Linha Direta

Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

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    Jogos de Inverno impulsionam turismo em Milão no ano da melhor campanha olímpica do Brasil

    Os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina se encerram neste domingo (22), enquanto já cresce a expectativa para os Jogos Paralímpicos, que começam em 6 de março. O Brasil faz uma campanha histórica, conquistando a primeira medalha da América do Sul e figurando no top 20 do quadro parcial de medalhas. Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão Segundo um balanço preliminar da prefeitura de Milão, apenas a cidade recebeu entre 400 e 500 mil turistas a mais do que o normal durante o período olímpico. A região da Lombardia informou que, entre os espectadores estrangeiros em Milão, a maior parte veio dos Estados Unidos (24,4%). Em seguida aparecem Holanda (10,3%) e Alemanha (11,4%). O esporte com mais ingressos vendidos em Milão foi o speed skating (95%). Já em Bórmio, uma das seis cidades que receberam os esportes de montanha, o skimo teve ingressos esgotados. No quadro de medalhas, que ainda não está fechado, a Noruega lidera com folga. São 34 medalhas no total: 16 de ouro, oito de prata e dez de bronze. Estados Unidos e Itália aparecem em segundo e terceiro lugar, respectivamente, em uma disputa acirrada. Ainda há competições importantes até domingo, como freestyle ski, speed skating e a final masculina do hóquei no gelo. Por isso, o resultado final ainda pode mudar.  A cerimônia de encerramento, no domingo (22) acontecerá em Verona - uma escolha que representa a proposta destes Jogos de distribuir as competições entre diferentes cidades. O evento será realizado na icônica Arena de Verona, do século I, um dos anfiteatros romanos mais bem preservados do mundo e ainda em uso. Hoje, o local recebe óperas e grandes shows musicais. Os ingressos para o encerramento custam entre 950 e 2.500 euros. Já os pacotes VIP chegam a 8 mil euros. O tema da cerimônia será “Beleza em Ação”. Entre os protagonistas estão o cantor italiano Achille Lauro e o bailarino Roberto Bolle, considerado um dos maiores nomes do balé clássico mundial. Brasil encerra Jogos com resultado histórico A medalha de ouro do esquiador Lucas Pinheiro Braathen, no slalom gigante, não foi apenas a primeira medalha brasileira, mas também a primeira da América do Sul em Olimpíadas de Inverno. Para o Comitê Olímpico do Brasil, os Jogos de Milão-Cortina representam um marco para a história dos esportes de inverno no país. Os brasileiros disputaram 18 provas, uma quantidade recorde. Pela primeira vez, quatro atletas terminaram no top 20 – resultado que ainda pode ser melhorado. A equipe de bobsled compete novamente no fim de semana. Em coletiva em Milão, nesta quinta-feira (19), o presidente do COB, Marco La Porta, disse que o comitê já vem sendo procurado por brasileiros interessados em se dedicar aos esportes de inverno. “A gente fica muito feliz não só pela medalha, mas pelo significado que ela traz, o quanto pode servir de inspiração. O grande desafio que as duas confederações têm [da neve e do gelo] com o COB é como agora administrar esse sucesso”, afirmou. O atleta de snowboard Pat Burgener, que terminou em 14º lugar no halfpipe, destacou à RFI que o apoio do povo brasileiro foi fundamental nesse processo: “Me ajudou a ficar positivo e acreditar que essas Olimpíadas são muito mais que o resultado. Eu não tive o resultado que eu queria, mas a jornada foi incrível. Com o resultado de todos os atletas, mostramos que, sim, somos um país que pode fazer muitas coisas”. O aumento da visibilidade dos esportes de inverno no Brasil já é significativo. O Instagram do Time Brasil registrou o maior número de visualizações entre todas as equipes participantes destes Jogos, à frente dos Estados Unidos e do Reino Unido. Focar nas redes sociais foi uma estratégia do COB que trouxe resultados, como ressaltou a Diretora de Marketing Manoela Penna à RFI. “A gente teve 325 milhões de visualizações esse ano, [que] é quase o que a gente teve o ano passado inteiro. Então, realmente foi um impacto muito forte nas redes para a gente passar nossa mensagem, nossa marca, e o valor dos nossos atletas também. A gente tenta levar os diversos tipos de estímulos para um público diverso, não só para quem já é fã de esporte”, afirmou. Essa participação histórica do Brasil também será eternizada no Museu do Comitê Olímpico Internacional, em Lausanne, na Suíça. O COB doou o traje usado por Lucas Pinheiro Braathen na cerimônia de abertura: uma jaqueta da marca Moncler, com a bandeira brasileira na parte interna. Expectativa para os Jogos Paralímpicos de Inverno Encerrando os Jogos Olímpicos, agora a atenção se volta para os Jogos Paralímpicos de Inverno, que acontecem entre 6 e 15 de março. Ao todo, serão cerca de 665 atletas participantes, disputando 79 medalhas, em modalidades como para hóquei no gelo, curling em cadeira de rodas, para esqui alpino e para snowboard. Esta edição é especial, pois marca os 50 anos dos Jogos Paralímpicos de Inverno. A cerimônia de abertura, no dia 6, também será realizada na Arena de Verona. A competição, no entanto, já começa em meio a uma polêmica. Nesta semana, o Comitê Paralímpico Internacional autorizou que dez atletas da Rússia e de Belarus compitam sob suas bandeiras nacionais. A participação com as bandeiras russa e bielorrussa estava proibida desde a invasão à Ucrânia, em 2022. Até então, esses atletas competiam como neutros. Em resposta, a Ucrânia anunciou que vai boicotar a cerimônia de abertura. Brasil busca medalha inédita nos Jogos Paralímpicos Será a quarta participação brasileira em Jogos Paralímpicos de Inverno. Em busca da medalha inédita, o Brasil contará com uma delegação recorde, com oito atletas. Na última edição, em Pequim, em 2022, foram seis. Os brasileiros disputam provas de para esqui cross-country e para snowboard. O país chega com expectativas reais. Quatro atletas estão entre os 30 melhores no ranking global de esqui cross-country paralímpico para atletas cadeirantes ou com deficiência nas pernas. Um dos destaques é Cristian Ribera, atual número um no ranking mundial. Ele detém o melhor resultado do Brasil na história dos Jogos Paralímpicos de Inverno. Em 2018, em PyeongChang, terminou em sexto lugar na prova de 15 quilômetros do esqui cross-country. Outro nome de destaque é Aline Rocha, atualmente sexta colocada no ranking geral. Em 2018, ela foi a primeira mulher brasileira a disputar uma Paralimpíada de Inverno.

