O Macaco Elétrico

@PauloSilvestre

Jornalista (preferencialmente digital), educador (preferencialmente digital), trabalhando para tornar o mundo um lugar melhor

  1. Influenciadores precisam ser responsáveis

    6d ago

    Influenciadores precisam ser responsáveis

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 Dois acontecimentos recentes envolvendo grandes influenciadoras chamaram muita atenção. O primeiro foi a prisão de Deolane Bezerra, acusada de ligações com o PCC. O outro foi o beijo que Virgínia Fonseca deu em um macaco logo após encerrar um relacionamento com Vini Jr., jogador de futebol que é vítima costumaz de racistas que o chamam justamente de macaco. Esses casos não são “só fofoca”, porque expõem como influenciadores operam como agentes econômicos e políticos, com impacto real no consumo, endividamento de famílias e percepção de legalidade pela população. Eles evidenciam um modelo de negócios que mistura publicidade, apostas de alto risco e práticas potencialmente criminosas, ancorado na confiança de milhões de seguidores. No episódio do macaco, a polêmica escancara como imagens “inocentes” podem reativar séculos de racismo e desumanização, especialmente quando envolvem uma mulher branca poderosa e um homem negro. Dessa forma, o debate sobre esses casos envolve responsabilidade civil, ética e regulação das plataformas. Influenciadores têm responsabilidade pública porque impactam profundamente uma parcela significativa da sociedade, sobretudo jovens e públicos vulneráveis. Mesmo sem más intenções, precisam responder pelos efeitos do que publicam, reconhecer erros e adotar critérios éticos mínimos no uso da própria visibilidade. Eles são um sintoma de um tempo em que nossas vidas são dirigidas pelas redes sociais, e cresceram em um ecossistema que promove a falsa ideia de que tudo se pode, colhendo os benefícios e fugindo das responsabilidades da exposição. A sociedade precisa abandonar a sua ingenuidade diante dos problemas que isso cria. Neste episódio, eu explico como isso afeta todo mundo, e não apenas seus seguidores.

    9 min
  2. O Google está matando o Google

    May 25

    O Google está matando o Google

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 O Google como você conhece deixará de existir! A empresa, cuja ambição declarada sempre foi “organizar as informações do mundo e torná-las acessíveis e úteis para todas as pessoas”, anunciou, no dia 19, aquilo que define como a maior mudança em seu buscador desde seu lançamento, em 1998. A tradicional página de resposta com links continuará existindo, mas eles perdem cada vez mais espaço para respostas sintéticas criadas pela inteligência artificial. Não se trata de uma mera atualização de um produto que organizou a maneira como procuramos informações na Internet. A novidade, apresentada durante a conferência anual Google I/O, pode justamente redefinir como fazemos isso. Ela também deve impactar decisivamente os modelos de negócios de empresas que dependem do tráfego gerado pelo buscador, desde varejistas até empresas de comunicação. O próprio Google será afetado. O buscador continua sendo sua principal fonte de receitas, vindas de anúncios e links patrocinados, que podem perder relevância no novo formato. Mas o gigante se viu pressionado a fazer a mudança por plataformas concorrentes, como o ChatGPT e o Perplexity, este último um buscador que nasceu em 2022 oferecendo respostas criadas pela IA a partir de buscas que ela mesma faz. Entretanto, talvez mais importante do que esses choques empresariais seja como isso pode alterar profundamente a maneira como não apenas buscamos informações, mas como construímos nosso conhecimento. Com o buscador, fazemos isso sintetizando o que aprendemos a partir de sites relevantes criados com curadoria humana e diversidade de fontes. Com as respostas prontas da IA, cresce a tendência de se confiar no que a máquina apresenta como verdadeiro, mesmo sem transparência. Fora de círculos especializados, há pouco debate sobre o risco que essa mudança representa para o futuro de todos nós. E isso agrava esse quadro, cada vez mais consolidado. Neste episódio, eu detalho essas mudanças e suas consequências. Confira!

