Linha Direta

Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

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    Estados Unidos comemoram 250 anos de Independência com programação fragmentada por polêmicas

    Neste sábado (4), os Estados Unidos comemoram os 250 anos da independência do país. A data será marcada por uma série de eventos em todo o território americano, com desfiles, shows, cerimônias cívicas e as tradicionais queimas de fogos.  Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York O aniversário histórico também acontece em meio a um cenário de forte polarização política, com críticas de opositores ao presidente Donald Trump sobre a forma como as celebrações estão sendo conduzidas.  As comemorações oficiais terão dois eventos principais, com perfis bastante diferentes. Em Washington, Donald Trump participa de uma grande celebração no National Mall, que ele próprio tem promovido como um grande ato patriótico.  Já em Los Angeles, uma programação organizada por outro comitê reúne artistas como Queen Latifah, Chris Stapleton, Chaka Khan e a banda Smashing Pumpkins, em um evento com foco na diversidade cultural e na música. A existência de duas celebrações nacionais, organizadas por grupos diferentes e com pouca coordenação entre si, acabou chamando atenção porque reflete a polarização vivida nos Estados Unidos. Planos iniciais previam uma programação unificada, com desfiles, festivais culturais e apresentações em várias partes do país, mas o formato acabou sendo alterado ao longo dos últimos meses. O cenário é bem diferente do imaginado anos atrás, quando o Congresso começou a planejar as comemorações dos 250 anos da Independência. Os planos originais da comissão America250 para o 4 de Julho em Washington davam muito menos protagonismo ao presidente.  A proposta previa um grande desfile pelas ruas da capital com carros alegóricos representando diferentes comunidades, bandas marciais, um festival cultural organizado pelo Smithsonian Institute no National Mall e diversos shows realizados em várias regiões do país para celebrar a diversidade cultural americana.  Queima de fogos de 40 minutos iluminarão a capital americana Como acontece todos os anos, o céu dos Estados Unidos será tomado por espetáculos de fogos de artifício no Dia da Independência.  Em Washington, o tradicional show realizado pelo Serviço Nacional de Parques (National Park Service) terá, neste ano, uma dimensão inédita. O espetáculo deve durar cerca de 40 minutos – mais que o dobro do tempo de uma queima tradicional  – e utilizar mais de 860 mil fogos de artifício.  Segundo o jornal USA Today, a única orientação dada à empresa Pyrotecnico, responsável pelo espetáculo, foi tentar superar o recorde mundial estabelecido nas Filipinas, em 2016, para a maior exibição de fogos de artifício da história. Em Nova York, o tradicional espetáculo de fogos da Macy's completa 50 anos e será realizado com lançamentos a partir da Ponte do Brooklyn, do East River e do Rio Hudson. A cidade disponibilizou 100 mil ingressos por meio de uma loteria pública para quem quiser assistir à apresentação em áreas reservadas. Bola de cristal na Times Square Outra novidade será na Times Square. Pela primeira vez, a famosa bola de cristal não será baixada apenas uma vez, como ocorre no Réveillon, mas oito vezes ao longo de quase 24 horas, representando cada um dos fusos horários dos Estados Unidos e de seus territórios. A primeira descida acontece às 10h deste dia 3 de julho, marcando a meia-noite em Guam e nas Ilhas Marianas do Norte. A última será às 7h do dia 5 de julho, em referência à Samoa Americana. Nova York também receberá um desfile de grandes veleiros históricos e embarcações militares que navegarão pelo porto da cidade, passando pela Estátua da Liberdade, como aconteceu durante a celebração do bicentenário, em 1976.  Na Filadélfia, considerada o berço da independência americana, será enterrada uma cápsula do tempo com contribuições dos 50 estados americanos. Ela permanecerá lacrada por 250 anos e só será aberta em 2276. Além disso, outras dezenas de cidades americanas, como Milwaukee, em Wisconsin, organizaram festas de rua, desfiles e eventos comunitários para celebrar o marco histórico. Polêmicas envolvendo a organização  A organização da celebração ficou marcada por uma série de polêmicas. A principal envolve a politização da festa: a programação da Great American State Fair, em Washington, previa uma série de shows, mas artistas como Martina McBride, The Commodores, Young MC e Bret Michaels desistiram de participar após descobrirem a ligação do evento com a Freedom 250, organização criada por Donald Trump para comandar parte das celebrações. Depois das desistências, Trump cancelou os shows e anunciou que faria o que chamou de "o maior comício da história". Outra iniciativa que gerou repercussão foi a realização de um evento do UFC (Ultimate Fighting Championship) nos jardins da Casa Branca como parte das comemorações dos 250 anos  –  e do aniversário do presidente Donald Trump  – no último dia 14 de junho.  Além disso, houve críticas à reforma de cerca de US$ 14,7 milhões (aproximadamente R$ 81 milhões) promovida por Trump no espelho d'água do Memorial Lincoln, um dos principais cartões-postais de Washington. A obra incluiu a pintura do fundo do lago na cor "azul da bandeira americana", mas poucos dias após a conclusão dos trabalhos, a tinta começou a descascar e o espelho d'água precisou ser esvaziado novamente por causa da proliferação de algas.  O presidente atribuiu os problemas a atos de vandalismo e afirmou que o local foi alvo de sabotagem, embora não tenha apresentado provas que sustentem essa versão.

