Cosme Rímoli

Cosme Rímoli

Jornalista esportivo Cosme Rímoli entrevista grandes nomes do universo do esporte em um bate-papo sobre o que rola dentro e fora de campo.

  1. 2 DAYS AGO

    ZECA: 'É HUMILHANTE. EU E O ADEMIR DA GUIA IMPLORAMOS INGRESSOS PARA ENTRAR NO PARQUE'

    "Eu me sinto como se fosse uma peça de museu."E o que importa hoje é a modernidade, né?"Misturando amargura, revolta e conformismo, José Luiz Ferreira Rodrigues, assume que foi esquecido. Aos 79 anos, andando com dificuldade por conta de uma cruel fascite, e da perna direita um centímetro e meio mais, curta por conta de uma fracassada operação no joelho, depende da boa vontade de um torcedor para ver jogos, no Allianz Parque, que ainda chama de Parque Antártica. Não há lugar reservado para ele. Nem para outros companheiros que foram fundamentais na imagem vencedora do Palmeiras.Talvez você não saiba quem é José Luiz Ferreira Rodrigues.O apelido Zeca talvez refresque sua memória.Última chance. Quem sabe com ele e seus parceiros todos juntos?Leão, Eurico, Luís Pereira, Alfredo e Zeca, Dudu e Ademir da Guia, Edu, Leivinha, Cesar e Nei.Sim, a segunda e maravilhosa Academia do Palmeiras.Só Zeca ganhou dez títulos com a imponente camisa verde. Os principais? Três Brasileiros, dois Paulistas. Três Ramon de Carranza, os mais importantes.Ele foi o lateral que mais jogou pelo Palmeiras, 395 partidas.Titular nove anos."Vou falar uma coisa que as pessoas nunca pararam para pensar. Ou nem quiseram saber. Nenhum jogador daquele time teve uma partida de despedida. Nenhum. Nem o Ademir da Guia, o maior ídolo da história do Palmeiras. Em outros lugares do mundo, os atletas têm reconhecimento. Infelizmente, no Brasil, e no meu clube de coração, não."Zeca fez história. Foi fundamental no time de Oswaldo Brandão. Era a segurança pelo lado esquerdo do excepcional Palmeiras do final dos anos 60 e início dos 70. 'Fizemos história. Éramos o grande time do país. Parávamos o Santos de Pelé. O São Paulo. O Corinthians não era páreo. O adversário mais complicado era o Botafogo. Só não ganhamos Libertadores porque a direção priorizava o Paulista. Os Brasileiros ganhávamos pela força da equipe. Mas o foco era o Paulista, o mais disputado torneio de todos."Ele relembra sua partida mais especial. "A que evitamos que o Corinthians quebrasse o jejum de 20 anos. Nós demos de tudo. Havia enorme pressão de todo lado para que eles ganhassem. Nós nos impomos. O Morumbi tinha uns 100 mil corintianos. E dez mil palmeirenses. Deu até pena da tristeza deles. Mas fomos campeões, em 1974. Em cima do Palmeiras, não."Zeca enfrentou não só ponteiros do nível de Jairzinho, Terto, Vaguinho, Edu (do Santos), Rogério (Botafogo). Em 1975, já tendo acumulado títulos, ele teve um problema simples no menisco do joelho direito. Por indicação do Palmeiras operou com um médico particular. "Deu tudo errado. Eu fiquei com a perna encurtada um centímetro e meio. Não conseguia dobrar a perna. Tive de operar de novo. Mas nunca mais foi a mesma coisa." Ele caiu em uma profunda depressão. Só chorava e não sabia o que fazer da vida. "Não tive o acolhimento do Palmeiras. Se não fosse o Dudu, não sei o que seria de mim. Ele me amparou. Me levou até Deus. Me reergueu. É muito triste ver que, para o clube, os jogadores não têm importância como pessoas."Relembra que, como completaria dez anos de Palmeiras, na década de 70 iria criar vínculo empregatício com o clube. "Para evitar isso, me mandaram para o Marília. Me senti muito mal. Não quero atacar o clube, que vou amar pelo resto da vida. Mas os dirigentes que o Palmeiras teve não tiveram o mínimo de consideração, de reconhecimento. Não queria favor, sim consideração. Futebol não é um simples emprego. Demos o melhor da nossa vida pelo clube."Zeca, que surgiu no Grêmio, foi parar no Palmeiras quase que por acaso. "Os dirigentes ofereceram o Tupãzinho em troca do Everaldo, lateral esquerdo da Seleção. O Grêmio não quis e me ofereceu. Eu tinha potencial. Aceitaram e fui titular nove anos. Joguei inúmeras vezes contundido. Tomei várias infiltrações para não deixar o time."Zeca foi auxiliar técnico de Felipão por quatro anos no Grêmio.

