Laíz Latenek não tem dúvida em afirmar que tudo o que está vivo está em movimento. A questão é que nem sempre a gente percebe. Às vezes, para enxergar um movimento, é preciso se mover também. Sair do lugar de quem observa e participar daquilo que está acontecendo. Essa ideia ajuda a entender uma trajetória que começou na dança do ventre, aos 11 anos, e passou pelas artes visuais, pela ilustração, pelo circo, pelo flamenco e por diferentes experiências com o corpo. Durante anos, Laíz investigou movimentos, formas e limites. Mas a busca foi mudando de direção: o que começou como dança se tornou uma investigação sobre a vida que acontece dentro do corpo — e sobre o que pode emergir quando damos espaço a essa experiência. Existe uma frase que ela gosta de usar: o mapa não é o território. Passamos boa parte da vida tentando construir mapas para explicar quem somos e o que sentimos. Mas será que é possível compreender tudo olhando de fora? Ou algumas respostas só aparecem quando entramos no território, sem saber exatamente o que vamos encontrar? Foi nesse caminho que o trabalho com mulheres ganhou força. Desde 2012, Laíz passou a acolher questões ligadas à sexualidade, ao corpo e à experiência feminina. Em 2013, tornou-se doula, acompanhando mulheres durante a gestação e o parto. A própria maternidade também deixou marcas nessa investigação. Não se tratava mais apenas de aprender movimentos, mas de criar condições para que cada mulher pudesse reconhecer os seus. Desse percurso nasceu o Ateliê Pélvico. O nome aponta para a pelve, mas a proposta vai além de uma região do corpo. Para ela, ali existe algo de origem, de começo, de pulsação e de criação. O corpo não é uma máquina que precisa ser corrigida, nem um objeto que carregamos por aí. É um território vivo, cheio de histórias, rigidezes, desejos e possibilidades. E, às vezes, o caminho não é analisar tudo isso, mas dançar com o que aparece. Mesmo quando existe uma estrutura, cada encontro é original. Não há roteiro capaz de antecipar tudo o que vai surgir. Laíz gosta dessa zona de risco, em que não há garantias e a experiência precisa ser construída no presente. Talvez por isso se defina como uma artista criativa do movimento e diga que é do pós-conceito, não do preconceito. No fundo, estamos falando de algo que pode mudar a maneira como nos relacionamos conosco mesmos: e se o corpo não fosse apenas aquilo que vemos no espelho, mas também um lugar de conhecimento? E se, em vez de tentar controlar cada passo, aprendêssemos a escutar o que está pedindo passagem? Neste papo com o podcast "45 do Primeiro Tempo", Laíz contou sua história, trouxe seu olhar sobre o momento que estamos atravessando e foi categórica: “Nós somos o palco da vida.” Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices