No escuro

Vamos falar de cinema e de outras coisas também. Para entender o mundo através dos filmes, com Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara.

  1. 5 hr ago

    Jean Moulin, Thomas Mann, Estaline: viagem pelo mundo de ontem que pode ser o de hoje

    Dois procuradores, do bielorusso Sergei Loznitsa: a partir de agora não vai ser possível continuar a sustentar que a obra de ficção do realizador é menos interessante ou grandiosa do que a obra documental. Sim, já havia My Joy, com que Loznitsa se estreou na longa de ficção. Era um filme de tonalidade lynchiana. Mas o barroquismo de exercícios seguintes, a cotejar com o excesso felliniano, começou a fazer pender o centro de gravidade do cinema de Loznitsa para os grandes trabalhos com as imagens de arquivo da História soviética, sobretudo da era de Estaline, a que Loznitsa dava nova vida com o som. Como o majestoso Funeral de Estado (2019) sobre as exéquias do ditador. Donbass, há oito anos, trabalhava a ficção absurdista. Era uma obra estranha, esquiva. Dois Procuradores, então, regresso à ficção, traz um rigor empedernido e é mesmo um dos grandes títulos do ano. Na aparência de "pequeno filme", natureza miniatural, Loznitsa faz nele cinema de época, os anos 30 de Estaline, desde logo através do "clássico" formato quadrado, da escala e arquitectura dos planos. Adapta uma novela de Georgy Demidov, homem da Ciência que passou 14 anos no gulag estalinista e que dessa experiência se serviu para uma ficção escrita em 1969 que só seria publicada em 2009. Conta a aventura kafkiana de um zeloso procurador ao serviço da verdade bolchevique que se dá conta tarde demais que a verdade é uma viagem, como aquela de My Joy, sem regresso. Estaline é a presença no cinema de Loznitsa. O seu rosto, de forma explícita e implícita. O "filme de época" é uma forma de iluminar o presente. O cinema tem estado aí, inquieto com o mundo à volta. É um dos balanços a fazer do Festival de Cannes, ou até mesmo do seu palmarés, e é essa viagem, europeia, assinale-se, que fazemos neste episódio: com o escritor Thomas Mann, num filme, Fatherland, de Pawel Pawlikowski, que reconstitui o regresso do escritor à sua Alemanha no pós-guerra, ou com o herói da resistência francesa Jean Moulin. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano). See omnystudio.com/listener for privacy information.

    28 min
  2. 29 May

    Já temos dois Salazares. Só falta mais um...

    José Filipe Costa psicanalisa o pai nosso. Isto é: psicanalisa-nos. Pai Nosso, Os Últimos Dias de Salazar não é um filme sobre o passado. Como aliás está a acontecer hoje com muitos "filmes de época": são mensagens para o presente. Mostrar o tempo que passou, o que já esquecemos e o que permanece latente. Isto acontece nas salas esta semana. Em Setembro, João Botelho estreará O Velho Salazar. Tudo diferente e tudo igual. Aliás, um completa o outro. O primeiro é onírico, fantasmagórico. Disse-nos um dia José Filipe Costa: "O passado não é uma coisa fixa, o passado é memória. E o cinema efabula. Deve muito à História, mas ao mesmo tempo não lhe deve. As narrativas cinematográficas vão a lugares onde a História não chega". Tudo se passa em São Bento, huis clos e ambiente de folie, quando Salazar (Jorge Mota), depois do AVC, continua a pensar que é ele que ainda lidera o governo, e Maria de Jesus (Catarina Avelar) garante esse teatrinho do poder. O segundo é mais farsante mas a partir de dados e factos cronológicos. Como um falso documentário. Não há dois sem três? Diria o outro que sim... No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano). See omnystudio.com/listener for privacy information.

    42 min
  3. 22 May

    Cannes: nos bastidores de um dos maiores festivais de cinema do mundo

    O que é que importa realmente num festival de cinema? Os filmes? A passadeira vermelha? A avaliar pelas fotografias que as agências enviam diariamente sobre a 79.ª edição do Festival de Cannes, é a segunda, onde desfilam os "talentos" vestidos por costureiros e disputando a atenção de um público que não perde este desfile de estrelas — mesmo que perca os filmes. Entretanto, nas salas de cinema, os críticos (os que ainda existem) vêm os filmes e tentam produzir discurso sobre eles. Vasco Câmara é o enviado do PÚBLICO a Cannes e conta-nos o que é esta vida dupla que a pequena cidade da Riviera francesa vive por estes dias, compara o ambiente de hoje com o do passado, explica como actores, realizadores, jornalistas e um número crescente de influencers se movem no universo do cinema, gerindo interesses e necessidades distintos para responder a públicos distintos. Neste episódio do No Escuro vamos, portanto, espreitar os bastidores de Cannes, mas vamos também falar de Não Desviar o Olhar, filme de Júlio Alves que passou recentemente no IndieLisboa e que nos traz o olhar de quatro críticos de cinema — Vasco Câmara, Luís Miguel Oliveira (também do PÚBLICO), Inês Lourenço e Ricardo Vieira Lisboa — sobre os filmes que os marcaram. É uma viagem pelas imagens que (lhes) povoam a vida e uma reflexão sobre o que é isso de ser crítico de cinema. Vamos andar, por isso, sempre No Escuro — mas sem esquecer a passadeira vermelha. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano). See omnystudio.com/listener for privacy information.

