta a tentar. A paternidade que implica fragilidade. A paternidade que obriga a abrandar num mundo que exige velocidade. Talvez seja por isso que, quando dirige, recusa o automatismo: a vida, lembra, é sempre mais complexa do que aquilo que conseguimos filmar. Escutar como acto político Se há uma frase que atravessa toda a conversa, é esta: “Nós ouvimos pouco.” No contexto de Pureza, ouvir é um verbo político. Num país saturado de ruído, opiniões rápidas e indignações instantâneas, escutar tornou-se quase um acto contracultural. Ele trabalha nesse espaço de atenção — aquele que permite às pessoas serem pessoas, antes de serem personagens, headlines ou caricaturas. É por isso que o seu trabalho ressoa: porque devolve humanidade ao que, tantas vezes, o discurso público reduz. O que fica No final, a impressão é clara: Manuel Pureza não realiza apenas obras. Realiza ligações. Realiza espelhos que não humilham. Realiza pontes entre o ridículo e o sublime. Realiza histórias que, ao invés de nos afastarem, nos devolvem uns aos outros. Há artistas que acrescentam ao mundo um conjunto de imagens. Pureza acrescenta uma forma de ver. E num tempo em que olhar se tornou um acto cada vez mais acelerado — e cada vez menos profundo — isso não é apenas uma qualidade artística. É um serviço público da imaginação. LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO Esta transcrição foi gerada automaticamente. A sua exatidão pode variar. 0:12 Ora, vivam bem vindos ao pergunta simples, o vosso podcast sobre comunicação? Hoje recebemos alguém que não apenas realiza séries e filmes, mas realiza no sentido mais profundo do termo, a forma como olhamos para nós próprios, a maneira como nos espelhamos. 0:28 Manuel pureza é daqueles criadores que trabalham com rigor e com leveza, com inteligência, com humor, com disciplina e com um caos. Ele cresceu nas novelas, aprendeu a filmar sob pressão, descobriu um olhar que combina ternura com ironia e tornou se uma das vozes mais originais da ficção portuguesa. 0:46 E é capaz de pegar no ridículo e transformá lo em verdade, de pegar no quotidiano e transformá lo em drama, de pegar no drama e transformá lo em riso. Tudo sem perder a humanidade, o coração e a ética de quem sabe que filmar é escolher, ter um ponto de vista e que escolher é sempre um ato moral. 1:06 Neste episódio, abrimos as portas ao seu processo criativo, às dúvidas e às certezas, às dores e às gargalhadas, às memórias da infância e às inquietações da idade adultam. Falamos de televisão como um espaço de comunhão. Das novelas como um ginásio, do humor, como o pensamento crítico da arte de ouvir e de ser pai no mundo acelerado, da vulnerabilidade que existe por detrás de uma Câmara e, claro, de Portugal, este país pequeno, cheio de afetos e de feridas, onde tudo é simultaneamente muito absurdo e muito verdadeiro. 1:38 Pureza fala com profundidade e como honestidade às vezes. Desconcertante é uma dessas conversas em que senti que estamos a ver para além do artista, estamos a ver a pessoa, a sensibilidade das dúvidas, a Esperança e a inquietação de alguém que pensa o mundo através das histórias que nos conta. 2:05 Ao longo desta conversa, percebemos como as histórias, para Manuel pureza, não são apenas entretenimento. São uma estrutura emocional de uma forma de organizar o caos, uma linguagem antiga que herdamos mesmo antes de sabermos ler ou escrever. Falamos do poder das narrativas para dar sentido à vida, mas também do seu lado perigoso, porque todas as histórias têm um ponto de vista, todas têm escolhas e omissões, todas moldam a forma como vemos o que é real. 2:33 E ele, pureza. Assume isto sem medo. Assume que filma com olhar assumidamente subjetivo e que essa subjetividade é precisamente a sua assinatura. Não procura parecer neutro, procura ser honesto. Também exploramos a sua relação com o humor. 2:49 O humor que nunca é cínico, nunca é cruel, nunca é gratuito. O ridículo não é uma arma para diminuir os outros. É uma maneira de libertar, de expor o que há de comum entre nós, de desmontar o que é pomposo e de aliviar o peso de viver. 3:04 Diz na própria conversa que tudo pode ser ridículo e isso é uma forma de Redenção. O riso organiza o pensamento, afia o espírito, desarma o mundo e, talvez por isso, o pôr do sol. A série tem sido mais do que um fenómeno cômico, foi um fenómeno emocional quase terapêutico. 3:20 Um espelho carinhoso onde Portugal se reviu e se perdoou, um bocadinho. Falamos da ética, da ética, do olhar, de como se almar alguém. É sempre um ato de intimidade. De como se cria confiança dentro de um set de filmagens, como se dirige atores diferentes, como se acolhe fragilidades? 3:38 Várias. E falamos da amizade e esse tema que atravessa todo o trabalho de pureza, porque para ele, realizar não é apenas uma técnica, é uma escuta, uma presença, um cuidado. Ouvimos muitas vezes ao longo deste episódio, uma afirmação quase simples. Nós ouvimos pouco. 3:55 E quando alguém é capaz de. A olhar tanto e nos diz que ouvimos pouco. Vale a pena parar para escutar. E, claro, falamos de Portugal, um país pequeno, por vezes cínico, com uma profunda tendência para desconfiar do sucesso alheio. Um país que pureza filma com ironia, amor e lucidez. 4:14 E da inveja. Claro que falamos da inveja no país das novelas, do improviso, da criatividade teimosa, das personagens maiores que a vida. O país que ele conhece por dentro e por fora, e que aprende a amar com o humor, mesmo quando o humor é a única forma de suportá lo. Num dos momentos mais belos da conversa, falamos da

    56 min

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O Pergunta Simples é um podcast sobre comunicação. Sobre os dilemas da comunicação. Subscreva gratuitamente e ouça no seu telemóvel de forma automática: https://perguntasimples.com/subscrever/ Para todos os que querem aprender a comunicar melhor. Para si que quer aprender algo mais sobre quem pratica bem a arte de comunicar. Ouço pessoas falar do nosso mundo. De sociedade, política, economia, saúde e educação.

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