Uma palavra no seu caminho

Luís M. Figueiredo Rodrigues

Um podcast que marca o ritmo da vida, através da liturgia dominical.

  1. 12h ago

    XXII Tempo Comum - Homilia

    O Evangelho que acabámos de escutar é, no mínimo, embaraçoso para São Pedro. Jesus dá-lhe uma repreensão duríssima: «Vai para trás de mim, Satanás! Tu és para mim ocasião de escândalo». E tudo porque Pedro, aparentemente por carinho, não queria aceitar que Jesus tivesse de sofrer. Jesus começava a preparar os discípulos para a sua paixão, morte e ressurreição; Pedro reage segundo os critérios humanos. E Jesus explica-lhe onde está o erro: «Tu não tens em vista as coisas de Deus, mas as dos homens». Aqui aparece uma tensão que conhecemos bem: a diferença entre os critérios de Deus e os critérios do mundo. Em consciência, percebemos muitas vezes o que seria justo, honesto, evangélico; mas o ambiente em que vivemos empurra-nos noutra direção. E, por vezes, cansamo-nos. Jeremias exprime esse cansaço na primeira leitura: «Não falarei mais no seu nome». Talvez também nós já tenhamos pensado: para quê esforçar-me por ser justo, por ser fiel, por viver segundo o Evangelho, se parece que nada muda? Mas Jeremias acrescenta: «Havia no meu coração um fogo ardente, comprimido dentro dos meus ossos; procurei contê-lo, mas não pude». Também em nós existe este fogo: é a graça de Deus derramada sobre cada um de nós, que nos chama, nos inquieta e nos transforma. É por isso que regressamos à Eucaristia, domingo após domingo. Não porque seja apenas um rito de uma hora, mas porque ela ilumina e fortalece a nossa vida. São Paulo diz-nos: «Oferecei-vos a vós mesmos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus». E talvez esta frase nos ajude a compreender melhor o que dizemos na Missa: «Orai, irmãos, para que o meu e vosso sacrifício seja aceite por Deus Pai todo-poderoso». Aqui, sacrifício não significa simplesmente algo que custa ou faz sofrer. Significa oferta, entrega. Na Eucaristia, Deus oferece-se por nós; em Cristo, dá-se inteiramente, morre e ressuscita por nós. E nós aprendemos essa mesma gramática da dádiva: Deus entrega-se a nós, e nós entregamo-nos a Deus. É então que compreendemos São Paulo: «Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para saberdes discernir a vontade de Deus». A Eucaristia não é apenas um rito celebrado; é uma vida oferecida. Às vezes ouvimos: «A Missa não me diz nada». E eu perguntaria: mas tu, o que dizes à Missa? O que levas? O que entregas? Estás apenas a assistir, como quem está num teatro, ou estás verdadeiramente a participar? Em cada Eucaristia estamos, de certo modo, a treinar para nos oferecermos a Deus e aos outros. Por isso Jesus pode dizer: «Se alguém quiser seguir-me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me». Parece que perder a vida é ficar com menos. Mas no Evangelho acontece o contrário: quanto mais me entrego a Deus, mais plenamente sou eu próprio; quanto mais me esvazio do egoísmo, mais humano me torno. É aqui que se mede também a verdade das nossas Missas. A Eucaristia tem valor na medida em que se prolonga na vida: na forma como me dou aos outros, na capacidade de não deixar ninguém tornar-se indiferente para mim, mesmo quando pensa de maneira diferente, mesmo quando o outro falhou. Eu aprendo isto com Jesus, porque estou com Ele, porque O escuto, porque O recebo. No salmo rezávamos: «A minha alma tem sede de vós, meu Deus». Todos trazemos esta sede de plenitude, de verdade, de beleza, de sentido. E como se sacia esta sede? Aprendendo com Jesus a dar de beber, isto é, a dar-nos. É quando nos oferecemos aos outros que aquele vazio começa a encher-se. Por isso compreendo quem diz que a Eucaristia é «uma seca». Mas tenho pena, porque talvez ainda não tenha descoberto tudo o que nela acontece. A Eucaristia é o lugar onde, através de gestos e palavras, nos reunimos com os irmãos e com Deus, para nos encontrarmos com o Senhor. A vida, muitas vezes, continua igual. Mas nós saímos diferentes. E, por isso, a vida pode ganhar outra leveza, outro sentido e outra verdade.