    9 min
  3. O que acelera e atravanca a IA

    May 18

    O que acelera e atravanca a IA

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 Depois de três anos de histeria em torno da inteligência artificial generativa, o mercado começa a amadurecer no uso corporativo da tecnologia. O deslumbramento com demonstrações impressionantes e promessas futuristas começa a dar espaço para uma discussão mais pragmática sobre contexto empresarial, qualidade de dados, governança e execução operacional. Entram em cena cobranças por produtividade mensurável e redução de custos em processos de missão crítica. Essa percepção deu o tom ao Sapphire 2026, principal evento da SAP, realizado em Orlando (EUA), nos dias 12 e 13 de maio. A gigante alemã de software tenta se posicionar nessa nova fase como uma companhia de IA sustentada por décadas de experiência em software empresarial. A tese defendida no evento é que uma IA sem contexto corporativo produz respostas rápidas, mas não necessariamente confiáveis. No centro dessa ambição, está a ideia de “empresa autônoma”. Em vez de automação de tarefas isoladas, a SAP descreve organizações em que agentes de IA executam cadeias inteiras de processos, integrando todas as áreas do negócio. E isso acontece sempre sob supervisão humana, mas com muito menos intervenção manual. Para isso, a empresa insiste que o diferencial está menos nos modelos de IA e mais nos dados que os alimentam. Aí reside um problema conhecido, especialmente no Brasil, país com histórico de baixa disciplina na coleta, manutenção e consistência de dados, com sistemas legados, bases duplicadas, informações em silos e pouca governança, o que transforma uma IA sofisticada em um castelo de areia. É inevitável pensar quanto dessa visão é um horizonte plausível, ainda que distante, e quanto permanece como ideal de marketing. Afinal, criar pilotos de IA ficou relativamente simples, mas transformar essas experiências em operações confiáveis, escaláveis e financeiramente sustentáveis ainda não é trivial. Você acha que a sua empresa está pronta para se tornar uma “empresa autônoma”? É sobre isso que falo neste episódio.

    9 min
  4. Redes sociais, o Diabo e todos nós

    May 11

    Redes sociais, o Diabo e todos nós

    Duas décadas são suficientes para abalar ícones e demolir modelos de negócios outrora bem-sucedidos, se não forem bem cuidados. A crise da revista “Runway”, retratada em “O Diabo Veste Prada 2”, demonstra didaticamente como ninguém está imune a isso, não importa seu tamanho ou setor. O filme estreou com força nos cinemas, trazendo novamente Meryl Streep, como a impiedosa editora Miranda Priestly, e a idealista Andy Sachs, vivida por Anne Hathaway. O drama da publicação reflete o do jornalismo e escancara um movimento que vem transformando decisivamente a sociedade. Ao longo de 20 anos, a imprensa perdeu sua posição de farol do debate público e, com isso, a polarização se instalou. Não se trata de se ter menos jornalismo. O grande problema da mídia profissional é que ela se desconectou do seu público, algo grave para qualquer negócio, mas mortal para uma atividade cuja própria existência se justifica pela representatividade social. As redes sociais perceberam o vazio formado e o ocuparam de forma avassaladora. As big techs prenderam o jornalismo em uma gaiola e agora, seguindo apenas seus interesses opacos, enterram uma notícia importante para promover uma grande porcaria engajadora. E a inteligência artificial deve agravar esse quadro. Aí reside a grande crise: engana-se redondamente quem pensa que isso é um problema do jornalismo. Esse poder de vida ou morte das plataformas digitais paira sobre as cabeças de todas as pessoas e todas as empresas. Viver em função do gosto constantemente variável dos algoritmos é um erro fatal. Em um primeiro momento, pode fazer sentido, pois as plataformas digitais dão visibilidade àqueles que se submetem a elas. Mas esse fôlego é curto, e todos são jogados ao mar quando não interessam mais às big techs. Estamos perdendo o controle sobre como as pessoas nos veem, e quanto do que fazemos é visto e compreendido corretamente por elas. Neste episódio, amplio estas ideias: confira!

