Horizonte de Eventos

Sérgio Sacani Sancevero

Podcast dedicado exclusivamente para a astronomia e ciências correlatas.

  1. Horizonte de Eventos - Episódio 101 - Uma Breve História do Projeto SETI - Parte VI

    18 hr ago

    Horizonte de Eventos - Episódio 101 - Uma Breve História do Projeto SETI - Parte VI

    Uma Breve História do Projeto SETI — Parte VI O universo parece ter todos os ingredientes para estar cheio de vida: bilhões de anos de história, trilhões de galáxias, incontáveis estrelas, planetas em abundância e a química necessária espalhada por toda parte. Então por que, até hoje, ninguém respondeu? Neste episódio de Horizonte de Eventos, a série sobre o Projeto SETI chega a uma de suas perguntas mais inquietantes: se a vida inteligente deveria ser comum, onde está todo mundo? A partir do famoso Paradoxo de Fermi, formulado em Los Alamos por Enrico Fermi, mergulhamos no mistério conhecido como Grande Silêncio — a ausência desconcertante de sinais, visitas, artefatos ou transmissões vindas de outras civilizações. A jornada passa pelas ideias de Michael Hart e Frank Tipler, que argumentaram que a falta de evidências poderia indicar que não há ninguém lá fora, e pela resposta de Carl Sagan e William Newman, que lembraram que a ausência de evidência não é, necessariamente, evidência de ausência. No centro da discussão estão as sondas autorreplicantes de von Neumann, máquinas capazes de se multiplicar de estrela em estrela e transformar a galáxia inteira em um território explorado em poucos milhões de anos. Se algo assim é possível, por que não encontramos nenhuma delas? A resposta talvez esteja no conceito mais sombrio da astrobiologia moderna: o Grande Filtro. Proposto por Robin Hanson, ele sugere que em algum ponto entre a matéria sem vida e uma civilização capaz de colonizar as estrelas existe uma barreira quase impossível de atravessar. Talvez esse filtro esteja no nosso passado, o que significaria que somos raros e já vencemos a etapa mais difícil. Mas talvez ele esteja no nosso futuro — e, nesse caso, o silêncio do cosmos pode não ser uma boa notícia, mas um aviso. Este episódio também passa por Nick Bostrom e sua ideia perturbadora de que encontrar vida simples em Marte ou em luas oceânicas como Europa poderia ser, paradoxalmente, uma notícia assustadora: quanto mais fácil for a vida, mais provável é que o filtro mortal ainda esteja à nossa frente. Por fim, acompanhamos como esse debate deixou de ser apenas filosófico e atingiu a própria história institucional da SETI, com o corte do programa da NASA nos anos 1990, a luta de Jill Tarter para manter a busca viva e a persistência de uma pergunta que continua apontada para o céu. Talvez o silêncio signifique que estamos sozinhos. Talvez signifique que ainda não escutamos direito. Ou talvez seja o maior dado científico já coletado pela humanidade — e ainda não saibamos interpretá-lo.

    39 min
  2. Horizonte de Eventos - Episódio 100 - Uma Breve história do Projeto SETI - Parte V

    31 May

    Horizonte de Eventos - Episódio 100 - Uma Breve história do Projeto SETI - Parte V

    Antes de enviarmos sinais de rádio para as estrelas, enviamos algo muito mais silencioso: objetos. Neste episódio de Horizonte de Eventos, seguimos a história dos primeiros mensageiros interestelares da humanidade: as sondas Pioneer 10 e Pioneer 11, lançadas nos anos 1970, levando consigo as famosas Placas Pioneer — pequenos cartões-postais cósmicos gravados em metal, com figuras humanas, um mapa de pulsares, o átomo de hidrogênio e a posição da Terra no Sistema Solar. Criadas em poucas semanas por Carl Sagan, Frank Drake e Linda Salzman Sagan, essas placas foram a primeira tentativa formal da humanidade de dizer ao universo: “nós existimos”. Mas essa história não termina nas Pioneer. Ela nos leva até as sondas Voyager, o lendário Disco de Ouro, as saudações em 55 idiomas, os sons da Terra, músicas de diferentes culturas e até as ondas cerebrais de Ann Druyan, gravadas enquanto ela pensava no amor. Nesta Parte V, exploramos a passagem da escuta para a mensagem: do SETI, que procura sinais de inteligência extraterrestre, ao METI, que tenta enviar mensagens para possíveis civilizações lá fora. E, no centro de tudo, uma pergunta profunda: quando falamos com o cosmos, estamos realmente tentando alcançar alienígenas — ou escrevendo uma carta para nós mesmos? Uma viagem sobre ciência, memória, solidão cósmica, esperança e o desejo humano de não ser esquecido.