    39 min
  4. 15 May

    Da curta feita na escola de cinema à adaptação de Coetzee, estes são portugueses em Cannes

    São duas curtas e uma longa, três filmes, três realizadores portugueses que vão estar no festival de cinema de Cannes (de 13 a 24 de Maio). Tiago Guedes, realizador da longa, Aquí, adaptação da Triologia de Jesus de J.M. Coetzee, Daniel Soares, realizador de Algumas Coisas que Acontecem ao Lado de um Rio, e Clara Vieira, estudante de cinema, que viu com surpresa a sua primeira obra, um trabalho para a escola intitulado Onde Nascem os Pirilampos, seleccionada para o festival francês. É com eles que conversamos neste episódio do No Escuro. Quisemos saber o que esperam de Cannes, o que significa para um realizador a presença neste festival (mesmo quando, como acontece com Aquí, não seja a concurso), mas sobretudo quisemos ouvi-los falar dos seus filmes. Aquí passa-se num não-lugar, numa língua que, por vontade do escritor, se quis outra e portanto é o espanhol, traz um pai e um filho sem passado, uma família que se tenta construir enquanto tal, a dança como forma de entender o mundo e um universo que se abala e recompõe através de uma criança que esconde mistérios que é melhor não tentarmos compreender nem explicar. No filme de Daniel Soares, o título é literal e a narrativa fragmentária leva-nos ao longo das margens de um rio revelando o absurdo que existe nos insignificantes momentos do quotidiano, enquanto a obra de Clara Vieira é um trabalho pensado de forma colectiva, em torno de um grupo de amigos, um bosque, os seus mistérios e as suas descobertas, um espaço com algo de fantástico que traz ecos do realizador tailandês Apichatpong Weerasethakul. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano). See omnystudio.com/listener for privacy information.

    50 min
  5. 8 May

    A Inteligência Artificial vai exterminar-nos? Primeiro No Escuro ao vivo

    Ghost in the Machine, de Valerie Veatch, foi um dos títulos em destaque no último Sundance Film Festival e foi um dos filmes programados no Indielisboa, festival que ainda decorre. Por causa desse documentário, No Escuro saiu pela primeira vez do estúdio de gravação e participou num debate — aconteceu no último fim-de-semana, na Culturgest, em Lisboa — que tentava enquadrar a torrencial muralha de informação, dúvidas e angústia que do filme se liberta. O que é a Inteligência Artificial e que forças, ideológicas, políticas, a dominam? Onde já vai a idade dourada, salvífica, da relação do homem com a tecnologia? É o tempo, hoje, do "tecno-fascismo"? Em suma, é desta que vamos ser exterminados? Ou esta angústia é apenas a enésima variação de um medo ancestral do homem perante a máquina? Participaram neste debate dois cépticos e um optimista. É o que podemos chamar, optimista, a José Bragança de Miranda, professor da Lusófona, especialista em Teoria da Cultura e dos Media, Cibercultura e Artes Contemporâneas. Talvez seja, no caso dele, a sedução do caos. Já Bruno Abib, que estudou na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa e desde 2017 trabalha como montador em curtas e longas-metragens de ficção e documentário, e Catarina Rao, designer gráfica que tem desenvolvido o seu trabalho numa vertente mais pessoal e também para marcas comerciais, têm metido as mãos na massa, como se costuma dizer. Utilizam ferramentas da IA. E estão num momento de dúvida e de questionamento pessoal. Oiçam-nos. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano). See omnystudio.com/listener for privacy information.

    46 min
  6. 24 Apr

    Projecto Global e FP-25: o espectador confrontado com a “ambiguidade moral”