    1hr 40min
  2. 14 APR

    PEPITO: 'POR QUE PELÉ NÃO RECONHECEU A SANDRA? ELA NÃO O PROCUROU. FOI DIRETO NA JUSTIÇA, NA IMPRENSA.'

    Nenhuma esposa, nenhum filho, nenhum parente. Ninguém foi conviveu tanto, foi tão próximo, do melhor jogador de futebol de todos os tempos do que José Fornos Rodrigues, o Pepito. Nem o defendeu tanto. Ele se tornou uma figura lendária, com 49 anos de convivência profissional, e 51 anos de profunda amizade com Pelé. Viveu todas as fases importantes da vida de Edison Arantes do Nascimento. Sim, Edison, com i, é assim que foi registrado na cidade mineira onde nasceu, Três Corações. "Pouquíssimas pessoas conheceram Pelé e o Edison de verdade. O Edison era um ator, que usava Pelé como personagem. Por isso falava como se ele fosse uma outra pessoa. E, na verdade, era." Pepito surgiu na vida de Pelé, em 1971, para organizar o caos deixado pelo primeiro empresário de Pelé, Pepe Gordo, e que fez o jogador perder muito dinheiro. Por falta de visão, incompetência. 'Montei uma estrutura para ele. Mas fiz um acordo sério. Não queria saber do dinheiro de seus contratos. Ele tomava todas as decisões. Escolhia seus sócios para as transações. Onde investir. "E eu posso dizer: o Pelé foi muito roubado. Pessoas se aproveitaram de todas as maneiras dele. Eu avisava, mas o Pelé sempre foi muito teimoso. E quando tinha a certeza que foi enganado, se afastava da pessoa e deixava para lá. Não queria escândalo." Pepito acompanhou o final de carreira de Pelé. O 'convite' do governo militar, do general Geisel, para que ele disputasse a Copa de 1974. 'Fomos para Brasília. O ministro Jarbas Passarinho foi claro. Queria que ele jogasse o Mundial da Alemanha. Pelé foi claro, firme. 'Não volto atrás. Já me despedi da Seleção.' Pepito também é responsável por salvar Pelé de um atentado. "Estávamos na Iugoslávia, quando chegou uma moça e pediu para sentar na nossa mesa. Deixamos. E reparei que ela mexia embaixo da perna seguidamente. O Pelé tinha ido ao banheiro. Ela me disse..."Quero ficar famosa. Vou dar uma facada no Pelé." "Ela tinha uma faca embaixo da perna. Avisei o Julio Mazzei, que era preparador físico do Santos, para levar o Pelé para longe. A mulher desistiu, foi embora. Pelé nunca teve segurança. Falava que Jesus estava na frente. E Deus atrás, o protegendo." Pepito acompanhou dois dramas significativos da vida de Pelé. O primeiro, o envolvimento de Edinho, seu filho, com as drogas. Chegou a ser preso como traficante. 'Foi terrível para um pai. O Pelé sofreu muito. Não entendia o porquê daquela situação.' Pepito conseguiu, de forma discreta, que Pelé visitasse várias vezes Edinho, sem a imprensa ficar sabendo. E também houve a situação do não reconhecimento de Sandra. 'O Pelé teve duas filhas fora do casamento. A Flávia o procurou diretamente. E ele a aceitou sem o menor problema. Sandra procurou a justiça, a imprensa. Ela foi candidata à política. Tudo muito diferente. Pelé não foi no enterro dela porque tinha trauma. Não foi em enterro de ninguém. Nem do pai dele, do irmão. Mas com a Sandra foi um enorme desgaste. Desnecessário. Os filhos dela são herdeiros do Pelé. Ela causou a situação." Pepito viu com muita mágoa a falta de reconhecimento dos jogadores, quando Pelé morreu. 'Ele os libertou, lutando pela Lei Pelé, para acabar com a escravidão com os clubes. E pouquíssimos foram no seu velório. O Pelé tem muito mais reconhecimento fora do que no Brasil. Para mim é uma enorme tristeza.' Pepito sempre esteve nos bastidores. Não queria dar entrevistas. Mas decidiu que histórias verdadeiras de Pelé mereciam ser públicas, como um último afago ao parceiro de vida. E escreveu 'Pelé, o Legado Desconhecido.' Livro mais do que revelador. Lançado com muito sucesso. Mas na entrevista, Pepito foi além. Mostrou o quanto viveu e o quanto Pelé teve sorte em escolhê-lo como braço direito. "Sinto muita falta dele. E vou dizer, que ele era corintiano, ah, isso ele era..."

