O Tal Podcast

Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião, com autoria de Georgina Angélica e Paula Cardoso.

  1. Marco Aurélio Mendes: “As lideranças estratégicas cada vez mais serão entregues a mulheres. Isto é uma revolução que África irá viver nos próximos anos”

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    Marco Aurélio Mendes: “As lideranças estratégicas cada vez mais serão entregues a mulheres. Isto é uma revolução que África irá viver nos próximos anos”

    O convite para pisar o palco da TEDxLuanda deu um novo rumo à vida de Marco Aurélio Mendes. Filho de angolanos, nascido no Algarve, o gestor e empreendedor conta, neste episódio de “O Tal Podcast”, o que o levou a trocar Portugal por Angola, há quase 15 anos. Nesta conversa, recorda também como sobreviveu a uma malária muito grave, encontrou na adoção uma nova forma de olhar o mundo, e se tornou aprendiz e mestre de liderança. O título do livro é provisório – “Sonhalidade” – e, antecipa Marco Aurélio Mendes, nele caberão os primeiros 50 anos da sua história de vida, demarcada pela “linha que separa o sonho da realidade”. Ainda em fase de “rabisco-sarrabisco”, conforme o gestor pré-cinquentão faz questão de assinalar, a autobiografia apresenta 2016 como um ano de renascimento. De volta a esse período, o convidado desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso recorda os efeitos de uma malária muito grave. “Estive três meses no hospital, perdi um pouco da audição, cabelo, 18 quilos, e toda a massa muscular. Acho que só fiquei a 100% dois anos depois”. A experiência, com passagem por 10 dias de coma induzido e sessões de hemodiálise, impulsionou velhos planos familiares. “Se Deus me deu uma segunda oportunidade de cá estar, achei que devia dar corpo a este sonho: entrámos no processo de adoção”. Juntamente com a mulher, Nancy, Marco, à época já pai de Francisca, tornou-se também pai de Alexandre, e, mais recentemente, de David. “Vou no terceiro filho, e todos me fizeram mudar”, nota o empreendedor, lembrando uma das primeiras lições que recebeu quando decidiu adotar. “Uma coisa que a psicóloga nos disse é que não se escolhe. Escolhe-se uma mercadoria, as crianças sinalizam-se”. É também ao círculo familiar que o convidado deste episódio de “O Tal Podcast” vai buscar uma das aprendizagens mais estruturantes da sua liderança. “Mal cheguei [a Luanda], estava a criticar a equipa e o meu pai disse: ‘não te esqueças que, quando chove, a rua de boa parte destas pessoas vira um rio. Se calhar algumas meninas tiveram que ir buscar água para tomar banho. É importante que penses nisso”. Mais do que refletir, Marco começou a questionar quem são os trabalhadores que tem a responsabilidade de gerir. “Onde e como vivem? Porque se vivem oito pessoas dentro de um quarto, o sono não é tranquilo”, diz, por um lado; enquanto, por outro, observa: “Comecei a perceber que era complicado desenhar um caminho a três anos, quando a pessoa ao meu lado só está a pensar em como consegue 200 Kwanzas para ir para casa”. Cada vez mais atento a quem o rodeia, o gestor transforma as experiências de liderança em conversas, integradas no podcast “Performance 360”. “Muitas empresas acham que construir ADN é ir buscar os quadros da concorrência que já trabalham bem”, aponta, questionando a estratégia: “Vais trazer o ADN da concorrência, e não constróis o teu?”. Confiante no potencial do denominado continente-berço, que apresenta como “o diamante da Humanidade”, Marco Aurélio Mendes considera que “as lideranças estratégicas cada vez mais serão entregues a mulheres”, num movimento que vê como “uma revolução que África irá viver nos próximos anos”. Qual será o papel de Angola nesta transformação? Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    1 Std. 13 Min.
  2. Aoaní: “O sonho americano é um pesadelo. Vivia em estado de alerta 24 sobre 24 horas. Estou a falar principalmente da questão racial”

    9. APR.

    Aoaní: “O sonho americano é um pesadelo. Vivia em estado de alerta 24 sobre 24 horas. Estou a falar principalmente da questão racial”