    56 min
  3. Horizonte de Eventos - Episódio 99 - Uma Breve História Do Projeto SETI - Parte IV

    22 May

    Horizonte de Eventos - Episódio 99 - Uma Breve História Do Projeto SETI - Parte IV

    Em dezesseis de novembro de mil novecentos e setenta e quatro, um grupo de cento e cinquenta pessoas reunido sob uma tenda branca na floresta tropical de Porto Rico ouviu, pela primeira vez na história, a humanidade falar com o cosmos. O radiotelescópio de Arecibo, recém-reformado com um transmissor de quatrocentos e cinquenta quilowatts, disparou em direção ao aglomerado globular Messier 13, a vinte e duas mil anos-luz de distância, uma sequência de mil seiscentos e setenta e nove bits codificando a química da vida, o esqueleto do DNA, a figura de um ser humano, o mapa do sistema solar e a assinatura do próprio telescópio. Durou cento e sessenta e nove segundos. A audiência se levantou em silêncio, saiu da tenda e ficou parada na borda da arquibancada, olhando para a tigela de concreto, ouvindo o canto binário ecoar pelos alto-falantes. Foi a primeira tentativa deliberada da nossa espécie de enviar uma carta para outra inteligência. Quase três anos depois, na noite de quinze de agosto de mil novecentos e setenta e sete, num laboratório modesto do interior de Ohio, o astrônomo Jerry Ehman revisava folhas de papel matricial impressas pelo radiotelescópio Big Ear da Universidade Estadual de Ohio. Os números corriam diante dos seus olhos como sempre, na maior parte zeros e uns. Até que ele viu seis caracteres seguidos, formando uma curva limpa de subida e descida, com intensidade trinta vezes acima do ruído de fundo: 6EQUJ5. Setenta e dois segundos de sinal narrowband na linha do hidrogênio, vindo da direção de Sagitário. Ehman pegou a caneta vermelha, circulou a sequência e escreveu na margem, em letra de mão, a palavra que viria a definir cinco décadas de mistério: Wow! Nesse episódio, costuramos os dois eventos como uma única arca narrativa da SETI dos anos setenta. Falamos do Projeto Ozma de Frank Drake em mil novecentos e sessenta, do artigo seminal de Cocconi e Morrison que estabeleceu a linha de mil quatrocentos e vinte mega-hertz como a frequência universal de comunicação, da Equação de Drake e do encontro fundador de Green Bank. Acompanhamos a construção do telescópio de Arecibo na cratera da floresta porto-riquenha, sua dupla vocação de astronomia e defesa contra mísseis soviéticos, e a composição cuidadosa da mensagem por Drake, Walker, French, Isaacman e Carl Sagan, incluindo o teste em que Sagan tentou decifrar o próprio envelope sem saber o conteúdo. Reconstruímos a coincidência absurda do verão de mil novecentos e setenta e sete, quando, em pouco mais de três semanas, recebemos algo que pareceu uma resposta e enviamos as duas Voyager Golden Records ao espaço interestelar. A parte final aborda a virada científica recente. Em dois mil e vinte e quatro e dois mil e vinte e cinco, o astrobiólogo Abel Méndez e sua equipe do Laboratório de Habitabilidade Planetária da Universidade de Porto Rico publicaram a hipótese mais robusta até hoje para o sinal Wow!: um maser natural de hidrogênio interestelar acionado por uma erupção de magnetar, com intensidade revisada para duzentos e cinquenta janskys e frequência corrigida para mil quatrocentos e vinte vírgula sete dois seis mega-hertz. O projeto Wow@Home agora democratiza a busca, com astrônomos amadores monitorando o céu em tempo real.