    2h 17m
  3. 7 APR

    CICINHO: 'SÓ DEUS PARA ME TIRAR DO ÁLCOOL E DA DEPRESSÃO. NÃO VIA ALEGRIA EM NADA. EU ERA CAMPEÃO DO MUNDO.'

    Ele foi um lateral espetacular.Não foi titular no Real Madrid dos galácticos Ronaldo Fenômeno, Zidane, Beckham, Roberto Carlos, Raúl, por acaso.Nem disputou a Copa de 2006, sendo injustiçado por Parreira, já que estava melhor do que Cafu, por favor.Muito menos foi tricampeão do mundo pelo São Paulo, por ter nascido em Pradópolis.Reverenciado na Roma e, por conta de sua religião, não quis virar estátua em frente ao estádio do Sivasspor, na Turquia.Cicinho foi um jogador incrível.Habilidoso, inteligente taticamente, de força física incrível, driblador e grande senso de marcação.Ganhou Copa das Confederações, Campeonato Espanhol, Copa da Itália, Copa Libertadores, Mundial.Foi muitas vezes carregado nos ombros, por companheiros, torcedores, empolgados com seu talento, nas comemorações de títulos.'Lutei muito desde que saí do Botafogo, fui campeão do mundo com o São Paulo, joguei no Real Madrid dos galácticos. Campeão da Copa das Confederações com a Seleção. Disputei a Copa da Alemanha. Fui da Roma. Ídolo na Turquia. Sei que fui um jogador especial. E poderia ter ido além."Poderia mesmo.Porque por trás de toda essa alegria, Cicinho viveu um enorme drama, o alcoolismo aliado à depressão."Comecei forte na Itália. Eu estava solteiro, com dinheiro, vivendo uma vida de conforto, quando comecei a sentir enorme vazio. Nada preenchia. Era a depressão. Não queria ficar sozinho. Enchia a minha casa de amigos. Mesmo assim, não conseguia dormir. Comecei a beber e beber, de forma incontrolável", revela, de forma corajosa.Há algo que também ninguém imaginaria. 'Eu fumei a minha carreira toda. Eram dois maços por dia." Cicinho revela que foi o medo de doping que o protegeu de drogas como a cocaína. 'Sim, era fácil se eu quisesse. Mas não queria acabar com a minha carreira de vez. Consegui escapar. Porque a cocaína é o caminho lógico, depois que você se perde na bebida."A pergunta é inevitável. Como seria a carreira de Cicinho se ele não fumasse e bebesse?"Fui um atleta privilegiado, com enorme fôlego, conseguia cumprir várias funções táticas no jogo. Só consegui perceber que o cigarro e a bebida me atrapalhavam quando houve a minha conversão."Cicinho revela que foi a sua esposa que o levou a Deus. "Eu estava em um estado emocional destruído. Tinha de beber um copão de pinga para dormir. Encontrei a minha parceira de vida. Ela me disse que a forma de vida que eu levava não era para ela. E não queria perdê-la. Fui para um culto com ela e tudo mudou."Fico preocupado falando, para que as pessoas não pensem que funciona do mesmo jeito para todos. Para mim funcionou. Foi um presente de Deus. Entendi que estava desperdiçando minha vida, envergonhando minha família, acabando com a minha carreira. As Palavras entraram no meu coração. Cheguei em casa joguei todo a bebida que tinha fora. Larguei o cigarro. Nunca mais bebi ou fumei. E passei a entender a vida. E desde então vivo em comunhão com Deus."Desde então, faço questão de dar meu testemunho para as pessoas. Lembrar a importância de Deus. E o quanto temos de valorizar esse presente que ganhamos, que é a vida."Cicinho é direto. "Eu acredito que 90% dos jogadores são alcóolatras porque a bebida é aceita socialmente. E ninguém critica quando os atletas falam que vão 'tomar uma', depois das partidas. A pressão para jogar futebol é enorme. E quando percebem, estão tomando uma cervejinha todos os dias. Pode parecer, mas não é normal. Os clubes precisam estar muito mais atentos com a bebida. A situação é mais séria que parece."Com potencial de comunicação enorme, Cicinho se tornou ótimo comentarista de tevê. "Não sou da tática. Mas sei destrinchar um vestiário. Perceber o lado do jogador na vitória e na derrota. Falo a verdade, respeitando a todos. Pensando em passar o ponto de vista que só quem viveu sabe." Cicinho também tem ótimas informações de bastidores.Porém o mais importante é a reviravolta na sua vida.

