Rendez-vous cultural

Reportagens sobre exposições, concertos e espetáculos na França. Destaque para os artistas brasileiros e suas criações apresentadas na Europa. Na literatura, lançamentos e as principais feiras de livros do mundo.

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    Van Gogh, ‘influencer’? Mostra no vilarejo francês onde pintor se suicidou ecoa poder de sua obra

    Antes de se tornar um dos artistas mais influentes da história, Vincent van Gogh foi o produto de um entrelaçamento improvável de fé rigorosa, mercado de arte, boemia parisiense e um pequeno vilarejo transformado em laboratório pictórico. Uma exposição no Castelo de Auvers‑sur‑Oise, nos arredores de Paris, propõe revisitar esse percurso, mostrando como religião, autodidatismo, excessos e territórios específicos moldaram um pintor que, mesmo após mais de um século, continua impossível de ser ignorado.  Márcia Bechara, enviada especial da RFI a Auvers-sur-Oise Antes de se tornar um “influenciador” — termo que hoje circula livremente para designar quem molda gostos, estilos e comportamentos — Vincent van Gogh foi, ele próprio, profundamente influenciado. A exposição Van Gogh, influencer, Heranças em Movimento, em Auvers‑sur‑Oise, nos arredores de Paris, parte justamente dessa inversão de perspectiva: a mostra recua no tempo para investigar o caldo cultural, religioso e artístico que moldou o pintor antes de ele se tornar o ícone incontornável da arte moderna. Misturando facsímiles raros de obras do gênio holandês (as obras do período francês estão em sua maior parte reunidas no Museu d'Orsay, na capital francesa) e obras de artistas vivos, a mostra contempla, em efeito de espelho, os ecos da força do pintor nas gerações futuras. “Entre as primeiras influências de Vincent van Gogh, há algo que costuma ser subestimado, mas que é fundamental: a religião”, afirma Wouter van der Veen, pesquisador holandês especializado em história da arte, um dos maiores especialistas internacionais em Vincent van Gogh e diretor científico do Instituto Van Gogh, sediado em Auvers‑sur‑Oise, além de curador da exposição. “Ele nasce filho de um pastor protestante, dentro de uma tradição marcada por uma profunda desconfiança em relação às imagens”. Na Holanda do século 19, o protestantismo calvinista ainda carregava os efeitos de um longo processo de iconoclastia. A produção e o culto às imagens eram vistos, nessas comunidades, como distrações perigosas da fé considerada verdadeira. “A lógica era eliminar as representações visuais, porque elas desviariam o fiel do essencial”, observa Van der Veen. “Isso era vivido de forma bastante concreta nas comunidades de onde Van Gogh veio”. Leia tambémExposição em Paris retraça últimos meses de Van Gogh em 'vilarejo dos impressionistas' Ao mesmo tempo, a família de Vincent reunia um paradoxo social e simbólico. “Os tios de Van Gogh eram marchands de arte. Três deles atuavam no mercado, todos em um nível social elevado”, destaca o curador. Em uma mesma linhagem conviviam, portanto, o rigor moral calvinista e a circulação constante de obras de arte. “As obras passavam de casa em casa, eles se visitavam, trocavam quadros e gravuras. Vincent cresce nesse ambiente”, diz. Desde cedo, Van Gogh demonstra uma relação intensa com a imagem. “Ele recebe uma educação muito sólida, bastante rígida, mas também extremamente completa: aprende quatro línguas, literatura, cultura geral, e, naturalmente, arte”, relata o diretor científico do Instituto Van Gogh. Essa formação cria um terreno fértil. “Ele manifesta muito cedo uma inclinação artística muito clara”, afirma. O aprendizado silencioso do mercado de arte Aos 16 anos, um dos tios aceita acolher Vincent como aprendiz em sua empresa. “Ele entra no mercado de arte muito jovem”, conta Van der Veen, retomando esse período pouco lembrado da biografia do pintor. Não se trata ainda de uma vocação como artista, mas de um trabalho. “Ele não será particularmente bom como marchand, mas passa sete anos nesse meio.” Durante esse período, algo decisivo acontece. “Milhares de gravuras passam pelas mãos dele. Centenas de pinturas”, enumera o curador. Van Gogh observa, compara, memoriza. “Ele tem uma memória visual extraordinária. Tudo isso constrói o que eu chamo de seu ‘catálogo interno’.” O olhar do artista começa a se formar antes mesmo de ele considerar a possibilidade de criar. “Entre os 16 e os 23 anos, ele trabalha nesse comércio de arte sem jamais pensar em se tornar artista”, prossegue o pesquisador holandês. O contato cotidiano com imagens cria um repertório denso, silencioso, acumulado. “Quando ele olha uma imagem mais tarde, ela nunca é neutra: está sempre atravessada por tudo o que ele já viu”. Depois de anos nesse universo, surge a frustração. “Ele passa a achar o mercado de arte um pouco vazio, sem sentido”, observa Van der Veen. Vincent busca outra trajetória. “Ele decide seguir os passos do pai e se tornar pastor”. Essa