O Macaco Elétrico

@PauloSilvestre

Jornalista (preferencialmente digital), educador (preferencialmente digital), trabalhando para tornar o mundo um lugar melhor

  1. 6d ago

    Brinquedos com IA criam novos riscos às crianças

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 Você compraria um ursinho de pelúcia que fala de sadomasoquismo com seus filhos? A inteligência artificial generativa chegou aos brinquedos. A tecnologia viabilizou robôs capazes de interações antes inimagináveis, que criam “companheiros” para crianças que, em alguns aspectos, parecem estar vivos. Mas pais e órgãos de defesa do consumidor de vários países veem com ressalva essa novidade, pois usos descuidados da IA pelos fabricantes estão trazendo novos riscos para dentro de casa. Um caso emblemático é o urso de pelúcia inteligente Kumma. O grupo de defesa do consumidor americano PIRG Education Fund identificou que o brinquedo, vendido por US$ 99 nos EUA, conversava com as crianças sobre usos de sacos plásticos, fósforos, facas e assuntos sexuais. Depois disso, ele deixou de ser vendido. No Brasil, a Secretaria Nacional de Direitos Digitais divulgou, no início de julho, uma nota técnica em que descreve seus testes com seis “smart toys” disponíveis no mercado, incluindo os riscos de cada um deles. A publicação não tem força de lei, não cria obrigações ou altera a legislação existente, nem proíbe a venda de produtos. Mas ela pode produzir efeitos importantes. Como foi elaborada confrontando esses produtos com leis como o ECA Digital, a Lei Geral de Proteção de Dados e o Código de Defesa do Consumidor, a nota técnica serve como fundamento para a ação de órgãos públicos e sinaliza ao mercado qual é a interpretação do governo sobre o tema, o que pode levar fabricantes e varejistas a revisar produtos, contratos e políticas. A iniciativa também abre um precedente jurídico importante sobre algo menos falado do que deveria, ampliando a discussão dos riscos do mundo digital para além de redes sociais, plataformas de IA e aplicativos. Vivemos cercados de dispositivos físicos conectados, que coletam nossas informações e impactam nossas vidas cada vez mais. E, sobre isso, a sociedade precisa estar muito mais atenta. Detalho tudo isso neste episódio.

    Brinquedos com IA criam novos riscos às crianças
  2. Jul 5

    Abusar da IA prejudica o seu cérebro

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 Para o bem do nosso cérebro, já passou da hora de começarmos a usar bem a inteligência artificial, fugindo do hype. Muito se fala sobre o impacto da IA no nosso desenvolvimento, mas me deparei com outra perspectiva sobre o tema há alguns dias, durante uma conversa sobre ganhos e perdas do home office. Algumas coisas são óbvias, como ganhar na qualidade de vida e perder na experiência das trocas contínuas com os colegas. Foi quando me perguntaram se a IA agravaria ainda mais as perdas. E isso me fez pensar. Ao trocar o escritório pelo quarto de casa, deixamos de ter conversas inesperadas, conflitos, negociações e decisões compartilhadas, que alimentam um processo contínuo de aprendizagem. Mas o trabalho solitário ainda exige a fricção intelectual das tarefas, que preserva a ampliação de capacidades neurológicas, como neuroplasticidade, funções executivas, memória de trabalho e reconhecimento de padrões. Um uso inadequado da IA pode, sim, comprometer isso. Por “uso inadequado da IA”, eu me refiro a essa tecnologia assumir, de maneira sistemática, as partes mais difíceis de nossas atividades. Isso pode reduzir justamente os estímulos que promovem os maiores ganhos cerebrais. E, aqui, quero deixar claro que não sou contra o home office ou a IA, mas me preocupo com o fato de “abusos” de ambos poderem efetivamente nos atrapalhar. Especialistas não encontram soluções porque decoraram respostas, e sim porque enfrentaram centenas de situações difíceis ao longo da carreira. Cada problema resolvido ampliou seu repertório mental. Infelizmente, observo, como pesquisador e consultor, muito do uso inadequado da IA. Enquanto isso, proliferam artigos, debates e cursos que enaltecem seus ganhos, sem triscar nos seus riscos, como se ela fosse uma panaceia. Essa combinação é perigosíssima, e a sociedade precisa lidar com isso com urgência. Mas como fazer um bom uso da IA? É disso que falo neste episódio.