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    Acordo entre Líbano e Israel cria expectativas, mas implementação ainda é incerta

    Após o acordo firmado entre Líbano e Israel para tentar encerrar anos de tensão na fronteira, ainda há dúvidas sobre como os principais compromissos assumidos pelas partes serão implementados na prática. Questões centrais, como a retirada das tropas israelenses do sul do Líbano e o desarmamento do Hezbollah, continuam cercadas de incertezas.  Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel Há um marco histórico importante neste acordo, na medida em que os dois países declaram que reconhecem o direito mútuo de viver em paz e segurança. Israel e Líbano não mantêm relações diplomáticas, mas este pode ser um passo inicial nesse sentido.   O fato é que as negociações mediadas pelos Estados Unidos têm como foco resolver as questões mais urgentes, principalmente a ocupação israelense no sul do Líbano e também a demanda de segurança por parte de Israel, em especial do norte do território.  Israel mantém uma presença militar no Líbano desde 2024, quando passou a ocupar cinco pontos no sul do país. Mas, após o início da guerra contra o Irã e os ataques do Hezbollah, ampliou sua presença militar no sul do Líbano. A ofensiva destruiu boa parte dos vilarejos, provocou o deslocamento interno de mais de um milhão de libaneses e resultou na criação de uma faixa de segurança que avança entre cinco e dez quilômetros pelo território. Sobre esse ponto, há duas narrativas distintas. Segundo o Hezbollah, os ataques com foguetes e drones iniciados em março deste ano são uma resposta às violações israelenses do acordo de cessar-fogo firmado em 2024. Já Israel afirma que o Hezbollah intensificou os ataques em apoio ao Irã. Na avaliação israelense, a ofensiva está ligada à guerra iniciada no fim de fevereiro por Israel e Estados Unidos, que, em um primeiro momento, tinha como objetivo provocar a queda do regime iraniano. Como o Hezbollah é um “proxy” do Irã, um grupo aliado a Teerã, a ação do Hezbollah é considerada um ato de vingança pelos ataques contra o regime de Teerã. Inclusive, internamente no Líbano, há o debate sobre até que ponto o Hezbollah tem interesse real na defesa da soberania libanesa ou se age para favorecer seu “patrão” iraniano. Dúvidas sobre a retirada israelense Israel afirma que irá permanecer no Líbano até que o Hezbollah seja desarmado. Trata-se de um processo complexo, que requer muito mais do que boa vontade entre as partes. O Hezbollah não aceita abrir mão de suas armas. Ao mesmo tempo, o Irã afirma que o Memorando de Entendimento assinado com os Estados Unidos determina o fim das hostilidades em todas as frentes, inclusive no Líbano. Para Israel, porém, o Hezbollah continua representando uma ameaça permanente às comunidades do norte do país, o que justifica a manutenção de tropas israelenses em território libanês. O acordo assinado entre Líbano e Israel prevê o estabelecimento de zonas-piloto em vilarejos atualmente ocupados pelas tropas israelenses. Dessas áreas, os soldados deverão se retirar para dar lugar ao Exército regular libanês, que passará a ter a missão de conter e desarmar o Hezbollah. Como o acordo deverá funcionar Segundo a TV pública israelense, haverá um fórum conjunto entre militares israelenses e libaneses para estabelecer os passos de forma a que este plano saia do papel.  Os Estados Unidos deverão aprovar os nomes dos envolvidos, em especial do lado libanês, porque temem que as informações sejam encaminhadas ao Hezbollah.  Em Israel, há a expectativa de que este mecanismo permita uma coordenação em maior nível com os libaneses.  No entanto, ainda de acordo com a TV pública israelense, a avaliação de fontes do exército é que o processo de retirada das tropas vai levar mais tempo do que se imaginava inicialmente porque as autoridades do país ainda aguardam esclarecimentos de Washington sobre como os norte-americanos vão se envolver neste mecanismo.  A visão israelense sobre as negociações entre Irã e Estados Unidos Segundo informações obtidas pela RFI, o temor das autoridades israelenses é de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, seja arrastado pelos iranianos para negociações intermináveis e improdutivas. Uma das técnicas seria a burocratização do processo, com debates, avanços e recuos sobre os termos do Memorando de Entendimento assinado entre EUA e Irã em 17 de junho.  Os serviços de inteligência de Israel não acreditam que o Irã esteja realmente interessado em chegar a um acordo final com os EUA. Ou seja, um acordo ao final do prazo de 60 dias de negociações inicialmente estabelecido pelo Memorando de Entendimento.  Na visão israelense, o objetivo do regime iraniano seria o de liberar os ativos financeiros congelados pelas sanções norte-americanas – ou parte desses ativos –, impedir a continuidade da guerra aberta com os EUA e Israel, cujo cessar-fogo foi declarado em 7 de abril, garantir a consolidação do Estreito de Ormuz como ativo do Irã e salvar o Hezbollah, no Líbano.

