O que é infraestrutura e por que ela é tão importante tanto para o design imperialista quanto para o design anticolonial? Esta aula mostra como a mesma centralização que organizou o espaço urbano colonial também organiza a distribuição de capital, conhecimento, trabalho e poder nas infraestruturas contemporâneas. A colonialidade não desapareceu com a urbanização nem com a digitalização: foi transferida para novas infraestruturas, tornando-se ainda mais eficaz e menos visível. Descolonizar a infraestrutura exige, então, fazer o movimento contrário: tornar visível aquilo que foi projetado para desaparecer e recuperar a capacidade coletiva de decidir como nossas infraestruturas funcionam. Afinal, quem controla a infraestrutura também controla o que podemos fazer com ela. Por isso, o design da infraestrutura urbana é fundamental para o projeto de uma nação soberana. Vídeo Download dos slides em PDF Áudio Gravação realizada na disciplina Tecnopolíticas Urbanas do Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana da PUCPR, a convite do professor Rodrigo Firmino, em 2021. Colonização e Descolonização do Infraestrutural do Espaço Urbano MP3 50 minutos Transcrição completa Esta é uma aula que eu dei a convite do professor Rodrigo Firmino, da PUC do Paraná, em 2021. Na ocasião, eu não tive oportunidade de gravar essa aula, então estou gravando agora. Os slides foram preparados com a ajuda do Mateus Felipe Pelanda, que colaborava comigo à época no estudo da obra de Susan Leigh Star, autora que aborda a infraestrutura como uma forma de relação social. Bom, essa apresentação, essa aula, tenta entender de onde vem o sentimento de culpar alguém no capitalismo e também como esse sentimento é canalizado para justificar a opressão, como se fosse algo natural. Que tipo de discursos e práticas materiais tornam a opressão uma sensação de raiva, indignação e, ao mesmo tempo, de resignação no capitalismo? E por que as pessoas acabam simplesmente culpando esse sistema gigantesco e natural, em vez de olharem para as pessoas que, de fato, reproduzem esse sistema diariamente e se beneficiam dele no espaço urbano, os capitalistas? Então, vamos tentar construir uma percepção histórica a partir das evidências que a colonização deixou, não só no Brasil, mas também na América Latina e em muitos outros lugares colonizados pelos impérios europeus. O capitalismo pode ser entendido não como esse grande sistema monstruoso, etéreo e impossível de superar. Se você vai estudar a história do colonialismo, vai chegar à história do capitalismo. O capitalismo surgiu do colonialismo. Segundo Karl Marx, o capitalismo é um desdobramento da acumulação primitiva de capital gerada pelo mercantilismo, que era o sistema econômico das primeiras colônias fundadas pelas grandes navegações, principalmente as de Portugal e da Espanha. Essas nações não reinvestiram seus capitais e, portanto, acabaram sendo superadas por outros países, como a Inglaterra e a Holanda, que investiram em indústrias e manufaturas avançadas e passaram a revender produtos que, provenientes de matérias-primas das colônias portuguesas e espanholas, eram devolvidos aos portugueses e aos espanhóis na forma de manufatura. Com o tempo, essas nações vão disputar com Portugal e a Espanha o mundo, por meio de suas rotas comerciais e das diversas influências que vão adquirindo. Então, começam a haver ocupações britânicas e francesas e, depois, outros países vão seguir. Isso vai criar uma geopolítica imperialista em que a ocupação do mundo passa a ser uma função da ocupação territorial da própria Europa, que, nessa época, já estava chegando aos limites de exploração dos recursos materiais do seu próprio continente e precisava dar vazão, digamos, à sua necessidade de demanda para a acumulação de capital, conquistando recursos além-mar, fora do seu próprio continente. Essa ocupação territorial da Europa ocasionou a aglutinação de grandes centros metropolitanos em torno do comércio burguês, mas também acumulou recursos provenientes das colônias. Então, a formação de grandes metrópoles está diretamente ligada à criação de colônias ao redor do mundo. O filósofo e sociólogo Henri Lefebvre vai chamar isso de revolução urbana, como o aspecto material da revolução burguesa que ocorre no século XVIII na França e se espalha para vários outros lugares do mundo. Então, essa acumulação de recursos, de materiais, de conhecimento em centros espaciais, metrópoles, vai transformar as várias relações humanas e a percepção do que é ser humano. Essa definição do ser humano, do humanismo, passa a ser pautada, então, por uma noção centralizadora do espaço e da humanidade. A Europa se coloca na posição de centro global à medida que expande seus impérios e busca trazer para si o que há de melhor nos outros espaços e locais desse