Uma palavra no seu caminho

Luís M. Figueiredo Rodrigues

Um podcast que marca o ritmo da vida, através da liturgia dominical.

  1. 1d ago

    XXVII Domingo do Tempo Comum - Homilia

    Ao ouvirmos a Palavra de Deus, a imagem da vinha fica na nossa memória. Isaías canta o cuidado de um amigo pela sua vinha. Apesar de todos os cuidados, ela produz uvas azedas. E o salmo torna a interpelação pessoal: «A vinha do Senhor é a casa de Israel». Somos nós. Nós somos a vinha do Senhor. No Evangelho, Jesus fala de uma vinha arrendada. Quando o proprietário envia os seus servos para receber os frutos, os vinhateiros espancam uns e matam outros. Envia então o filho, esperando que o respeitem. Mas também o matam, para ficarem com a herança. Reconhecemos aqui a história de Deus com o seu povo: acompanhou Israel pelos patriarcas e pelos profetas, ensinou-o a discernir a sua vontade através da sabedoria e, na plenitude dos tempos, enviou o próprio Filho. Rejeitado e morto, mas ressuscitado, Jesus tornou-se a pedra angular. Dar fruto implica permanecer unido a Ele e deixar-se guiar por Ele. Que frutos somos chamados a produzir? Primeiro, reconheçamos que a vinha não é nossa. A Igreja não é nossa propriedade, nem Deus está sob o nosso domínio. Tudo começa no dom. Aquilo que somos e fazemos é resposta ao amor de Deus, que nos oferece a possibilidade de viver em comunhão com Ele, através de Jesus Cristo. Isaías fala de justiça. Jesus mostra-nos os sinais do Reino. Recordemos João Batista, na prisão, a mandar perguntar: «És Tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?». Jesus responde apontando para o que acontece: os cegos veem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a Boa Nova. São estes os sinais de que o reinado de Deus está presente. Produzir frutos é viver esta lógica: sabermo-nos amados por Deus e organizar a vida a partir desse amor. Pela graça, aprendemos a fazer o bem. Santo Agostinho falaria do Mestre interior que nos ensina. Esse amor torna-se justiça e misericórdia: cuidar dos outros, nas necessidades corporais e espirituais; restituir a dignidade; oferecer a quem se desorientou um lugar para recomeçar. Que, apesar dos seus erros e das suas falhas, encontre entre nós não a condenação, mas o reconhecimento da sua dignidade e a ajuda para uma vida plena e pacífica. «A paz esteja convosco», diz Jesus ressuscitado. E Leão XIV insiste na paz e na necessidade de desarmar para a construir. Mas a paz não é apenas ausência de conflito. É harmonia com Deus, com os outros e connosco mesmos. Como cuidamos da nossa relação com Deus? Como tratamos os outros? Que fazemos para que as nossas relações sejam lugares de paz? E temos coragem de anunciar o Reino? Ou pensamos que isso é tarefa do padre e, quando muito, das irmãs? Não somos espectadores passivos nem consumidores de serviços religiosos. Pelo batismo, todos recebemos a missão de anunciar, cada um segundo o seu carisma, a sua vocação e o seu estado de vida. Anunciar não exige ostentação. Acontece no modo como agimos, trabalhamos e nos relacionamos: com os amigos, na família e até com os nossos bens. A nossa vida mostra se acreditamos que um mundo novo é possível ou se nos resignamos à lógica implacável do mundo. Conhecemos as dificuldades do mundo. Mas recebemos de Deus o dom da fé, que nos permite reconhecer que o mundo pode ser melhor, a vida mais plena e as relações mais humanas. Mas acreditamos com as mãos. Acreditar implica pôr em prática aquilo em que acreditamos. Evangelizar não é apenas dizer doutrina ou repetir fórmulas da Escritura. É mostrar que um mundo novo é possível, procurando viver segundo a lógica do Reino. Quando mostramos que é possível viver de outra maneira, já estamos a anunciar. Quando as nossas comunidades assumem um modo diferente de ser e de estar, e cada batizado se compromete com a missão, a vinha do Senhor está a dar fruto. Então, agradecemos. Não nos envaidecemos nem pensamos que somos os maiores. Sabemos que o bem que fazemos, o sentido e a paz que habitam o nosso coração são, antes de tudo, um dom. Um presente que o Senhor nos deu.