    Em vésperas de subir ao palco com a peça “Kabeça Orí”, que estará em cena no Teatro São Luiz, em Lisboa, de 11 a 18 de abril, Aoaní revela, neste episódio de “O Tal Podcast”, como a representação sempre fez parte dos sonhos de infância, igualmente povoados de aspirações jornalísticas. Hoje com um percurso profissional que cruza as duas áreas, a atriz revisita várias etapas desse caminho, desde a saída de São Tomé e Príncipe alargado a Portugal, Brasil, Angola e EUA, onde se casou, divorciou, e se apanhou a viver em estado de alerta racial. Apresenta-se livre de apelidos, à imagem da icónica ‘Queen Bey’. “A Beyoncé não tem apelido. Percebi que não há necessidade de ter um. Portanto, achei interessante responder só por Aoaní”. O posicionamento, explica a convida de Georgina Angélica e Paula Cardoso, não deve ser confundido com eventuais tentativas de distanciamento e apagamento familiar. “Os Salvaterra não têm papas na língua. São uma força da natureza, têm sempre opiniões fortes. E eu acabo por ser assim, porque a minha mãe também é”, adianta, vinculando-se ao sobrenome materno, enquanto identifica outras heranças parentais. “O stand-up entra na minha vida porque sou palhaça, tanto [da parte] do pai como da mãe”, nota a atriz, lembrando que a avó Lourença, que faleceu no ano passado, com quase 102 anos, “era muito gozona”. Mais do que um traço herdado, Aoaní vê nos gracejos uma via de resistência.  “É muito presente nas nossas vivências o rir para não chorar. É um bocado de espírito de sobrevivência”. O reconhecimento de experiências transversais às vidas negras não é, contudo, sinónimo de indiferenciação individual, avisa a atriz. “Não sou representante de ninguém, não carrego o povo negro às costas. Sou negra e, se as pessoas se revirem na minha história e na forma como eu crio, fantástico”. Agora com um novo espetáculo, intitulado “Kabeça Orí”, a são-tomense prepara-se para subir ao palco do Teatro São Luiz, em Lisboa, de 11 a 18 de abril, na companhia de Joyce Souza. A proposta autoral dá resposta à necessidade de abrir caminho. “Em Portugal, ainda temos pouco espaço no mercado, mas creio que a solução seja criar as nossas histórias e contá-las, criar o nosso próprio espaço. E é isso que tenho feito, ou tentado fazer”. O resultado que agora já se apresenta no palco, passou primeiro por um laboratório de aprendizagens, que tiveram nos Estados Unidos um eixo primordial.   “O que me levou para os EUA foi a idealização de Hollywood, de trabalhar na Broadway, porque eu achei que era só chegar e ir”. Não foi. Muito pelo contrário. Se no início a dificuldade estava em arranjar trabalho sem documentos, depois de se casar e obter o Green Card, a falta de uma rede de apoio e de seguro de Saúde revelaram-se obstáculos intransponíveis, agravados por um permanente estado de vigilância racial. “De cada vez que fosse parada, numa paragem de trânsito, normal, ficava muito aflita, porque não sabia se iria sair viva”, recorda, sem esquecer o impacto familiar. “Uma amiguinha do infantário, ou ‘inimiguinha’, disse à minha filha que não podia ser uma princesa por ser preta. Isso para uma criança de 5 anos foi brutal. Ela chegou a casa a chorar”, diz Aoaní, sublinhando o peso das conversas que se seguiram. “Tivemos todo um processo de reforço da autoestima. O trabalho é constante, até hoje”, destaca a atriz. Acompanhe aqui a conversa, com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    1 Std.
  3. Didi: “Nos meus quase oito anos de Portugal, tive chances de viajar pelo interior e entender que podemos ser muito parecidos diante das nossas diferenças do que imaginava”

    2. APR.

    Didi: “Nos meus quase oito anos de Portugal, tive chances de viajar pelo interior e entender que podemos ser muito parecidos diante das nossas diferenças do que imaginava”

