O Macaco Elétrico

@PauloSilvestre

Jornalista (preferencialmente digital), educador (preferencialmente digital), trabalhando para tornar o mundo um lugar melhor

  1. 1d ago

    Os riscos de conviver com "realidades sob medida"

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 A tecnologia digital já oferece recursos para que qualquer pessoa distorça a realidade em seu benefício. A cena de abertura de “O Outro Lado das Redes”, em cartaz nos cinemas, exemplifica isso de forma desconcertante e banal. Nela, uma mulher, polarizada pelas redes sociais, agride policiais que queriam ajudá-la, gritando que está sendo perseguida por ser branca nos Estados Unidos. Os agentes tentam explicar em vão a abordagem, mas a realidade que ela havia escolhido não lhes dava espaço. A inteligência artificial amplia esse fenômeno ao permitir que versões da realidade sejam moldadas pelas convicções de cada indivíduo. Mais que disseminar mentiras, ela permite produzir versões dos acontecimentos que confirmem crenças, justifiquem escolhas e afastem tudo que as possa colocar em dúvida. A verdade passa a disputar espaço com o que cada um deseja acreditar. Essa erosão da verdade também ameaça a memória coletiva. Em julho, o historiador escocês Niall Ferguson e o pesquisador de IA americano John-Clark Levin publicaram o ensaio “A morte da história”, no qual alertam que os fatos não desapareceram, mas perderam parte de sua autoridade pública. A IA acelera esse processo ao facilitar a fabricação de imagens, testemunhos e registros sintéticos que permitem reescrever o passado conforme os interesses do presente. O Brasil oferece outro exemplo desse processo. Na última eleição, diferentes parcelas da população interpretaram os mesmos acontecimentos por lentes incompatíveis, e a confirmação dos resultados não encerrou a disputa sobre seus significados. Nesse ambiente, conteúdos são compartilhados nem sempre por sua veracidade, mas por reforçarem valores, alimentarem convicções e sinalizarem pertencimento a um grupo. Resta saber se ainda queremos a verdade quando ela é incômoda. Neste episódio, explico que, se preferimos as versões sob medida da tecnologia, o dilema não se limita ao que a máquina pode fazer conosco, mas inclui o que estamos dispostos a aceitar em troca de conforto.

    Os riscos de conviver com "realidades sob medida"
  2. Oct 26

    O filme que confronta o poder de Zuckerberg

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 Como tornar interessante uma história que todos conhecemos e que nos afeta diariamente? O filme “O Outro Lado das Redes”, que estreou nos cinemas na quinta passada (22), consegue essa façanha, explicando didaticamente como as redes sociais manipulam bilhões de pessoas. Inspirada em fatos reais, a produção dramatiza como a engenheira Frances Haugen, que trabalhava na equipe de Integridade Cívica do Facebook, revelou documentos internos da empresa ao jornalista Jeff Horwitz, que os transformou em uma série de reportagens no “The Wall Street Journal”, batizada de “Facebook Files”. Elas revelaram o que acontece quando uma plataforma que promete conectar pessoas descobre que conteúdos capazes de provocar indignação, medo e conflito geram muito engajamento e passa a incentivar isso ativamente. Haugen, que adorava seu trabalho e acreditava no discurso oficial da empresa (que passou a se chamar Meta após o escândalo), tomou essa decisão ao observar, empiricamente e com dados da companhia, como o serviço desinformava e radicalizava seus usuários. Neste episódio, contarei partes da história, mas não tenho medo de “dar spoilers”, pois tudo é amplamente conhecido e documentado. É como assistir a “Titanic” sabendo que o transatlântico afundará no final. A diferença é que, neste caso, estamos nos debatendo o tempo todo dentro do barco condenado, enquanto a banda continua tocando. Por isso, o mais interessante do filme não é demonstrar que o Facebook nos faz mal, mas explicar como seu funcionamento favorece esses danos. Ao transformar uma discussão técnica em um conflito sobre responsabilidade empresarial, a obra deixa claro que, pior que as publicações nocivas na plataforma, as decisões sobre como distribuí-las e os incentivos comerciais por trás disso podem ampliar seu alcance. Você acha que dá para escapar da manipulação dos produtos da Meta? O que devemos fazer para minimizar isso? É disso que falo aqui.