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  2. 2 GG FA

    EUA realizam primeira reunião do Conselho da Paz para Gaza, em meio a tensão sobre ação militar no Irã

    Os Estados Unidos sediam pela primeira vez um encontro entre os países-membros do chamado Conselho da Paz criado pelo presidente Donald Trump para colocar em prática o plano de cessar-fogo na Faixa de Gaza. Mas há mais movimentações no Oriente Médio, e, apesar de mensagens otimistas de iranianos presentes nas negociações com os norte-americanos em Genebra, na Suíça, uma ação militar no país é uma possibilidade real. Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel Segundo Donald Trump, os países que fazem parte do Conselho da Paz prometeram doar mais de US$ 5 bilhões para os esforços humanitários e à reconstrução da Faixa de Gaza. Este deve ser o foco do encontro que vai reunir os países-membros pela primeira vez em Washington. A entidade foi criada pelo presidente norte-americano para colocar em prática os 20 pontos que compõem o plano de cessar-fogo entre Israel e Hamas anunciado em outubro do ano passado. Mas além dessas questões, há outros itens importantes no projeto que ainda não saíram do papel, como a Força Internacional de Estabilização (ISF, em inglês), o exército estrangeiro – que, se implementado, substituirá a presença do Exército de Israel –, e o desarmamento do Hamas.  Até agora, o governo da Indonésia, o maior país muçulmano do mundo, foi o único que se posicionou de forma mais ativa ao informar que poderá enviar até 8 mil soldados para a Faixa de Gaza. Os primeiros mil militares estarão prontos para assumir posições em Gaza em abril. Os demais poderão ser enviados até junho, segundo um porta-voz do exército da Indonésia informou à agência Reuters.  De acordo com uma fonte citada de forma anônima pela TV pública de Israel, nas próximas semanas edifícios e construções estarão prontos para receber esses soldados.  A Itália é outro país que poderá participar com forças no terreno na Faixa de Gaza. Durante coletiva de imprensa em Roma, o ministro das Relações Exteriores Antonio Tajani disse que os italianos estão dispostos a ajudar no treinamento de policiais palestinos.  Desarmamento do Hamas Esse é um dos pontos mais complexos e imprevisíveis do plano de Donald Trump. Até agora, as lideranças do grupo radical palestino têm repetido publicamente que não vão aceitar o desarmamento.  Em discurso no Fórum da rede Al-Jazeera, do Catar, o líder sênior do Hamas, Khaled Mashal, apresentou uma visão alternativa: no lugar de abandonar as armas de forma completa, como determina o plano de Trump, ele propôs uma trégua com duração entre cinco e 15 anos. Segundo Mashal, durante este período as armas ficariam guardadas. A medida seria implementada com apoio internacional e a partir de garantias do Catar, Egito e Turquia.  Autoridades israelenses condenaram as declarações e disseram que elas são as provas de que o Hamas planeja uma nova guerra.  Para além de abrir mão das armas, segundo o plano de Donald Trump, o grupo radical também deverá entregar o controle de Gaza a um governo formado por tecnocratas palestinos.  Permanecem as tensões entre Irã e Estados Unidos As tensões no Irã são outro foco de preocupações. Ao término da rodada de negociações em Genebra, na Suíça, os representantes iranianos disseram que em duas semanas vão apresentar uma proposta detalhada para uma solução negociada com os Estados Unidos. Mas não está claro se o presidente Donald Trump vai aceitar este prazo.  "O chefe está ficando sem paciência. Algumas pessoas próximas a ele alertam contra uma guerra com o Irã, mas acho que há 90% de chance de vermos uma ação militar nas próximas semanas", disse uma pessoa próxima a Trump ao portal Axios.  A RFI conversou com Danny Citrinowicz, pesquisador do Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel (INSS, em inglês), um dos principais especialistas em questões iranianas. Segundo ele, as próximas duas semanas são críticas porque a decisão de Trump também vai depender da forma como os enviados Jared Kushner e Steve Witkoff, representantes norte-americanos nas negociações, vão apresentar os resultados das conversas com os iranianos.  “Basicamente, é Trump quem precisa decidir se ele vai dar este prazo [de duas semanas ao Irã] ou não. Eu tenho cautela em relação ao otimismo apresentado pelos iranianos. Estamos numa encruzilhada muito dramática. As próximas semanas serão ainda mais significativas, mas no final das contas tudo depende das decisões da Casa Branca”, diz.  Sob o ponto de vista militar, a avaliação em Israel é que, em cerca de uma semana, a presença das forças dos EUA no Oriente Médio estará completa. As fontes israelenses informam que se preparam para cenários extremos porque não acreditam no sucesso das negociações entre Estados Unidos e Irã.  A RFI também conversou com um dos diretores do Hospital Sheba, o maior de Israel, que confirmou que há mais de um mês tudo está pronto para uma eventual situação de emergência e que, em caso de um ataque do Irã contra Israel, todos os pacientes serão transferidos para as instalações subterrâneas.