    DJ e artista multidisciplinar, Diego Cândido, mais conhecido como Didi, tornou-se uma referência da cultura negra, queer e imigrante de Lisboa, onde aterrou depois de vários voos internacionais, que encontraram em Nova Iorque um destino de expansão identitária. Hoje coletivamente alicerçado nas “Afrontosas” e na “União Negra das Artes”, o também pesquisador brasileiro conta, neste episódio d’ “O Tal Podcast”, como as viagens o ajudaram a reconstruir a ideia de família e de casa. Começou por romper fronteiras em 2009, graças ao curso de Direito. Quase 18 anos depois, o convidado de Georgina Angélica e Paula Cardoso vê na primeira viagem a Nova Iorque, concretizada no âmbito do projeto “Ciências sem Fronteiras”, uma mudança de rota vital. “Não consegui mais parar”, revela o DJ e artista multidisciplinar, fundador do “Coletivo Afrontosas”. Sempre em movimento, Didi tem percorrido milhas desde a formação nova-iorquina em “Business Management” (Gestão de Negócios), procedida, entre outros destinos, de voos para o Canadá e Londres, antes da chegada a Portugal. Há cerca de oito anos no país, o brasileiro recorda, neste episódio d’ “O Tal Podcast” os planos académicos que trazia na bagagem. “Cheguei [a Lisboa] para fazer um mestrado. Na época, queria tratar de temas que eram a base da minha forma criativa, artística, queria falar sobre movimentos negros a partir da perspectiva queer, da população LGBTIQI+. E ‘levei’”. Cabe nesse “levei” uma série de embates que teve de enfrentar, diante da pouca ou nenhuma abertura que encontrou na Academia, para investigar as questões que o mobilizam. O revés académico não travou, contudo, a vontade de encontrar respostas para uma pergunta que coloca desde o primeiro dia em Portugal: “Cadê elas? Onde estão as pessoas negras queer?”. A interrogação deu lugar a um dos projetos desenvolvidos pelas “Afrontosas”, que permite reconhecer que essas presenças sempre existiram – e resistiram. “Aos poucos, com muito auxílio dos movimentos negros, de pessoas diversas do próprio movimento LGBT, contamos essa história”. Enquanto se resgatam referências do passado, Didi partilha como se está a construir história no presente, nomeadamente a partir da UNA – União Negra das Artes, via não apenas de organização, mas de “encontro afetivo”, apontado como uma das peças-chave para superar fronteiras geograficamente impostas. “A imigração possibilita construir de novo, estreitar laços de formas até mais presentes, fortes e frutíferas do que os laços de sangue”, defende o DJ, surpreendido com a casa que encontrou em Lisboa. “Vi-me apadrinhado por uma realidade que nunca imaginei encontrar, a partir do meu companheiro e da minha base coletiva, grandemente instituída pelo Coletivo Afrontosas”. À experiência lisboeta juntam-se vários trânsitos de reconhecimento humano pelo país. “Nos meus quase oito anos de Portugal, tive chances de viajar pelo interior e entender que podemos ser muito parecidos diante das nossas diferenças do que imaginava” Ouça o episódio completo aqui. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    1 Std. 1 Min.
  4. Episódio Especial ao Vivo: “Quando temos filhos estamos condenados a ter esperança. Tenho esperança em que se este planeta prevalecer ainda teremos pessoas que possam fazer a diferença”

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    Episódio Especial ao Vivo: “Quando temos filhos estamos condenados a ter esperança. Tenho esperança em que se este planeta prevalecer ainda teremos pessoas que possam fazer a diferença”