tentativa ocupa quatro anos de sua vida. “Ele tenta estudar teologia, mas não consegue. Procura trabalhos como evangelizador ou pregador, e não encontra”, relata o curador. Ao final desse percurso errático, a constatação se impõe: “É então que ele se diz: não, eu sou artista”. “Ele combina três coisas fundamentais: a cultura visual acumulada ao longo dos anos, o amor pela literatura e pelas línguas, e uma vontade profunda de dar sentido à existência”, analisa Van der Veen. Dessa combinação emerge o artista que conhecemos. “Mas é importante lembrar: ele começa a pintar seriamente aos 27 anos, o que é muito tarde”. Um autodidata contra todas as regras “A formação artística de Van Gogh é, em grande parte, autodidata”, afirma o curador da mostra. “Ele não entra no ateliê de um mestre, não segue uma escola.” Frequenta cursos esporádicos, aqui e ali, mas nada se sustenta. “O problema é o caráter: ele é absolutamente impossível”. O resultado é um aprendizado solitário, feito por tentativa e erro. “A imensa maioria da formação dele aconteceu sozinho”, diz Van der Veen. Até 1885 ou 1886, Van Gogh desenvolve um estilo muito pessoal, ainda ancorado no ambiente em que vive. Leia tambémNunca exibido em público, quadro de Van Gogh é leiloado por R$ 93 milhões em Paris Até então, ele praticamente não havia saído dos Países Baixos. “É uma região com um clima específico: céu baixo, luz difusa, tons mais fechados”, descreve o pesquisador. As cores de sua chamada fase holandesa refletem isso. “São tonalidades mais cinzentas, mais terrosas, e é isso que ele explora”. A virada ocorre quando Theo, seu irmão mais novo, já estabelecido em Paris como marchand de arte, convida-o a se mudar. “Theo seguiu o caminho que Vincent abandonou: o do mercado de arte”, lembra Van der Veen. Paris, naquele final do século 19, era o epicentro da vida artística europeia — e, em muitos sentidos, mundial. Vincent aceita o convite e passa dois anos vivendo com o irmão. Na capital francesa, ele é confrontado com um universo totalmente novo. “Ele descobre as gravuras japonesas, que o marcam profundamente”, observa o curador. O japonismo era uma moda entre artistas e intelectuais parisienses, mas, no caso de Van Gogh, a paixão assume outra escala. “Ele coleciona centenas e centenas dessas estampas”. Além disso, conhece pessoalmente figuras centrais da vanguarda. “Paul Signac, Émile Bernard, Paul Gauguin, Georges Seurat”, enumera Van der Veen. E vê de perto obras de Monet, Degas, Pissarro. “Há, de um lado, a força gráfica e cromática da arte japonesa; de outro, a abordagem científica da cor, como a de Signac.” Tudo isso se mistura. “Esse conjunto de influências vai construir o estilo Van Gogh.” Montmartre: a pintura mergulha no excesso Há, porém, outra influência decisiva, muitas vezes esquecida: a festa. “E todos os excessos que vêm com ela”, ressalta Van der Veen. Montmartre, naquele período, era um território híbrido. “Metade urbano, metade rural”, descreve o curador. Havia jardins, hortas e pequenos campos ainda ativos. “Van Gogh busca motivos tanto desse lado agreste quanto do outro”. Esse outro lado era o da vida noturna. “Os cabarés, os cafés: a Nouvelle Athènes, o Chat Noir, o Rat Mort”, lista Van der Veen. Espaços históricos onde a boemia parisiense se reunia. “A vida não parava, a festa não parava.” Esses lugares reuniam intelectuais, escritores, pintores, atores e poetas. “Era um mundo lendário”, diz o pesquisador holandês. Paris, à época, era amplamente reconhecida como a capital cultural do planeta. “E Montmartre funcionava como o lado alternativo desse grande palco: o espaço da ousadia, do risco, de ir longe demais.” Van Gogh estava no centro disso tudo. “Sua maneira de repensar a pintura, de romper fronteiras, deve muito a essa imersão no caldeirão cultural francês”, conclui o curador. Leia tambémProvável revólver usado em suicídio de Van Gogh é leiloado por € 162,5 mil Auvers‑sur‑Oise, o "país dos quadros" Ao se aproximar do fim da entrevista, o foco se desloca para Auvers‑sur‑Oise, pequena cidade a cerca de 30 quilômetros de Paris. Para o leitor brasileiro, o nome pode soar discreto. Mas, na história da arte, trata‑se de um território decisivo. “Muito antes de chegar a Auvers‑sur‑Oise, Vincent já conhecia a importância do lugar”, explica Van der Veen. “Quando trabalhava no comércio de arte, ele via constantemente obras criadas ali.” Isso se deve à presença, desde 1860, de Charles‑François Daubigny. “Ele era uma espécie de papa da pintura ao ar livre”, observa o curador. Ao se instalar em Auvers, Daubigny cria uma verdadeira colônia artística. “Isso acontece 30 anos antes da chegada de Van Gogh”. O efeito é duradouro. “Corot vem, depois Pissarro, Cézanne”, lembra Van der Veen. Grandes nomes se instalam naquele vilarejo para desenvolver suas pesquisas pictóricas. “São artistas hoje presentes nos maiores museus do mundo.” Auvers torna‑se um laboratório. “É ali que surgem manifestações iniciais