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  3. 3 GG FA

    Lula chega à Índia para reforçar aliança política e negociar novos acordos

    Com uma das maiores comitivas já enviadas a um país da Ásia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarca em Nova Délhi nesta quarta-feira (18), no início da tarde pelo horário local, para uma de suas principais agendas internacionais do ano. A viagem, preparada desde 2025, marca um novo patamar na relação bilateral. Vivian Oswald, correspondente da RFI em Brasília Esta é a 20ª viagem internacional do presidente Lula neste seu terceiro mandato. Ele escolheu a Ásia para mostrar que o Brasil continua em busca de novos parceiros. A visita ocorre em um momento em que a Índia preside o Brics e que importantes alianças geopolíticas e econômicas vão remodelando as relações internacionais. De Nova Délhi, o presidente segue para a Coreia do Sul, onde realiza visita de Estado. A etapa indiana será uma viagem com programação intensa, cheia de sinais políticos e com o anúncio de diversos acordos e parcerias em áreas estratégicas, que vão de medicamentos, vacinas e defesa a minerais críticos. Os dois países ainda devem discutir a expansão do acordo Índia-Mercosul, hoje limitado a uma pauta de 450 produtos para cada lado. Antes da visita de Estado, que acontece nos dias 20 e 21, Lula participa da Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial (IA), organizada pelo primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, que o convidou para discursar durante a plenária, após a abertura do evento, que ficará a cargo do anfitrião.  O presidente ainda participa do Fórum Empresarial Brasil-Índia, organizado pela ApexBrasil,  onde grandes empresas indianas presentes no território brasileiro devem anunciar seus investimentos para os próximos quatro ou cinco anos. A comitiva tem dez ministros confirmados. Segundo o embaixador Alex Giacomelli da Silva, 300 empresas brasileiras participam do evento.  Multilateralismo e inclusão digital Os compromissos de Lula na capital indiana incluirão um encontro bilateral com o primeiro-ministro Narendra Modi e um banquete oferecido em sua homenagem pela presidente indiana, Draupadi Murmu. De acordo com o Itamaraty, Lula e Modi irão trocar impressões sobre a conjuntura mundial, em particular os desafios ao multilateralismo e ao comércio internacional, assim como a necessidade de reformas abrangentes no Conselho de Segurança da ONU. Existe ainda a perspectiva de reuniões bilaterais entre Lula e outros chefes de Estado e de governo também presentes na Cúpula de Inteligência Artificial, entre eles o francês Emmanuel Macron. A última vez em que Lula esteve na Índia foi em setembro de 2023, quando participou da Cúpula do G20. Em seus discursos, ele vai sinalizar que o Brasil deseja reduzir sua dependência dos Estados Unidos e da China e busca uma aproximação com nações com quem tem interesses comuns. Em sua participação na cúpula de IA, o líder brasileiro deixará isso claro, ao defender o multilateralismo e a inclusão digital dos países em desenvolvimento. Novo cenário geopolítico Para Renato Baumann, ex-diretor da Cepal e do Ipea, esta aproximação é estratégica tanto dos pontos de vista econômico quanto político, porque existe um "claro potencial de complementariedade" entre os dois países. “Essa visita do Lula à Índia acontece no âmbito desse novo cenário geopolítico e geoeconômico pós-abril de 2025, com o tarifaço do Trump e as diversas medidas imprevisíveis. Isso acontece também num cenário em que vários analistas, como o britânico Vince Cable, em seu livro "Eclipsing the West”, chama a atenção para a probabilidade de que em mais uns 5, 10 anos a gente venha a ter um cenário internacional com três grandes potências: Estados Unidos China e Índia”, disse à RFI. Baumann também destaca a importância da Índia como um dos principais mercados do mundo, que continua em franco crescimento e com quem o Brasil tem saldo comercial negativo. “Em nome dos Brics, note que a Índia é o único dos cinco originais (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) com os quais o Brasil tem déficit. O Brasil tem superávit comercial com todos os demais, exceto com a Índia. A Índia tem crescido a taxas bastante elevadas e tem o bônus demográfico bastante pronunciado”, explica o economista. Energia é pauta importante na relação bilateral. A Índia anunciou no ano passado que ampliará as compras de petróleo brasileiro, num esforço para reduzir a dependência de fornecedores como a Rússia, de onde provém grande parte da commodity que consome. A agenda, porém, não se limita ao setor energético: inclui também cooperação em defesa – com negociações para acordos técnicos na produção de equipamentos – e avanços na área tecnológica, especialmente em inteligência artificial. As autoridades de ambos os lados estão explorando a cooperação no treinamento de modelos de IA para saúde e infraestrutura digital pública, visando aprimorar o alcance e a eficiência dos serviços públicos. Exportações na pauta com a Coreia do Sul Na etapa sul-coreana da viagem, Lula será recebido pelo presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, no dia 23, em visita de Estado. No topo da agenda estão negociações para a abertura do mercado sul-coreano para carnes bovinas brasileiras. As tratativas já duram quase duas décadas. Além disso, há interesse em setores de alta tecnologia, como semicondutores, e em outras áreas industriais consideradas estratégicas para o desenvolvimento e a reindustrialização do Brasil. O presidente volta para Brasília no dia 24.