    No Dia Internacional e Nacional para a Eliminação da Discriminação Racial, assinalado no último sábado, dia 21, o “O Tal Podcast” aceitou o convite da Casa Capitão, em Lisboa, para se juntar a um dia de reflexão, com a gravação de um episódio especial. Ao vivo, com a participação do público e a presença dos podcasters José Rui Rosário e Justino Sacalumbo como convidados, a conversa partiu de um compromisso: “Desfazer o silêncio, confrontar o ruído, e assumir o lugar de fala”. Enquanto a pandemia impunha distanciamentos sociais, José Rui Rosário, assistente técnico na Câmara do Seixal, juntava-se a dois amigos para lançar “O Lado Negro da Força”, apresentado como “um lugar de escuta de vozes raramente ouvidas”, nomeadamente “portugueses negros, migrantes e pessoas racializadas”.  No mesmo período, marcado por muitas interrogações, o técnico de audiovisual Justino Sacalumbo saía de Angola e fixava-se em Portugal, onde acabou por criar “O Despertador Podcast”, como via para refletir sobre o que sempre teve vontade de questionar, abrindo também espaço para que outras pessoas se expressem. Cada qual com o seu projeto, os dois convidados contam, neste episódio de “O Tal Podcast”, como o ato de partilhar percursos de vida se revelou uma via de transformação. “O que tu viveste ontem hoje pode bater de frente com o que alguém esteja a passar. Isso salva vidas”, sublinha Justino, enquanto José Rui destaca o efeito terapêutico de cada encontro. “Foi tão bom saber que não estou sozinho, que as nossas histórias coincidem em muitas coisas, e que continuamos a ter força para acreditar na mudança”. Sem nunca perder a ligação ao coletivo, o cofundador de “O Lado Negro da Força”, e da plataforma antirracista Kilombo, defende, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, que a única forma de quebrar o silêncio sobre o racismo é “dizer o que é isto de nos sentirmos um corpo ausente, diferente, limitado ou acossado, cientes de que isto é uma maratona”, e não é uma corrida de 100 metros. Mas, como falar quando isso pode custar o ganha-pão? Justino arriscou. “Saí de um emprego quando me disseram: ‘és espetacular, trabalhas bem, mas tenta não falar muito angolano’”. Confiante na sua identidade africana, o angolano explica que valoriza muito o sotaque, enquanto “a pronúncia linguística que identifica um povo, uma cultura, um indivíduo, uma nação”.  Ao mesmo tempo, o podcaster destaca a resistência geradora do crioulo cabo-verdiano, distinção que sobressai na história de José Rui. “Em casa, a minha mãe só falava crioulo. Esta questão da língua sempre foi algo que ela transformou em batalha, em afirmação”. A herança, nota o também vocalista da banda rock Dixit, celebra-se para além das ligações familiares. “Falar crioulo continua a ser uma forma de resistência, uma forma de dizer que eu honro os meus ancestrais. Fico muito orgulhoso quando vejo os miúdos, nos bairros, a falar crioulo”. É também na continuidade que José Rui encontra caminho. “Quando temos filhos estamos condenados a ter esperança. Tenho esperança nos meus filhos, em que se este planeta prevalecer ainda teremos pessoas que possam fazer a diferença”. Já Justino, vê possibilidades na entrega, no compromisso de dar o melhor de si “naquilo que tem a ver com a consciência negra, a igualdade, o poder, o direito”. Ouça aqui o episódio completo, encerrado com a intervenção do público. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    1 Std. 27 Min.
  5. Cláudio Gonçalves: “Pessoas de sucesso nos bairros sociais há muitas, que conseguiram vencer e sair. Só que é necessário que voltem atrás e digam: vou ensinar, empoderar os outros para conseguirem também”

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    Cláudio Gonçalves: “Pessoas de sucesso nos bairros sociais há muitas, que conseguiram vencer e sair. Só que é necessário que voltem atrás e digam: vou ensinar, empoderar os outros para conseguirem também”