    59 min
  4. SPACE TODAY - EPISÓDIO 3610 - AS NOVIDADES DO STARSHIP PARA O VOO 12

    18 May

    SPACE TODAY - EPISÓDIO 3610 - AS NOVIDADES DO STARSHIP PARA O VOO 12

    MATRICULE-SE AGORA NO CURSO DE ASTRONOMIA TOTAL DO SPACE TODAY!!!O link da pagina https://lp.academyspace.com.br/🚀 A nova geração do Starship e Super Heavy chegou! Neste vídeo, detalhamos todas as inovações do Starship V3, impulsionado pelos novos motores Raptor 3 e lançando a partir de uma plataforma totalmente nova. Descubra como anos de testes de voo e desenvolvimento culminaram nesta obra-prima da engenharia aeroespacial.O booster Super Heavy V3 apresenta melhorias significativas: redução para três aletas de grade (agora 50% maiores e mais fortes), um novo estágio quente integrado que substitui a inter-estágio protetora de uso único e um tubo de transferência de combustível totalmente redesenhado para partidas simultâneas e mais confiáveis dos 33 motores Raptor.O Starship V3 traz um design revolucionário em seus sistemas de propulsão, permitindo um novo método de inicialização do Raptor, maior volume no tanque de propelente e um sistema de controle de reação aprimorado. Além disso, o mecanismo Starlink PEZ Dispenser foi atualizado para implantar satélites com muito mais velocidade. E mais: o Starship agora está projetado para voos de longa duração, com sistemas eficientes e conexões para transferência de propelente nave-a-nave!Em termos de aviônica, ambas as naves estreiam capacidades avançadas para altas taxas de voo e reutilização total, com cerca de 60 unidades aviônicas personalizadas e câmeras atualizadas que fornecem 50 visualizações diferentes, tudo conectado via Starlink de alta velocidade.Os motores Raptor 3 não ficam para trás: eles entregam mais empuxo (250 tf ao nível do mar e 275 tf no vácuo) e tiveram seu peso reduzido, economizando aproximadamente 1 tonelada por motor no veículo geral.Por fim, exploramos a nova Plataforma de Lançamento 2 (Pad 2) na Starbase, que traz um parque de propelentes com maior capacidade, "chopsticks" mais rápidos na torre de lançamento e uma estrutura de montagem completamente redesenhada para segurança e eficiência máximas.Tudo isso foi projetado para desbloquear as funções essenciais do veículo: reutilização total e rápida, transferência de propelente no espaço, implantação de satélites Starlink e a incrível capacidade de enviar pessoas e cargas para a Lua e Marte. Assista agora e fique por dentro do futuro da exploração espacial!👍 Curta, comente e compartilhe — se inscreva no canal e ative o sininho para não perder as próximas novidades sobre o universo SpaceX!

    27 min
  5. Horizonte de Eventos - Episódio 98 - Uma Breve História do Projeto SETI - Parte III

    13 May

    Horizonte de Eventos - Episódio 98 - Uma Breve História do Projeto SETI - Parte III