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    Irlanda assume presidência da UE e tenta avançar em orçamento e relações com EUA

    A Irlanda assume nesta quarta-feira, 1º de julho, a presidência rotativa do Conselho da União Europeia por seis meses. As prioridades do programa anunciado pelo Taoiseach (primeiro-ministro), Micheál Martin, no Castelo de Dublin, estão centradas em três pilares: competitividade, valores e segurança. Entre os principais desafios estão a negociação do próximo orçamento do bloco até o fim do ano e a tentativa de estabilizar as relações com os Estados Unidos. Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa Sob o mote “a força está na união”, a Irlanda assume o comando do bloco europeu em um momento crítico, marcado por desafios geopolíticos e econômicos intensos. Já neste primeiro dia da presidência irlandesa, Bruxelas dobra a tarifa de importação do aço para 50%, para proteger a indústria siderúrgica europeia. Na terça-feira (30), na Cúpula do Mercosul realizada no Paraguai, o anfitrião da reunião criticou as “assimetrias” do acordo de livre comércio com a União Europeia. A distribuição de cotas de exportação com preferências tarifárias no bloco regional para os produtos destinados à UE é um peso sobre os ombros do Mercosul, que precisa decidir como repartir esse volume entre seus países integrantes. Nesse cenário de tensões comerciais e negociações delicadas com parceiros estratégicos, a Irlanda está comprometida a “entregar” uma presidência bem-sucedida, e a previsão de gastos é bastante elevada, em torno de €300 milhões. Quase metade desse orçamento deve ser destinada a protocolos de segurança, já que o país é neutro e precisa reforçar sua capacidade para receber uma série de visitas de alto nível. Em novembro, por exemplo, líderes de 47 países devem participar de uma reunião da Comunidade Política Europeia em território irlandês. Desafios As negociações sobre o próximo Quadro Financeiro Plurianual, ou seja, o orçamento do bloco para o período de 2028 a 2034, são um dos grandes desafios desta que é a oitava vez em que a Irlanda assume a presidência rotativa da UE. Dublin terá que intermediar negociações ferozes que opõem os países que menos gastam aos maiores contribuintes comunitários. Os irlandeses deverão preparar uma “caixa de negociação” a ser discutida pelos líderes do bloco em outubro, com o objetivo de alcançar um acordo global até dezembro. A proposta orçamentária da Comissão Europeia, estimada em quase €2 trilhões, orienta os principais investimentos do bloco – da agricultura à defesa – para os próximos sete anos. Outro dossiê sensível será o possível alargamento da União Europeia. Montenegro é o país com mais chances de aderir ao seleto grupo de Bruxelas, enquanto Albânia, Moldávia e Ucrânia também devem registrar progressos nas negociações. No que se refere à guerra na Ucrânia, a Irlanda deve manter o apoio à Kiev e pode anunciar o 21º pacote de sanções contra a Rússia. Mediação Dublin deve tentar usar a tradicional ligação com os EUA para restabelecer as relações entre Washington e Bruxelas, estremecidas pela administração Trump. “Existe uma boa vontade em relação à Irlanda nos Estados Unidos; por isso, talvez possamos maximizar os nossos canais com a Casa Branca”, afirmou a embaixadora da Irlanda junto à UE, Aingeal O’Donoghue. Os irlandeses querem mais estabilidade na relação transatlântica, “mais progressos” nas trocas comerciais e soluções para questões relacionadas à indústria farmacêutica. Gigantes do setor, como Pfizer, Eli Lilly, AstraZeneca, Novartis e Sanofi, operam em solo irlandês e geram milhares de empregos. Nas últimas décadas, o país se consolidou como um dos maiores hubs farmacêuticos e de biotecnologia do mundo. Recentemente, o presidente dos EUA, Donald Trump, criticou a Irlanda por atrair empresas norte-americanas com baixos impostos e “roubar” receitas fiscais que, segundo ele, deveriam ter sido pagas ao Tesouro dos EUA. Aliás, a partir desta quarta-feira, dia 1º, Bruxelas vai eliminar tarifas sobre produtos americanos, em virtude do acordo firmado no ano passado com Washington. O acordo estabelece tarifas de, no máximo, 15% sobre a maioria das exportações da União Europeia para os EUA e taxas zero para produtos industrializados americanos que entrarem no bloco europeu. Maior polo de inovação da UE Tecnologia é uma área vital para a Irlanda, e o país ficou conhecido como o “Vale do Silício da Europa” por abrigar a sede europeia de gigantes do setor, atraídos por incentivos fiscais, como Google, Meta, Apple, Microsoft e OpenAI, entre outros. No segundo semestre deste ano, quando os irlandeses estiverem no comando do bloco, um impasse deve ganhar força: as regras de tecnologia e inteligência artificial (IA) da União Europeia estarão sendo renegociadas. E, segundo o jornal britânico The Guardian, a Irlanda, por seu peso no setor e pelos interesses econômicos envolvidos, pode adotar uma postura mais cautelosa nessas discussões, evitando avançar em propostas que ampliem a soberania tecnológica e digital do bloco.