    Manequim com carreira internacional, que tem no currículo campanhas para gigantes da moda, como Dolce&Gabbana, Gucci, Prada e Louis Vuitton, Cláudio Gonçalves não esquece de onde veio. “Os bairros sociais e as comunidades imigrantes foram o planeta onde cresci e o princípio de tudo”, conta neste episódio de “O Tal Podcast”, em que recorda as privações da infância – transformada a partir da adoção –, e revela como o sucesso nas passerelles o inspira a transformar vidas. Nas ruas da Cova da Moura cabia todo o mundo de Cláudio Gonçalves, até ser retirado da família. Tinha cerca de seis anos, e dava nas vistas pela infância errante, denunciada pelos vizinhos à Segurança Social. “A minha mãe tinha três trabalhos e só a conseguia ver uma vez por semana, se tanto. Eu vivia com a minha avó, que era alcoólica”, recorda o manequim, que chegou a roubar para comer. Hoje manequim de sucesso, o convidado de Georgina Angélica e Paula Cardoso rejeita endeusamentos e romantizações. “Estou sempre a dizer: eu não sou especial, eu tive toda uma quantidade de recursos, uma educação diferente, que me meteram na posição em que estou. Isso é que mudou a minha vida: ter acesso a coisas que um jovem num bairro social não tem”. Com um início de história marcado pela separação da família, Tibunga, como também é conhecido, conta que antes de ser adotado pela sua antiga professora, agora mãe, chegou a um ponto em que “já nem sabia se estava melhor na rua ou na instituição”. Além das lutas diárias em que as crianças se envolviam, Claúdio revisita o sistema de abusos. “Tinha um trabalho de escravo, a descascar batatas de manhã à noite, a cavar campos e fazer 30 por uma linha. Coisas a que uma criança daquela idade [seis anos] não devia ser submetida”. O ambiente de violência, agravado pela austeridade religiosa que o regia, assemelhava-se a “um campo de concentração”, compara o manequim, lembrando que, ali, as vidas encolhiam. “Dormíamos num contexto de prisão, em camas individuais de ferro, em que cada um tinha uma gaveta, daquelas de mesa de cabeceira. Tinha lá dentro uma foto da minha mãe, uns berlindes, e pronto. A nossa existência era aquela gaveta”. Sem nunca perder de vista as marcas do passado, Cláudio constrói, no presente, um caminho para abrir novos futuros.   “Há uma limitação nos sonhos dentro dos bairros sociais, em que os meninos querem sempre ser futebolistas ou aquele estereótipo que já se conhece”, nota o manequim, empenhado em transformar essa realidade. “Se não fosse a minha mãe a resgatar-me daquela instituição, provavelmente ficava lá até os 18 anos, nunca teria sido modelo, estava a trabalhar numa caixa registadora qualquer. Sabendo isto, é minha obrigação voltar para trás e dizer: vou mostrar a um Cláudio de agora que é possível, e vou lhe dizer como é possível”. O compromisso social ganha expressão em bairros das periferias de Lisboa, onde o manequim identifica um enorme potencial de mudança. “Pessoas de sucesso nos bairros sociais há muitas, que conseguiram vencer e sair. Só que é necessário que voltem atrás e digam: vou ensinar os outros para conseguirem também”. Enquanto inspira e influencia mudança, o manequim aponta igualmente para outros voos. “Um dos meus sonhos de vida é voltar para África, criar um império e empoderar as pessoas. Gostava muito que fosse em Cabo Verde”. Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    1 Std. 9 Min.
  6. Kai Fernandes: “O contraste entre o meu corpo feminino, de mulher biológica, com esta expressão da masculinidade define-me muito bem”

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    Kai Fernandes: “O contraste entre o meu corpo feminino, de mulher biológica, com esta expressão da masculinidade define-me muito bem”

    Vislumbrou na Psicologia uma tábua de salvação da própria dor e acabou frustrado, admite Kai Fernandes, o convidado desta semana de “O Tal Podcast”. Entretanto reconciliado com a sua área de estudos, o psicólogo percebeu, a partir do início da prática clínica, que teria de se ajudar para conseguir ajudar. Das feridas da adoção, aos traumas do racismo, a que se junta o processo da transição de género, a identidade de Kai representa, para muitas pessoas, a única via de reconhecimento. “Existem poucos psicólogos como eu: negro, trans, jovem, e que vive as não monogamias”. Estávamos em 2020, quando o assassinato de George Floyd confrontou Kai Fernandes com as próprias sombras. “Percebi que não havia mais espaço para ignorar o impacto que o racismo tinha na minha vida”, recorda o psicólogo, de volta ao facto marcante que o levou a criar a página “Quotidiano de uma negra”, no Instagram. “Era muito raro ter contacto com outras pessoas negras. Ter sido adotado por pessoas brancas, e ter crescido num espaço inteiramente branco se calhar atrasou o processo de encontrar a minha identidade”, conta o terapeuta. Noutro momento decisivo da sua história, vivido em 2023, numa viagem à Tailândia, o psicólogo começou a perceber em si uma desconformidade entre identidade de género e sexo biológico. “As pessoas falam muito do feminino e do masculino. E às vezes tenho dificuldade em encaixar-me nessa ideia binária. Daí a não binariedade, daí a ideia de transgénero”. Hoje, e já depois de outro 'voo de reconhecimento' em direcção a Banguecoque, Kai não tem dúvidas sobre a sua afirmação. "Sinto uma liberdade muito grande quando me expresso de uma forma masculina, porque me permite criar uma masculinidade que acredito que possa realmente ser uma mudança no mundo". Distanciado dos modelos de masculinidade que se habitou a observar enquanto crescia, o psicólogo sublinha a importância de quebrar padrões tóxicos.  "Há momentos em que sinto saudades de meter uma maquilhagem ou usar uma roupa mais feminina”, diz, libertando-se da necessidade de encaixar em normatividades. "O contraste entre o meu corpo feminino, de mulher biológica, com esta expressão da masculinidade define-me muito bem”. Negro, trans, jovem, e muito interessado no território das relações não-monogâmicas, Kai encontra nas suas expressões identitárias a explicação para a diversidade de pertenças e geografias que recebe em consultório. "Muitas pessoas querem ter alguém do outro lado, na terapia, que tenha uma semelhança com elas. Há muitas coisas na minha identidade que são a representação dos meus clientes", assinala, sem romantizações. "A minha experiência não é representativa da maior parte das pessoas trans. As pessoas que me são próximas, no geral, acompanharam a minha transição. Senti muito acolhimento”. Além do papel desempenhado por quem o rodeia, Kai destaca a influência dos lugares. “Banguecoque foi o sítio onde eu passei a ser quem eu era e ninguém me questionou. Nem por ser negro, nem por me vestir de uma forma masculina. Ninguém me estranhou. Isso teve um poder gigantesco”, reconhece. Ouça aqui a conversa completa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    56 Min.
  7. Amina Bawa: “Falo, brincando e com muita humildade, que nós brasileiros viemos do futuro. Tudo o que Portugal vai passar [politicamente], a gente já viu”