    Crimeia, outono de 1963. Numa estação de espaço profundo, um astrônomo soviético de trinta e um anos aponta uma antena para uma fonte de rádio distante e cogita, em plena Guerra Fria, a hipótese mais ousada que um cientista podia formular naquele momento. E se aquele sinal piscando irregularmente fosse artificial? E se, a bilhões de anos-luz daqui, alguém estivesse tentando falar com a Terra? O nome dele era Nikolai Kardashev. O objeto se chamava CTA-102. E o que aconteceu nos meses seguintes virou um dos episódios mais reveladores da história da SETI, a busca por inteligência extraterrestre. A fonte não era artificial. Era um quasar, um buraco negro supermassivo se alimentando de matéria a oito bilhões de anos-luz daqui. Kardashev errou. Mas errou para o lado certo do erro. Porque a pergunta que ele se forçou a fazer durante aquela investigação acabou gerando uma das ferramentas conceituais mais usadas, mais distorcidas e mais citadas da astronomia do último meio século. Três anos antes, do outro lado do mundo, num gabinete em Princeton, um físico britânico chamado Freeman Dyson havia publicado um paper curto e estranho na revista Science. Pouco mais de uma página. Dyson argumentava que civilizações suficientemente avançadas, sem precisar mandar sinal nenhum, deixariam pegadas inevitáveis no céu. Pegadas térmicas. Calor residual da própria existência tecnológica, irradiado em comprimentos de onda específicos no infravermelho. Era essa intuição que Kardashev tinha lido. E era essa intuição que acabaria se cristalizando, em 1964, numa régua para medir civilizações por consumo de energia. A escala de Kardashev. Os três tipos. Neste episódio, conto a história de dois homens que nunca se conheceram pessoalmente até décadas depois, e que mesmo assim construíram, em paralelo e em continentes opostos, o vocabulário com que a astronomia ainda discute o destino da inteligência no cosmos. Passo pela viagem de carro improvável que Freeman Dyson fez com Richard Feynman em 1948 e que ajudou a mudar a física quântica. Recupero o romance metafísico de Olaf Stapledon, publicado em 1937, que inspirou a famosa esfera. Conto a biografia de Kardashev, filho de bolcheviques fuzilados por Stálin que cresceu para classificar as civilizações cósmicas. Mostro como a escala se aplica à humanidade hoje, em qual degrau estamos e o que faltaria para subir. Do lado observacional, percorro o caminho que levou daquela intuição de Dyson aos telescópios infravermelhos modernos, ao IRAS, ao WISE, ao Gaia. Conto a estrela de Tabby e o frenesi de 2015. Apresento o Projeto Hefesto, a iniciativa sueca que, em 2024, identificou sete candidatos a esferas de Dyson incompletas em torno de anãs vermelhas próximas. E também conto por que, em 2025, esses sete candidatos foram, um por um, sendo questionados por novas observações em alta resolução feitas em Manchester. Conto também sobre o Paradoxo de Fermi, sobre o que o Espelho Cósmico nos revela quando olhamos para a SETI como espelho da humanidade, e por que a escala de Kardashev sobrevive a todas as críticas legítimas que recebe. No fim, o que fica é uma reflexão sobre o trabalho científico em si. Sobre como o erro de Kardashev em 1963 e o paper de Dyson em 1960 se tornaram, em conjunto, a régua que ainda usamos para medir o destino de qualquer espécie inteligente, incluindo a nossa. Aperte o play. A antena está apontada para o céu.

    1hr 2min
  6. Horizonte de Eventos - Episódio 97 - Uma Breve História do Proejto SETI - Parte II

    12 May

    Horizonte de Eventos - Episódio 97 - Uma Breve História do Proejto SETI - Parte II