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    Mercosul lança negociações com Japão e amplia rede de acordos comerciais

    Sob pressão do tarifaço e de medidas unilaterais da administração de Donald Trump, o Mercosul vive uma fase mais ativa e aposta na ampliação de parcerias comerciais. O bloco deve lançar oficialmente, nesta terça-feira (30), a abertura de negociações para um acordo de livre comércio com o Japão, além de anunciar avanços em entendimentos com diferentes regiões do mundo. A 68ª Cúpula do Mercosul, realizada em Assunção, no Paraguai, reúne sete chefes de Estado da região, de direita e de esquerda. Vivian Oswald, correspondente da RFI em Brasília O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, que desembarca na capital paraguaia pela manhã, quer mostrar a força da integração regional, uma de suas prioridades, que vem avançando a partir de acordos comerciais, a despeito da ampliação das lideranças de direita na região. A ideia é surfar a boa onda do bloco, impulsionada, em boa medida, pela pressão de Washington com seus tarifaços e pela imposição da lei do mais forte. O governo brasileiro tem pressa. Quer fechar o maior número possível de acordos ainda nesta gestão Lula 3.0. Estarão na cúpula Santiago Peña, do Paraguai, o anfitrião; Javier Milei (Argentina), Yamandú Orsi (Uruguai), Rodrigo Paz (Bolívia), José Antonio Kast (Chile) e Daniel Noboa (Equador). Também estarão presentes os chanceleres de Colômbia, Chile e Panamá, Estados associados ao Mercosul. Além disso, participam convidados especiais, como representantes dos Emirados Árabes, de Trinidad e Tobago, da Alemanha e do Uzbequistão Aproximação com asiáticos e latino-americanos O bloco vai lançar formalmente as negociações com o Japão. Os entendimentos com o país estavam travados há décadas. A expectativa é de que a primeira rodada de negociações aconteça dentro de dois a três meses. Também deve ser anunciada a primeira rodada de negociações para um acordo de livre comércio com o Vietnã, em agosto deste ano. A cúpula deverá marcar ainda o lançamento das negociações para um acordo de livre comércio entre o Mercosul e o Panamá, além de avanços em entendimentos com República Dominicana, Guiana, Suriname e Trinidad e Tobago. O bloco trabalha para a implementação do acordo modernizado com o Chile e para a atualização de instrumentos comerciais com Colômbia e Peru. O acordo com o Canadá, que está mais avançado e tinha previsão de conclusão nesta cúpula, ainda precisa ser finalizado. A parte normativa já estaria cerca de 80% concluída. Falta ainda avançar na área de acesso a mercados, o que requer mais tempo. Ainda assim, há expectativa de que esse entendimento, assim como o que está sendo concluído com os Emirados Árabes Unidos, seja anunciado ainda este ano. O ingresso da Venezuela no Mercosul, que chegou a ser mencionado pelo vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, e tinha a simpatia da presidência pro tempore do Paraguai, ficou fora da agenda. A avaliação é de que, neste momento, não seria de bom tom, sobretudo diante da tragédia provocada pelo duplo terremoto que matou milhares de pessoas no país. De todo modo, a Venezuela hoje não reúne condições de se adequar às cláusulas do Mercosul. Medidas para facilitar circulação e integração Entre os avanços mais pontuais previstos para a cúpula está a assinatura do acordo que permitirá o reconhecimento da nova Carteira de Identidade Nacional (CIN) como documento válido para ingresso nos países do Mercosul e Estados Associados. Também será firmado um protocolo de reconhecimento mútuo de meios de identificação e autenticação eletrônica, aproximando sistemas digitais como o GOV.BR dos mecanismos adotados pelos demais países do bloco. Há ainda outras frentes em discussão, entre elas o combate ao crime organizado. A ideia é mostrar que o bloco continua ativo, trabalhando e atraindo atenção dentro e fora da região. Desde 1º de maio, está em vigor o acordo Mercosul-União Europeia, o maior já firmado pelo bloco dos países do Cone Sul, após um quarto de século de negociações. Em entrevista, a secretária de América Latina e Caribe do Ministério das Relações Exteriores, embaixadora Gisela Padovan, destacou a relevância estratégica do Mercosul para a América do Sul e para a economia mundial. Segundo ela, o bloco, que reúne 73% do território sul-americano, cerca de 65% da população da região e aproximadamente 70% do Produto Interno Bruto (PIB), completou 35 anos. Desde a sua criação, o comércio intra-regional cresceu 11 vezes, chegando a US$ 51 bilhões no ano passado. O pico ocorreu em 2011, quando atingiu US$ 53 bilhões.