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    Amina Bawa: “Falo, brincando e com muita humildade, que nós brasileiros viemos do futuro. Tudo o que Portugal vai passar [politicamente], a gente já viu”

    Enquanto o Brasil vivia o conturbado processo de afastamento da então Presidente Dilma Rousseff, Amina Bawa encontrava, em Portugal, uma espécie de “oásis” político. Estávamos em 2016, e o mestrado em Cultura e Comunicação abria as portas para uma nova casa. Dez anos depois da mudança, a jornalista e produtora cultural partilha, neste episódio de “O Tal Podcast”, o seu olhar sobre as transformações políticas em curso em Portugal, além de refletir sobre fronteiras raciais, familiares e académicas. Apresenta-se como “100% brasileira e carioca”, mas faz questão de acrescentar ao cartão-de-visita genético 50% de herança nigeriana. “O meu pai deixou o Brasil quando eu era muito nova. Fez a licenciatura, mestrado, doutoramento, e voltou para a Nigéria, [o seu país]”, adianta Amina Bawa, que, já depois dos 20 anos, recuperou a ligação ao lado paterno. O contacto, desde o falecimento do pai transferido para os tios, ‘alimenta-se’ com comunicações regulares, prelúdio de uma viagem – ainda por concretizar – ao encontro das origens africanas. Para já, porém, os planos de voo cumprem-se, com crescente intensidade, entre Portugal e o Brasil. Habituada a transitar entre os dois lados do Atlântico, a jornalista e produtora cultural tornou-se uma inesperada conselheira de viagens. “Dou muitas orientações a pessoas que querem vir para Portugal estudar”, diz a carioca, que, a partir da sua experiência de mestrado, começou a facilitar aprendizagens. As recomendações não se restringem, contudo, ao mundo académico, embora ele seja palco de muitas vivências. “Tive professores dizendo: ‘hoje, vocês, investigadores, usam de uma vertente muito pessoal para falar e trazem isso para a academia. E eu pensava: que ótimo! É maravilhoso quando eu falo de mim, não do outro”. Atenta às fronteiras que comprimem os trabalhos de pesquisa, Amina recorda, nesta conversa, o desconforto de querer “falar de pessoas pretas que estão sendo felizes, e que são bem-sucedidas dentro dos seus negócios”. Ainda no domínio da academia, a carioca assinala que “há uma diferença muito grande entre o Brasil e Portugal”. Desde logo, nota a jornalista, “a gente fala muito da negritude, mas como é que a gente estuda quem criou esse conceito?”. Para já, a resposta vem apenas do outro lado do Atlântico, onde se criou o Observatório da Branquitude. Por cá, seguimos com as observações da convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso, também voltadas para as relações afro-brasileiras. “No Brasil, tudo está muito conectado com África, mas a gente não conhece, é uma África que está muito no imaginário. E quando venho para Portugal, tenho um embate com as realidades africanas, o que é maravilhoso”. Noutros “choques” de realidade, partilhados neste episódio, Amina revisita eleições de má memória – “Falo, brincando e com muita humildade, que nós brasileiros viemos do futuro. Tudo o que Portugal vai passar [politicamente], a gente já viu” – , e traumas de viagem. “Não tenho medo de viajar sozinha, mas na Hungria já fui perseguida, quase sequestrada. Eles sequestram muitas mulheres para o tráfico sexual”. Ouça a conversa completa aqui.     See omnystudio.com/listener for privacy information.