    9 min
  5. Como algumas frutas podem exaurir os recursos da IA

    May 4

    Como algumas frutas podem exaurir os recursos da IA

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 Pouca gente pensa (ou mesmo sabe) o que se gasta de recursos para que a inteligência artificial funcione. É um erro achar que tudo é grátis ou até barato, mas essa percepção e o marketing irresponsável das empresas que desenvolvem essa tecnologia estão criando uma explosão de usos banais da IA, enquanto a maioria das empresas ainda patina na busca por resultados concretos para seus negócios. Alguns acontecimentos nos últimos dias me fizeram pensar mais sobre isso. Na terça, na palestra de abertura da conferência Gartner Data & Analytics, em São Paulo, Sarah James, diretora da consultoria, disse ter uma amiga “que não faz mais nada sem antes consultar a IA”. Na mesma fala, ela mostrou que, apesar de 80% das empresas investirem em projetos de IA, apenas 20% já obtiveram qualquer retorno deles. Em outro caso, a revista “Piauí” trouxe uma crítica à ocupação das redes sociais por conteúdo de baixa qualidade produzido por IA, destacando a popularização de vídeos com frutas antropomorfizadas e sexualizadas. As big techs não se importam com isso, pois se beneficiam financeiramente com essa prática, que gera muitas visualizações. Vemos pessoas dizendo estar apaixonadas ou fazendo terapia com plataformas de IA, usos inadequados de uma tecnologia que agrada seus usuários além do aceitável. Enquanto isso, um artigo de “The Economist” explicou que a IA enfrenta a sua primeira crise, pois fornecedores não conseguem suprir a demanda explosiva de data centers por processadores, memórias, transformadores, painéis elétricos e turbinas a gás. Isso não é um acidente, e sim uma consequência de um modelo de negócios baseado em atenção. Mas esse desalinhamento entre usos tolos e exigências estratosféricas merece uma avaliação econômica e ética sobre se faz sentido consumir tantos recursos para produzir “AI slop”, o “lixo da IA”. Sem moralismos, será que estamos aproveitando bem uma das infraestruturas mais caras já criadas?

    9 min
  6. Quem decidirá agora o que você compra

    Apr 27

    Quem decidirá agora o que você compra

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 Estamos diante de uma mudança de paradigma no marketing graças à evolução da inteligência artificial. Se as redes sociais consolidaram a entrega de anúncios específicos para as pessoas que têm grande chance de se interessar por eles, a IA começa a colocar em xeque o próprio conceito de campanha e até de funil de vendas. Com os consumidores usando essas plataformas para atividades cada vez mais diversas, mais cedo ou mais tarde, eles as usariam para pesquisar produtos e serviços que quisessem adquirir. Esse momento chegou: segundo estudo da consultoria Bain & Company, publicado em outubro, 58% dos brasileiros já usam a IA para comparar preços, produtos, vendedores e sites, antes de concluir uma compra. Isso muda o marketing profundamente. Cada vez menos adianta construir “uma mensagem incrível” e empurrá-la para “o cliente certo”, se agora ele conversa com uma plataforma que decide, segundo critérios nada transparentes, o que lhe indicará. O desafio de todas as marcas passa a ser, portanto, como se tornar relevantes não apenas para seus clientes, mas também para algoritmos que passam a intermediar o contato entre empresas e pessoas. E isso não é trivial. Esse assunto foi a espinha dorsal do Adobe Summit, um dos maiores eventos globais de tecnologia, criatividade e experiência do cliente, que aconteceu em Las Vegas (EUA) entre os dias 20 e 22 de abril. Conhecida pelos seus programas gráficos, como Photoshop e Illustrator, a Adobe se posiciona agora com soluções para melhorar o desempenho das empresas nesse “novo marketing”. Não é exagero dizer que parte do orçamento de marketing das companhias está sendo gasta para convencer pessoas que cada vez menos tomam as decisões de compra sozinhas. Pouco vale investir milhões se a IA priorizará concorrentes baseada em critérios que suas diretorias sequer compreendem. A questão é como fazer isso certo. É sobre isso que falo neste episódio.