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    Espanha aprova penas de até dois anos de prisão para 'terapias de conversão'

    A prática já era proibida na Espanha, sendo tratada, no entanto, apenas como infração administrativa. A reforma a transforma em delito e prevê pena de prisão, além de multa. Ana Beatriz Farias, correspondente da RFI em Madri A Espanha deu um passo importante em direção ao fim das chamadas “terapias de conversão” para pessoas LGBTQIA+. O Congresso do país aprovou na semana passada uma reforma que reconhece a prática como delito. A iniciativa cria um novo artigo no Código Penal e prevê penas de seis meses a dois anos de prisão, além de multa, para quem aplicar ou promover práticas destinadas a modificar, reprimir, eliminar ou negar a orientação sexual, a identidade sexual ou a expressão de gênero de uma pessoa. Isso vale mesmo que a vítima ou seu representante legal tenha dado seu consentimento. A pena será aplicada de maneira mais severa nos seguintes casos: se a vítima for menor de idade; se houver uso de violência, intimidação, engano ou abuso de poder; se o autor pertencer a uma organização ou associação dedicada a essas atividades ou se o delito for cometido com fins lucrativos. A prática das chamadas “terapias de conversão” já é proibida em nível nacional desde 2023 pela chamada Lei Trans, mas, até então, era tratada apenas como infração administrativa. Desde 2016, já havia normativas regionais que também condenavam a prática, considerada pela ONU como profundamente prejudicial. Delito existente, vítima reconhecida A RFI entrevistou Saúl Castro, advogado e presidente da associação espanhola contra as “terapias de conversão” No Es Terapia, uma das principais impulsionadoras da reforma. Atuando desde 2020, a entidade já identificou mais de cem promotores dessas práticas, acompanha cerca de cinquenta vítimas e atua na justiça em mais de vinte casos. Segundo Saúl Castro, se as chamadas “terapias de conversão” não forem consideradas delito, as pessoas submetidas a elas nem sequer podem ser reconhecidas legalmente como vítimas. Isso significa, por exemplo, que essas pessoas não têm acesso a direitos previstos na legislação espanhola, como participar do processo ou pedir indenização. “Em um procedimento administrativo sancionador, a vítima não tem direito de participar e não é reconhecida como vítima. Na Espanha, uma pessoa só tem acesso aos direitos garantidos às vítimas quando é vítima de um delito. Se não for vítima de um delito, legalmente falando, ela não é considerada vítima”, explica o presidente da associação No Es Terapia. Além disso, a criação do novo artigo no Código Penal é fundamental para garantir a punição dessas práticas, que já eram proibidas, mas até agora eram tratadas apenas como uma infrações administrativas – cuja punição, na prática, não vinha sendo aplicada. Nos últimos três anos, o Ministério da Igualdade recebeu 23 denúncias relacionadas às “terapias de conversão”. Dessas, 20 foram arquivadas e apenas três seguem em análise. Homofobia estrutural Antes de o Congresso espanhol reconhecer as chamadas “terapias de conversão” como delito, Saúl Castro, como advogado membro da associação No Es Terapia, tentou encontrar outros caminhos legais para buscar reparação para as vítimas. Entre as possibilidades avaliadas, estavam o enquadramento como delito de ódio ou até como publicidade enganosa – já que essas práticas não têm respaldo científico e prometem uma mudança que, segundo a literatura acadêmica, não é possível. Mas, segundo Castro, todas as alternativas encontraram obstáculos e o fato de essas condutas de “conversão” ainda não serem tipificadas como um delito específico acabava sendo determinante. Em um dos casos levados pela associação à Justiça, tanto a Promotoria de Delitos de Ódio de Madri quanto o tribunal acionado pela entidade entenderam que oferecer terapias de conversão a pessoas que buscassem esse tipo de prática de forma voluntária não configurava crime. A justificativa, na ocasião, era que deveria prevalecer a liberdade individual, segundo conta o advogado. “E esse era o caso de uma pessoa que oferecia, abertamente, até mesmo eletrochoque no centro de Madri, em um apartamento onde oferecia ‘terapias de conversão’”, lembra Castro. “Então, por um lado, não sei se por desconhecimento ou por causa da própria homofobia estrutural e institucional que também existe nos órgãos do sistema judiciário, vimos muita passividade e relutância na hora de investigar”. Vitória celebrada, mas a luta continua Apesar de reconhecer a importância da criação do novo artigo e de comemorar a aprovação da medida, Saúl Castro afirma que a mudança ficou aquém do que a associação almejava. A proposta defendida pela entidade previa também apoio psicológico, ajuda econômica e moradia para pessoas que precisassem denunciar familiares ou responsáveis por submetê-las a essas práticas. Segundo ele, a batalha por essas condições que possibilitem a denúncia continuará. Mesmo considerando que a novidade foi equivalente a dar “um primeiro passo” e a conseguir “algo muito grande”, Castro diz que é necessário continuar trabalhando, conscientizando, investigando e lutando. Para o advogado, as políticas públicas constroem o caminho para um sistema melhor e para um ordenamento jurídico melhor. E ele seguirá empenhado em que “as vítimas, agora que já têm um crime ao qual podem recorrer, estejam de fato empoderadas para fazer isso”. O texto que inclui as chamadas “terapias de conversão” no Código Penal espanhol seguirá para o Senado, que pode propor alterações antes de devolvê-lo ao Congresso para a votação final. Se não houver atrasos na tramitação, a expectativa é que a nova lei entre em vigor até outubro, segundo Castro.