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  2. 24. APR.

    Mostra na Cinemateca de Paris redimensiona mito de Marilyn Monroe nos 100 anos de seu nascimento

    Em 2026, quando Marilyn Monroe completaria 100 anos, a Cinemateca francesa apresenta uma exposição que revisita sua carreira, entre 1946 e 1962. Com figurinos, filmes e arquivos raros, a mostra Marilyn Monroe: 100 anos! conta como a atriz enfrentou contratos abusivos, censura e misoginia no auge de Hollywood. Morta em 5 de agosto de 1962, aos 36 anos, Marilyn permanece subestimada como intérprete, embora continue celebrada como mito absoluto da cultura do século 20. Na Cinemateca de Paris, principal instituição de preservação do cinema na França, a exposição “Marilyn Monroe, 100 anos” propõe um reencontro com uma figura tão conhecida quanto sistematicamente mal compreendida. Longe de repetir o culto fetichista que costuma cercar a atriz, a mostra parte de uma pergunta incômoda: que tipo de estrela hollywoodiana Marilyn foi, de fato, entre 1946 e 1962, no auge do sistema de estúdios dos Estados Unidos? “Posso ser inteligente quando isso importa, mas a maioria dos homens não gosta disso.” Dita em 1953 no filme Os Homens Preferem as Loiras, a frase escrita por Anita Loos e interpretada por Marilyn funciona como senha e síntese. Ela aponta para o paradoxo central de sua trajetória: celebrada como imagem absoluta de desejo, Marilyn continuou sendo tratada como intérprete menor, mesmo quando diretores e colegas reconheciam publicamente sua inteligência e disciplina. Alfred Hitchcock, por exemplo, resumiu a visão dominante ao afirmar que ela “carregava o sexo no rosto”. Henry Hathaway, em sentido oposto, enfatizava “a inteligência de uma atriz extraordinária, que trabalha muito e quer sempre fazer melhor”. Entre esses dois polos, erguia‑se uma carreira curta, filmada em Technicolor, promovida em telas panorâmicas e atravessada por contratos leoninos. No espaço expositivo, a exuberância visual dos anos 1950 se impõe. Materiais publicitários, figurinos, fotos assinadas por Eve Arnold, Richard Avedon e Andy Warhol compõem o retrato de uma indústria que fabricava glamour ao mesmo tempo em que restringia brutalmente a autonomia de suas estrelas. A curadora Florence Tissot explica que seu ponto de partida foi “mostrar qual estrela hollywoodiana Marilyn Monroe era, e o que isso significava na prática”. "No começo, eu confesso que fiquei bem insatisfeita, porque a gente se depara com uma quantidade enorme de análises que acabam sempre voltando para a biografia dela, interpretando – ou até exagerando – a leitura da vida pessoal. No fim, dá um pouco a sensação de que a gente fica girando em círculo. Então tem também essa questão: como se posicionar diante de todos esses relatos. E depois, outra dificuldade que eu senti foi conseguir acesso aos arquivos", afirmou. Estrela de marketing antes de ser atriz A exposição começa pelas imagens de uma jovem ainda chamada Norma Jean Baker, fotografada como pin‑up enquanto trabalhava em uma fábrica ligada à indústria aeronáutica durante a Segunda Guerra. O sorriso ingênuo, o enquadramento sugestivo e os objetos de conotação claramente fálica revelam, segundo Tissot, “toda a hipocrisia dos anos 50”, quando puritanismo e erotização coexistiam sem constrangimento. Os Estados Unidos viviam a ascensão da revista Playboy e a divulgação do Relatório Kinsey sobre sexualidade feminina. Mas, ao mesmo tempo, enfrentavam o rigor do Código Hays, um conjunto de regras morais que regulou o que podia ou não aparecer nos filmes produzidos por Hollywood durante mais de três décadas.  Oficialmente chamado de Motion Picture Production Code, ele entrou em vigor em 1930, mas só passou a ser aplicado com rigor a partir de 1934, quando os grandes estúdios concordaram em submeter seus filmes a uma censura prévia.   Leia tambémTemporada excepcional de leilões pode tornar retrato de Marilyn obra mais cara do século 20 Nesse contexto, Marilyn tornou‑se o rosto perfeito de uma sensualidade aceitável, desejável e, paradoxalmente, domesticada. Mas o estereótipo da “loira burra” embutia uma ideia profundamente misógina: a de que beleza, desejo e inteligência não poderiam coexistir em uma mulher. A própria Marilyn denunciou isso em uma rara entrevista à NBC, em 1955, ao afirmar que “as pessoas associam as loiras, verdadeiras ou falsas, à estupidez. Não sei por quê. É uma visão muito limitada”. Ainda assim, esse rótulo estruturou boa parte de seus papéis iniciais. Trabalho, estudo e um talento subestimado Ao contrário da imagem de improviso, Marilyn estudou intensamente, antes mesmo de ingressar no famoso Actor’s Studio, em Nova York. "Na verdade, desde o começo ela já fazia aulas, por vontade própria. Estudou canto, dança, interpretação e mímica e pantomima", conta Florence Tissot. "Isso não é muito conhecido, mas é importante lembrar, sobretudo diante dessa imagem de atriz meio inconsequente que se criou em torno dela. Na prática, ela queria ser uma boa atriz – isso era fundamental para ela. Era uma pessoa muito determinada", aponta a curadora. Em filmes como Quando a Cidade Dorme e A Malvada, ambos de 1950, Marilyn aparece pouco, mas críticos como James Naremore identificam ali uma intérprete capaz de condensar medo, raiva, sedução e vulnerabilidade em poucos segundos. “Mesmo com cenas breves, ela empurra os limites dos personagens que lhe eram oferecidos”, observa Tissot. Essa dedicação raramente foi reconhecida. As histórias de bastidores, quase sempre narradas do ponto de vista dos diretores homens, consolidaram a imagem de uma atriz atrasada, indisciplinada e emocionalmente instável. Billy Wilder foi um dos que mais vocalizaram esse discurso, ecoado com especial força na crítica francesa do pós‑guerra. Contratos abusivos e uma batalha desigual Em 1953, no auge do sucesso de Os Homens Preferem as Loiras, Marilyn recebeu um salário significativamente menor que o de Jane Russell, sua parceira de cena. Os contratos de exclusividade de sete anos davam aos estúdios o poder de decidir se e quando uma atriz trabalharia. “Eram contratos abusivos”, afirma Tissot, “e Marilyn foi muito mal remunerada durante grande parte da carreira”. A partir de meados da década, ela passa a renegociar. Luta por salários mais altos, pelo direito de escolher papéis e diretores, e cria sua própria produtora. Conquista vitórias parciais, mas nunca alcança a autonomia de estrelas como Mae West. Mesmo em seu último projeto, Something’s Got to Give, Marilyn ganhava menos que colegas homens e menos que Elizabeth Taylor. O preço dessa rebeldia foi alto. Segundo Tissot, a indústria responde com um backlash: a loira ingênua cede lugar à mulher neurótica, problemática, instável. Filmes como A Loira Explosiva ridicularizam justamente sua tentativa de se emancipar. Leia tambémLivro publica confissões e trechos de diários de Marilyn Monroe Entre a transgressão e o castigo A cena da saia branca levantada pelo metrô, em O Pecado Mora ao Lado, sintetiza esse conflito. Filmada em 1954, diante de milhares de curiosos, ela violava simbolicamente o Código Hays e gerou uma das imagens mais reproduzidas da história do cinema. Tissot optou por abrir a exposição não com o vestido da cena, mas com fotos da multidão, sublinhando o caráter espetacular e exibicionista da operação. A imagem eclipsou o próprio filme. “O material promocional da estrela passa a se sobrepor à obra”, observa a curadora. Marilyn era, ao mesmo tempo, instrumento de transgressão e alvo de punição moral. "No fundo, isso mostra toda a complexidade que envolve uma estrela como a Marilyn Monroe. Na França, algo parecido aconteceu com a Brigitte Bardot. É uma década cheia de contradições: ao mesmo tempo em que começa um movimento de emancipação das mulheres, existe um discurso constante que reduz essas figuras à sexualidade. E, no contexto norte-americano, isso se soma a um certo puritanismo. Então fica claro que a imagem da Marilyn Monroe está presa nessa espécie de armadilha", analisa Tissot. Nos anos finais, em filmes como Quanto Mais Quente Melhor e Os Desajustados, a vulnerabilidade passa ao primeiro plano. Sua morte, em 5 de agosto de 1962, aos 36 anos, encerra a carreira e inaugura outra coisa: a administração incessante de seu mito. Um mito sem arquivo A curta carreira e a morte precoce dificultaram o trabalho histórico, segundo a curadora. Os pertences de Marilyn foram leiloados e se dispersaram por coleções privadas. Contratos, cartas e objetos raramente estão acessíveis. “Isso explica por que as lendas continuam tão fortes”, diz Tissot. “Há excesso de discurso, mas pouco acesso aos documentos.” A exposição, ao contextualizar imagens, filmes e discursos, não busca absolver nem vitimizar, e, segundo a curadora, pretende recolocar Marilyn Monroe como sujeito histórico, atriz trabalhadora e figura central para entender como Hollywood fabricou suas estrelas – e como as descartou. A mostra fica em cartaz em Paris até 26 de julho de 2026.