    2h 18m
  4. 31 MAR

    DINEI: 'ASSUMI O DOPING POR COCAÍNA. ERREI. MUDEI. SOU UM VENCEDOR.'

    Foi a mais comovente. E sincera entrevista do canal. Dinei, campeão mundial, tricampeão brasileiro pelo Corinthians, mostrou sua alma. Teve coragem de expor tudo o que viveu quando se deixou levar pela tentação do sucesso rápido. "Era jovem. Vinha de uma vida difícil, com o meu pai abandonando a minha mãe quando eu era criança. De repente me vi jogador de futebol, com dinheiro, fama. Vieram as tentações. Noitadas, mulheres bebidas e drogas. Não resisti. Aceitei tudo." "Eu usava cocaína desde 1992, nas férias. Dava tempo de desaparecer até eu voltar a jogar. Mas em 1996, fui contratado pelo Coritiba. E fui jogar, confiando que não seria sorteado para o exame antidoping. Fui. E acabei sendo pego. Acabou sendo um presente de Deus!", revela, em entrevista exclusiva, Dinei. O jogador que surgiu como grande revelação do Corinthians, que tem com orgulho a carteira da Gaviões da Fiel, provando ser da torcida organizada antes de ser profissional, teve uma vida de muita luta. Seu pai, Nei, jogador importante da década de 60, apontado pela direção corintiana como 'mil vezes melhor que Pelé', abandonou sua mãe com dois filhos. "Ela teve de lutar muito para nos criar. Foi uma vida muito dura. Minha mãe lutou, foi guerreira. E morreu nos meus braços, quando eu estava começando a recompensá-la com o dinheiro que ganhava no futebol. Do meu pai? Desculpe, mas não quero falar nada sobre ele, não", diz, demonstrando que a mágoa jamais vai passar. Dinei tem 55 anos, já é avô. E revive com coragem tudo o que viveu. "Mostrando o que sofri por causa das drogas possa ser exemplo para muita gente. De como pode acabar com a vida de qualquer pessoa. E, se alguém já está mergulhado nas drogas, saiba que há esperança. Há saída." A vida de atleta de Dinei daria um filme. Ele escondia ser filho de Nei nas peneiras que fez para jogar futebol. Revelação no Corinthians, o 'amor de sua vida' foi vendido para o Guarani, para o clube, endividado, fazer dinheiro. Depois foi para a Suíça, para o Grasshoppers. "Fui com a minha vó. Fiz de tudo para voltar ao Brasil, não me adaptei ao frio. Na verdade, eu errei. O clube disputava a Champions League. Poderia ir para um clube muito maior." No seu retorno ao Brasil, passou por Portuguesa, Internacional, Cruzeiro, Guarani e... Coritiba. "Foi lá que fui pego no doping. Dirigentes falaram para eu desmentir. E iriam culpar o massagista. Não deixei. Assumi que eu me dopei. Usei mesmo. O Marco Aurélio Cunha, que estava trabalhando no Coritiba, me propôs. "Por que você não assume publicamente que errou e pede desculpas? Ninguém teve coragem de fazer nada parecido. Eu decidi assumir. Foi difícil. Peguei oito meses de suspensão. Foi quando surgiu o coronel Edson Ferrarini. Ele me salvou. Não sei o que faria da minha vida. Ele disse que me ajudaria. Me colocou em uma clínica de reabilitação. "A chave foi a pergunta que ele me fez. Qual seria o meu objetivo de vida? Nem pisquei: 'voltar ao Corinthians.' Essa esperança mexeu com meu coração, com a minha alma.' Dinei conseguiu se tratar e parou com as drogas. E veio a recompensa. Jogando muito bem no Guarani, a cúpula da Gaviões da Fiel foi avisada pelo então presidente Alberto Dualib. O clube precisava de um centroavante. Os torcedores foram firmes. Queriam Dinei. Vanderlei Luxemburgo tentou travar a contratação. Mas os membros da organizada se impuseram. E Dinei foi contratado. "O Luxemburgo teve de me aceitar. Eu chorava agradecendo a Deus pela reviravolta na minha vida. Treinei de mais e consegui mostrar meu valor." Atuando como reserva imediato do ataque, Dinei foi fundamental na conquista do título brasileiro de 1998, em cima do Cruzeiro. "O presidente Zezé Perrella me desprezou. Disse que estava se livrando de mim, quando saí do clube. Pagou caro com os gols que marquei na final contra o seu time." Dinei foi campeão mundial de 2000, com o elenco fantástico do Corinthians.