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  6. 26 juin

    Venezuela: 'Tivemos que retirar sozinhos nossas famílias dos escombros', diz moradora de La Guaira

    Moradores de prédios atingidos pelos terremotos na Venezuela aguardam laudos sobre a segurança das estruturas e ainda não sabem quando poderão voltar para suas casas. O governo diz que pelo menos 250 edifícios foram afetados. Em La Guaira, região mais afetada pelos tremores, a 30 quilômetros de Caracas, moradores contaram à RFI que escavam os destroços dos prédios que desabaram com as próprias mãos. Com informações de Pedro Pannunzio, de São Paulo, e Alice Campaignolle, de Caracas O governo da Venezuela atualizou nesta sexta-feira (25) o número de mortos no duplo terremoto que atingiu o país na quarta-feira (24). "Infelizmente, já temos 589 mortos", disse a presidente interina, Delcy Rodríguez, durante uma reunião com autoridades militares e civis, transmitida pela televisão estatal. O número anterior de mortos era de 235. Pelo menos 4.300 pessoas ficaram feridas. O Aeroporto Internacional de Maiquetía, o principal do país, em La Guaira, região mais atingida pelos terremotos, continua fechado. Durante os tremores, a pista de pouso e parte da estrutura do terminal sofreram danos, e ainda não há previsão de reabertura. Com isso, o acesso a Caracas tem sido feito por aeroportos que permanecem em operação, como o de Valência, cidade localizada a cerca de duas horas da capital venezuelana. Além da busca por sobreviventes, moradores de prédios atingidos convivem com a incerteza sobre quando poderão voltar para casa. Em diferentes bairros de Caracas, edifícios apresentam grandes rachaduras e ainda aguardam vistorias técnicas para avaliar as condições das estruturas. Enquanto algumas pessoas deixaram os imóveis e passaram a viver na casa de parentes ou amigos, outros permanecem em seus apartamentos, mesmo sem um laudo que ateste a segurança dos edifícios. 'Pessoas foram enterradas vivas' A reportagem da RFI foi até La Guaira, a cerca de 30 quilômetros de Caracas, onde cerca de 50 prédios com mais de dez andares desabaram. Centenas estão afetados, com estruturas deformadas e inabitáveis. A venezuelana Francelys tem diante de si o corpo de seu padrasto, deitado sobre destroços, coberto por um lençol.  “Conseguimos deixar nosso prédio ontem. A essa altura, não resta mais ninguém lá. Mas as torres ao lado estão completamente destruídas, com pessoas que foram enterradas vivas”, diz. Sobre a montanha de escombros, três pessoas vasculham os destroços sem equipamentos de proteção adequados, como capacetes. Não são socorristas, mas moradores em busca de seus familiares. Uma jovem conta que, na véspera, a ajuda tardou a chegar a este setor. “Não recebemos nenhum apoio. Tivemos que nos virar para retirar nossas famílias debaixo dos escombros”, afirma, sob anonimato. “Apesar da dimensão da catástrofe, o socorro demorou demais ontem. Apenas algumas ambulâncias circulavam pelas ruas da cidade”, acrescenta. Dois brasileiros entre as vítimas Nesta quinta-feira, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil confirmou a morte de dois brasileiros. Segundo o Itamaraty, as vítimas são um homem e uma mulher. Em nota, o governo informou que presta assistência consular às famílias e manifestou pesar pelas mortes. Outros detalhes sobre a identidade das vítimas não foram divulgados. Além dos brasileiros, seis outros estrangeiros fazem parte da lista de mortos: um homem nascido em Caracas em 1970 com nacionalidade italiana, dois espanhóis, um português e dois chineses.  O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou nesta quinta-feira (25) com a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, e anunciou o envio de ajuda humanitária ao país. Segundo o governo brasileiro, uma equipe formada por bombeiros e agentes da Defesa Civil será enviada nesta sexta (26) para reforçar os trabalhos de resgate. No sábado (27), a previsão é que um outro avião desembarque na Venezuela transportando equipamentos para a montagem de um hospital de campanha, cem purificadores de água movidos a energia solar, além de medicamentos e materiais médicos para cirurgias. Após a conversa, Delcy Rodríguez agradeceu, em publicação nas redes sociais, a manifestação de solidariedade do presidente brasileiro e o apoio oferecido pelo Brasil às vítimas dos terremotos. Desaparecidos Modelos de previsão do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) indicam alta probabilidade de que o número de mortos ultrapasse 10 mil pessoas. Já um site criado para localizar desaparecidos, compartilhado no X por líderes da oposição, muitos deles no exílio, reunia mais de 35 mil nomes ontem, no meio da tarde. Em contraste, o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, afirmou em sua conta no Facebook que havia 157 desaparecidos e “mais de 200 pessoas identificadas como presas nos escombros”. Mas o número real pode ser bastante superior e estar na casa dos milhares.  A forte discrepância entre os dados evidencia que ainda não há um balanço consolidado das vítimas, e que os números permanecem preliminares e sujeitos a revisão.

