Na nossa maneira de viver a fé, os dias 1 e 2 de novembro acabam por se misturar. Hoje celebramos a solenidade de Todos os Santos; amanhã, a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos. Como o dia 1 é feriado, muitos aproveitamos para ir ao cemitério e rezar pelos familiares e amigos que já morreram. Assim, um dia de festa fica também marcado pela saudade. Mas há uma ligação bonita entre as duas celebrações: quando festejamos Todos os Santos, lembramos também quem fez parte da nossa vida. Reparemos na primeira leitura. São João fala-nos de cento e quarenta e quatro mil assinalados, das tribos de Israel, e depois de uma multidão que ninguém podia contar, vinda de todas as nações, povos e línguas. Que nos diz esta imagem? Que a santidade não é privilégio de alguns, nem está reservada aos que pertencem a determinado grupo. É uma possibilidade para todos. Ninguém está excluído, pela sua origem, pela sua história ou pelas circunstâncias da vida. A santidade é, antes de tudo, um dom que Deus nos oferece. Na segunda leitura, São João torna esta ideia ainda mais clara: «Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamar filhos de Deus. E somo-lo de facto». Reparem: o texto não diz que, primeiro, temos de nos portar bem, ter uma vida impecável e merecer o amor de Deus, para depois sermos seus filhos. É precisamente o contrário. Deus ama-nos primeiro. Gratuitamente. Não somos filhos de Deus por termos merecido essa condição. Somos seus filhos porque Ele nos ama e nos concede essa graça. Mas a leitura continua: «Agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que havemos de ser». Aqui está o nosso caminho de santidade. Já somos amados por Deus, e isso é extraordinário. Mas podemos ir mais longe: podemos tornar-nos cada vez mais semelhantes a Ele. Como? Deixando que a vida de Jesus Cristo se manifeste na nossa maneira de pensar, de agir, de tratar os outros. Não temos de conquistar o amor de Deus. Somos convidados a corresponder ao amor que já recebemos. É também isso que Jesus nos ensina no Evangelho das bem-aventuranças. À primeira vista, até parece estranho: felizes os pobres em espírito, felizes os que choram, felizes os que têm fome e sede de justiça, felizes os perseguidos... Estará Jesus a dizer-nos que o sofrimento é uma felicidade? Não. Está a mostrar-nos que a felicidade não depende apenas do que possuímos, da saúde ou do reconhecimento que recebemos. A nossa felicidade tem uma raiz mais profunda: saber que somos amados por Deus e viver em comunhão com Ele. Podemos passar por dificuldades, pela doença, pela injustiça e pela tristeza, sem perder o sentido da nossa vida, porque não perdemos a certeza desse amor. Olhemos para Jesus. Fez o bem, curou os doentes, alimentou quem tinha fome, ensinou com autoridade. E o que lhe aconteceu? Mataram-no. Aos olhos do mundo, a sua vida poderia parecer um fracasso. Mas nós conhecemos o fim da história: Cristo ressuscitou. A cruz não foi a última palavra. O que parecia ser o fim tornou-se passagem para a vida em plenitude. É esta esperança que ilumina também a nossa maneira de olhar para a morte e de recordar aqueles de quem sentimos saudades. Por isso, neste dia de Todos os Santos, convido-vos a pensar em tantas pessoas que conhecemos: familiares, amigos, vizinhos, talvez pessoas muito simples, que procuraram ser fiéis a Deus no meio das dificuldades. Pessoas que souberam perdoar, mesmo quando era difícil; que fizeram o bem, mesmo quando não era cómodo; que procuraram viver à maneira de Jesus. Quantas delas poderão estar hoje entre aquela multidão que ninguém podia contar! Recordemo-las com gratidão e peçamos a sua intercessão. Ser santo não é andar de rosto triste, com ar de quem vive permanentemente a sofrer. É descobrir a alegria de ser amado por Deus e deixar que esse amor dê fruto na nossa vida. A santidade é para todos. E começa precisamente aqui: quando procuramos viver, cada dia, um pouco mais ao estilo de Jesus Cristo.