    1hr 59min
  5. 24 MAR

    PEPE: 'O SEGREDO DO MELHOR TIME DE TODOS OS TEMPOS? NÃO TER INVEJA DO PELÉ. ÉRAMOS CRAQUES. E IRMÃOS'

    2083, 2092, 2095 gols... Dos cinco gênios que vestiram a majestosa camisa do Santos. A contabilidade varia, por conta da falta de precisão nas estatísticas da década de 60. Mas o que importa é o talento inigualável desse ataque espetacular, que encantou o mundo. O time foi bicampeão da Libertadores, bicampeão mundial. 'Mas poderíamos ter vencido pelo menos cinco mundiais. Os dirigentes quiseram ganhar mais dinheiro em excursões e abandonaram a Libertadores. Fazer o quê?", desabafa, sempre sincero, o magistral Pepe. Foram, de acordo com os registros do Santos Futebol Clube, 314 gols em 97 partidas que atuaram juntos. A média é de 3,3 gols por jogo. Mais de 2000 gols é a soma do número que cada um fez pelo clube. Algo perto do inacreditável. Para Pelé poder mostrar ser o melhor jogador de futebol que o mundo criou, o destino colocou ao seu lado atletas extraordinários. O mais desequilibrante, o com mais fome de gols, habilidoso (era meia por formação) e dono do chute épico, violentíssimo, capaz de desmaiar adversários e companheiros que, desavisados, colocavam a cabeça na bola quando ele colocava sua canhota para funcionar, se chamava Pepe. Marcou 405 gols. Se calcula que deu mais de 400 assistências. Pelo menos... "O melhor jogador da história do Santos sou eu. O Pelé era um extraterrestre', brinca Pepe, um exemplo de humildade. "Estou brincando. Todos nós éramos muito importantes. E o Pelé um gênio. "E mais, o segredo daquele time é que não tínhamos inveja do Pelé. Éramos craques e todos irmãos." Depois de muita insistência, aos 91 anos, Pepe deu o privilégio de vir de Santos para São Paulo e nos estúdios da RECORD deu uma exclusiva histórica. A mais desejada. Com o auxílio maravilhoso do seu filho Pepinho, para completar detalhes das inúmeras histórias que viveu. Pepinho era ótimo quarto zagueiro. Mas todos queriam ver um 'novo Pepe'. Se cansou. Foi trabalhar como treinador da base. Ganhou a Copa São Paulo pelo Santos. Mas se decepcionou com a falta de estrutura e espaço que os empresários ocupam e não quis mais trabalhar com futebol. É dono de um programa de rock, comunicador importante. Pepe contou segredos do time mágico. E foi em dois pontos específicos. 'Nós tínhamos muita força física, velocidade. O que permitia que nosso talento fosse explorado ao máximo. "E outro ponto que quero destacar é o treinador Lula. Ele não era bom em entrevistas e as pessoas têm uma impressão errada. Era ótimo técnico. Antevia os jogos, a movimentação dos adversários. Não fizemos história à toa. Havia trabalho e duro por trás daquele Santos vitorioso.' Pepe tem ótima memória e lembra a falta de sorte nas Copas de 1958 e 1962. Era disparado o melhor ponta esquerda do país. Era titular absoluto. Mas se machucou pouco antes dos Mundiais. E Zagallo herdou seu lugar. Inúmeros clubes da Europa tentaram levar Pepe. Principalmente o Barcelona. O Santos jamais aceitou negociá-lo. E também, muito apegado à cidade de Santos e à família, ele não queria sair. "Era feliz demais. Por que ir embora?" Pepe releva intimidade do time, o grau profundo de respeito dentro de campo e a amizade fora. Dinheiro chegava de forma acanhada aos jogadores geniais do Santos. 'Acabei a carreira com quatro apartamentos de quatro quartos. E olhe lá, porque eu economizei. Ganhávamos muito menos que todos imaginam.' Pepe foi espetacular em campo. Sua partida inesquecível foi o segundo jogo da decisão do Mundial contra o Milan. Sem Pelé, machucado, Ele assumiu a liderança técnica do time. Marcou dois gols, na vitória por 4 a 2. A imprensa europeia reverenciava o 'Canhão da Vila', apelido que adora. Ganhou 36 títulos como jogador. 27 pelo Santos... Sim, 27. Ele foi treinador de muito sucesso. Venceu o Paulista de 1973, comandando Pelé. Ganhou o Paulista de 1986, com a Inter de Limeira, derrubando o Palmeiras, que vivia jejum de dez anos. Ganhou o Brasileiro com o São Paulo, também em 196. Foram sete conquistas. Pepe é um ídolo mundial. E iluminado.

