Em Maio, o primeiro-ministro foi à Alemanha e deixou a uma plateia composta por investidores e figuras gradas da administração um retrato apolíneo do estado do país. Luís Montenegro falou de reformas, falou de estabilidade política e estabilidade social, falou das contas públicas em ordem, do défice à redução da dívida. Um país, portanto, que é a inveja da Europa. Não fora uma gafe, e o primeiro-ministro teria saído de Berlim como uma espécie de herói dos novos tempos da União Europeia. Por azar, no meio do seu discurso, disse Führer, uma palavra maldita, em vez de future, futuro. No regresso, Montenegro queixou-se de que em Portugal ninguém o valoriza como a rendida plateia que, disse ele, representava 80% da riqueza nacional da Alemanha. Faz parte. Quem governa reclama sempre para si e para os seus os louros que a oposição e uma parte, maior ou menor, da sociedade não reconhece. Hoje, no debate do Estado da Nação, essa divergência voltará a emergir. Ainda por cima quando dois dos seus mais importantes ministros, o da Educação e da Administração Interna, estão envolvidos em assuntos tóxicos para a sua popularidade e credibilidade, o caso dos exames de Fernando Alexandre e da casa de campo de Luís Neves. No que é possível medir, o Governo continua a dispor de contas públicas controladas. Não tão saudáveis como há três anos, mas, de facto, num plano invejável para a média europeia. O crescimento vai continuar, mas mais lento. O défice pode regressar, mas é moderado. O rendimento real das famílias cresceu. O desemprego continua a reduzir-se. Mas há números que dão argumentos à oposição: Montenegro herdou a melhor conjuntura financeira em muitas décadas e não a está a segurar. Junte-se a isto os problemas que se agravam na saúde ou, agora em especial, na educação, nos desafios para o futuro colocados pelo aumento da despesa na defesa nacional, nas polémicas inflacionadas da imigração, no tempo perdido na reforma laboral ou na situação internacional que causa ansiedade. E pergunte-se: em que estado está a nação? Entre a percepção e a realidade, a natural propaganda do discurso do Governo e o olhar, também naturalmente, negativo da oposição, quem está mais perto da verdade? Para aprofundar esta discussão, convidámos para conversar connosco neste episódio Isabel Flores, investigadora, doutorada em sociologia e políticas públicas e directora executiva do Instituto de Políticas Públicas e Sociais do ISCTE, Instituto Universitário de Lisboa. O instituto que dirige acaba de publicar um estudo sobre o estado da nação, que pode conhecer em detalhe nas edições digital e impressa do PÚBLICO. See omnystudio.com/listener for privacy information.