Eixo do Mal

A atualidade política, social e cultural do país e um ou outro assunto sério. Com Aurélio Gomes, Clara Ferreira Alves, Daniel Oliveira, Luís Pedro Nunes e Pedro Marques Lopes

  1. -6 h ·  Bonus

    Sugestão de Verão: Daniel Oliveira com Tibunga, de regresso à cidade invisível, no Zambujal [novembro de 2024]

    Reedição do arquivo de podcasts do Expresso. Episódio publicado originalmente a novembro de 2024, do “Perguntar Não Ofende”, podcast de Daniel Oliveira. Veja aqui a reportagem fotográfica No dia do funeral de Odair Moniz, uma jornalista de uma televisão fez um direto, do bairro do Zambujal, dizendo que a paz quotidiana tinha regressado. No entanto, para que os telespetadores reconhecessem de onde falava, escolheu, como cenário, uma paragem de autocarro destruída. Se as palavras eram sobre um bairro que levava um dos seus a enterrar, a imagem era sobre os tumultos. Foi assim durante 15 dias: nós, os da cidade da lei, a olhar assustados, irados ou compreensivos, para eles, os da cidade invisível, para roubar uma expressão de um programa de rádio de António Brito Guterres. A polémica que veio depois, com um autarca socialista a defender regras inconstitucionais para os bairros sociais, resume ainda melhor o sentimento: a maioria da população acredita que a lei não serve para a vida destas pessoas. Que elas não as cumprem, que o Estado não tem de as cumprir. Que têm de ser mantidos na ordem, nada mais. Alguns discursos mais cuidadosos ou até bem-intencionados preferiram distinguir, no Bairro do Zambujal e em todos onde houve tumultos resultantes de mais uma morte às mãos da polícia, uma minoria criminosa de uma maioria ordeira e trabalhadora. A realidade é capaz de ser mais complicada quando se cresce com falta de quase tudo. Não que a escola e a casa não existam. Falta o que permite romper com o ciclo de exclusão que este território determina. A exclusão ficou evidente no próprio debate, feito sobre o bairro, mas exclusivamente fora do bairro. Apesar de haver associação de moradores e outras organizações de autorrepresentação, as pessoas que vivem nestes bairros são excluídas do debate público. Elas são o problema, não agentes das suas vidas. Nas palavras de Ventura, a “bandidagem”, nas dos seus opositores, as “vítimas”. Mas nunca sujeitos da sua própria vontade. Não serve isto para desmerecer quem fala, porque deve falar, da exclusão dos outros. Apenas para sublinhar como a invisibilidade faz parte das regras do jogo. Os moradores dos bairros sociais são vistos ou como um problema de segurança, ou como um problema social, nunca como um problema democrático, na medida em que têm sido excluídos do direito à cidade e à palavra. Com os meios que tenho, tentarei fazer o que acho faltar: dar alguma palavra ao Bairro do Zambujal. O modelo será semelhante ao que usei com o António Brito Guterres, na antiga Curraleira. O António estará, aliás, connosco nesta viagem a mais um bocado da cidade invisível. Mas o guia principal não será, desta vez, ele. Será Cláudio Gonçalves, que também usa o nome de Tibunga. Nasceu no Bairro da Cova da Moura, cresceu fora daqui e faz parte da Associação de Moradores do Zambujal. Tem 29 anos, é modelo internacional e as oportunidades que agarrou não resultaram das saídas que o bairro tinha para lhe oferecer. Nas duas próximas horas, estaremos no bairro. Não para filmar tumultos, mas para ouvir os cidadãos que aqui vivem. Bem-vindos ao Zambujal, de que só voltarão a ouvir falar nas televisões quando acontecer outra tragédia.   See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Sugestão de Verão: Daniel Oliveira com Tibunga, de regresso à cidade invisível, no Zambujal [novembro de 2024]
  2. 14 août ·  Bonus

    Sugestão de Verão: Daniel Oliveira conversa com Ricardo Dias Felner. E se a cozinha portuguesa não for assim tão boa? [dezembro de 2024]