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  7. 25 juin

    Após divergências, Macron e Meloni buscam reaproximação em cúpula bilateral inédita

    Os dois países mantêm uma parceria histórica, mas as relações se distanciaram nos últimos anos em meio a divergências entre Macron e Meloni. A cúpula busca relançar a cooperação bilateral, com defesa e segurança entre os principais temas da agenda. Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão A primeira cúpula bilateral entre o presidente francês, Emmanuel Macron, e a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, acontece nesta quinta-feira (25), em Antibes, no sul da França. Embora os dois líderes se encontrem com frequência em diversas ocasiões, esta é a primeira vez que os governos organizam uma cúpula bilateral para discutir exclusivamente a relação entre Itália e França. A expectativa é que o encontro sirva para descongelar a parceria entre Roma e Paris e relançar uma cooperação que perdeu força nos últimos anos. Em 2021, ainda durante o governo de Mario Draghi, os dois países assinaram o Tratado do Quirinale, com o objetivo de reforçar a cooperação em áreas como defesa, migração, cultura e energia. O acordo também previa a realização de uma cúpula anual para acompanhar o avanço dessa parceria. No entanto, Meloni assumiu o cargo de primeira-ministra no ano seguinte à assinatura do tratado, e as divergências políticas com Macron acabaram contribuindo para que o acordo, apesar de estar em vigor, não apresentasse novos avanços. Meloni dirige um governo de direita, liderado pela extrema direita, enquanto Macron é um centrista que governa com a direita, com uma agenda econômica liberal. Por isso, a cúpula é vista como uma oportunidade para destravar esse tratado e definir um roteiro para reforçar a cooperação entre os dois países. Cada delegação será representada por nove ministros, em discussões que devem abranger diversos temas.  Defesa e segurança No centro dos debates deve estar o fortalecimento da defesa europeia e da cooperação entre as indústrias de defesa da França e da Itália. Há ainda a expectativa de avanços em acordos ligados à segurança no Mediterrâneo. Em entrevista à imprensa italiana, Giorgia Meloni indicou que também estará em pauta o futuro da Unifil, a missão de paz da ONU no Líbano. O mandato da missão termina no fim deste ano e, então, está prevista a retirada gradual das tropas. Em meio às tensões na região, porém, Itália e França devem buscar uma cooperação para manter a presença internacional no sul do Líbano. Na véspera, Macron e Meloni se reuniram em Berlim A cúpula bilateral acontece um dia depois de Macron e Meloni participarem de uma reunião com Alemanha, Reino Unido e Polônia – grupo chamado de E5. O foco foi a preparação para a cúpula da OTAN, que acontece nos dias 7 e 8 de julho, em Ankara, na Turquia. O encontro contou também com a participação remota do secretário-geral da aliança, Mark Rutte. O objetivo era demonstrar unidade entre as principais potências europeias antes da reunião da OTAN. Dois temas estiveram no centro das discussões: o reforço da defesa europeia e a guerra na Ucrânia. A questão ucraniana vinha sendo discutida principalmente pelo chamado E3, formado por França, Alemanha e Reino Unido. A exclusão de Roma incomodava Meloni, que defende um formato mais amplo e representativo dos países europeus. Por isso, a participação da Itália no encontro de quarta-feira também teve um peso simbólico importante. Em relação à Ucrânia, no entanto, ainda existem diferenças entre Macron e Meloni. O presidente francês não descarta o envio de tropas europeias após um eventual cessar-fogo e defende uma adesão mais rápida de Kiev à União Europeia. A premiê italiana, por outro lado, adota uma posição mais cautelosa e se opõe às duas propostas. Sobre a entrada da Ucrânia no bloco, Meloni defende que o processo siga as regras tradicionais, sem prejudicar países dos Bálcãs que aguardam há anos para ingressar na União Europeia. França e Itália sinalizam deixar as divergências de lado A relação entre Emmanuel Macron e Giorgia Meloni foi marcada por divergências nos últimos anos. Macron defende uma Europa mais integrada, enquanto Meloni adota uma linha mais nacionalista. Ainda assim, a premiê italiana moderou o discurso desde que chegou ao poder. Apesar das diferenças com Macron, evitou apoiar abertamente adversários políticos do francês ideologicamente mais próximos a ela, como Marine Le Pen e Jordan Bardella. Mesmo assim, os dois líderes acumularam momentos de tensão ao longo dos últimos anos. Um dos episódios mais delicados foi a polêmica sobre o direito ao aborto durante a cúpula do G7 realizada na Puglia, em 2024. A ausência de uma referência explícita ao tema no documento final desagradou Emmanuel Macron, que fez críticas ao governo italiano. Outro ponto de atrito foi a tentativa de Meloni de se apresentar como uma ponte entre Donald Trump e os países europeus, estratégia que nunca foi vista com muito entusiasmo pelo governo francês. Por isso, a cúpula desta quinta-feira é interpretada como um gesto importante de reaproximação. O encontro sinaliza que Roma e Paris estão dispostas a deixar de lado parte das divergências dos últimos anos para fortalecer a cooperação entre os dois países.