    XXVII Domingo do Tempo Comum - Homilia
  2. Sep 20

    XXV Tempo Comum - Homilia

    O Senhor coloca hoje diante de nós uma parábola que, em termos de gestão, parece não fazer grande sentido. Um proprietário contrata trabalhadores para a sua vinha em diferentes horas do dia: uns de manhã cedo, outros ao meio-dia, outros já ao fim da tarde. E, na hora de pagar, dá a todos o mesmo salário. À nossa lógica, isto parece injusto: trabalho diferente, pagamento igual. Mas a primeira leitura ajuda-nos a entrar no coração da parábola: «Tanto como o céu está acima da terra, assim os meus caminhos estão acima dos vossos caminhos e os meus pensamentos acima dos vossos pensamentos». Eis o desafio: entrar no Reino de Deus não significa apenas fazer determinadas coisas; significa aprender a ver, julgar e interpretar a realidade com os critérios de Deus. A conversão cristã é também conversão da mentalidade. A primeira coisa que a parábola nos revela é que Deus chama todos, seja a que hora for. E chama também aqueles que ninguém chamou. Quando o proprietário pergunta aos últimos porque ficaram todo o dia sem trabalhar, eles respondem: «Porque ninguém nos contratou». Quantos estão hoje afastados de Deus porque ninguém os convidou, ninguém os considerou, ninguém lhes mostrou que também para eles há um lugar na vinha do Senhor? Depois, a parábola mostra-nos que a salvação não é um salário que conquistamos; é um dom. Na nossa lógica, quem trabalhou mais deveria receber mais. Mas no Reino de Deus ninguém pode dizer que mereceu a salvação. Cristo deu-nos, na cruz, aquilo que não poderíamos conquistar pelas nossas próprias forças. A salvação é graça, é presente, é amor oferecido gratuitamente. Por isso, os trabalhadores da primeira hora não recebem menos porque os últimos recebem o mesmo. O problema está no olhar com que veem os outros. Também nós podemos pensar: «Sempre fui cristão, sempre fui à Missa, cumpri os mandamentos, procurei fazer tudo bem; e agora aquele que viveu longe de Deus converte-se no fim e recebe a mesma salvação?» Sim. Porque Deus quer salvar todos. Aqui está talvez o ponto mais exigente para nós, cristãos de longa data: podemos ser cristãos nas práticas e ainda não o ser inteiramente no coração. Podemos cumprir tudo e conservar uma mentalidade distante da de Deus. As práticas, as regras e os mandamentos são importantes, mas não são um fim em si mesmos; são mediações para conhecermos, saborearmos e acolhermos o amor de Deus. Se os trabalhadores da primeira hora tivessem vivido o dia com gratidão, ter-se-iam alegrado com a chegada dos últimos. Teriam pensado: «Que bom que também eles descobriram a alegria de estar na vinha do Senhor!» É esta a atitude de quem compreendeu o Evangelho: agradecer por ter chegado cedo e alegrar-se por quem chega depois. Vale, então, a pena perguntarmo-nos: porque somos cristãos? Por obrigação? Por medo? Para “ganhar” o céu? Se for apenas isso, a fé torna-se pesada e triste. Mas, se somos cristãos porque descobrimos quanto Deus é bom, quanto nos ama, nos perdoa e nos chama à sua presença, então tudo muda. A prática cristã deixa de ser um fardo e torna-se resposta agradecida. E quem vive assim não julga quem regressa. Alegra-se. Se Deus perdoa, quem somos nós para não perdoar? Se Deus acolhe, quem somos nós para fechar a porta? Peçamos, por isso, ao Senhor a graça de nos deixarmos converter não apenas nas ações, mas também no coração e na mentalidade. E agradeçamos por estarmos na sua vinha, seja qual for a hora a que chegámos. Quanto mais descobrirmos a alegria de estar com Deus, mais felizes ficaremos por cada pessoa que encontra, mesmo no último instante, esse mesmo amor que nós já tivemos a graça de conhecer.

    XXV Tempo Comum - Homilia

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