A Palavra de Deus que hoje escutamos coloca diante de nós um fio condutor muito claro, que nos pode ajudar a viver esta terceira semana da Quaresma: o tema da sede. Todos sabemos o que é ter sede. Já todos experimentámos essa necessidade física de água, quando o corpo pede para ser hidratado. Mas, nas leituras de hoje, a sede diz-nos mais do que isso. Fala-nos daquilo que nos habita por dentro: os nossos desejos, os nossos medos, as nossas inquietações, a nossa procura de sentido e de segurança. Na primeira leitura, o povo está zangado, triste, revoltado. Reclama com Moisés, porque sente que foi arrancado do Egito para morrer à sede no deserto. No fundo, aquilo que o povo exprime é esta suspeita dolorosa: talvez Deus já não queira nada connosco, talvez Deus nos tenha abandonado, talvez se tenha esquecido de nós. E, se formos sinceros, também nós conhecemos esta experiência. Também nós, por vezes, pensamos ou sentimos que Deus está ausente, que nos deixou sozinhos, que já não cuida da nossa vida. Esta sede, mais do que falta de água, é a falta de segurança, de proteção, de paz interior. Mas é precisamente neste contexto que Deus manda Moisés ir à frente e bater na rocha, de onde jorra água. O gesto é muito significativo: antes de o povo chegar, Deus já lá está; antes de a necessidade ser plenamente dita, Deus já preparou a resposta. Mesmo no meio das nossas reclamações, Deus vai sempre à nossa frente e continua a oferecer-nos presença, bênção e vida. É isto que São Paulo nos recorda na segunda leitura. Diz-nos que estamos em paz com Deus por Nosso Senhor Jesus Cristo, e que foi quando ainda éramos pecadores que Cristo morreu por nós. A graça de Deus não é um prémio para os perfeitos, nem recompensa para quem faz tudo bem. É dom. É iniciativa de Deus. É amor que nos precede. Deus não espera que sejamos dignos para nos amar; ama-nos primeiro. E é precisamente porque nos sabemos amados e reconciliados por Deus que nos tornamos capazes de viver melhor, de procurar corresponder melhor ao seu projeto, de recomeçar entre a fidelidade e o erro, entre o acerto e a fragilidade. O Evangelho da samaritana mostra, de modo belíssimo, como Jesus vem ao encontro da nossa sede. Sentado junto ao poço, ao meio-dia, cansado do caminho, Jesus pede de beber. Isto é muito importante: Jesus não nos salva de fora, como se não conhecesse a nossa condição; salva-nos assumindo-a, entrando nela, partilhando a nossa sede. E, diante d’Ele, a samaritana responde com os seus utensílios habituais. Como se dissesse: a sede resolve-se com aquilo que sempre usei. E, no entanto, Jesus conduz esta mulher a perceber que há uma sede mais profunda, para a qual os meios habituais não chegam. Há coisas que, num primeiro momento, parecem saciar-nos, mas não nos dão a paz, a verdade e a vida que duram. A samaritana vai, pouco a pouco, tomando consciência da sua sede, das suas limitações e até da sua história ferida. E é precisamente a partir dessa fragilidade que reconhece em Jesus o Messias. O Evangelho mostra-nos, assim, que não é apesar da nossa pobreza que Deus nos visita, mas muitas vezes é através dela que mais claramente Se revela. Talvez o desafio desta semana seja este: de que sede é que eu tenho? O que é que, verdadeiramente, me falta? Com que “baldes” é que tento saciar-me? E não acontecerá, por vezes, que temos vergonha de pedir a Jesus a água viva, porque conhecemos demasiado bem a nossa própria vida? Mas o Evangelho diz-nos: não tenhas medo. Deus já sabe. E, mesmo assim, vem. Por fim, quando a vida começa a ser saciada pelo amor, pela verdade e pelo sentido que vêm de Deus, então nasce espontaneamente o testemunho. A samaritana corre a dizer que encontrou o Messias. Não porque tenha resolvido todos os problemas da sua vida, mas porque se sentiu olhada, compreendida, amada e renovada. E é isto o testemunho cristão: não marketing, nem proselitismo, mas a transparência simples e serena de quem encontrou em Deus a fonte que mata a sede da vida e da vida eterna.