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  4. 4 GG FA

    Cidade na Dinamarca paga o equivalente a 4 reais por copo de café devolvido para reciclagem

    Aarhus é a segunda maior cidade do país, com pouco mais de 300 mil habitantes, e vem inovando ao pagar 5 coroas dinamarquesas – aproximadamente 4 reais – por cada copo descartável de café que deixa de ir para o lixo comum cerca de 15 minutos depois de ser usado.  Fernanda Melo Larsen, correspondente da RFI em Copenhague A medida já apresenta bons resultados: 900 mil copos descartáveis foram recolhidos desde o início da iniciativa, reduzindo o volume de resíduos urbanos. Em média, 2.500 unidades são depositadas por dia, e 84% dos usuários entrevistados dizem estar satisfeitos ou muito satisfeitos com o sistema. “Estamos muito felizes com a forma como moradores e visitantes aceitaram o programa. Quanto mais reutilizarmos, menos lixo produziremos”, afirma Kim Gulvad Svendsen, chefe da área de Vida Urbana, Tecnologia e Meio Ambiente de Aarhus. Apesar de o sistema de retorno funcionar há muitos anos na Dinamarca para garrafas e latas de bebidas, os copos descartáveis de café só passaram a ser incluídos nesse modelo há cerca de dois anos, embora estejam entre os principais resíduos encontrados no lixo urbano. “Atualmente, estamos testando a possibilidade de expandir o sistema para outros tipos de embalagens recicláveis, como caixas de pizza, por exemplo”, acrescenta Kim Gulvad Svendsen. Dinheiro direto na conta O sistema dinamarquês de depósito e devolução é operado pela cooperativa Dansk Retursystem, criada em 2000, considerada responsável por uma das infraestruturas de economia circular mais eficientes da Europa. Além das máquinas tradicionais instaladas em supermercados, o sistema passou a investir, a partir de 2020, em grandes estações automáticas de coleta, capazes de receber sacos repletos de embalagens de bebidas e fazer a contagem digital imediata. Nessas unidades, o valor é transferido diretamente para a conta bancária do usuário, por meio de um aplicativo, o que facilita a adesão ao sistema em grande escala. Só em 2024, foram devolvidas 2,1 bilhões de garrafas e latas no país, e a taxa de reaproveitamento deste material chega a 93%. Para o CEO da Dansk Retursystem, o sucesso da triagem correta faz parte da consciência dos dinamarqueses com a preservação do meio ambiente. “Possuímos um sistema de coleta de embalagens eficiente e otimizado, com perdas mínimas nos processos, o que nos permite garantir uma economia circular para garrafas e latas com sistema de depósito”, afirma Kasper A. Schmidt, CEO da Dansk Retursystem. Lixo transformado em energia A coleta separada de resíduos alimentares é utilizada para produzir biogás, que é integrado à rede de energia e ao sistema de aquecimento urbano que abastece residências e edifícios, contribuindo para reduzir o custo da energia ao consumidor. Segundo a prefeitura de Copenhague, o objetivo é diminuir as emissões e a dependência de combustíveis fósseis. “Transformar restos de comida em biogás, que pode substituir gás importado e abastecer a cidade, mostra como resíduos urbanos podem se tornar parte da solução climática”, afirma a administração de Copenhague no site oficial do município.