mundo. Essa centralização espacial está no cerne do projeto moderno, que inclui não apenas o capitalismo empresarial, mas também o imperialismo geopolítico e a colonização de novos mundos. Esse nexo entre esses três processos é muito importante e, muitas vezes, é perdido em análises espaciais e em críticas que focalizam apenas um desses sistemas, por exemplo, o capitalismo, o imperialismo ou a colonização. Na verdade, os três sistemas estão intrinsecamente ligados à história da configuração do mundo contemporâneo. Agora, o que menos se fala é do aspecto espacial dessa intersecção e articulação entre sistemas. O ponto principal na produção do espaço desses sistemas, o que há em comum entre eles, é a centralização, que, embora gere oportunidade de negócio e acumulação de capital, também estrutura a maneira como esses processos se distribuem espacialmente. As primeiras empresas vão buscar explorar as Índias. Então, veja que o capitalismo surge, de fato, a reboque do processo de colonização. A centralização também ocorrerá no planejamento urbano diferenciado nas colônias. São as colônias que começam a implementar o grid regular, que divide a cidade em quadras mais ou menos homogêneas. As cidades na Europa, até então construídas de maneira orgânica, sem um planejamento de cima para baixo, não seguem esse padrão de grid estrito, pois cada parte da cidade era planejada de forma diferente. As colônias espanholas são as primeiras a testar o grid na América. Embora tenham conseguido promover essa revolução urbana na América, não conseguiram fazer com que ela reverberasse na própria metrópole. Então, esse capital circulou na metrópole. Eles conquistavam materiais, traziam para suas metrópoles, principalmente na forma de ouro, e não transformavam esse ouro em outros metais. Esse ouro era levado para outros países, que transformavam esse material em ganhos de produtividade, construíam máquinas, equipamentos e lógicas de trabalho mais rendosas, e esses países foram obtendo, então, uma centralização geopolítica dentro da própria Europa. Essa urbanização intensa das cidades europeias, portanto, foi possível apenas graças ao excedente de capital acumulado pela extração de recursos naturais, baseada no trabalho escravo nas colônias. Então, é importante mencionar que esse trabalho escravo não gerava, por si só, uma acumulação local de capital; gerava uma acumulação global de capital por meio desse domínio de vários territórios. Esse trabalho era amplamente reproduzido nos próprios territórios ocupados, então não havia um custo muito elevado de investimento para manter essa força de trabalho. Além da centralidade, o espaço urbano possui muitas outras dimensões. Henry Lefebvre escreveu sobre várias dimensões na sua obra-prima, A Produção do Espaço, mas não vou me aprofundar nela. Eu vou só me deter um pouco mais nessa questão do espaço abstrato que organiza o espaço concreto do dia por meio de uma ordem lógica. Essa ordem vai colocar as ações e atividades em função do interesse do capital ou dos capitalistas que o compõem. Por exemplo, num hospital, você vai ter uma divisão e distribuição espaciais dos leitos de acordo com a funcionalidade que eles desempenham no processo de cuidado. Então, você tem uma otimização para que o paciente fique o menor tempo possível nesse espaço, que ele dê o mínimo possível para o trabalho e que esse trabalho, se existir, seja distribuído de maneira racional para que haja menos trabalhadores cuidando desses pacientes. Então, colocar vários leitos numa mesma sala, organizados em fileiras, é uma lógica industrial num processo de cuidado, quebrando a lógica anterior ao capitalismo, em que as pessoas cuidavam de si ou dos outros por motivos diferentes, e não apenas por lucratividade. Isso também pode ser observado em lugares e contextos -- espaços que ainda não estão tão capitalizados nem rentabilizados por meio da venda de serviços privados. Um espaço público, por exemplo, pode, sim, fazer parte de um processo de acumulação privada de capital. Por exemplo, a Praça do Japão, em Curitiba, eleva o valor dos imóveis privados ao seu redor, que são os mais caros da cidade. Antes de existir essa praça, esses imóveis ainda não tinham esse valor tão elevado. Então, a praça, embora seja um investimento público e sirva ao público, embora não seja cercada por um muro ou uma grade, ainda assim contribui para a acumulação de capital privado. Então, notem como o espaço é configurado por várias relações sociais e econômicas, difíceis de visualizar quando você visita uma praça, por exemplo. Um auditório concentra poder e atenção nas mãos das pessoas que estão no palco. Isso é um pouco óbvio: a audiência chega num auditório esperando ouvir ou ver alguma coisa, sentir algo e não se expressar de volta para quem está no palco. Bom, um dos