    Abusar da IA prejudica o seu cérebro
  3. Jun 29

    Quem manda nas notícias do seu feed

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 Você acha que é você quem manda nas notícias que aparecem no seu feed? Quando o uso das redes sociais explodiu, ouvia-se muito que as pessoas não precisariam mais da imprensa, pois teriam a liberdade para escolher como se informar, indo direto às fontes dos fatos. Nas últimas duas décadas, essas plataformas vêm provocando mesmo grandes baixas na audiência do jornalismo, mas é um erro achar que elas nos oferecem tal liberdade. No jornalismo, uma notícia nasce com um repórter investigando o fato, um editor analisando sua importância e o veículo o publicando, seguindo critérios transparentes e conhecidos. Com as redes sociais, existem influenciadores, sistemas de recomendação e inteligências artificiais entre a informação e os usuários. Eles acreditam estar acessando as “fontes dos fatos”, mas acabam sendo iludidos por sistemas que filtram, priorizam e, cada vez mais, reescrevem as informações que consomem como verdades inquestionáveis. Não há preocupação com a veracidade ou com os interesses dos usuários, apenas a busca pelo engajamento a qualquer custo. Essa ilusão confortável funciona. Segundo o Digital News Report 2026, publicado no dia 16 pelo Instituto Reuters e pela Universidade de Oxford (Reino Unido), pela primeira vez as pessoas se informaram mais pelas redes sociais que pela imprensa. Na média de quase 100 mil pessoas analisadas em 48 países (incluindo o Brasil), 54% usam essas plataformas para se informar, contra 51% dos que usam a imprensa. Devemos tomar cuidado com a leitura superficial de que “as redes sociais venceram o jornalismo”, como tenho visto. O relatório mostra um cenário muito mais complexo, que ele chamou de “plataformização” da notícia. O risco disso não é que elas digam às pessoas como pensar, e sim que indiquem sutilmente sobre o que pensar. Isso influencia o debate público antes mesmo que qualquer opinião seja formada. Neste episódio, explico como isso impacta decisivamente o seu cotidiano.

    Quem manda nas notícias do seu feed
  4. Jun 22

    Bloqueio da IA revela a nossa vulnerabilidade

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 O bloqueio dos melhores modelos de IA da Anthropic expõe o risco da nossa dependência tecnológica. No dia 12 de junho, os usuários da plataforma de inteligência artificial Claude descobriram que não podiam mais usar o Fable 5 e o Mythos 5. Tudo porque o governo americano ordenou que eles fossem bloqueados fora dos EUA e para estrangeiros em seu território, alegando razões de segurança nacional. Como a empresa disse que não conseguiria fazer essa segregação, cortou o acesso para todos. Não se trata de um detalhe técnico. O movimento oferece uma prévia de como funcionará uma nova forma de dependência geopolítica. Ao longo da história, países disputaram influência controlando territórios, rotas comerciais e petróleo, ou impondo sua capacidade militar. Agora, o poder passa cada vez mais pelo domínio das tecnologias que definem a economia, a informação e a inovação. Estados Unidos e China dão as cartas nesse novo jogo. Os europeus correm bem atrás e outras partes do mundo nem estão na mesma volta. E como o Brasil bebe na fonte digital americana, uma decisão em Washington determina quais ferramentas estarão disponíveis para nossos cidadãos, empresas, pesquisadores e até governo. A preocupação não é teórica. Dois dias depois, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, citou o caso da Anthropic como exemplo dos riscos de concentrar o uso da IA em poucas empresas. Segundo ele, governos e organizações devem diversificar suas fontes tecnológicas para reduzir a dependência. Esse episódio embute muitos pontos obscuros, inclusive o bloqueio de modelos só da Anthropic, que está processando o governo americano. Temos que entender que a vassalagem tecnológica não é percebida quando tudo funciona, mas surge, como um tapa na cara, quando outro país decide, seguindo apenas seus interesses, quais tecnologias podemos ou não usar, o que impacta decisivamente nosso cotidiano. Tem como se proteger disso? Falo disso e muito mais neste episódio.