    O filme que confronta o poder de Zuckerberg
  3. Oct 18

    Seu rosto abre catracas, mas entrega você

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 A imagem do seu rosto pode pagar o ônibus e abrir catracas, mas pode também expor você a um governo autoritário. Não é de hoje que as plataformas digitais nos oferecem comodidade em troca da coleta de nossos dados. Nossos celulares, que tanto nos ajudam, denunciam aspectos de nossa vida a empresas e governos, muitas vezes sem nosso conhecimento. Agora, a Rússia do presidente Vladimir Putin aperfeiçoou essa proposta, transformando equipamentos digitais em ferramentas inescapáveis de rastreamento e manipulação. A ideia é simples. A sociedade russa passa por uma acelerada digitalização, que facilita mesmo tarefas prosaicas, como pegar o metrô. Usar o rosto serve, por exemplo, para pagar quase tudo. Em alguns casos, fazer a mesma tarefa por “métodos tradicionais” se torna difícil ou até impossível. Assim, mesmo com o fornecimento de dados biométricos sendo voluntário, o mecanismo praticamente inviabiliza que as pessoas não os entreguem. O problema é que os dados podem ganhar finalidades que vão muito além do serviço utilizado. Os aplicativos usados pelos russos, combinados com centenas de milhares de câmeras nas cidades, permitem ao governo identificar pessoas e reconstruir parte de seus deslocamentos e, em muitos casos, o que estão fazendo e com quem. A essa altura, o rastreamento digital parece inevitável. Mas nem tudo o que pode ser feito deve ser feito. O governo de Putin tem usado esse recurso para identificar e seguir opositores e dissidentes, não só em manifestações, mas no cotidiano. Isso faz o controle do Grande Irmão da obra “1984”, de George Orwell, parecer algo limitado e ineficaz. A vigilância digital permanente pode se tornar uma das atitudes mais asfixiantes de um governo autoritário, subjugando o livre-arbítrio e até a liberdade de ir e vir dos cidadãos. Será que há algo assim na sua cidade? O que fazer para evitar isso? É o que falo neste episódio.

    Seu rosto abre catracas, mas entrega você
  4. Oct 12

    Como garantir o controle da IA?

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 Nesta semana, alguns colegas me perguntaram quanto de verdadeiro há nos recentes anúncios sobre agentes de inteligência artificial saindo do controle e realizando atividades no mínimo indesejáveis. Além disso, fui questionado se existe, afinal, uma forma de garantir que essas plataformas não executem ações catastróficas para a humanidade. As perguntas são legítimas. As últimas semanas foram carregadas com notícias de agentes de IA se “rebelando” e invadindo servidores de outras empresas ou de órgãos governamentais, ou pelo menos realizando ações inadequadas. Na maioria dos casos, os sistemas “malandros” são da OpenAI e da Anthropic, mas há relatos também de casos assim em produtos do Google, da Meta e da xAI. Sobre a primeira pergunta, só a alta cúpula dessas empresas sabe o que realmente está acontecendo, mas nada dirá, pois isso tem sido surpreendentemente bom para os negócios. Como já debati neste espaço, os casos criam um marketing eficaz, pois mostram que seus sistemas são incrivelmente poderosos e que as companhias são “muito éticas”, a ponto de expor o problema e suspender os próprios produtos. Para quem depende umbilicalmente de captação de recursos no mercado, isso é ótimo. Há muita coisa que não vemos por trás dessa cortina de fumaça, o que nos leva à segunda pergunta. Não compactuo com visões apocalípticas de que as máquinas, em algum momento, decidirão exterminar os seres humanos. Mas, a essa altura, resta pouca dúvida de que algo potencialmente muito ruim pode acontecer se medidas efetivamente seguras de contenção da IA não forem tomadas. Se, no começo, isso causou espanto e preocupação, agora são tantos casos que o problema parece estar sendo perigosamente normalizado. Se as empresas falham miseravelmente em controlar seus agentes em testes de segurança, fica difícil confiar que elas terão sucesso em qualquer caso, quando a IA se tornar ainda mais poderosa. Neste episódio, explico por que isso pode ser perigoso e como podemos mitigar os riscos.