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  8. 24 juin

    Alemanha se junta à França em projeto para desenvolver 'tanque do futuro'

    O parlamento da Alemanha deve se reunir nos próximos dias para aprovar ou não a aquisição da empresa de armamentos KNDS pelo governo do país. Berlim anunciou esta semana sua intenção de adquirir 40% da companhia, que é conhecida por ser a fabricante dos dois principais tanques de guerra europeus, o alemão Leopard e o francês Leclerc. O objetivo é juntar forças com o governo da França, que já é proprietário de 50% da KNDS, para trabalhar no desenvolvimento de um veículo que está sendo chamado de “tanque do futuro”.  Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf O movimento faz parte de um tabuleiro complexo que envolve a invasão da Ucrânia e a redução do poder bélico dos Estados Unidos na Europa. A aquisição significa um posicionamento estratégico da Alemanha para os próximos anos e também um reforço da parceria com a França para aumentar o poder de defesa da União Europeia, em um contexto em que a Rússia está gastando mais do que nunca em equipamentos bélicos. A KNDS é uma empresa que foi formada em 2015 com a fusão da alemã Krauss-Maffei Wegmann com a francesa Nexter.  Atualmente, o governo francês é dono de 50% da companhia, e a outra metade pertence à família alemã proprietária da Krauss-Maffei Wegmann. É essa parte, que vale em torno de € 16 bilhões, que o governo alemão pretende comprar. A empresa anunciou nesta quarta-feira (24) uma oferta pública de ações, o chamado IPO, nas bolsas de Frankfurt e Paris. Os governos da França e da Alemanha chegaram a um acordo para equalizar suas participações na empresa. Inicialmente, cada país deve deter cerca de 40%, com os 20% restantes destinados ao mercado. Ao longo dos anos, essa fatia estatal deverá ser reduzida para aproximadamente 30% para cada governo. Tanques ou drones? A importância dos tanques em um contexto de guerra moderna está no centro do debate, em um momento em que a Ucrânia ataca Moscou com drones, que são equipamentos baratos e leves, justamente o oposto de um tanque. Mas vale lembrar que a própria Ucrânia recebeu e está utilizando mais de 100 tanques alemães Leopard, justamente produzidos pela KNDS. E eles são considerados cruciais no embate com a Rússia, ainda que os drones sejam os protagonistas da guerra.  No mês de abril houve relatos de que as Forças Armadas da Ucrânia teriam alcançado um novo recorde utilizando tanques Leopard do tipo 2A6. Ele teria destruído um tanque russo T-72 B3 a uma distância de 5,5 quilômetros. Nunca antes um duelo de tanques tinha conseguido atingir uma distância tão longa. O recorde anterior era de 1991, da Guerra do Golfo, quando um tanque Challenger 1 da Guarda Real Escocesa destruiu um tanque T-55 iraquiano a uma distância de cerca de 5,1 quilômetros com um único projétil. Esses relatos do front carecem de uma comprovação exata, mas dão a dimensão da importância que os tanques de guerra ainda têm e terão num cenário de guerra europeia que a Alemanha considera certo nos próximos anos.  Quem passou pela feira militar Eurosatory, em Paris, na semana passada, foi apresentado ao protótipo de um sucessor do tanque de batalha Leopard 2. O conceito se chama MBT Vision 2032 e é criação de uma joint venture justamente entre a KNDS e a Rheinmetall, outra gigante da indústria bélica, que teve forte participação na Segunda Guerra Mundial. Como o nome indica, o MBT Vision 2032 está sendo planejado para 2032 e será uma espécie de Leopard 3, a terceira versão deste que é considerado o melhor tanque de guerra do mundo. Mas dessa vez, ele será alemão e também francês, em um cenário bastante diferente daquele da Segunda Guerra Mundial. Retirada americana da Europa O Comissário Europeu para a Defesa, Andrius Kubilius, disse essa semana que a Europa precisa substituir rapidamente as capacidades militares que os Estados Unidos vão retirar do continente. Ele alertou que, se não forem tomadas medidas rápidas, esta retirada representará “um convite aberto” para o presidente russo, Vladimir Putin, "testar" a capacidade de dissuasão dos aliados europeus. Em Bruxelas já é dado como certo que os Estados Unidos reduzirão sua capacidade bélica na Europa em termos materiais, não exatamente em tropas.  Guerra antes e depois da Ucrânia A Ucrânia passou de problema a solução. As forças armadas do país estão testando todo tipo de armas e estratégias que a OTAN e a indústria bélica europeia não eram capazes de testar desde a Segunda Guerra Mundial. A KNDS construiu postos avançados de manutenção dentro do território ucraniano, não só para consertar mas também para aperfeiçoar armas de guerra em pleno combate.  A Ucrânia foi o primeiro país a receber o novo obuseiro sobre rodas RCH 155, também produzido pela KNDS. O Comissário Europeu para a Defesa, Andrius Kubilius, disse também que as forças armadas da Ucrânia são "as mais fortes e poderosas da Europa" e acrescentou que "não há exército na Europa ou nos Estados Unidos capaz de conduzir uma guerra moderna" como a Ucrânia está fazendo. Ele defendeu a integração da Ucrânia na arquitetura de defesa europeia a partir de agora. Nesta quarta-feira (24), os líderes da Alemanha, França, Itália, Polônia e Reino Unido se reúnem em Berlim, com participação remota do secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, para discutir caminhos diplomáticos para o fim da guerra na Ucrânia.

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