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  5. 6 GG FA

    Nova 'Lei da Cidadania' de Barcelona multa quem circular sem camisa, cuspir e urinar na rua

    Sob risco de multas pesadas, entra em vigor neste domingo (15) a nova "Lei da Cidadania de Barcelona", que estabelece um conjunto renovado de regras sobre como se comportar como bom cidadão — e também como bom turista — na segunda maior cidade da Espanha. Entre as mudanças, quem circular de torso nu fora das áreas de praia poderá receber uma multa de até € 300 (cerca de R$ 1,8 mil). Claudia Wallin, correspondente da RFI em Barcelona O novo texto, que atualiza a lei vigente há 20 anos, tem como meta preservar o espaço público como um lugar de convivência cordial e respeito mútuo. E para isso, prevê cerca de 40 sanções para promover a boa conduta, a limpeza da cidade e a tranquilidade entre os moradores. Urinar em espaços públicos vai sair caro: as multas vão de € 300 euros a até € 1.500 (cerca de R$ 9,2 mil), caso a infração ocorra em monumentos, prédios tombados ou locais de grande movimento. Cuspir nas ruas também pode custar € 300 ao infrator. A partir de agora, os donos de pets que circulam pelas ruas são obrigados por lei a levar garrafas de água para lavar a urina dos animais. Quem descumprir a regra poderá ser multado em € 300. A única exceção é para pessoas com deficiência visual que utilizam cães‑guia. Jogar qualquer tipo de lixo em áreas públicas – como papéis, embalagens, latas e garrafas - pode ser punido com multas de até € 750 (mais de R$ 4.600) Roupas inadequadas e nudez passam a ser infrações A nova lei também deve surpreender muitos turistas, acostumados a andar sem camisa nas ruas durante os tórridos verões da Espanha. “Está proibido circular ou permanecer em espaços públicos sem camiseta, camisa ou outra peça de roupa que cubra o torso, a menos que se esteja praticando alguma atividade física ou desportiva”, diz o texto. A lei acrescenta, porém, que os agentes públicos só aplicarão a multa se, após uma primeira advertência, a pessoa “persistir em sua atitude”. O valor da multa varia de € 120 a € 300. Também fica proibido circular com roupas de banho fora das zonas permitidas, como praias, piscinas ou ruas próximas ao litoral. No mesmo artigo 74 da nova lei, sob as mesmas sanções, fica proibido usar em espaços públicos “indumentárias, acessórios ou objetos que representem de forma explícita os genitais humanos, ou que tenham um evidente caráter sexual” – uma referência à moda de usar acessórios de formato fálico na cabeça durante despedidas de solteiro, por exemplo. Já andar completamente desnudo implica em multa que pode chegar a € 500 (cerca de R$ 3.090). O novo código de normas também prevê sanções mais rígidas para infrações que já constavam da lei, e transforma em obrigações legais práticas que anteriormente eram apenas recomendações. Sanções reforçadas para pichação, ambulantes e barulho A "Lei da Cidadania" mantém a proibição de pichação em espaços públicos sob pena de multas que variam entre € 100 (R$ 617) e € 600 (R$ 3.706) – e incorpora uma nova sanção: além de pagar multa, os infratores terão que assumir ainda os custos de limpeza e reparação dos danos causados. A atividade de ambulantes ilegais em espaços públicos será penalizada com multas que vão de € 100 a € 600. A compra de produtos procedentes destes comerciantes também será punida.  A lei prevê ainda sanções para condutas que perturbem o descanso dos moradores da cidade: música alta, gritos ou brigas vão implicar em multas entre € 750 (R$ 4.633) e € 1.500 (R$ 9.266). Outra novidade são as multas de até € 1.500 para os chamados botellóns – as festas em que jovens se reúnem em praças ou ruas para consumir bebidas alcoólicas antes de irem para clubes noturnos. E a punição chega a atingir € 3 mil (mais de R$ 18,5 mil) para aqueles que promoverem as denominadas “rotas etílicas”, eventos programados via internet para percorrer diferentes bares da cidade. “A população deve ter consciência de que o espaço público é de todos, que a cidade é nossa casa, e que devemos cuidar dela, como fazem 95% dos cidadãos. Infelizmente, há cerca de 5% da população que não tem essa consciência, e que portanto deve receber sanções”, disse o prefeito de Barcelona, Jaume Collboni, em entrevista à rádio pública da Catalunha. Ele destacou que a maioria dos que violam a Lei da Cidadania são turistas. Uma das principais mudanças afeta justamente os infratores que não residem na cidade: com a entrada em vigor da nova lei, a notificação e a cobrança da multa será feita no momento da infração por agentes equipados com máquinas de cartão, a fim de garantir o pagamento e evitar a impunidade. Nas áreas verdes da cidade, alimentar animais silvestres será punido com multa de até € 750. Caçar, pescar ou ferir bichos terá pena de até € 3 mil. Campanha de informação Desde a aprovação da nova lei, em dezembro passado, a prefeitura lançou uma campanha de informação sobre as novas regras, com um total de 400 agentes públicos destacados nas áreas mais movimentadas da cidade para distribuir folhetos informativos e explicar os detalhes da reforma. A comissária de Convivência da Prefeitura de Barcelona, Montserrat Surroca, salientou que o propósito da nova lei não é arrecadar verba. “O objetivo é passar uma mensagem de prevenção, para que os cidadãos conheçam as normas e se tornem conscientes delas. O objetivo fundamental é melhorar a convivência no espaço público”, disse ela em declarações à mídia espanhola. Para menores de idade e pessoas em situação de vulnerabilidade, o novo texto permite substituir as multas por trabalhos comunitários. “Pedimos aos cidadãos que se envolvam nos cuidados do espaço público, porque esta é uma responsabilidade compartilhada”, ressaltou Surroca. O novo texto da Lei da Cidadana foi aprovado com um amplo consenso político e social. A comissão técnica que impulsionou a reforma foi criada em agosto de 2023, e trabalhou com um abrangente processo participativo, durante o qual cidadãos, agentes sociais e políticos puderam debater propostas e propor melhoras no texto final. O código de normas atualizado incorporou 34% das emendas apresentadas durante a fase de debate público.   O aumento das atividades urbanas e do turismo, assim como um certo grau de sensibilidade social diante de determinadas condutas, gerou o movimento pela reforma da lei. Um dos principais focos é o funcionamento mais eficaz do sistema de sanções: as punições deverão ser mais ágeis, efetivas e ter maior impacto dissuasório.