    1hr 46min
  6. 17 MAR

    DJALMINHA: 'A CABEÇADA NO TÉCNICO ? O FELIPÃO FALOU PARA ABAFAR. A IMPRENSA NÃO DEIXOU'

    Imagine a Seleção Brasileira com Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e... Djalminha. Quanto talento junto. Uma atitude impensada, que só não foi perdoada por medo da repercussão da imprensa de Felipão, treinador que dizia ser a favor da hierarquia. "O treinador do La Corunã, o Irureta, me perseguia desde que eu cheguei. Naquele dia, nós discutimos por um pênalti em um treino. Nem houve cabeçada, só encostei a minha cabeça nele, irritado. Eu telefonei para o Felipão avisando o que havia acontecido. Ele me disse para abafar o caso. Mas a imprensa não deixou." A tradução: Felipão o convocaria para a Copa de 2002. Mas ficou 'de mãos amarradas' quando as imagens da cena vazaram pelo mundo. O então presidente Ricardo Teixeira não quis a chamada. Para 'não pegar mal'. E assim, o Brasil desperdiçou um gênio. Por ironia do destino, já havia sido assim com o pai de Djalminha. O espetacular zagueiro Djalma Dias. Muito genioso também, acabou injustiçado nas Copas de 1962 e 1966. Djalma deu uma entrevista reveladora. Mostrou sua personalidade forte participando de uma greve de silêncio no Flamengo, clube que o revelou. Mas com 15 anos. Foi vendido de forma precipitada na Gávea. Entrou em choque com Renato Gaúcho, o ídolo maior na época. Trocaram empurrões em um Fla-Flu. O Guarani se aproveitou. Mas Djalminha faria história no Palmeiras da Parmalat. "Foi um time que tinha muitos recursos. Não fizemos 102 gols no Paulista, de 1996, que ganhamos, por acaso. Eu, o Müller, o Rivaldo nos entendemos de cara." Djalminha é modesto. Os três foram protagonistas de lances geniais juntos. Como a Parmalat só assumiu o Palmeiras para movimentar dinheiro, logo desmanchou o time fabuloso que havia montado. "Fui para La Coruña e conseguimos o que ninguém esperava. Derrubamos o Barcelona e o Real Madrid. Fomos campeões espanhóis. Vive momentos importantíssimos da minha carreira e de vida por lá", relembra. Infelizmente também com o medíocre técnico Irureta. Na Espanha, Djalma apostava com Ronaldo Fenômeno quem dava mais caneta, ou seja, colocava a bola no meio das pernas dos adversários. Cada caneta valia mil euros, cerca de R$ 6 mil. "Ele foi um grande desperdício para a Seleção Brasileira", decretou Ronaldo. Essa é a sensação que o acompanha até hoje. Muito firme nas suas opiniões, se tornou comentarista. Irritado com o racismo, inspirado em Seu Jorge, fez um rap em homenagem a Vinicius Júnior. E ele 'cantou' na entrevista. Só o Brasil e suas injustiças foi capaz de deixar esse gênio fora das Copas do Mundo. Azar do Brasil...