    7 Min.
  3. 18. APR.

    80° Festival de Avignon marca retorno de Wagner Moura ao teatro após 16 anos fora dos palcos

    Entre 4 e 25 de julho, o sul da França volta a se transformar em um dos principais epicentros das artes cênicas do mundo com a 80ª edição do Festival de Avignon, sob a direção do português Tiago Rodrigues. À frente do evento desde 2023, ele propõe um método: "fazer perguntas", "sustentar dúvidas" e "recusar respostas fáceis" num tempo de "discursos violentos". É também o retorno de Wagner Moura aos palcos, um reencontro com o teatro que acontece no maior festival do gênero no mundo. A imagem escolhida para o cartaz oficial desta edição do Festival de Avignon sintetiza a intenção de Tiago Rodrigues: um enorme ponto de interrogação. Tiago Rodrigues explica que “o questionamento foi uma forma bastante livre de nós darmos um tema a este festival, de relembrarmos o público que este festival faz muito trabalho sobre a sua história, sobre o seu arquivo, ao chegar à 80ª edição, queria estar muito concentrado também no presente e no futuro, e perguntar, agora, o que é que vamos fazer nos próximos 80 anos de festival? Essa é uma das perguntas que nos interessa”. A proposta, segundo ele, não é retrospectiva, mas prospectiva, um deslocamento do olhar para o que ainda pode ser construído. Esse gesto se desdobra na própria definição do papel do festival. Para Rodrigues, trata-se de “fazer perguntas juntos, mas fazer perguntas através da arte”, lembrando que “é isso que o festival faz há 80 edições e queríamos relembrar-nos nós, os artistas, mas também o público, que é isso que nós fazemos aqui num mundo onde estamos cheios de más respostas, poucas respostas, mas más na maioria dos casos, respostas violentas, respostas simplistas, respostas pouco informadas”. Leia tambémDezenas de igrejas se convertem em teatros na 'Cidade dos Papas' durante o Festival de Avignon Nesse contexto, o festival se coloca como espaço de fricção e elaboração coletiva, onde “queremos colocar as boas perguntas, perguntas às vezes complexas, perguntas também com prazer, perguntas com dúvida, perguntas que permitam o debate em vez de respostas que criam a violência”, já que, segundo ele, “as artes podem ter esta função e certamente um festival onde vêm pessoas do mundo inteiro e se reúnem numa cidade que dobra a sua população no momento do festival para acolher o mundo inteiro que a visita. Esse é o momento em que podemos fazer perguntas juntos”. Leia tambémWagner Moura estreia em maior encontro de artes cênicas do mundo ao lado de destaques da cena brasileira A dimensão política dessa proposta se articula também a uma reflexão sobre o acesso à cultura. Rodrigues afirma que “o acesso democrático às artes não é um exercício populista, uma flor que se põe na lapela nos dias de festa. É um trabalho quotidiano que deve permitir o acesso fácil à criação exigente, criação de grande qualidade, feita em liberdade e à qual todas e todos devem ter acesso”. E conclui: “se fosse fácil, não era um serviço público, é um serviço público, a cultura, porque não é fácil de fazer. É preciso tempo, é preciso investimento e é preciso sonhar”. É nesse cenário que a presença brasileira ganha centralidade nesta edição histórica. Entre os destaques está a diretora e dramaturga Christiane Jatahy, que retorna ao festival com um novo trabalho - Um Julgamento - Depois de O Inimigo do Povo - ao lado do ator Wagner Moura, com texto de Jatahy, Moura e Lucas Paraizo, marcando também o retorno do ator ao teatro, após 16 anos dedicados ao cinema e à televisão, período em que se tornou uma das figuras brasileiras de maior projeção internacional. Ao comentar o retorno de Jatahy ao festival, Rodrigues sublinhou a relação de longa data entre a artista e Avignon, bem como a força do novo projeto que ela apresenta ao lado de Wagner Moura. Segundo ele, “Christiane Jatahy é já uma artista muito amada pelo público do festival, muito conhecida em França, uma encenadora que também é muito conhecida do público lusófono, seja no Brasil, seja em Portugal, e que tem marcado as cenas europeias nos últimos anos com as suas adaptações do repertório”. Rodrigues destaca ainda o caráter inédito da parceria artística apresentada nesta edição: “desta vez, pela primeira vez, trabalha com Wagner Moura, que decide voltar ao teatro 16 anos depois. Ele tem vivido a sua aventura cinematográfica e televisiva e neste momento é talvez o ator brasileiro mais conhecido no mundo”. Para o diretor, o reencontro de Moura com o palco tem um peso simbólico particular, sobretudo pela forma como se articula com o trabalho da encenadora brasileira. Sobre o projeto, Rodrigues reforça a dimensão de retorno ao essencial do ofício do ator: “é muito comovente ver Wagner Moura a regressar ao teatro com essa vontade de quem regressa à essência do trabalho de ator”. De volta ao festival Jatahy descreve esse retorno a Avignon como profundamente significativo, especialmente por ocorrer sob a direção de Rodrigues. Ela afirma que “é muito importante, muito legal pra mim e muito significativo estar voltando para Avignon agora sob a direção do Tiago Rodrigues, que é um artista que eu tenho muita relação, um amigo e alguém que eu respeito muito, e eu fico muito feliz de estar dentro da programação criada por ele e pela Magda [Bizarro, mulher do diretor e co-fundadora, a seu lado, da Cia Mundo Perfeito]”. Para a diretora, o contexto atual amplia ainda mais o alcance simbólico de sua participação, já que “essa volta está conectada também à união de três festivais, o Festival de Avignon, o Festival de Edimburgo e o Holland Festival, que escolheram este ano uma artista, um trabalho para apoiar e para juntar forças para que esse trabalho possa ter sido realizado”. Leia tambémTeatro: Christiane Jatahy revisita fantasmagorias de 'Hamlet' em Paris com seu maquinário de revolução e desejo No centro da criação está o reencontro artístico com Wagner Moura, que, segundo ela, carrega uma longa expectativa compartilhada: “vem também com uma outra parceria muito significativa com ele, que é um ator com quem eu tenho uma relação de muito tempo e é muito tempo que a gente deseja fazer um trabalho juntos”. O projeto nasce dessa convergência, como ela define, “é um trabalho muito sobre o nosso encontro e sobre as coisas que a gente tem vontade de falar”. A peça, que se estrutura em torno da ideia de julgamento e da "crise contemporânea da verdade", parte de uma inquietação contemporânea sobre verdade e política. Jatahy explica que “a gente entra na questão do julgamento, a gente leu muitas coisas, a gente pensou muitas coisas, e para mim sempre é muito importante que o trabalho esteja numa reflexão, numa conexão, lançando perguntas sobre o que a gente está vivendo hoje”. Ela acrescenta que “claro que é sempre um aspecto íntimo e pessoal, mas também é político, porque não tem como separar uma coisa da outra”, situando o trabalho num campo em que a criação artística se confunde com a leitura crítica do presente. Essa dimensão se radicaliza na própria estrutura dramatúrgica da peça, que se relaciona diretamente com a obra “O Inimigo do Povo”, de Henrik Ibsen. Jatahy descreve o projeto como “um desdobramento de O Inimigo do Povo, uma possibilidade de continuidade dessa peça”, como se o personagem Thomas Stockmann “fosse à cena, fosse ao teatro, pedir a possibilidade de ter a sua defesa e de ter a sua reparação, e essa decisão vai caber ao público”. Nesse movimento, a obra transforma o espectador em instância de julgamento, deslocando o eixo tradicional da representação teatral. Leia tambémFestival de Avignon: 'A Noiva e o Boa Noite Cinderela', ou como explodir no próprio corpo as fronteiras do teatro A outra grande presença brasileira no festival é a artista e encenadora Carolina Bianchi, que retorna a Avignon após sua revelação em 2023. Agora, ela apresenta o terceiro capítulo de sua trilogia “Cadela Força”, intitulado “Uma Luz Cordial”, além de propor uma maratona que reúne os três trabalhos em sequência. Diretora brasileira lançada pelo festival volta a Avignon Ao lado desse reencontro, o diretor Tiago Rodrigues também destacou o percurso de Carolina Bianchi, que regressa a Avignon após o impacto de sua participação em 2023. Rodrigues relembra a presença e o desdobramento internacional da artista: “o que aconteceu a seguir é do conhecimento geral, Carolina Bianchi depois desse espetáculo ganha o Leão de Prata da Bienal de Veneza, torna-se uma artista que faz todas as cenas europeias e mundiais, é revelada por esse festival”. Sobre o novo projeto apresentado no festival, o diretor destaca a ambição dramatúrgica da artista brasileira: “ela sonhava fazer uma trilogia com três espetáculos consagrados à questão da violência, sobretudo da violência contra as mulheres”. Bianchi define esse retorno como o fechamento de um ciclo longo de investigação: “é muito, muito emocionante estar voltando para Avignon, sobretudo encerrando a trilogia, chegando em julho para estrear o último capítulo desse grande ciclo, que tomou muitos anos de trabalho, de estudos e de investigação”. Ela descreve a estrutura do projeto como algo em constante expansão, no qual “são três peças independentes, mas que são atravessadas por perguntas que vão se acumulando, que vão se borrando, que vão se confundindo, voltando, gerando novas questões”, configurando um campo de criação em que as fronteiras entre obras se tornam porosas. O novo capítulo, explica ela, desloca o foco para o próprio ato de escrever. “Uma Luz Cordial é uma peça sobretudo sobre a escrita, sobre esse lugar de onde a gente escreve”, afirma, acrescentando que se trata de um trabalho que poderia inclusive anteceder os demais, pois