    Em abril de mil novecentos e sessenta, num vale enrugado das montanhas Apalaches, um astrônomo de vinte e nove anos chamado Frank Drake subiu numa antena de oitenta e cinco pés antes do nascer do sol, se enfiou numa cabine do tamanho de uma lata de lixo no foco da parabólica e apontou o equipamento para uma estrela chamada Epsilon Eridani. Tinha um orçamento total de dois mil dólares, um receptor caseiro ajustado a chave de fenda, e a esperança secreta de que quase toda estrela parecida com o Sol carregasse, em algum lugar do rebanho de planetas, uma espécie tagarela como a nossa. Foi o primeiro experimento moderno de busca por inteligência extraterrestre. Também foi o primeiro falso alarme da história da SETI. Logo no primeiro dia, um sinal perfeito de oito pulsos por segundo atravessou o alto-falante da sala de controle e, por alguns minutos vertiginosos, pareceu ter mudado tudo. Era um avião de espionagem. Um ano e meio depois, num fim de semana de Halloween, Drake reuniu nove colegas numa salinha do mesmo observatório de Green Bank. Estavam ali um futuro Nobel de Química, um neurocientista que tinha decidido que conversar com golfinhos era o melhor treino para conversar com alienígenas, e um aluno de doutorado chamado Carl Sagan que ainda não era ninguém. Naquele encontro, depois de uma noite regada a champanhe e do anúncio do Nobel de Melvin Calvin pela linha direta com Estocolmo, Drake foi até o quadro-negro e escreveu sete letras gregas multiplicadas umas pelas outras. Saiu dali a equação mais famosa da astrobiologia. Este episódio conta essa história. Como uma pergunta sem nome saiu da literatura especulativa e virou um experimento de laboratório com orçamento de prefeitura. Como dez pessoas, em três dias trancadas numa região do mundo onde o sinal de rádio é proibido por lei, inventaram um campo inteiro da ciência. Como a equação de Frank Drake deixou de ser uma calculadora para virar um espelho, em que cada geração enxergou suas próprias preocupações refletidas. Os anos sessenta enxergaram a bomba. Os anos noventa, a redução do orçamento da ciência. Os anos vinte do século vinte e um estão enxergando o clima. Há um detalhe na equação que poucos param para pensar com o cuidado que ele merece. Os seis primeiros termos dependem da física, da química e da biologia do universo. O sétimo, o L, depende da longevidade da civilização que transmite. É o único termo que cada espécie tem nas próprias mãos. É também o único que ninguém ainda conseguiu medir. Drake morreu em dois mil e vinte e dois, aos noventa e dois anos, sem ter visto um único sinal confirmado. A equação dele continua aberta no quadro-negro coletivo da espécie humana. Uma hora de escuta sobre o Projeto Ozma, sobre a Ordem do Golfinho, sobre o paradoxo de Fermi, sobre o sinal Wow!, sobre o Voyager Golden Record que hoje navega o espaço interestelar a vinte e cinco bilhões de quilômetros, e sobre a pergunta que não para de se desdobrar: quanto tempo a janela da Terra vai continuar transmitindo para o universo?

    55 min
  7. Horizonte de Eventos - Episódio 96 - Uma Breve História do Projeto SETI - Parte I

    10 May

    Horizonte de Eventos - Episódio 96 - Uma Breve História do Projeto SETI - Parte I

    O Universo está em silêncio, mas nós nunca paramos de escutar. Em uma noite gelada de inverno em 1899, no alto do altiplano do Colorado, Nikola Tesla apertou os fones de ouvido contra o rosto e ouviu um padrão. Três batidas, uma pausa. Três batidas, uma pausa. Naquela época, o conceito de ondas de rádio vindas do espaço era inexistente. Ao olhar para a carta celeste e ver Marte brilhando no horizonte, Tesla teve uma intuição que mudaria para sempre a nossa relação com o cosmos: seria possível que alguém, do outro lado do abismo escuro, estivesse tentando falar conosco? Neste episódio, mergulhamos na fascinante e obstinada história da Busca por Inteligência Extraterrestre, o famoso programa SETI. Mais do que uma caçada por alienígenas, essa é a história da nossa própria evolução tecnológica e filosófica. Viajamos no tempo para entender como a humanidade passou da mera especulação filosófica de pensadores antigos — que já imaginavam uma pluralidade de mundos habitados — para os primeiros e ousados projetos experimentais. Você vai conhecer a ideia quase surreal do matemático Carl Friedrich Gauss, que propôs cavar um gigantesco triângulo retângulo na Sibéria para provar a marcianos que conhecíamos geometria. Vai entender como um erro de tradução transformou "sulcos naturais" em "canais de irrigação", convencendo a cultura ocidental por meio século de que Marte abrigava uma civilização agonizante — e inspirando H.G. Wells a escrever "A Guerra dos Mundos". Acompanhamos a revolução do rádio com Guglielmo Marconi e a confusão inicial que transformava qualquer estática atmosférica em supostas mensagens interplanetárias. Relembramos o surreal "Dia Nacional do Silêncio de Rádio" de 1924, quando os Estados Unidos pararam para ouvir Marte, e o momento em que Karl Jansky, com uma antena montada sobre rodas de um Ford T, descobriu acidentalmente a radioastronomia ao captar o som do centro da Via Láctea. Mas se o universo tem quase 14 bilhões de anos, trilhões de galáxias e bilhões de mundos potencialmente habitáveis só na nossa vizinhança cósmica... onde está todo mundo? É nesse cenário de abundância cósmica e silêncio absoluto que chegamos ao verão de 1950 em Los Alamos, Novo México, onde o físico Enrico Fermi fez a pergunta que ainda ecoa nos corredores da ciência: o Paradoxo de Fermi. Passamos pela histórica Mensagem de Arecibo em 1974, a primeira vez que a Terra gritou deliberadamente para as estrelas, até chegar aos dias de hoje, com modernos complexos de radiotelescópios como o Allen Telescope Array, varrendo o céu noturno em uma busca paciente e contínua. A química da vida é a química do universo. Somos feitos de poeira de estrelas. Diante de tanto tempo e espaço, parece quase inevitável que a vida tenha surgido em outros lugares. A escala cósmica mudou a pergunta: já não nos questionamos se há outros mundos, pois sabemos que há bilhões deles. A questão agora é por que eles parecem tão calados. Aperte o play, olhe para as estrelas e venha com a gente escutar o silêncio do universo. Quem sabe o que — ou quem — está prestes a quebrar esse silêncio.