    1hr 42min
  7. 10 MAR

    GIOVANNI: 'FOI O PELÉ QUEM ME ESCOLHEU. E ME DEU A SUA 10. VIM DO PARÁ. SOU ABENÇOADO.'

    A trajetória é mais do que especial. Improvável. Nascido no alto deste país/continente, em Belém, passando por equipes humildes como Jaderlândia, Tok Disco, Palmeiras de Abaetetuba, só haveria uma maneira deste homem chegar a vestir a camisa 10 do Santos, do Barcelona e disputar uma Copa do Mundo. A sua genialidade. Sim, porque ele foi um gênio com a bola nos pés. Quem o enxergou e fez questão de colocar o seu dinheiro para comprá-lo e levá-lo ao Santos, entregando sua camisa 10, tem nome e sobrenome. É o rei do futebol. Edson Arantes do Nascimento. "A minha vida é um milagre de Deus. Tudo foi planejado por Ele. Só pode ser. E sou muito grato por tudo que me foi oferecido", diz Giovanni, em entrevista mais do que esperada há anos. Só ele, Sócrates e Weverton tiveram a honra de representar a região Norte deste país em uma Copa do Mundo. O caminho improvável de Giovanni foi aberto por sua genialidade, disciplina e vontade de vencer. Do alto do seu quase 1m90, ele desfilava talento, dribles improváveis, elegância e muita eficiência. Deslumbrou não só Pelé como dirigentes do Barcelona, que venceram disputa ferrenha com gigantes europeus para contratá-lo. Foi Giovanni que, em 1995, fez a torcida santista renascer, levando o time para a final do Brasileiro, em 1995. O Santos havia perdido a primeira partida por 4 a 1 para o Fluminense, no Maracanã. Precisava de uma virada histórica. "O Giovanni teve uma atuação espetacular, que me emocionou muito. Foi maravilhoso em campo." As palavras foram de Pelé, na vitória inesquecível, para qualquer santista, por 5 a 2. Ele havia prometido e fez dois gols. Pintou o cabelo de vermelho, também cumprindo promessa. E ganhou, para sempre, o apelido de Messias. O Santos não venceu o Brasileiro porque foi terrivelmente prejudicado. Teve gol legítimo anulado e o Botafogo fez um impedido, o de Túlio. E levou o título, com o Pacaembu lotado e revoltado. "Não me conformo até hoje com o que aconteceu. Houve coisa a mais do que simples futebol naquela decisão", lastima Giovanni. O Santos não conseguiu segurá-lo. Foi para o Barcelona. E de lá para a Seleção e à Copa do Mundo de 1998. "Se eu soubesse o que iria acontecer, não iria. O Zagallo me levou por causa do Zico, que pediu a minha convocação. Acabei queimado e na reserva. Atuei só 45 minutos. Estava no meu auge. Foi o Rivaldo, que é meu irmão, que me acalmou. Não queria estar ali, sabia que estava sendo prejudicado." Zagallo cometeu a heresia de improvisar o lateral Leonardo como meia no Mundial. Desprezou todo o talento de Giovanni. Havia uma grande proteção para os jogadores oriundos de times do Rio de Janeiro. Giovanni enfrentou problemas com outro treinador no Barcelona, o 'exterminador de brasileiros', o holandês Van Gaal. "O problema foi quem me contratou foi o presidente Josep Nuñez. Foram confrontos cansativos e desgastantes. Havia a pressão da imprensa, da torcida, da direção para que eu jogasse. O ambiente ficou insuportável." Ele teve uma temporada excepcional, em 1997/1998, quando o Barcelona venceu a Liga Espanhola e a Copa do Rey. Em uma história maravilhosa foi para a Grécia. E se tornou um dos maiores ídolos do Olympiacos. "Recebi um sinal de Deus, em Fernando de Noronha." Além de tudo isso, descobriu Paulo Henrique Ganso, no Pará e o trouxe para os holofotes do futebol mundial. A história de Giovanni é mesmo divina. A entrevista? Um privilégio...