    8 Min.
  4. 10. APR.

    Fios do agreste: irmãs Petuba apresentam arte da memória em exposição em Paris

    Entre tecidos, bordados e pequenas bonecas de pano, a obra das irmãs Petuba, do agreste de Alagoas, chega a Paris como um convite à travessia estética, cultural e simbólica. Em exposição no centro cultural Halle Saint-Pierre, no bairro de Montmartre, o trabalho das artistas brasileiras confronta categorias europeias como “arte bruta” e propõe um deslocamento de olhar: da racionalidade à imaginação, da padronização à singularidade, da escassez material à abundância criativa. A presença das artistas no circuito europeu nasceu de um encontro inesperado. “Toda essa exposição começa por um curador de arte bruta que visitou a nossa galeria no Rio para conhecer os trabalhos”, conta Isabela Carpena, pesquisadora e diretora da galeria carioca Nau Cultural, especializada em arte popular brasileira. O contato com o curador abriu “uma porta totalmente nova”, diz, ao colocá-los diante de conceitos “completamente diferentes dos nossos”. Foi nesse diálogo que o trabalho das irmãs Petuba chamou atenção imediata. Ainda assim, ela relativiza as classificações: “Na nossa galeria, a gente está num limite entre naïf, folk art e arte bruta, porque há várias nuances entre essas categorias”. Entre categorias europeias e identidade brasileira Se na França o enquadramento tende a passar pela arte naïf ou bruta, no Brasil a leitura é outra. “Lá a gente traz esse conceito de arte popular”, explica Felipe Pithan, que dirige a galeria junto com Carpena. “São pessoas do povo, trabalhadores, muitas vezes de locais afastados, que não passam por formação formal. É uma educação cultural transmitida dentro das comunidades.” Para ele, o trabalho das irmãs Petuba expressa algo mais profundo. “É uma arte que traz o espírito do povo mesmo.” Nos painéis, diz, estão presentes memórias das tradições artesanais do Nordeste: “Os potes de barro feitos à mão, o cordel cantado”. Mais do que representação, trata-se de um gesto de preservação. “Há uma preocupação muito grande em compartilhar e eternizar essa memória.” Essa dimensão ganha ainda mais força no contraste com o presente. “Num mundo em que tudo é acelerado e padronizado, vejo esse trabalho como um convite a valorizar outro tempo, outra forma de viver e produzir”, afirma Pithan. Do sertão à capital francesa: uma travessia estética Levar essa produção a Paris, no entanto, não é um gesto neutro para os organizadores. “Certamente é um desafio”, reconhece Felipe. “Aqui a gente vê uma cidade com cores muito similares. Quando você entra e vê esse multicolor, isso põe em xeque a própria forma como a cidade se constrói.” Ele levanta uma dúvida que atravessa a recepção da exposição: “Será que o parisiense vai entrar aqui e achar que isso é uma arte válida?” Para o pesquisador, o impacto está justamente nesse deslocamento. “A gente propõe isso como uma travessia. A pessoa tem que sair de uma margem e ir para outra.” Essa travessia também passa pela recusa de certos rótulos. “A arte delas não se vê como periferia”, afirma. “É o agreste, o Nordeste, a cultura delas no centro da imagem.” Ao fazer isso, ele acredita que o trabalho desafia “valores mais convencionais” do circuito europeu. Viagem e "apaixonamento" O encontro com as artistas foi resultado de uma longa jornada. Em 2019, pouco antes da pandemia, Isabela e Felipe percorreram mais de 8 mil quilômetros pelo Nordeste em uma Kombi, em busca de núcleos de arte popular. “As irmãs Petuba eram um sonho antigo”, lembra Isabela. “A gente conhecia o trabalho por livros.” Quando finalmente chegaram até elas, o impacto foi imediato. “Ficamos completamente apaixonados”, diz. “É um suporte totalmente singular, um trabalho autêntico, cheio de camadas e significados.” Felipe reforça que o encantamento ultrapassou a obra. “Foi um apaixonamento não só pela arte, mas pela personalidade. As três são figuras únicas. Vai demorar para nascer outras iguais.”  Técnica, memória e invenção A singularidade do trabalho começa pelo processo criativo. “Elas são muito intuitivas, não planejam”, explica Isabela Carpena. “Vão construindo a paisagem a partir do encontro com os materiais.” Os tecidos variam – seda, brim, malha – e recebem bordados que “pontilham” as imagens. Um dos elementos mais marcantes são as pequenas bonecas de pano, que criam relevo nas obras, segundo a também pesquisadora de arte popular brasileira. “Elas têm uma conexão direta com a vida das artistas, porque a mãe produzia essas bonecas e elas brincavam com elas”, diz Isabela. “Os quadros têm muitas camadas de memória.” Essa memória aparece tanto no conteúdo quanto na técnica. “A própria forma como elas inventaram essa estética já é uma composição de memórias”, afirma. Arte como resistência e imaginação Do ponto de vista técnico, Felipe Pithan descreve o trabalho como “costuras aplicadas”, feitas a partir de retalhos. Mas insiste que o essencial está em outro lugar. “A imagem é sempre aquilo que elas querem. Elas não se submetem a outros imaginários.” Esse imaginário é profundamente enraizado no território. “É o Nordeste, o agreste, esse emaranhado cultural formado por mouros, ibéricos, ciganos, povos originários e afrodiáspóricos”, explica. “O agreste é uma encruzilhada cultural.” Nesse sentido, a obra das irmãs Petuba também é política, segundo os diretores da Nau Cultural. “É um projeto que combate o apagamento dessas narrativas”, afirma Felipe. “Uma fronte contra um mundo de desencantamento.” Ao revisitar a memória pela arte, ele conclui, o trabalho transforma o documental em algo vivo: “ganha ares de ficção, é renovado pela imaginação”. "Reencantamento" Para a Nau Cultural, levar esse trabalho ao exterior também é um gesto consciente. “A gente tem uma pegada decolonial ao fazer uma exposição assim, de trazer essa arte viva brasileira”, diz Isabela. “É o que move o nosso trabalho.” Ela vê nesse movimento uma resposta histórica. “Todo esse processo colonial apagou, maltratou, tirou o poder de muitos povos. Agora é o momento de trazer esses povos de volta. Esses frutos rebrotaram – parecia que a árvore tinha morrido, mas não morreu.” No caso das irmãs Petuba, esse gesto aparece na própria obra. “O trabalho delas é um manifesto decolonial”, afirma. “A região onde vivem ficou muito mais tempo isolada da globalização. A modernidade chegou tarde, e ainda está chegando lentamente.” Isso permitiu a preservação de múltiplas matrizes culturais. “A gente consegue enxergar ali um Brasil pré-colonial, até medieval”, diz. “É um grande caldeirão cultural que o Nordeste representa, uma realidade singular, de outro tempo.” Felipe Pithan recorre a um poema para sintetizar essa perspectiva. Ele cita Nego Bispo: “Quando nós falamos tagarelando e escrevemos mal ortografado, quando nós cantamos desafinando e dançamos descompassado, quando nós estamos borrando e desenhamos enviesado, não é porque estamos errando, é porque não fomos colonizados.”

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  5. 27. MÄRZ

    Temor de retorno da extrema direita ao poder marca participação do Brasil no Cinélatino, em Toulouse