    55 min
  8. Horizonte de Eventos - Episódio 95 - O Que Existia Antes do Big Bang?

    3 May

    Horizonte de Eventos - Episódio 95 - O Que Existia Antes do Big Bang?

    Por quase um século, perguntar o que existia antes do big bang era considerado um tabu científico. Era tratado como questão sem sentido, equivalente a querer saber o que existe ao norte do Polo Norte. Os físicos paravam no tempo zero, levantavam as mãos e diziam que dali para trás era metafísica. Isso está mudando. Um grupo pequeno de cosmólogos espalhados por Londres, Oxford, Princeton, Waterloo e Cambridge está usando uma ferramenta chamada relatividade numérica, alimentada por supercomputadores que devoram milhões de horas de processamento, para atacar essa pergunta de frente. E os resultados que estão começando a sair são desconcertantes. Neste episódio do Horizonte de Eventos, Sérgio Sacani te leva pela história completa dessa virada. A jornada começa em 1927, com o padre belga Georges Lemaître propondo a ideia do átomo primordial e levando uma bronca de Einstein. Passa por 1964, quando dois engenheiros da Bell Labs em Holmdel, lutando contra um zumbido na antena e contra pombos que insistiam em fazer ninho dentro dela, descobrem por acaso a radiação cósmica de fundo, a luz fóssil que prova que o universo já foi pequeno e quente. Atravessa 1979, quando Alan Guth tem a "spectacular realization" que daria origem à teoria da inflação. Chega em 2005, quando Frans Pretorius e dois outros grupos finalmente conseguem simular a colisão de buracos negros depois de meio século de tentativas fracassadas, abrindo caminho para a detecção das ondas gravitacionais pelo LIGO em 2016. E desemboca no presente. Eugene Lim, do King's College de Londres, junto com Katy Clough da Queen Mary e Josu Aurrekoetxea de Oxford, construiu o que ele mesmo chama de Estrela da Morte computacional. As simulações estão sugerindo que a versão de inflação mais compatível com os dados do céu é, paradoxalmente, a versão menos provável de acontecer espontaneamente. Estão mostrando que a hipótese do bounce, defendida por Paul Steinhardt em Princeton, alisa o cosmos com a mesma eficiência que a inflação. Estão indicando que buracos negros de um universo anterior podem ter sobrevivido ao ressalto e estar entre nós agora. Tem ainda a história das quatro cicatrizes circulares que Hiranya Peiris encontrou no mapa do CMB do satélite WMAP em 2011, supostas marcas de outros universos que esbarraram no nosso. E tem o experimento absurdo em que cosmólogos britânicos colidem universos miniatura dentro de uma câmara de potássio resfriado a bilionésimos de grau acima do zero absoluto. A pergunta que durante um século foi proibida finalmente pode ser feita. Por enquanto, as respostas vêm em sussurros e correlações estatísticas. Daqui a uma década, podem vir em uma língua mais clara. A tela preta começou a tremer.

    1 hr

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