    1hr 53min
  8. 3 MAR

    ZINHO: 'QUEBRAR O JEJUM DO PALMEIRAS, EM CIMA DO CORINTHIANS, FOI IGUAL A VENCER A COPA'

    Por qualquer ângulo da análise, Zinho é um gigante injustiçado.Nascido na violenta Baixada Fluminense, filho de um paraibano caminhoneiro e de uma dona de casa baiana, estava predestinado a ser um dos grandes jogadores de futebol deste país.Aos três anos, seus primos foram comemorar nas ruas o título mundial da Seleção de 1970. Ele foi atrás deles. Se perdeu. Sua mãe se desesperou. Agarrou o sapatinho do pé esquerdo que ficou em casa. Se ajoelhou, pediu a Deus, que ele fosse encontrado. E profetizou que, se ele voltasse, ainda seria campeão do mundo, dentro do campo, com a camisa da Seleção. 24 anos depois, a premonição deu certo.'Mas eu fui massacrado. Pela imprensa. Principalmente por Galvão Bueno, o narrador da Globo, que mantinha o monopólio da transmissão da Copa. Ele não entendia minha função tática. O Parreira me pediu para fechar o meio-campo, dar segurança para que o Leonardo e o Branco atacassem. A ordem era que oito jogadores ficassem atrás da linha da bola, marcando. Era assim que ganhamos a Copa, depois de 24 anos."O Galvão tinha em mente o Brasil de 1970 e 1982. Não entendeu o que se passava em campo. E pegou muito pesado comigo. Minha família sofreu demais. Minha irmã recebia fotos de enceradeira, dizendo que era eu na Seleção. Um absurdo. Pagamos pela ignorância de quem não entendia de futebol", desabafa Zinho.Galvão Bueno reconheceu sua perseguição e fez questão de pedir desculpas, no documentário de sua carreira, a Zinho. 'Falei que era uma pena que ele não pudesse pedir para quem merecia ouvir as desculpas. E sofreu com suas palavras. Meu pai que, infelizmente, morreu."Para quem não sabe, Zinho era muito habilidoso. Era ponta esquerda driblador. Mas inteligentíssimo, com visão de jogo diferenciada, se tornou meia. E com potencial físico extraordinário. Daí suas múltiplas funções em campo. Fez história por onde passou. Foi campeão brasileiro cinco vezes. Só ele e Adílio, na história. Saiu do Flamengo chorando, sem querer ir para o Palmeiras. Foi comprado pela Parmalat. "Meu pai, seu Crizan, foi decisivo. Falou que eu iria mudar a história do Palmeiras, que estava em jejum de títulos há 16 anos. E acabou sendo a melhor coisa que fiz. "E fomos quebrar esse jejum em cima do maior rival, o Corinthians. Eu marquei naquela final inesquecível. Dia 12 de junho de 1993. Não é mais o Dia dos Namorados. É o Dia da Paixão Palmeirense."A minha emoção foi a mesma de ganhar a Copa do Mundo."Zinho é um gigante. Tem 37 títulos na carreira. Tetra virou seu apelido. Mas, para ser titular do Brasil na Copa dos Estados Unidos, sofreu demais. A começar pelas Eliminatórias que a Seleção precisou vencer o Uruguai para se classificar. "Disputei toda eliminatória com a minha mãe muito doente. Ela teve um AVC e ficou com parte do corpo paralisada. No dia decisivo, contra os uruguaios, minha mãe entrou em coma. Ninguém sabia. Se o Romário fez os dois gols, eu joguei bem demais. No dia seguinte, enquanto todos comemoravam, eu enterrava a minha mãe", relembra emocionado.Dona Lita faleceu. Mas acertou na previsão, seu filho foi campeão do mundo, com a camisa da Seleção. Fez história no Flamengo, Palmeiras, Grêmio, Cruzeiro, por onde passou. Se tornou excelente comentarista. Começou na RECORD e está há 11 anos na ESPN.Entrevistá-lo foi um privilégio.REDE SOCIALInstagram: @cosmerimoli

    2h 38m

About

Jornalista esportivo Cosme Rímoli entrevista grandes nomes do universo do esporte em um bate-papo sobre o que rola dentro e fora de campo.

You Might Also Like