    Bloqueio da IA revela a nossa vulnerabilidade
  5. Jun 15

    IA muda como jovens escolhem suas carreiras

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 A inteligência artificial já entra na conta de jovens que comparam o custo da universidade com trajetórias técnicas mais curtas e pragmáticas. Uma reportagem recente do The New York Times mostrou como adolescentes que vivem em pleno Vale do Silício estão deixando de entrar na faculdade para fazer cursos profissionalizantes na área de construção civil. Esses jovens observam que a IA está eliminando postos de trabalho para quem acaba de se formar e, por isso, estão buscando formações mais simples e rápidas que lhes garantam um emprego com salário de pelo menos US$ 200 mil anuais. O senso comum apontaria para o oposto disso na Meca da inovação tecnológica, onde são desenvolvidas algumas das melhores plataformas de IA do mundo. Mas as demissões aos milhares, especialmente na área de TI (o que aumenta essa ironia), estão pesando na hora de escolher uma profissão. Além disso, a dívida estudantil universitária sempre assombrou os jovens de um país sem universidades públicas gratuitas e com um financiamento estudantil muito mais caro que o brasileiro FIES. Pelo menos por enquanto, ainda não se observa esse movimento entre os brasileiros. Por aqui, fazer faculdade continua sendo um importante fator de mobilidade social. Mas a IA já está mudando o ensino nas escolas técnicas e universidades do país. Assim como acontece com as redes sociais, nossos jovens já usam intensamente a inteligência artificial, mas fazem isso, via de regra, com uma educação digital deficiente. Os resultados são um aproveitamento limitado de seus recursos e um alto risco de comprometimento de seu aprendizado. Essas deficiências abrem oportunidades interessantes para o reposicionamento e modernização do ensino brasileiro. Não se trata de submissão a uma tecnologia, mas de aproveitar a disrupção social e cognitiva que ela está promovendo no cotidiano. A escolha de carreira sempre foi complexa, mas agora está ainda mais desafiadora. Neste episódio, detalho pontos que podem ajudar nisso.

    IA muda como jovens escolhem suas carreiras
  6. Jun 7

    Brasil está desmontando a regra da Internet

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 Atenção: a sua Internet pode mudar! Há 31 anos, uma regra que quase nenhum brasileiro conhece determina quanto custa sua conexão à Internet, quais empresas podem competir para oferecê-la e até o ritmo com que novos serviços digitais chegam ao mercado. Esse modelo está sendo silenciosamente desmontado e poucos estão percebendo a dimensão da mudança. Trata-se da chamada Norma 4. Criada em 1995, quando a Grande Rede ainda engatinhava no Brasil, esse dispositivo foi visionário na época. Ele separa os serviços da Internet dos de telecomunicações, e surgiu junto com o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), dois anos antes da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Agora, esta última quer que a regra deixe de valer a partir de janeiro de 2027. Parece um detalhe jurídico, mas a Norma 4 viabilizou um dos ambientes digitais mais dinâmicos do mundo, que permite avanços que vão desde a grande inclusão digital de pessoas e de empresas a sistemas online refinados, como o Pix. E, apesar de a Internet ser muito diferente do que era nos seus primórdios, essa discussão pode definir suas regras, a capacidade de inovação e os custos de agora em diante. Por entenderem essa movimentação como um risco estrutural, no dia 22 de maio, entidades da sociedade civil, da comunidade técnica e do ecossistema digital ingressaram na Justiça Federal para tentar barrar a revogação da norma. Elas argumentam que a Anatel extrapolou suas atribuições ao eliminar uma regra que não diz respeito apenas às telecomunicações, e pedem a suspensão imediata dos efeitos da decisão até que o tema seja amplamente discutido e esclarecido. O questionamento que se impõe é se o Brasil está se desfazendo de um modelo que envelheceu ou se está trocando uma estrutura que funciona bem por um salto no escuro. O grande risco é essa troca impactar o bolso do usuário e a própria qualidade da Internet que usamos todos os dias. Neste episódio, eu detalho como isso pode impactar o seu cotidiano pessoal e profissional.

