Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 Nunca foi tão barato produzir uma “notícia”, mas isso pode ser problemático. Em segundos, a inteligência artificial escreve, resume, traduz e espalha um conteúdo. Em compensação, o que exige gente e responsabilidade, como apuração, verificação, contextualização e capacidade de separar o que importa do ruído, ficou mais raro e complexo. Hoje, cada informação vale pouco sozinha, mas poder confiar nela vale cada vez mais. Tal abundância atinge o jornalismo, mas sua crise não se resume à perda de leitores e anunciantes. A imprensa sempre selecionou e hierarquizou assuntos, confrontou versões e ajudou a formar uma agenda comum. A mediação não desapareceu, apenas parte dela mudou de mãos. Há pelo menos uma década, são as plataformas digitais que organizam o que vemos, movidas pela busca de atenção e de engajamento, não por relevância ou interesse público. Com isso, o jornalismo perdeu parcialmente o caminho entre o fato e o cidadão. Essa transformação deu o tom das discussões do 27º Simpósio Internacional de Jornalismo, que aconteceu na Universidade do Texas em Austin. Jornalistas, pesquisadores e executivos de mídia discutiram sustentabilidade, confiança, inteligência artificial, comunidades e modelos de negócio. Apesar dessa variedade, o assunto comum foi como fazer o jornalismo voltar a ser relevante para as pessoas. Isso não significa que se produza menos jornalismo ou que ele tenha piorado. Há muita investigação, reportagem e análise de qualidade, mas rigor não garante utilidade. Uma apuração impecável pode não explicar ao leitor o que aquilo tem a ver com ele. Muitas redações ainda pensam em matérias, enquanto as pessoas vivem às voltas com dinheiro, saúde, trabalho e filhos. Nesse cenário, o dilema da imprensa é o que vender às pessoas, se a informação está em todo lugar e parte do público não enxerga mais utilidade na mídia. Mas longe de ser um “problema de jornalistas”, isso explica muito do caos em que a sociedade mergulhou há anos. A questão é: como melhorar? É sobre isso que falo neste episódio.