    1 Std. 4 Min.
  8. Ana Josefa Cardoso: “Na escola, não aprendemos só a ler, a escrever e a contar, porque o professor não ensina só o que sabe, também ensina o que é”

    26. FEB.

    Ana Josefa Cardoso: “Na escola, não aprendemos só a ler, a escrever e a contar, porque o professor não ensina só o que sabe, também ensina o que é”

    Aos cinco anos, na pré-primária, em Cabo Verde, Ana Josefa Cardoso tinha dores de barriga só de pensar em falar português. Hoje faz do ensino da ‘língua de Camões” profissão, enquanto mantém vivo o idioma materno. “A língua que une efetivamente todos os cabo-verdianos é o crioulo”, sublinha neste episódio de “O Tal Podcast”, em que reflete sobre o papel da escola e do professor, num contexto cada vez mais desafiante. O ano de 1993 marca o início da carreira docente de Ana Josefa Cardoso, caminho que, mais de três décadas depois, continua a percorrer com o mesmo sentido de missão. “A tarefa do professor é inacabada. Um professor a sério é um eterno aprendiz”, destaca nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, lembrando que cada aluno é único. Desde sempre empenhada em valorizar e acolher a diversidade humana, a professora revela como forjou o seu compromisso com a inclusão a partir dos próprios processos de exclusão. “Fui para a pré-primária com 5 anos, em Cabo Verde, e foi o meu primeiro contacto com o português. Os alunos eram castigados por não falarem uma língua que não sabiam, e não tinham tido a oportunidade de aprender”. A experiência deixou marcas, indissociáveis da consciência pedagógica entretanto formada, igualmente moldada no ‘apagão’ que esvaziou as lembranças do primeiro ano de escolarização em Portugal. “Enquanto não falava português, entrava muda e saía calada [da escola]”, recorda a também investigadora, hoje consciente de que talvez o silêncio tenha sido o meio que encontrou para passar despercebida, e não se tornar alvo de chacota por causa do sotaque. Com ou sem memórias desse período, Ana Josefa nota que a escola pode ser o primeiro local de confronto com “o conflito, o desânimo, as frustrações”.  Aliás, acrescenta a professora, talvez venha desse reconhecimento – e da vontade de oferecer a proteção que não teve –, uma das motivações para ter escolhido o ensino. A opção, iniciada no ensino da Língua Portuguesa, estendeu-se ao ensino e investigação da Língua Cabo-Verdiana, mais recentemente alargado a lições de português como língua não-materna. “Os tempos vão mudando, o público é mais diverso, os desafios são maiores a todos os níveis. Se a escola não estiver aberta à mudança, não consegue ser hospitaleira”, defende, atenta ao impacto dos novos fluxos migratórios e linguísticos, bem como às transformações tecnológicas. “Temos que ter propostas para que as nossas aulas sejam aliciantes para todos. Por isso digo que o professor tem de ser um eterno estudante, porque precisa de se atualizar para dar resposta aos novos desafios”. Às vezes, assinala a docente, basta ativar a empatia. “Lembro-me da professora que tive a partir do 2.º ano: a dona Benvinda. Eu ia de lenço [na cabeça] para a escola, e ela levava o seu lenço ao pescoço e, várias vezes, pedia-me para lhe pôr como punha o meu”. O episódio é partilhado como um exemplo concreto do papel que a Educação deve assumir. “Na escola, não aprendemos só a ler, a escrever e a contar, porque o professor não ensina só o que sabe, também ensina o que é”. Ouça a conversa completa aqui. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    1 Std.

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Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião, com autoria de Georgina Angélica e Paula Cardoso.

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