    A 38ª edição do festival Cinélatino, em Toulouse, no sudoeste da França, termina neste sábado (28) reafirmando seu papel como espaço de forte engajamento político. Para os participantes brasileiros, o evento também funciona como um canal para denunciar os riscos ao setor cultural diante da possibilidade de retorno da extrema direita ao poder. Daniella Franco, enviada especial da RFI a Toulouse Essa preocupação também pode ser vista nos filmes brasileiros que fazem parte da programação do Cinélatino. Na categoria de longa-metragem de ficção, "A Vida Secreta de Meus Três Homens", de Letícia Simões, mistura as trajetórias de personagens de sua família com recortes de determinados momentos da história recente do Brasil, como o regime militar, do qual seu pai foi um colaborador. Em entrevista à RFI, Letícia se diz assustada com a distorção das narrativas sobre o período que vieram à tona durante o governo de Jair Bolsonaro. "Eu fui um alvo muito visível, como mulher, negra e nordestina. Eu assisti à emergência de um pensamento sobre a ditadura como algo que deveria corrigir o Brasil”, diz. A cineasta aponta a mudança de comportamento em relação aos chamados "Anos de Chumbo" entre a época em que cresceu, nos anos 1990, e atualmente. “Antes as pessoas diziam: 'a gente não quer reviver isso, a gente precisa construir uma democracia'. Mas estamos em 2026 e precisamos que os filmes voltem a falar sobre isso porque ou as pessoas querem fingir que a ditadura não existiu ou efetivamente a sociedade não a abordou da forma como deveria ter sido abordada", reitera. Outro concorrente na categoria de longa-metragem de ficção no Cinélatino é "Ela foi ali guardar o coração na geladeira", que conta a história da filha de uma presa política brasileira sequestrada quando bebê, e que busca a sua familia biológica. Para Gustavo Galvão, que dirige o filme junto com Cristiane Oliveira, a manutenção da memória no Brasil requer um exercício permanente. "Quanto mais distante vai ficando um fato, mas fácil é distorcer e refazer a sua narrativa, então é um processo de vigilância mesmo. A gente espera que se fale mais, cada vez mais”, afirma. “Perguntaram pra gente aqui no Cinélatino sobre o ‘Ainda Estou Aqui’, como poderiam ter perguntado sobre 'O Agente Secreto'. Mas um filme sozinho não vai resolver nada, por mais popular que seja e que ganhe um Oscar. Tem que ser feito realmente um trabalho constante", defende. Classe artística "apavorada" O longa-metragem "O Último Azul", de Gabriel Mascaro, vencedor do Urso de Prata na Berlinale de 2025, é exibido na sessão Reprises do Cinélatino. O filme retrata um Brasil distópico e ultra-autoritário, em que idosos quando completam 77 anos são enviados pelo governo a colônias compulsórias. Em entrevista à RFI, Denise Weinberg, que interpreta Tereza, a protagonista do longa, lembra que durante a pandemia de Covid-19, o Brasil chegou perto de viver um drama similar ao exibido em “O Último Azul”, quando o governo Bolsonaro flexibilizou as regras trabalhistas para que milhões de pessoas continuassem ativas, mesmo sob risco elevado de contaminação. A atriz afirma que a classe artística está "apavorada", segundo suas palavras, com a possibilidade de retorno da extrema direita ao poder. "Apesar de Bolsonaro ter sido preso e estar no hospital, existe a família Bolsonaro que é um clã de mafiosos. Estamos em um limite perigosíssimo, porque se a extrema direita entrar, vai ser impossível, porque já está difícil. Para o teatro, por exemplo, esta muito mais difícil do que para o cinema”, avalia. Segundo ela, o clima de tensão já recomeçou a se instalar no país. “O medo é enorme de saber o que vem por aí, porque no Brasil tudo é possível. Nós fomos governados por pessoas completamente psicopatas. Eu jamais conseguiria imaginar que quando eu chegasse aos 70 anos eu iria reviver isso", completa. Era da pós-verdade A atriz e cineasta mineira Grace Passô está em Toulouse competindo com "Nosso Segredo", seu primeiro longa-metragem. No trabalho, ela conta a saga de uma família negra que tenta se reconstruir após uma perda de um de seus integrantes. Apesar da preocupação com essa pré-campanha eleitoral, ela mantém seu otimismo em relação ao futuro. “É de novo um momento muito tenso nessa era da pós-verdade que a gente vive, onde a gente não sabe que tipo de guerra narrativa vai vir, que nível de absurdo a gente vai viver. Mas acho que há um processo com o governo Lula de regeneração da ética brasileira em algum lugar”, observa. “Eu tenho uma esperança muito grande de que a maioria da população consiga perceber que existem ainda acordos éticos ligados à noção de democracia que foram restaurados e que, sem eles, estamos perdidos, muito mais do que já estivemos", reitera. Cinco curtas brasileiros também concorrem neste ano em Toulouse. Dois documentários, “Copan”, de Carine Wallauer, e “Pau d’Arco”, de Ana Aranha, são exibidos na mostra Découvertes (Descobertas). O festival Cinélatino encerra sua 38ª edição com a entrega de prêmios neste sábado (28).

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  6. 21. MÄRZ

    De fake news à ancestralidade: brasileiros são destaque em festival de fotografia parisiense

    A 16ª edição do Festival Circulation(s), dedicada à jovem fotografia europeia, acontece no CENTQUATRE-PARIS (104) Este ano, o evento destaca o trabalho de 26 artistas de 15 nacionalidades, incluindo dois fotógrafos brasileiros que trazem reflexões profundas sobre identidade e política: Rafael Roncato e Ricardo Tokugawa. Ambos trabalham entre Brasil e Europa. Patrícia Moribe, em Paris A curadora brasileira Iona Mello, que passou a integrar a direção artística do coletivo Fetart nesta edição, organizador do festival, é a responsável por apresentar os trabalhos de Tokugawa, do italiano Davide Degano e da irlandesa Ellen Blair. Ao explicar o que norteia a seleção dos artistas, Ioana ressalta que o festival busca uma fotografia emergente, priorizando nomes que ainda não possuam grandes exposições na França, além de focar na diversidade de olhares, temas e suportes. Segundo a curadora, o objetivo é "mostrar uma fotografia europeia de norte a sul e temáticas diferentes, mídias diferentes", garantindo também a paridade de gênero entre os participantes. O trabalho de Ricardo Tokugawa, intitulado “Utaki” mergulha nas raízes de sua ancestralidade como descendente de imigrantes de Okinawa no Brasil. O artista utiliza a fotografia para questionar sua própria identidade em um cruzamento de culturas que nem sempre lhe oferece um lugar de pertencimento absoluto. "Por mais que o Brasil hoje em dia seja a maior comunidade japonesa fora do Japão, lá eu não sou visto como brasileiro. No Japão eu não sou visto como japonês. Então eu venho da onde? Quem sou eu?", indaga Tokugawa ao descrever as motivações de seu projeto, que utiliza imagens construídas para interrogar o que é tradição e o que é invenção. Política da desinformação A presença brasileira se estende ao projeto de Rafael Roncato, “Tropical Trauma Misery Tour”, que contou com a curadoria de Emmanuelle Halkin. Ela descobriu o trabalho de Roncato durante o festival Foto em Pauta, em Tiradentes (MG), e percebeu como a análise do artista sobre a ascensão da extrema direita no Brasil ressoava com o cenário político francês e europeu. Ela destaca que as imagens de Roncato, marcadas por uma estética "pop" e abertamente pós-produzidas, dialogam perfeitamente com a era da pós-verdade, criando uma "cenografia alternativa e singular" que é marca registrada do Circulation(s). Roncato define sua obra como uma instalação que disseca a propaganda digital e o caos das informações manipuladas. O artista explica que o atentado sofrido por Jair Bolsonaro em 2018 serviu como um "trampolim midiático" para a criação de um mito fundamentado em notícias falsas e polarização. Para evitar a propagação direta da imagem do político, Roncato utilizou um ator holandês para performar gestos e roupas que remetem a figuras populistas globais. Ele destaca a ideia da ilusão e das informações falsas.  “Parece que é, mas não é. E é isso", afirma o fotógrafo, que também é jornalista e busca, através do humor e do riso nervoso, uma forma de superar e refletir sobre temas sociais complexos. Além dos brasileiros, o festival dedica um foco especial à  Irlanda, apresentando séries de quatro artistas — Ellen Blair, Clodagh O’Leary, Dónal Talbot e Ruby Wallis — que exploram desde a alegria queer até memórias políticas de territórios em conflito. Outros destaques da edição incluem Marcel Top, que investiga a resistência contra algoritmos de vigilância, e Alžběta Drcmánková, que transforma imagens digitais em bordados táteis para meditar sobre a fragmentação da memória. Vitrine plural para a criação contemporânea, o festival acontece entre 21 de março e 17 de maio de 2026.