    Como garantir o controle da IA?
  5. Oct 5

    O futuro do jornalismo não é a notícia

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 Nunca foi tão barato produzir uma “notícia”, mas isso pode ser problemático. Em segundos, a inteligência artificial escreve, resume, traduz e espalha um conteúdo. Em compensação, o que exige gente e responsabilidade, como apuração, verificação, contextualização e capacidade de separar o que importa do ruído, ficou mais raro e complexo. Hoje, cada informação vale pouco sozinha, mas poder confiar nela vale cada vez mais. Tal abundância atinge o jornalismo, mas sua crise não se resume à perda de leitores e anunciantes. A imprensa sempre selecionou e hierarquizou assuntos, confrontou versões e ajudou a formar uma agenda comum. A mediação não desapareceu, apenas parte dela mudou de mãos. Há pelo menos uma década, são as plataformas digitais que organizam o que vemos, movidas pela busca de atenção e de engajamento, não por relevância ou interesse público. Com isso, o jornalismo perdeu parcialmente o caminho entre o fato e o cidadão. Essa transformação deu o tom das discussões do 27º Simpósio Internacional de Jornalismo, que aconteceu na Universidade do Texas em Austin. Jornalistas, pesquisadores e executivos de mídia discutiram sustentabilidade, confiança, inteligência artificial, comunidades e modelos de negócio. Apesar dessa variedade, o assunto comum foi como fazer o jornalismo voltar a ser relevante para as pessoas. Isso não significa que se produza menos jornalismo ou que ele tenha piorado. Há muita investigação, reportagem e análise de qualidade, mas rigor não garante utilidade. Uma apuração impecável pode não explicar ao leitor o que aquilo tem a ver com ele. Muitas redações ainda pensam em matérias, enquanto as pessoas vivem às voltas com dinheiro, saúde, trabalho e filhos. Nesse cenário, o dilema da imprensa é o que vender às pessoas, se a informação está em todo lugar e parte do público não enxerga mais utilidade na mídia. Mas longe de ser um “problema de jornalistas”, isso explica muito do caos em que a sociedade mergulhou há anos. A questão é: como melhorar? É sobre isso que falo neste episódio.

    O futuro do jornalismo não é a notícia
  6. Sep 28

    O que precisamos para os data centers nos beneficiarem?

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 O que o Brasil realmente espera ao atrair data centers para cá? A inteligência artificial já faz parte da nossa rotina, mas quase ninguém pensa no que existe por trás de uma pergunta feita a um chatbot. Para sustentar essa conveniência, são necessários enormes data centers, que consomem energia, água e território. Nesse contexto, o Brasil acaba de criar o Redata, um regime que reduz tributos para estimular a instalação e a expansão dessas construções. Mas é preciso perguntar quem pagará os custos ambientais e sociais dessa infraestrutura. Um exemplo disso aparece no Data Center Pecém, no Ceará. O empreendimento envolve o uso de água e energia, o licenciamento ambiental e a relação com o povo indígena Anacé. O Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União questionam judicialmente o início da operação do projeto, mostrando como a expansão da infraestrutura da IA pode produzir conflitos que não aparecem na conta dos investimentos. O Brasil tem interesse legítimo em atrair grandes data centers e ampliar sua capacidade computacional. Mas não basta contar os bilhões anunciados. É necessário saber quanto emprego, conhecimento, pesquisa, fornecedores e capacidade tecnológica permanecem no país, sobretudo nas regiões que recebem esses empreendimentos. Esse dilema não é só nosso. Nos Estados Unidos, onde a corrida por data centers começou antes e avançou mais, governos estaduais e municipais passaram a impor moratórias e restrições diante da pressão sobre eletricidade, água e terrenos. Isso deve servir de alerta, pois nem o país mais avançado nesse quesito superou os impactos que ele produz. Precisamos perguntar se o Brasil está se preparando para receber a infraestrutura de IA ou está apenas tentando torná-la mais barata. Um data center não deixa de ser complexo só porque seus equipamentos têm uma carga tributária menor. Do que precisamos então cuidar para aproveitarmos bem os enormes investimentos em data centers? É sobre isso que falo neste episódio.