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  6. 13 FEB

    Munique abre conferência de segurança sob tensão global e recorde de líderes e protestos

    Começa nesta sexta-feira (13) na Alemanha a tradicional Conferência de Segurança de Munique, que ocorre todos os anos na capital da Baviera desde 1963. O encontro deste ano é superlativo em todos os aspectos: espera-se uma participação recorde de chefes e representantes de estado, além de um número inédito de manifestantes nas ruas de Munique. Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf Grande parte da atenção que se volta à capital da Baviera hoje se deve à repercussão do evento no ano passado, quando o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, fez um discurso que foi considerado a ruptura da parceria transatlântica entre os americanos e a Europa. Em 2025, Vance criticou as democracias europeias e confraternizou em paralelo com líderes da Alternativa para a Alemanha (AfD), o principal partido de extrema direita do país. Para este ano, espera-se um pouco mais de moderação na participação americana, que desta vez terá como principal representante o secretário de Estado Marco Rubio, além de uma comitiva de nada menos que 50 parlamentares de Washington, incluindo a deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez, adversária de Trump. Opositores do regime iraniano nas ruas Nas ruas, espera-se um número recorde de 120.000 manifestantes. O maior dos 21 protestos agendados deve ser o dos opositores do regime iraniano. O Irã deve estar na pauta das conferências, que terão a presença de Reza Pahlavi, o filho do xá – último monarca iraniano, destituído em 1979 – e que hoje é a figura mais proeminente da oposição iraniana. Entre os mais de 60 chefes de Estado presentes, espera-se o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, além de uma participação por videoconferência da líder da oposição venezuelana María Corina Machado. Para lidar com esta ebulição ao redor do luxuoso hotel Bayerischer Hof, onde sempre ocorre a Conferência de Segurança de Munique, a polícia alemã teve de chamar reforços, e haverá deslocamento de policiais da Áustria, Suíça, França e Holanda. O Oriente Médio e a invasão da Ucrânia também serão discutidos, mas é a relação Europa-Estados Unidos que deve constituir a centralidade da conferência. Pesquisas mostram que a maioria dos europeus já não considera mais os Estados Unidos aliados e apoiam um reforço na defesa europeia. Fim da parceria EUA-Europa A tensão entre Europa e Estados Unidos fica clara na agenda do chanceler alemão, Friedrich Merz, que fará pela primeira vez o discurso de abertura da conferência. A fala deve refletir seus planos de reconstruir a defesa alemã, contando com o apoio das ruas. Segundo pesquisas, 72% dos alemães aprovam o plano do governo de dobrar os gastos com defesa nos próximos dez anos. Merz também tem encontros particulares já agendados tanto com Marco Rubio quanto com um potencial candidato de oposição a Trump em 2028, o governador da Califórnia, Gavin Newsom. O chanceler também se encontrará com o presidente francês, Emmanuel Macron, e com o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer. Em pauta, o tema central na Europa atual: como lidar com a nova ordem mundial, em que o velho continente não pode mais contar com a proteção militar dos Estados Unidos, e em que Rússia e China crescem de importância. No sábado, espera-se o discurso de Wang Yi, ministro das Relações Exteriores da China. Extrema direita vive dilema O constrangimento a que JD Vance submeteu às autoridades alemãs no ano passado no mínimo serviu para pressionar a organização do evento a aceitar a participação de representantes da AfD, que tinham sido banidos em 2025. Três deputados do partido de extrema direita estarão presentes, e já anunciaram encontros paralelos com representantes do governo americano, que é simpático a eles. Mas a verdade é que a AfD vive um dilema interno: parte de seus líderes e militantes defendem esta parceria com o governo Trump, mas há uma parte mais nacionalista que é contra. De forma geral, os partidos de extrema direita europeus se dividem neste alinhamento com o governo americano: enquanto na Inglaterra, Polônia e Hungria ele é total, na Alemanha, na França e na Itália, o populismo de direita ainda é em parte refratário a Trump e mais alinhado à Rússia. Inclusive, algumas das mensagens vazadas nos arquivos Epstein mencionam uma colaboração no mínimo suspeita entre a AfD e o Reunião Nacional (Rassemblement National, de Marine Le Pen) francês.