    9 min
  7. Como o medo vende a inteligência artificial

    Apr 18

    Como o medo vende a inteligência artificial

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 A indústria da inteligência artificial descobriu que pode explorar o medo para ampliar seu poder e vender mais. No dia 7 de abril, a Anthropic, criadora da plataforma Claude, anunciou que não liberará a nova versão do seu produto para o público, por considerá‑la “poderosa demais” e que “o mundo não estaria preparado para ela”. Mas apesar dessa negativa, isso pode ser ótimo para seus negócios. Batizada de Claude Mythos Preview, a empresa acredita que ela poderia ser usada para explorar vulnerabilidades de sistemas de computador, o que tem feito melhor do que as IAs já lançadas. Por isso, a Anthropic oferecerá o modelo apenas a um consórcio de cerca de 40 empresas de tecnologia, incluindo Google, Microsoft, Apple e Amazon, algumas delas suas concorrentes. A expectativa é que elas o usem para encontrar e corrigir vulnerabilidades de segurança em seus próprios softwares estratégicos. A decisão foi suficiente para causar alvoroço no mercado e reacender medos em torno das possibilidades da IA. De fato, o lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022, disparou temores nas pessoas que iam desde a substituição em massa de empregos –o que já começa a acontecer– até visões apocalípticas, como indícios de uma possível revolta das máquinas, que levaria ao extermínio da humanidade. Pelo menos nesse último caso, nada aponta que acontecerá, não em um horizonte visível. Mas isso não é trivial e envolve capacidades cognitivas artificiais surpreendentes e um poder computacional assustador, que não param de crescer. Chega a ser contraintuitivo uma empresa anunciar que desenvolveu um produto que, de tão poderoso, representaria um risco à humanidade. Sendo assim, o mais razoável seria simplesmente destruí-lo, o que obviamente não acontecerá. E isso se deve ao fato de que essa ansiedade fabricada é um excelente marketing para algo que acabará chegando ao mercado, depois de legitimado com alguma narrativa redentora. É assim que esse mercado cresce captando bilhões de dólares de investidores. E você, tem medo da IA ou acha isso uma bobagem?

    9 min
  8. IA ajuda e prejudica criadores de conteúdo

    Apr 13

    IA ajuda e prejudica criadores de conteúdo

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 A inteligência artificial está favorecendo a criatividade, enquanto prejudica os criadores. A economia criativa segue crescendo, mas os criadores estão ficando para trás. Essa é a tensão central do relatório “Re|Shaping Policies for Creativity”, publicado recentemente pela Unesco. Com dados de 133 países, ele alerta sobre uma transformação estrutural acelerada pela digitalização e pela IA, que está redesenhando quem ganha, quem perde e quem controla a produção cultural. Nunca foi tão fácil criar, distribuir e acessar conteúdo. O mercado global de bens culturais atingiu US$ 254 bilhões em 2023. Mas isso vem junto com o aumento da precarização do trabalho criativo. O documento destaca que há pouco emprego estável para criadores, os modelos de remuneração são frágeis e as plataformas digitais concentram valor. Com isso, o órgão projeta uma queda de até 24% na receita dos criadores até 2028, impulsionada pela IA e pelo uso não autorizado de conteúdos. O estudo indica que as redes sociais deixaram de ser espaços de interação para impactar a democracia, o bem-estar e a regulação global. Há uma preocupação crescente com saúde mental, governança das plataformas e desinformação. Nesse sentido, é inevitável pensar em como essas mudanças atingem o jornalismo. Quando se fala em perda de receita, desintermediação e captura de valor por plataformas, é exatamente a crise que o setor vive há duas décadas. Isso se agrava com a IA generativa, pois não só as redações perdem o controle de seu produto, como ele ainda passa a ser reprocessado e reapresentado, sem tráfego para a fonte. A cultura é um ativo econômico relevante. Mas o sistema que a sustenta está deslocando valor dos criadores para intermediários tecnológicos. Temos mais produção e circulação, porém menos remuneração. E esse desequilíbrio corrói um pilar de qualquer sociedade. Como resolver isso? É o que falo neste episódio.

    9 min

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Jornalista (preferencialmente digital), educador (preferencialmente digital), trabalhando para tornar o mundo um lugar melhor