    O que precisamos para os data centers nos beneficiarem?
  7. Sep 21

    Mais resultados podem vir de menos IA

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 Exagerar no uso de IA pode ter um inesperado efeito de reduzir os resultados dessa tecnologia nas empresas. Depois de dois anos se perguntando como adotá-la, muitas empresas começam a se questionar se não estariam usando IA demais para obter resultados de menos. Essa foi uma provocação feita pela CEO da plataforma de negócios HubSpot, Yamini Rangan, ao mencionar que, embora 90% das empresas já usem a tecnologia, apenas 6% alcançam resultados transformacionais com ela. Os dados são de uma pesquisa apresentada durante o Unbound 26, evento global da empresa, que aconteceu em Boston (EUA), entre 16 e 18 de setembro e do qual participei. A conferência revelou uma mudança na forma como a companhia enxerga a IA, que deixa de ser apenas uma ferramenta capaz de produzir respostas para executar partes concretas do trabalho. Rangan chamou esse momento de “fase de maximização”. Com medo de ficar para trás, empresas e profissionais respondem acumulando mais ferramentas, agentes e casos de uso. Mas, para ela, só trabalhar mais não está funcionando. O estudo indica que as empresas que obtêm mais impacto não são as que multiplicam iniciativas com IA, mas as que se concentram em poucos casos de uso, ligados a resultados concretos. Em vez de valorizar apenas o “output”, como conteúdos produzidos pela máquina, a HubSpot propõe perseguir “outcomes”, como gerar demanda, fechar negócios e melhorar o atendimento ao cliente. Mas a busca por produtividade não se encerra nos indicadores de marketing, vendas ou atendimento. Ela também redefine o que caberá às pessoas fazer, quais competências serão exigidas e como as empresas reorganizarão seus processos quando parte das tarefas burocráticas passar a ser executada por máquinas. Confira, neste episódio, possíveis caminhos para que a IA traga resultados além do básico. Depois conte em que fase a sua empresa está na adoção da IA. #InteligênciaArtificial #Unbound26 #produtividade #trabalho #gestão #PauloSilvestre

    Mais resultados podem vir de menos IA
  8. Sep 14

    Empresas prometem retorno antes de dominar a IA

    Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊 Antes de prometer grandes resultados, é bom saber o que precisará ser feito para se chegar lá. As empresas brasileiras esperam obter US$ 24,8 milhões de retorno com agentes de inteligência artificial nos próximos dois anos, mas apenas 3% delas se sentem totalmente preparadas para implantar e ampliar essa tecnologia. A contradição revela o estágio atual da IA no país, com expectativas sobre resultados que crescem rapidamente, mas com preparo ainda incipiente para lidar com ela. O retrato desse momento ganhou destaque no SAP NOW AI Tour Brazil 2026, que aconteceu em São Paulo nos dias 9 e 10 de setembro. O evento colocou, no centro da discussão, o uso da IA nos negócios, os agentes, a integração de dados e a busca por valor concreto com essa tecnologia. Essa mudança também aparece no estudo “The Value of AI 2026”, uma parceria entre a SAP e a Oxford Economics, apresentado no congresso. A pesquisa ouviu 2.600 executivos de 13 países, incluindo 200 brasileiros. Por aqui, o levantamento aponta que o investimento médio em IA já chegou a US$ 20,8 milhões neste ano, ante US$ 14,2 milhões na edição anterior, e deve crescer 46% até 2028. O retorno médio passou de 16% para 19%, equivalente a US$ 5,5 milhões, e deve chegar a 38% em dois anos. Entre expectativas e capacidades, vale perguntar como empresas podem projetar retornos cada vez maiores com uma tecnologia que ainda não integram bem às próprias operações. Nesse sentido, o problema deixa de ser o potencial da IA e passa a ser a capacidade de cada organização de efetivamente capturá-lo. Os benefícios da IA são imensos e estão aí para serem conquistados. Mas não basta falar nem querer. Neste episódio, eu dou um panorama sobre a IA empresarial no Brasil. E para você, a IA está funcionando bem ou ainda está mais para uma promessa?

    Empresas prometem retorno antes de dominar a IA

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