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  7. 12 FEB

    Líderes da UE debatem dívida comum e problema de competitividade do bloco em encontro na Bélgica

    Os líderes dos 27 países-membros da União Europeia se reúnem nesta quinta‑feira (12), na Bélgica, para acelerar as reformas destinadas a recuperar a competitividade da economia do bloco. Em meio a discordâncias internas, os chefes de Estado e de governo buscam caminhos para impulsionar o crescimento, reduzir os custos de energia e gerar novos investimentos. Artur Capuani, correspondente da RFI em Bruxelas O encontro acontecerá no charmoso castelo de Alden Biesen, na Bélgica, uma antiga fortaleza militar medieval. Convocado por António Costa, presidente do Conselho Europeu, o chamado “retiro informal” dos chefes de Estado e de governo da União Europeia não segue o formato tradicional das cúpulas realizadas na sede da instituição, na capital belga. A reunião não prevê a adoção de medidas formais, mas uma discussão sobre os próximos passos do bloco em meio às pressões crescentes da indústria e às divergências entre as principais potências do continente. Ela ganhou o apelido de “Cúpula de Draghi”, já que conta com a presença do ex-presidente do Banco Central Europeu e ex-primeiro-ministro italiano, Mario Draghi. O objetivo é discutir propostas com base no relatório de competitividade elaborado por Draghi, que alerta para o fraco crescimento econômico da Europa, além do impacto persistente dos altos preços da energia sobre empresas e consumidores e da perda de terreno em relação aos Estados Unidos e à China. Dívida conjunta Apesar do consenso sobre a necessidade de fortalecer a economia europeia, há divergências profundas sobre como financiar essa nova fase de investimentos. A França defende uma estratégia mais ambiciosa, com a possibilidade de criação de uma nova dívida conjunta europeia, nos moldes do fundo de recuperação adotado durante a pandemia de Covid‑19. Paris argumenta que, sem recursos robustos e compartilhados, a União Europeia não conseguirá competir com os subsídios massivos oferecidos por outras potências globais. A proposta é endossada por Mario Draghi, mas enfrenta resistência nas reuniões do Conselho. Já a Alemanha, com apoio da Itália, rejeita a ideia de uma nova dívida comum e adota uma postura mais cautelosa, centrada na disciplina fiscal. O chanceler alemão Friedrich Merz e a primeira‑ministra italiana, Giorgia Meloni, apresentaram no mês passado um plano de ação para impulsionar a economia europeia, com foco na indústria e na simplificação regulatória dentro do bloco. Com 27 Estados‑membros, liderados por governos de diferentes orientações políticas e prioridades nacionais, a União Europeia enfrenta negociações complexas em praticamente todos os temas estratégicos. Quando o consenso demora, as decisões também atrasam. Essa morosidade é vista por empresários e analistas como um dos principais obstáculos à competitividade europeia, especialmente em um cenário de forte concorrência global, em que a agilidade é fator determinante. Um exemplo emblemático é o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. As negociações se arrastaram por décadas, atravessaram disputas internas e ainda enfrentam incertezas jurídicas e políticas, incluindo questionamentos no Parlamento Europeu. O caso ilustra como a dificuldade de consenso pode retardar decisões estratégicas. O mesmo impasse aparece em outros dossiês sensíveis, como o uso de ativos russos congelados para financiar a Ucrânia, a definição de metas climáticas mais ambiciosas e os investimentos em defesa. Europa “a duas velocidades” Diante das dificuldades para avançar com unanimidade, cresce o debate sobre modelos alternativos de integração. Mario Draghi defendeu recentemente uma abordagem mais federalista e “pragmática” para o bloco, com maior foco no interesse coletivo. Na mesma linha, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, voltou a defender a ideia de uma “Europa a duas velocidades”. A proposta permitiria que um grupo menor de países avance mais rapidamente em determinadas áreas, por meio de acordos próprios, enquanto os demais seguiriam no seu ritmo. Na prática, o modelo poderia acelerar projetos estratégicos e permitir respostas mais rápidas às crises econômicas e geopolíticas. Por outro lado, críticos alertam que a estratégia pode aprofundar divisões internas e levar a uma União Europeia mais fragmentada, com países integrados em níveis diferentes. O desafio dos líderes reunidos na Bélgica é justamente encontrar um equilíbrio entre eficiência e unidade. A questão central é saber se o bloco conseguirá ganhar agilidade sem comprometer sua coesão — um dilema que deve marcar os próximos passos da integração europeia

