Ecio Costa - Economia e Negócios

Ecio Costa

CEDES - Consultoria e Planejamento

  1. 23h ago

    O Termômetro Eleitoral: Ibovespa, Dólar e o Peso da Responsabilidade Fiscal

    O mercado financeiro atua como uma máquina de antecipar cenários. No pregão de ontem, presenciamos um reflexo claro dessa dinâmica: o acirramento das pesquisas eleitorais, indicando o crescimento da candidatura de Flávio Bolsonaro na disputa contra o presidente Lula, gerou reações imediatas nos ativos brasileiros, movimentando a trajetória do Ibovespa, com a maior alta diária em 5 meses, e aliviando a pressão sobre a cotação do dólar, que voltou ao patamar de R$ 5,10. Para o investidor, a eleição não se resume a discursos ideológicos, mas a propostas efetivas, previsibilidade e, sobretudo, à trajetória da política econômica e a dívida pública. A resposta de otimismo da bolsa e a descompressão cambial explicam-se pela leitura pragmática dos agentes econômicos. Há uma percepção precificada no mercado de que as diretrizes apresentadas no programa de governo de Flávio Bolsonaro sinalizam um compromisso mais rígido com a austeridade e o controle de gastos. Em contrapartida, o mercado enxerga na atual gestão uma política de forte expansão fiscal, que tem culminado na elevação da dívida bruta e na exigência de juros reais elevados para conter a inflação e financiar esse aumento no endividamento. Quando as pesquisas mostram uma disputa mais estreita e competitiva, o mercado precifica a possibilidade de uma mudança na condução macroeconômica. Uma sinalização de maior rigor com as contas públicas reduz o prêmio de risco exigido pelos investidores para alocar recursos no país. Na prática, um risco fiscal menor atrai o capital estrangeiro, valoriza o real e impulsiona as ações na B3, abrindo espaço para um futuro barateamento do custo de capital. À medida que o pleito se aproxima, a volatilidade continuará ditando o ritmo dos pregões. O mercado vota todos os dias através da alocação de recursos, e o recado dado ontem foi claro: o capital busca segurança. Independentemente de quem suba a rampa do Palácio do Planalto em 2027, a economia não dará trégua ao descontrole das contas.

  2. 1d ago

    A Desaceleração do PIB e o Crescimento Desestruturado

    Os dados do PIB do segundo trimestre divulgados pelo IBGE revelam um cenário de perda de tração e forte desequilíbrio na nossa economia. O crescimento de 0,5% no segundo trimestre deste ano, acumulando 1,9% no semestre, traz uma preocupação no formato de como o crescimento está se dando. Mais do que a desaceleração em si, a composição desse resultado expõe uma política macroeconômica que caminha em corda bamba. Ao analisarmos a economia pelo lado da demanda, o diagnóstico é de um crescimento irregular. O consumo das famílias, motor econômico dessa ótica, apresentou queda e pisou no freio. Essa retração reflete a asfixia da população, esmagada por um endividamento em níveis recordes e juros restritivos. Com crédito caro, o brasileiro reduziu as compras. Em contrapartida, os gastos do governo registraram forte alta, evidenciando uma contínua política de expansão fiscal. O Estado gasta mais para compensar a fraqueza do setor privado, aprofundando o déficit público sem gerar riqueza sustentável. Na ótica da oferta, as distorções continuam evidentes. A indústria nacional apontou uma desaceleração forte, avançando apenas 0,1%, sendo também duramente penalizada pelo crédito caro e pela incerteza nos investimentos. Quem segurou a economia e evitou um resultado pior foi o setor de serviços. Representando cerca de 70% do nosso PIB, os serviços puxaram o avanço do trimestre com um crescimento de 0,2%. No entanto, depender exclusivamente da resiliência de um único setor expõe a enorme fragilidade e a falta de diversificação da nossa base produtiva. O avanço tímido de 0,5% no trimestre é um aviso. O Brasil não pode mascarar a exaustão financeira das famílias e o enfraquecimento industrial com o inchaço dos gastos públicos. Sem um ajuste fiscal sério que permita a queda dos juros, alivie o consumidor e destrave a indústria, continuaremos reféns de um crescimento baixo e insustentável.

  3. 2d ago

    O Alarme da Dívida: Patamar de Pandemia e o Custo do Descontrole

    Os dados fiscais divulgados pelo Banco Central para o mês de julho reforçam o retrato alarmante das contas públicas. Por um lado, o governo registrou um superávit primário no mês de julho. Para um observador desatento, isso soa como se as contas estivessem, enfim, entrando nos eixos. Contudo, quando ampliamos o foco, o cenário real é de um descontrole assustador: a Dívida Bruta alcançou a impressionante cifra de R$ 10,9 trilhões, batendo a marca de 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB), um aumento de 10,8 pontos percentuais em apenas 3 anos e meio. Esse percentual nos aproxima perigosamente dos picos de endividamento observados no auge da pandemia, quando chegou em 87,7% do PIB, mas depois tendo recuado para 71,7% ao final do governo Bolsonaro. A diferença é trágica: naquela época, o Estado gastou de forma excepcional para salvar o país da paralisia global. Hoje, sem qualquer emergência sanitária que justifique essa escalada, o avanço da dívida reflete um desajuste crônico e a relutância do Executivo em cortar despesas de forma estrutural. O superávit isolado de julho é insuficiente para reverter essa trajetória por conta do nosso verdadeiro vilão: o déficit nominal. Como o mercado financeiro não enxerga uma âncora fiscal crível a longo prazo, o prêmio de risco dispara. Como consequência, o Banco Central é forçado a manter a taxa Selic em patamares restritivos para conter a inflação. O Tesouro Nacional passa, então, a rolar essa dívida trilionária pagando juros estratosféricos. É uma verdadeira bola de neve, onde gastamos bilhões apenas para financiar o nosso próprio desequilíbrio. Enquanto a relação Dívida/PIB continuar avançando rumo aos níveis pandêmicos, mas sem pandemia, as famílias, os pequenos negócios, os trabalhadores, todos pagarão o preço diário com crédito proibitivo, fuga de investimentos e estagnação no crescimento econômico. O Brasil precisa de austeridade rigorosa, urgente e contínua, não de alívios contábeis passageiros.