    XXII Tempo Comum - Homilia
  2. Aug 23

    XXI Domingo do Tempo Comum - Homilia

    No Evangelho de hoje, Jesus confia a Pedro o «poder das chaves»: «Tudo o que ligares na terra será ligado no Céu, e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu». Esta expressão fundamentou, justamente, a compreensão da autoridade e do serviço de governo na Igreja. Mas gostaria de a ler hoje de modo mais existencial: que portas abre a fé na nossa vida? E que portas nos ajuda a fechar? Tudo começa com a pergunta de Jesus: «Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?» Surgem várias respostas: João Batista, Elias, Jeremias, algum dos profetas. São opiniões. E nós também temos opiniões sobre quase tudo. Podemos preferir o azul ou o verde, o mar ou a montanha. A opinião é legítima, mas não compromete profundamente a vida. Há depois as crenças. «Este ano o meu clube vai ser campeão»; «um dia hei de ganhar a lotaria». A crença já nos move um pouco mais, mas nem sempre dispõe de razões suficientemente sólidas. E há aquilo que sabemos com tal convicção que orienta as nossas decisões. Se sabemos qual é o caminho mais curto, seguimos por ele. A certeza gera ação. Onde fica, então, a fé? A fé cristã não é uma simples opinião sobre Deus. Também não é apenas uma crença herdada da família, da catequese ou do grupo a que pertencemos. Mas também não é uma certeza matemática, como saber que dois e dois são quatro. A fé é uma certeza de outra ordem: uma convicção que nasce da relação, do encontro, da experiência de Deus. Por isso, quando Pedro responde: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo», Jesus diz-lhe: «Não foi a carne nem o sangue que to revelaram, mas o meu Pai que está nos Céus». Pedro não chegou ali apenas porque pensou muito. Reconheceu Jesus porque se deixou tocar por Deus. Também nós somos chamados a passar de uma fé recebida para uma fé assumida. Podemos ter sido educados cristãmente, ter ido à catequese, gostar da Missa; tudo isso é valioso. Mas, se não houver algum encontro pessoal com o Senhor, corremos o risco de chegar à idade adulta com uma fé que permaneceu infantil. Somos adultos na fé quando aquilo em que acreditamos se transforma em convicção e gera uma maneira cristã de viver. E é aqui que regressam as chaves. O Evangelho é uma chave. Abre-nos para aquilo que é vida, verdade, reconciliação, serviço, perdão, esperança. E ajuda-nos a fechar a porta ao que nos diminui, ao que fere a dignidade, ao egoísmo, ao ressentimento, àquilo que não conduz à vida plena. A fé, porém, precisa de ser cultivada. Como? Estando em relação com Jesus, ouvindo a sua Palavra e procurando-O nos lugares onde Ele prometeu estar: na Eucaristia, na liturgia, no serviço aos outros, na caridade, no perdão. A fé aprende-se também vivendo. Os mais velhos compreendem bem isto quando dizem: «Agora percebo aquilo que o meu pai me dizia e que, naquele tempo, eu não entendia». Há coisas que só se compreendem depois de atravessadas. Também compreendemos melhor Jesus quando passamos por experiências semelhantes às suas: amar, servir, perdoar, sofrer, permanecer fiéis, recomeçar. Por isso, hoje não gostaria de aumentar a nossa lista de obrigações. Gostaria antes que cada um reconhecesse as experiências que já alimentaram a sua fé: uma oração, uma Eucaristia, uma reconciliação difícil, a visita a alguém que estava sozinho, o nascimento de um filho, uma doença atravessada com esperança, um compromisso mantido quando seria mais fácil desistir. Talvez seja aí que Deus nos tenha dito, como a Pedro: «Feliz de ti». Não porque tenhamos entendido tudo, mas porque nos deixámos encontrar. A pergunta de Jesus continua dirigida a cada um de nós: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» Que possamos responder não apenas pelo que ouvimos dizer, mas pelo que vivemos: «Tu és o Filho de Deus vivo». Então compreenderemos que a Palavra de Deus é verdadeiramente luz e chave: chave para abrir a vida àquilo que a torna boa, fecunda e plena.

    XXI Domingo do Tempo Comum - Homilia

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