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  8. 11 FEB

    Trump recebe Netanyahu em meio a impasse com o Irã e incertezas em Gaza

    O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se reúne nesta quarta-feira (11), em Washington, com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em um momento de forte tensão no Oriente Médio. O encontro ocorre em meio ao impasse nas negociações entre Washington e Teerã sobre o programa nuclear iraniano e às incertezas sobre o futuro da guerra em Gaza. Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York Netanyahu chegou aos Estados Unidos na noite de terça-feira (10) e deve se reunir com o presidente americano no final da manhã. Antes, ele conversa com o Secretário de Estado, Marco Rubio. Segundo fontes israelenses, o governo de Israel já prepara cenários alternativos caso as negociações entre os Estados Unidos e o Irã fracassem, incluindo opções militares. Antes de embarcar para Washington, Netanyahu deixou claro que o Irã é a prioridade absoluta da agenda. “Nesta viagem, vamos discutir uma série de questões, como Gaza e a situação regional, mas, acima de tudo, as negociações com o Irã”, afirmou. Segundo ele, Israel pretende apresentar ao presidente americano princípios considerados essenciais para qualquer acordo. “Princípios que, aos nossos olhos, são vitais não apenas para a segurança de Israel, mas para todos aqueles que desejam paz e estabilidade no Oriente Médio”, disse. A reunião acontece após semanas de intensa articulação diplomática e militar entre Washington e Jerusalém. No último mês, o chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel e o diretor de Inteligência Militar visitaram o Pentágono. Mais recentemente, assessores diretos da Casa Branca se encontraram com Netanyahu em Jerusalém. Ao mesmo tempo, Estados Unidos e Irã retomaram negociações indiretas em Omã na semana passada. Segundo analistas, as conversas terminaram sem avanços concretos sobre o programa nuclear iraniano, o que aumentou a pressão sobre a estratégia americana na região. De acordo com a CNN, Israel vê com ceticismo essas negociações e busca garantir dois pontos centrais: a proteção de seus interesses estratégicos e a preservação da liberdade de ação militar caso um eventual acordo não funcione. Netanyahu deve apresentar a Trump novas informações de inteligência sobre as capacidades militares do Irã. Autoridades israelenses afirmam estar preocupadas com a reconstrução acelerada do arsenal de mísseis balísticos iranianos e avaliam que, sem medidas concretas, Teerã poderia voltar a ter entre 1.800 e 2.000 mísseis em questão de semanas ou meses. Israel pressiona para que qualquer acordo inclua exigências mais amplas do que o tema nuclear, como o fim do enriquecimento de urânio, a eliminação dos estoques já existentes, limites ao programa de mísseis balísticos e o encerramento do apoio iraniano a grupos aliados na região. O Irã, por sua vez, insiste que está disposto a negociar apenas o dossiê nuclear. Nos últimos dias, Trump sinalizou que pode aceitar um acordo mais restrito. Questionado a bordo do Air Force One se um pacto limitado ao tema nuclear seria aceitável, respondeu que sim, desde que fique claro “desde o início” que o Irã não poderá ter armas nucleares. A Cisjordânia também deve ocupar espaço relevante na conversa. Trump afirmou ao site Axios que se opõe a qualquer tentativa de anexação israelense do território palestino. “Temos coisas suficientes para pensar agora. Não precisamos lidar com a Cisjordânia”, disse. O futuro de Gaza em segundo plano Paralelamente, Washington trabalha em um plano para o pós-guerra em Gaza. Segundo o The New York Times, enviados americanos estudam uma desmilitarização gradual do Hamas, permitindo que o grupo mantenha apenas armas leves enquanto entrega mísseis e armamentos de maior alcance. A proposta faz parte de um plano mais amplo dos Estados Unidos para estabilizar Gaza, avançar na reconstrução e transferir a administração do território para um comitê palestino tecnocrata. Israel adota uma posição mais dura. Netanyahu deve dizer a Trump que a segunda fase do cessar-fogo não avançou e que, sem o desarmamento completo do Hamas, não haverá reconstrução nem retirada das tropas israelenses. Autoridades israelenses afirmam ainda que uma nova operação militar pode ser necessária para viabilizar a visão americana para Gaza e para a região. Além da agenda diplomática, a visita tem forte peso político interno para Netanyahu. O primeiro-ministro enfrenta eleições ainda este ano e aposta na imagem de líder com acesso direto à Casa Branca. Aliados e analistas avaliam que a relação pessoal com Trump será um dos principais eixos da campanha, reforçando a narrativa de que apenas ele consegue influenciar decisões estratégicas dos Estados Unidos. A antecipação da viagem também permite que Netanyahu evite o lançamento oficial do Board of Peace, marcado para o dia 19. A iniciativa do governo Trump inclui países como Turquia e Catar, atores que Israel não quer ver envolvidos no futuro político e na reconstrução de Gaza. Assim, a reunião em Washington funciona tanto como um movimento diplomático estratégico quanto como uma vitrine política doméstica para o líder israelense.

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Descrizione

Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

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