    Ivo M. Ferreira pegou, sem medo, num tema difícil: o terrorismo da extrema-esquerda em Portugal no início dos anos 80 e a história das FP-25. Ficcionar uma realidade para a qual o país não se tem mostrado preparado para olhar de frente é sempre um risco, mas o realizador assume-o. Ao lado dele está um conjunto de actores, com destaque para Jani Zhao, a operacional Rosa (entrevistas com ambos e com o historiador Francisco Bairrão Ruivo no Ípsilon). Neste episódio do podcast No Escuro discutimos este olhar para um fenómeno de uma história muito recente, a propósito da estreia do filme Projecto Global, e perguntamo-nos se pode haver uma glamourização da violência, não só no caso português mas noutros, das Brigadas Vermelhas em Itália aos Baader-Meinhof na Alemanha. O terreno é escorregadio, as zonas cinzentas são muitas — Ivo assume que é precisamente isso que lhe interessa, uma "ambiguidade moral" que faça justiça à complexidade. E como nos posicionamos nós, espectadores, perante isto? E das trevas da violência terrorista vamos até à luz que doura os corpos dos jovens nas praias do Sul de França com o mais recente filme de Abdellatif Kechiche, Mektoub, Meu Amor: Canto Segundo. Uma americana voraz invade este último tomo de uma triologia da qual só pudemos ver antes o Canto Primeiro. Entre sexo, sensualidade e violência, será esta também esta uma leitura possível sobre uma América que, quando Kechiche filmou, começava a revelar a sua voracidade? O que parece evidente é que o sol do Canto Primeiro já não brilha da mesma maneira e as sombras invadem este Canto Segundo. Vamos tentar perceber porquê. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano). Siga o podcast No Escuro e receba cada episódio semanalmente, à sexta-feira, no Spotify, na Apple Podcasts ou noutras aplicações para podcasts. ​Conheça os podcasts do PÚBLICO em publico.pt/podcasts. Tem uma ideia ou sugestão? Envie um email para podcasts@publico.pt. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    42 min
  7. 17 Apr

    Marilyn Monroe, 100 anos: o que procuramos nela, hoje?

    Quando morreu, na madrugada de 4 para 5 de Agosto de 1962, na sua vivenda de estilo mexicano de 5th Helena Drive, em Brentwood, Los Angeles, dificilmente se apostaria que a vida de Marilyn Monroe (nascida a 1 de Junho de 1926, faria cem anos daqui a dois meses) estava para durar. Reparem: o MoMA de Nova Iorque realizou uma retrospectiva em Março, abrindo o programa, Marilyn Monroe: Celluloid Dreams, com O Pecado Mora ao Lado, de Billy Wilder, realizado em 1955, ano que foi, entre todos, o mais decisivo para a imposição de Marilyn como estrela planetária. O programa contemplava na placidez do seu roteiro comemorativo de centenário, um ciclone: Mulholland Drive, de David Lynch, ou o diálogo de Marilyn com um dos grandes títulos do século XXI. É isso: ela não parou de nos falar. O que nos terá para dizer? O que continuamos hoje a procurar nela? Porquê o impulso de a resgatar, de a salvar, de provar que estava ali um dos mais luminosos, intuitivos talentos que a luz do cinema iluminou? Junho será o mês Monroe no Batalha Centro de Cinema, no Porto, no ciclo O Verão de Marilyn, com os seus clássicos. Mais do que os clássicos, a retrospectiva que decorre até 14 de Maio na Cinemateca Francesa em Paris propõe títulos mais desconhecidos, como We're Not Married, de Edmund Golding (1952), Clash by Night/Desengano, de Fritz Lang, Love Nest, de Joseph Newman (1951), ou o encontro de Monroe com os irmãos Marx, Love Happy (David Miller, 1949), ou uma interpretação de baby-sitter desequilibrada, ao lado de Richard Widmark, no huis clos Don't Bother to Knock/Os Meus Lábios Queimam (1952), de Roy Ward Baker. É este título pouco conhecido, um dos raros papéis dramáticos de uma carreira que em 1952 ainda só tacteava, que abrirá a 5 de Maio o ciclo Quem és tu Norma Jean? 100 anos de Marilyn Monroe, na Casa Comum da Universidade do Porto. While the City Sleeps, Quando a Cidade Dorme, um noir de John Huston, inaugurou, por sua vez, esta quinta-feira o ciclo da Leopardo que se desenrolará no Cinema Nimas até 13 de Maio. O mundo viu-se a (re)descobrir Marilyn Monroe. É das figuras mais perenes, duradouras, da fábrica americana chamada Hollywood. É mais respeitada, mais consensual hoje do que quando morreu no início da década de 60 — a década, repare-se, que apagou o brilho das estrelas que havia no firmamento. Foi adoptada por diferentes vagas de feminismo. Tem direito a extensa bibliografia, biográfica, ensaística, ficcional (Joyce Carol Oates fantasiou-a em Blonde) e fotográfica. Foi revisitada por grandes fotógrafos em várias "fases", tal como as de um pintor: George Barris, que a fotografou pela última vez na praia de Malibu, Richard Avedon, Bert Stern, com a esplêndida série The Last Sitting, ou, a que mais tentou resgatar a sua humanidade, o conjunto melancólico de fotos de Milton Greene. Uma das maiores fãs de Marilyn é a actriz Catherine Deneuve. Que em Maio juntar-se-á à edição francesa de um livro, Marilyn chérie (Flammarion). Texto de Deneuve, fotografias pouco conhecidas de Marilyn da autoria de um produtor e fotógrafo seu amigo, Sam Shaw, cenas de rodagem e de testes de guarda-roupa. Um excerto escrito por Deneuve, que a imprensa francesa tem reproduzido: "Perante os fotógrafos, ela era tão generosa com o seu corpo, o rosto inclinado para trás, algo de infantil também, que nada nela era indecente". É sobre a festa dos seus 100 anos este episódio de No Escuro. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano). See omnystudio.com/listener for privacy information.

    44 min

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