    Reedição do arquivo de podcasts do Expresso. Episódio publicado originalmente em dezembro de 2024, do “Perguntar Não Ofende”. podcast de Daniel Oliveira. Os portugueses até podem suportar que se diga que os seus descobrimentos foram, em grande parte, uma história de crimes que deixou como grande legado a maior transferência populacional forçada intercontinental. Até podem suportar que insultem Vasco da Gama ou Cristiano Ronaldo. Haverá sempre alguns, mesmo que sejam uma minoria, que acompanharão estas críticas. O que os portugueses não aceitam, e aqui o consenso aproxima-se da unanimidade, é que ponham em causa a sua gastronomia. Em julho de 2015, houve quem dissesse pior do que isso. Alguém se atreveu a escrever que a nossa cozinha era mesmo a pior do mundo. O conhecido crítico britânico de restaurantes Giles Coren escrevia, no “The Times”, a maior ofensa que um português pode ouvir. A reação dos leitores portugueses foi semelhante a um tsunami de ódio, deixando insultos e até ameaças de morte.  No Twitter, Coren até perguntou se havia algum dispositivo para silenciar, naquela rede, um país inteiro, tal a dimensão viral da indignação. Cinco anos depois, quando o jornalista Ricardo Dias Felner escreveu, aqui no Expresso, um texto com um título provocatório: “E se a cozinha portuguesa não foi a campeã do mundo?”. De forma racional, desapaixonada e rigorosa, ajudava a desmontar alguns mitos sobre o que comemos. E, acima de tudo, sobre o que os estrangeiros acham do que comemos. Sim, é verdade, não adoram. A maioria acha a nossa gastronomia apenas moderada ou razoável. Poucos veem a Portugal por causa dela. Muito acham pouco variada, sensaborona, pouco atrativa. Ela está ausente de quase todos os rankings internacionais. Porque a vendemos mal. E provavelmente vendemo-la mal porque, com a boca cheia de orgulho, achamos que se chega a si mesma.  See omnystudio.com/listener for privacy information.

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  3. 7 août ·  Bonus

    Sugestão de Verão: Daniel Oliveira conversa com Sara Rocha, da Voz do Autista. O que é ser autista? [junho de 2023]

    Reedição do arquivo de podcasts do Expresso. Episódio publicado originalmente em junho de 2023, do “Perguntar Não Ofende”, podcast de Daniel Oliveira. As ideias feitas que temos do autismo vêm, quase todas, dos filmes de Hollywood, que refletem e perpetuam simplificações, estabelecendo uma associação automática do autismo com comportamentos violentos de pessoas presas nelas próprias, agarradas aos mesmos gestos mecanicamente repetidos até à exaustão e incapazes de cultivar relações humanas ou viver autonomamente. Uma imagem que afasta as pessoas, legitimando comportamentos violentos contra as pessoas com transtorno do espectro do autismo. O desconhecimento e as ideias formadas sobre o tema agravam os problemas de integração nas escolas e no mercado de trabalho, onde o estigma criado associa o desempenho cerebral das pessoas com autismo a trabalhos ligados às tecnologias de informação. Sara Rocha é licenciada em Análises Clínicas e Saúde Pública, e mestre em Gestão e Economia dos Serviços de Saúde. Vive no Reino Unido, onde trabalha como gestora de dados em investigação médica, na área cardiovascular, para a Universidade de Cambridge. Preside à Associação Portuguesa a Voz do Autista, uma organização composta exclusivamente por pessoas com autismo, numa autorrepresentação de quem se sente excluído do discurso público sobre a realidade que vivem quotidianamente. Com ela, tentamos perceber um pouco mais sobre a forma como vive uma pessoa com autismo. Que dificuldades sente, que apoios tem, como é que escolas, empresas e sociedade respondem à diferença quando a têm ao seu lado. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Sugestão de Verão: Daniel Oliveira conversa com Sara Rocha, da Voz do Autista. O que é ser autista? [junho de 2023]

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