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  7. 19. MÄRZ

    Paris recebe grande exposição sobre Brasília com acervo que retraça a construção da capital

    A história da capital do Brasil, de sua idealização até sua concretização, é o tema da exposição Brasília: da Utopia à Capital, em cartaz no Palácio de Iéna, em Paris, até dia 21 de março. O objetivo da mostra é evidenciar a relevância geopolítica, histórica, social e cultural da cidade. Um projeto iniciado em 2010, que já passou por mais de 16 países, reunindo arquitetura e arte. “A gente trouxe uma coleção com mais de 300 obras sobre a história de Brasília. Então, a gente fala desde 1750 até os dias atuais”, explica a curadora Danielle Athayde. “É um relato histórico dessa saga que foi a construção da cidade nesse período”, diz. Toda a história de Brasília é retraçada, desde 1750, quando o Marquês de Pombal sugere ao príncipe-regente, em Portugal, mudar a capital da costa para o interior do Brasil, até a decisão do presidente Juscelino Kubitschek, que, em 1955, transformou a utopia em realidade. Além de croquis de Oscar Niemeyer, o acervo conta com documentos importantes, como o memorial descritivo do Plano Piloto, projeto de Lúcio Costa. “O Lúcio Costa participa do concurso de criação da cidade e escreve esse projeto, que foi selecionado. É um projeto simples, mas muito original e que dá origem ao Plano Piloto”, explica a curadora. Também estão expostas fotos históricas de Marcel Gautherot e Peter Scheier, fotógrafos que documentaram a construção da capital e cujos trabalhos mostram a utilização do concreto e do ferro nas cúpulas do Congresso Nacional, materiais pouco usados nas construções brasileiras da época. Cartas trocadas entre Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e Le Corbusier mostram o entusiasmo do arquiteto franco-suíço, que afirma que os projetos do Palácio da Alvorada e da Catedral contêm algumas das formas mais ousadas da arquitetura. Le Corbusier também afirma que Brasília é a cidade “mais arrojada que o Ocidente já criou”. Passeio histórico A exposição faz um passeio histórico pelas obras dos escultores Bruno Giorgi, Alfredo Ceschiatti, Maria Martins e da artista francesa Marianne Peretti, autora dos vitrais da Catedral de Brasília. Também traz materiais do paisagista Roberto Burle Marx e do pintor, escultor e desenhista Athos Bulcão. Além de documentos arquitetônicos, a mostra conta com obras da Coleção Brasília do Acervo Izolete e Domício Pereira, que reúne grandes artistas modernistas de Brasília, entre eles os contemporâneos Alex Flemming, Carlos Bracher, Naura Timm — com as esculturas Mandrágoras do Cerrado — e João Facó. A Brasília de hoje é representada em uma grande maquete com imagens aéreas da capital, que mostram o desenvolvimento da cidade e de seu entorno nos últimos 65 anos. Danielle Athayde ressalta que “são três toneladas de acervo” que mostram ao visitante uma cidade menos conhecida que Rio de Janeiro e São Paulo, mas que tem muito a oferecer. “A importância dessa exposição é justamente mostrar que a capital do Brasil respira arte e cultura e que a gente está preparado para receber turistas para conhecerem o que temos de melhor, que é a nossa arquitetura, esse projeto tão maravilhoso que foi a construção de uma capital única no mundo”, salienta. “O público fica muito emocionado quando vem conhecer a nossa história, então é isso que dá vida ao projeto.” Local emblemático A exposição acontece no Palácio de Iéna, sede do Conselho Econômico, Social e Ambiental da França e um lugar emblemático. O arquiteto do edifício, Auguste Perret, foi um dos primeiros a compreender a linguagem arquitetônica do concreto armado, influenciando gerações de arquitetos, entre eles Oscar Niemeyer. Esta relação entre França e Brasil também está fortemente presente na exposição, por meio dos artistas expostos. “Lúcio Costa, por exemplo, nasceu em Toulon”, revela Danielle Athayde. “Marianne Peretti é francesa. Maria Martins teve uma relação de amizade muito forte com o (Marcel) Duchamp. Então, não existem coincidências, as coisas vão se ligando. E o público francês é muito aberto à arte, então essa exposição causa bastante impacto e presença também”, diz, salientando que, no primeiro dia, a exposição recebeu 600 visitantes. Brasília: Da Utopia à Capital também inclui a conferência Arquiteturas Utópicas, Auguste Perret e Oscar Niemeyer, que pode ser vista na página do YouTube Brasília Museu Aberto, e a mostra de cinema Brasília Viva, com os filmes Vik Muniz – A Arte no Caos, de Jimi Figueiredo, e JK – O Futuro Chamado ao Presente, de Fábio Chateaubriand, que acontece na Maison du Brésil nos dias 19 e 20 de março às 19h. A entrada para os eventos é gratuita.

    8 Min.
  8. 19. MÄRZ

    Retrospectiva em Paris revisita cinco décadas de imagens de Nan Goldin entre arte, política e memória

