Uma palavra no seu caminho

Luís M. Figueiredo Rodrigues

Um podcast que marca o ritmo da vida, através da liturgia dominical.

  1. III Domingo da Quaresma - Homilia

    2D AGO

    III Domingo da Quaresma - Homilia

    A Palavra de Deus que hoje escutamos coloca diante de nós um fio condutor muito claro, que nos pode ajudar a viver esta terceira semana da Quaresma: o tema da sede. Todos sabemos o que é ter sede. Já todos experimentámos essa necessidade física de água, quando o corpo pede para ser hidratado. Mas, nas leituras de hoje, a sede diz-nos mais do que isso. Fala-nos daquilo que nos habita por dentro: os nossos desejos, os nossos medos, as nossas inquietações, a nossa procura de sentido e de segurança. Na primeira leitura, o povo está zangado, triste, revoltado. Reclama com Moisés, porque sente que foi arrancado do Egito para morrer à sede no deserto. No fundo, aquilo que o povo exprime é esta suspeita dolorosa: talvez Deus já não queira nada connosco, talvez Deus nos tenha abandonado, talvez se tenha esquecido de nós. E, se formos sinceros, também nós conhecemos esta experiência. Também nós, por vezes, pensamos ou sentimos que Deus está ausente, que nos deixou sozinhos, que já não cuida da nossa vida. Esta sede, mais do que falta de água, é a falta de segurança, de proteção, de paz interior. Mas é precisamente neste contexto que Deus manda Moisés ir à frente e bater na rocha, de onde jorra água. O gesto é muito significativo: antes de o povo chegar, Deus já lá está; antes de a necessidade ser plenamente dita, Deus já preparou a resposta. Mesmo no meio das nossas reclamações, Deus vai sempre à nossa frente e continua a oferecer-nos presença, bênção e vida. É isto que São Paulo nos recorda na segunda leitura. Diz-nos que estamos em paz com Deus por Nosso Senhor Jesus Cristo, e que foi quando ainda éramos pecadores que Cristo morreu por nós. A graça de Deus não é um prémio para os perfeitos, nem recompensa para quem faz tudo bem. É dom. É iniciativa de Deus. É amor que nos precede. Deus não espera que sejamos dignos para nos amar; ama-nos primeiro. E é precisamente porque nos sabemos amados e reconciliados por Deus que nos tornamos capazes de viver melhor, de procurar corresponder melhor ao seu projeto, de recomeçar entre a fidelidade e o erro, entre o acerto e a fragilidade. O Evangelho da samaritana mostra, de modo belíssimo, como Jesus vem ao encontro da nossa sede. Sentado junto ao poço, ao meio-dia, cansado do caminho, Jesus pede de beber. Isto é muito importante: Jesus não nos salva de fora, como se não conhecesse a nossa condição; salva-nos assumindo-a, entrando nela, partilhando a nossa sede. E, diante d’Ele, a samaritana responde com os seus utensílios habituais. Como se dissesse: a sede resolve-se com aquilo que sempre usei. E, no entanto, Jesus conduz esta mulher a perceber que há uma sede mais profunda, para a qual os meios habituais não chegam. Há coisas que, num primeiro momento, parecem saciar-nos, mas não nos dão a paz, a verdade e a vida que duram. A samaritana vai, pouco a pouco, tomando consciência da sua sede, das suas limitações e até da sua história ferida. E é precisamente a partir dessa fragilidade que reconhece em Jesus o Messias. O Evangelho mostra-nos, assim, que não é apesar da nossa pobreza que Deus nos visita, mas muitas vezes é através dela que mais claramente Se revela. Talvez o desafio desta semana seja este: de que sede é que eu tenho? O que é que, verdadeiramente, me falta? Com que “baldes” é que tento saciar-me? E não acontecerá, por vezes, que temos vergonha de pedir a Jesus a água viva, porque conhecemos demasiado bem a nossa própria vida? Mas o Evangelho diz-nos: não tenhas medo. Deus já sabe. E, mesmo assim, vem. Por fim, quando a vida começa a ser saciada pelo amor, pela verdade e pelo sentido que vêm de Deus, então nasce espontaneamente o testemunho. A samaritana corre a dizer que encontrou o Messias. Não porque tenha resolvido todos os problemas da sua vida, mas porque se sentiu olhada, compreendida, amada e renovada. E é isto o testemunho cristão: não marketing, nem proselitismo, mas a transparência simples e serena de quem encontrou em Deus a fonte que mata a sede da vida e da vida eterna.

