Ouvimos frequentemente nos discursos do presidente Lula, do atual Ministro da Fazenda, Dario Durigan, e na análise da comentarista Miriam Leitão, que a inflação brasileira está domada e que existe apenas uma sensação de preço alto ou que o preço alto é porque a população está comprando mais ou até mesmo que a guerra do Irã é a culpada. No entanto, basta uma rápida visita ao supermercado ou o pagamento dos boletos do mês para perceber que a narrativa oficial esbarra em outra realidade: o poder de compra da população derreteu significativamente desde o início de 2023. Para entender essa desconexão, precisamos olhar os dados da evolução do IPCA que revelam uma trajetória preocupante. De janeiro de 2023 até julho de 2026, a inflação acumulada distanciou-se severamente da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (de 3% ao ano). Enquanto a trajetória ideal colocaria um crescimento de 10,9%, a dura realidade cravou o IPCA em 17,7% no acumulado do período. Na prática, o índice encontra-se 6,1 pontos percentuais acima do esperado pela meta para o período, um desvio estrutural que age como um imposto invisível sobre os salários. A situação torna-se ainda mais crítica quando dissecamos esse índice e olhamos para a "inflação da vida real". O índice cheio pode até parecer suportável nos discursos, mas a microeconomia das famílias conta outra história. Itens básicos e serviços essenciais sofreram aumentos estratosféricos no mesmo período. A tangerina subiu absurdos 102,7%, o transporte por aplicativo encareceu 85,0%, a cenoura disparou 75,2% e o café moído, 48,4%. A classe média também sente o golpe de forma aguda: as passagens aéreas (41,2%), o plano de saúde (30,6%), a gasolina (30,3%) e a hospedagem (33,4%) asfixiam o orçamento mensal. Ironicamente, a tão prometida picanha teve alta de apenas 6,5%, mas o brasileiro não vive só de churrasco – a cerveja já acumula alta de 16,8% e até o leite longa vida subiu 19,8%. Essa discrepância escancara o motivo pelo qual as famílias se sentem mais pobres, contradizendo as falas oficiais. O cidadão compromete a maior parte da sua renda exatamente nos itens que mais encareceram, como os custos básicos de moradia (com a taxa de água e esgoto subindo 24,9% e o aluguel residencial 15,9%). A economia real mostra que a inflação, puxada pela forte expansão de gastos públicos e pelo desequilíbrio fiscal, corroeu a renda do brasileiro. Quando o custo de vida supera a meta com folga, não há otimismo retórico que devolva a comida à mesa ou alivie o bolso do consumidor. A conta chegou, e quem a paga é a população.