    This Will Not End Well, em cartaz no Grand Palais e na Capela Saint-Louis da Salpêtrière, oferece uma visão inédita em Paris da obra de Nan Goldin, norte-americana que acaba de completar 70 anos como estrela inconteste da fotografia mundial. Goldin descreve seu trabalho no material da mostra e dá o tom da curadoria que recupera cinco décadas de um trabalho intenso, cru e cheio de empatia : “Sempre quis ser cineasta. Meus slideshows são filmes compostos de fotos”.   Márcia Bechara, da RFI em Paris A mostra, aberta a partir de quarta-feira (18) para o público na capital francesa, ocupa o Salão de Honra do Grand Palais e a Capela Saint-Louis da Salpêtrière, onde está sendo apresentada a instalação Sisters, Saints and Sibyls, concebida em 2004 para o Festival de Outono de Paris. Apesar de não ter podido estar presente na coletiva de imprensa em 17 de março por problemas de saúde, a presença da artista é sentida em cada detalhe da mostra. A seu pedido, Goldin foi substituída, durante a coletiva em Paris, por uma longa e pungente mensagem gravada por ela e um vídeo de apoio aos palestinos e à Faixa de Gaza, projetado nas paredes do Grand Palais. O curador sueco Fredrik Liew, responsável pela retrospectiva e diretor de exposições e coleções do Moderna Museet, em Estocolmo, acredita se tratar de “um grande erro quando se pensa nessa mensagem política como algo separado do resto da exposição". "Pelo que entendo da prática de Nan, o que me engaja é a dedicação dela às outras pessoas, à empatia e a como vivemos juntos. O que está acontecendo no mundo — populismo, terror, guerra — são consequências da falta de empatia. Nan propõe, com seu trabalho, mostrar o ser humano, estar junto e se esforçar para construir um mundo melhor”, observou à RFI. Gaza, AIDS e a convergência de lutas Ao longo das últimas décadas, a fotógrafa Nan Goldin tem criado imagens marcantes que exploram a poética do pessoal. Mais do que qualquer outro artista de sua estatura, Goldin tem usado seu sucesso para denunciar a ganância dos poderosos, desde a resposta lenta do governo norte-americano à crise da AIDS, que matou tantos de seus amigos na década de 1980, até o lucro da indústria farmacêutica e a epidemia de overdoses que ela desencadeou. Neta de judeus asquenazes da Polônia, ela passou os últimos anos, em suas próprias palavras, "consumida" pela destruição de Gaza e de seu povo. No início de 2026, ela e seu editor, David Sherman, começaram a costurar vídeos da Palestina – cenas de normalidade e de atrocidade, ambas – para produzir Gaza, um mosaico de dor e beleza, com imagens de antes e depois da guerra, vídeo apresentado também durante a coletiva de imprensa de lançamento de sua retrospectiva em Paris: Nan Goldin é reconhecida como uma artista maior que transita entre os séculos 20 e 21 revolucionando a fotografia contemporânea e a cultura visual. Com um título que encampa a ironia e a agudeza de seu olhar sobre o mundo, a retrospectiva This Will Not End Well (Isso Não Vai Acabar Bem, em tradução livre), no Grand Palais, é a primeira exposição na França a oferecer uma visão completa do trabalho da artista como cineasta, por meio de slideshows e vídeos.  Viagem sensorial Cada pavilhão da exposição parisiense parece pensado para contar uma história própria, transformando o percurso em um passeio sensorial pela obra de Nan Goldin. Sobre a montagem no Grand Palais, Hala Wardé, arquiteta e cenógrafa que colabora com a artista há anos, observou que “esse grande espaço parisiense acabou de ser reformado e recuperou uma luz que tinha perdido. Era importante voltar a este espaço e brincar com essa luz, mesmo que tenhamos decidido filtrá-la para manter um jogo de sombras e claridade. Aqui, no Salão de Honra — um lugar muito alto e imponente — optamos por torná-la menos densa. São cinco salas, em vez de seis como nos outros museus. A singularidade desta apresentação parisiense está na instalação de Sisters, Saints and Sibyls: ela é diferente, mas fiel à original.” Para Wardé, a luz é mais que um detalhe, “ela é o elemento que mais muda de cidade para cidade". "A luz de Paris não é a mesma de Estocolmo nem a de Milão. Decidimos torná-la menos intensa, ajustando a experiência ao espaço e à narrativa da exposição”, especificou. Sobre a disposição da obra na Capela Saint-Louis da Salpêtrière, a arquiteta detalhou que preferiu "respeitar a instalação exatamente como foi concebida para este lugar". "Inclusive, me inspirei nela para criar uma sala específica, com planta octogonal. Mantivemos toda a estrutura. Há um mezanino suspenso que provoca vertigem. A obra evoca o suicídio de sua irmã Barbara, em relação à história de Santa Bárbara. É muito intensa, e a forma como foi montada está perfeitamente adaptada a esta apresentação.” Uma narrativa viva e política Mais do que uma retrospectiva de fotografias, a mostra propõe redescobrir a obra como experiência audiovisual. O curador sueco Fredrik Liew explica: “Talvez as pessoas esperem fotografias em molduras, mas não há obras impressas. Meu convite à artista foi mostrar toda a sua prática, suas milhares de imagens, no formato de slideshows que ela produziu ao longo da carreira. Selecionamos seis para esta exposição. Essa é a curadoria dela de suas imagens, narrativas da sua obra de vida. Ela organiza todas as imagens que produz em diferentes histórias, contadas por meio desses slides e seus trabalhos em vídeo.” Ele também comentou à RFI a maneira como a artista revisita constantemente suas obras. “Ela nunca parou de trabalhar, sempre refaz. Não existe apenas uma maneira de mostrar suas obras, mas muitas, e isso se desenvolve. The Ballad of Sexual Dependency, por exemplo, quando começou a ser exibida no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, sempre era diferente, e continua diferente a cada apresentação. Ela sempre acrescentava imagens e apresentava tudo de maneira diferente, inspirada pelos contextos dos lugares. Ela sempre vê o trabalho a partir do presente: ‘Este é meu trabalho e é assim que o vejo hoje’. Estamos apresentando Nan como cineasta e contadora de histórias. Não estamos retirando nada de sua fotografia, mas acrescentando essa dimensão”, diz. A particularidade da montagem parisiense está na reinstalação de Sisters, Saints and Sibyls, originalmente criada para a Salpêtrière. Liew observa: “O que é realmente único em Paris é poder revisitar a Salpêtrière para a instalação de Sisters, Saints and Sibyls. A obra foi criada para o Festival de Outono em 2004 e estreou nesse local. Somos muito gratos por poder reinstalá-la agora, 20 anos depois, e mostrar a um público maior, além de apresentar todo o contexto de seu trabalho na forma desta exposição no Grand Palais.” Som, emoção e diaporamas O som é parte central da narrativa de Goldin. Barbara Kroher, curadora associada em Paris, explica que "a construção narrativa de Nan é muito sutil, quase epidérmica, incluindo a trilha sonora, que tem papel central.As escolhas musicais são ecléticas: Chopin, Schubert, Velvet Underground, Maria Callas, Edmundo Rivero. O som não pode ser separado da imagem; ele guia a narrativa. Em The Ballad of Sexual Dependency, há um subtexto sonoro. Em Sisters, Saints and Sibyls, na Capela da Salpêtrière, ouvimos coros medievais e a voz de Nan, ampliando a dor que permeia a obra. Em Memory Lost, há gravações de secretárias eletrônicas dos anos 1980, acrescentando significado às imagens. O diaporama é uma forma híbrida, entre fotografia e cinema.” A exposição inclui trabalhos que exploram traumas familiares, suicídio, dependência química e relações de gênero. Wardé ressalta: “Cada sala, cada luz, cada detalhe foi pensado para que o visitante se sinta atravessando uma experiência íntima e sensorial. A obra fala de dor, mas também de empatia, de estar junto com o outro.” Contexto histórico e social Goldin é conhecida por abordar questões sociais como gênero, saúde mental e crises de dependência. Em Memory Lost, ela explora os aspectos mais sombrios da dependência química. Em 2017, fundou o grupo P.A.I.N. (Prescription Addiction Intervention Now), atuando contra a família Sackler, considerada responsável pela epidemia de overdoses de opioides, pressionando instituições a removerem o nome dos doadores de seus espaços. O trabalho da artista também documenta a vida boêmia e alternativa de Nova York entre os anos 1970 e 1990, retratando amizades, festas e relacionamentos. Em material oficial, a exposição apresenta obras icônicas como The Ballad of Sexual Dependency (1981-2022), The Other Side (1992-2021), Sisters, Saints and Sibyls (2004-2022), Memory Lost (2019-2021), Sirens (2019-2020) e Stendhal Syndrome (2024). Paris como memória e cena artística A capital francesa mantém um vínculo duradouro com a artista. Kroher contextualiza: “Nan viajou pela Europa desde jovem, morou em Paris, fotografou amigos e apresentou trabalhos aqui. Alguns amigos aparecem em suas obras, como Valérie em Standard Syndrome e Kim Harlow, ícone transgênero dos cabarés parisienses nos anos 1980. Ela tem um vínculo duradouro com a cidade e a exposição reflete isso.” A curadora francesa observa ainda o impacto do olhar de Goldin: “São histórias sobre emoções e relações humanas em toda a sua diversidade e complexidade. A empatia é constante em seu trabalho. A exposição nos mostra que a arte pode criar um senso de comunidade.” Um vilarejo de slideshows Os pavilhões formam um conjunto que funciona como um “vilarejo”, em que cada espaço é adaptado à obra que apresenta. “Cada sala, luz e arquitetura dialogam com os slideshows, reforçando a intimidade e a narrativa política da obra, conduzindo o visitante por trajetórias de memóri

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Reportagens sobre exposições, concertos e espetáculos na França. Destaque para os artistas brasileiros e suas criações apresentadas na Europa. Na literatura, lançamentos e as principais feiras de livros do mundo.

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