    10 min
  2. II Domingo da Quaresma - Homilia

    MAR 1

    II Domingo da Quaresma - Homilia

    Tambémesta é a nossa vocação. Somos chamados não por causa das nossasobras ou capacidades, mas segundo o desígnio e a graça de Deus. Asegunda leitura exprime-o com clareza: Ele salvou-nos e chamou-nos àsantidade não pelas nossas obras, mas pelo seu próprio desígnio. Éa sua graça que atua em nós; é o seu amor gratuito que está naorigem de tudo.  Àluz deste chamamento, o Evangelho da Transfiguração ganha umatonalidade particular. O episódio acontece depois de Jesus anunciara sua paixão. Os discípulos estão perturbados: não compreendem ocaminho da cruz. É nesse contexto que Pedro, Tiago e João sobem comJesus a um alto monte. E aí Jesus transfigura-Se diante deles.  Maisdo que perguntar “como foi”, importa deter-nos no sentido dapalavra. No quotidiano, quando alguém “se transfigura”, querdizer que revela o mais íntimo de si. Na Transfiguração, osdiscípulos veem para além da aparência habitual de Jesus;contemplam a sua identidade profunda. Isso provoca espanto econsolação: “Como é bom estarmos aqui!”  Maseste “estar aqui” pode tornar-se tentação. Ficar no conforto daexperiência espiritual, no “quentinho” da fé, esquecendo que omonte não é morada definitiva. Jesus faz subir, mas também fazdescer. A experiência da glória não nos retira do mundo; envia-nosa ele. Subimos para contemplar, descemos para nos comprometermos. Aglória deve reorganizar o quotidiano segundo a graça.  OEvangelho fala ainda de Moisés e Elias: a Lei e os Profetas. Jesus évisto transfigurado à luz da história da salvação. Também nós Ovemos transfigurado quando lemos a nossa história e osacontecimentos do mundo à luz da Palavra de Deus. Meditar a vida àluz da Palavra provoca transformação.  Notexto grego surge a ideia de metamorfose. A metamorfose não ésimples mudança exterior; é transformação interior que semanifesta por fora. Talvez seja mais expressiva do que a palavra“conversão”, que pode sugerir apenas alteração decomportamentos. A metamorfose é algo que acontece no íntimo.  Cadaescuta da Palavra é ocasião de metamorfose. Em linguagem paulina,trata-se de deixar o homem velho e revestir-se do homem novo. Nestecaminho quaresmal, importa fixar-nos na Transfiguração: o Senhornão nos pede nada que não esteja ao nosso alcance com a sua graça.Pede-nos uma vida boa, santa, equilibrada — e dá-nos a forçanecessária.  Quandodeixamos que a Palavra se instale no coração, ela transforma-nos apartir de dentro. Por isso, quando pensamos: “Se o Senhor Setransfigurasse diante de mim, eu acreditava”, talvez devamosreconhecer que Ele já Se transfigura diante de nós.  Oque nos é pedido é simples e exigente: subir ao monte. Procurar oslugares onde Deus Se torna mais próximo — a oração, a meditaçãoda Palavra, a liturgia, as obras de caridade. Estes exercíciostornam-se lugares de metanoia, de transformação interior.  E,pouco a pouco, o Senhor instala-Se luminosamente no nosso coração,gerando a convicção de que Ele é bom, que nos liberta e que noscapacita a viver como filhos da luz.

    8 min

About

Um podcast que marca o ritmo da vida, através da liturgia dominical.