    Brasil está desmontando a regra da Internet
  7. Jun 1

    Influenciadores precisam ser responsáveis

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 Dois acontecimentos recentes envolvendo grandes influenciadoras chamaram muita atenção. O primeiro foi a prisão de Deolane Bezerra, acusada de ligações com o PCC. O outro foi o beijo que Virgínia Fonseca deu em um macaco logo após encerrar um relacionamento com Vini Jr., jogador de futebol que é vítima costumaz de racistas que o chamam justamente de macaco. Esses casos não são “só fofoca”, porque expõem como influenciadores operam como agentes econômicos e políticos, com impacto real no consumo, endividamento de famílias e percepção de legalidade pela população. Eles evidenciam um modelo de negócios que mistura publicidade, apostas de alto risco e práticas potencialmente criminosas, ancorado na confiança de milhões de seguidores. No episódio do macaco, a polêmica escancara como imagens “inocentes” podem reativar séculos de racismo e desumanização, especialmente quando envolvem uma mulher branca poderosa e um homem negro. Dessa forma, o debate sobre esses casos envolve responsabilidade civil, ética e regulação das plataformas. Influenciadores têm responsabilidade pública porque impactam profundamente uma parcela significativa da sociedade, sobretudo jovens e públicos vulneráveis. Mesmo sem más intenções, precisam responder pelos efeitos do que publicam, reconhecer erros e adotar critérios éticos mínimos no uso da própria visibilidade. Eles são um sintoma de um tempo em que nossas vidas são dirigidas pelas redes sociais, e cresceram em um ecossistema que promove a falsa ideia de que tudo se pode, colhendo os benefícios e fugindo das responsabilidades da exposição. A sociedade precisa abandonar a sua ingenuidade diante dos problemas que isso cria. Neste episódio, eu explico como isso afeta todo mundo, e não apenas seus seguidores.

    Influenciadores precisam ser responsáveis
  8. May 25

    O Google está matando o Google

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 O Google como você conhece deixará de existir! A empresa, cuja ambição declarada sempre foi “organizar as informações do mundo e torná-las acessíveis e úteis para todas as pessoas”, anunciou, no dia 19, aquilo que define como a maior mudança em seu buscador desde seu lançamento, em 1998. A tradicional página de resposta com links continuará existindo, mas eles perdem cada vez mais espaço para respostas sintéticas criadas pela inteligência artificial. Não se trata de uma mera atualização de um produto que organizou a maneira como procuramos informações na Internet. A novidade, apresentada durante a conferência anual Google I/O, pode justamente redefinir como fazemos isso. Ela também deve impactar decisivamente os modelos de negócios de empresas que dependem do tráfego gerado pelo buscador, desde varejistas até empresas de comunicação. O próprio Google será afetado. O buscador continua sendo sua principal fonte de receitas, vindas de anúncios e links patrocinados, que podem perder relevância no novo formato. Mas o gigante se viu pressionado a fazer a mudança por plataformas concorrentes, como o ChatGPT e o Perplexity, este último um buscador que nasceu em 2022 oferecendo respostas criadas pela IA a partir de buscas que ela mesma faz. Entretanto, talvez mais importante do que esses choques empresariais seja como isso pode alterar profundamente a maneira como não apenas buscamos informações, mas como construímos nosso conhecimento. Com o buscador, fazemos isso sintetizando o que aprendemos a partir de sites relevantes criados com curadoria humana e diversidade de fontes. Com as respostas prontas da IA, cresce a tendência de se confiar no que a máquina apresenta como verdadeiro, mesmo sem transparência. Fora de círculos especializados, há pouco debate sobre o risco que essa mudança representa para o futuro de todos nós. E isso agrava esse quadro, cada vez mais consolidado. Neste episódio, eu detalho essas mudanças e suas consequências. Confira!

    O Google está matando o Google

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