  4. 2d ago

    O Fim do Bônus Demográfico: O Impacto na Previdência e o Desafio da Produtividade

    A transição demográfica brasileira deixou de ser uma projeção distante para se tornar uma realidade cada vez mais preocupante. O retrato divulgado pelo IBGE mostra que o Brasil envelhece em ritmo acelerado. A proporção de pessoas com 65 anos ou mais cresceu substancialmente, superando os 10% da população, enquanto a idade mediana saltou para 35 anos. Esse fenômeno decreta o encerramento da janela do nosso bônus demográfico — o período histórico em que a parcela de pessoas em idade produtiva crescia mais rápido que a de dependentes (crianças e idosos). A perda desse impulso natural traz impactos imediatos ao setor produtivo. Com a taxa de fecundidade despencando para patamares bem abaixo do nível de reposição, a força de trabalho nacional está fadada a encolher nas próximas décadas. Sem o crescimento do contingente da mão de obra, a expansão do PIB dependerá exclusivamente de um aumento real da nossa produtividade. O Brasil precisará fazer mais riquezas com menos trabalhadores, o que exige um choque estrutural de qualificação, tecnologia e melhoria no ambiente de negócios. Contudo, a consequência mais severa desse choque geracional recai sobre a Previdência Social. O nosso sistema de repartição, em que os trabalhadores da ativa bancam as aposentadorias de hoje, sofrerá um estrangulamento nos próximos anos se não for reformulado. A relação entre pagadores e beneficiários cai velozmente. Esse desequilíbrio atuarial drena os recursos de investimento do Estado e pressiona o nosso crônico déficit público. O envelhecimento rápido sinaliza que não podemos mais depender de soluções de curto prazo. Para evitar o sufocamento fiscal e garantir dinamismo econômico sem o bônus populacional, o país necessitará de reformulação nas contas da previdência, aumentando a idade mínima, equalizando beneficiários e melhorando a sua gestão, além de um foco mais determinado no ganho de eficiência do trabalhador.

  5. 5d ago

    O Déficit nas Contas Externas, a Incerteza e o Desafio do Brasil

    As contas externas brasileiras acenderam um novo sinal de alerta. Em julho, o déficit nas transações correntes do Brasil com o resto do mundo atingiu a marca de US$ 8,11 bilhões, refletindo o aumento das remessas de lucros, dividendos e o pagamento de serviços ao exterior. Esse indicador é fundamental para mensurar a saúde financeira do país nas suas trocas com o resto do mundo. O déficit em transações correntes significa, na prática, que o Brasil consumiu mais divisas estrangeiras do que gerou. Quando esse saldo negativo se amplia de forma consistente, o país fica muito mais vulnerável a choques externos, o que pressiona a nossa taxa de câmbio (dólar mais alto), eleva a percepção de risco-país e, consequentemente, contamina a inflação doméstica e dificulta a queda de juros. Para equilibrar essa conta sem gerar sobressaltos no mercado financeiro, o Brasil depende de duas alavancas indispensáveis: apresentar saldos fortemente positivos na balança comercial e garantir uma entrada robusta de Investimento Estrangeiro Direto (IED). O superávit comercial é a nossa primeira linha de defesa, trazendo dólares essenciais para o país por meio das exportações. Já o IED é o capital produtivo de longo prazo, aquele que constrói fábricas e gera empregos, sendo vital para financiar o déficit de forma estrutural e saudável, distanciando o país da dependência do capital puramente especulativo. A grande preocupação atual é que o ambiente de forte incerteza política e fiscal afugenta justamente esse investidor estrangeiro de longo prazo. Sem um fluxo contínuo de IED e sob a obrigação contínua de gerar mega superávits comerciais, o financiamento do nosso rombo externo torna-se arriscado. O resultado de julho ratifica que sem estabilidade fiscal para atrair capital produtivo, a vulnerabilidade cambial voltará a cobrar um preço alto até o final do ano, pelo menos. Você acha que as contas externas irão refletir as incertezas da eleição até o final do ano?

  6. 6d ago

    Cheirinho de Dilma 2: A Ilusão do IPCA-15 e o Risco Pós-Eleitoral

    A divulgação do IPCA-15 de agosto pelo IBGE trouxe uma manchete apetitosa para os discursos políticos: uma deflação de -0,40%. Contudo, para quem analisa a economia com rigor técnico, o resultado não é motivo de comemoração, mas um sinal de alerta. Uma leitura atenta dos subitens do indicador revela que a queda de preços não decorre de um equilíbrio saudável de mercado, mas da intervenção direta e artificial sobre os preços administrados. Os números divulgados pelo IBGE expõem essa dinâmica. O recuo expressivo do índice geral foi puxado de forma avassaladora pelos grupos fortemente impactados pela redução forçada de tarifas de energia elétrica, com o bônus de Itaipu que reduziu temporariamente a conta de energia em 6,25%, e pela contenção nos preços dos combustíveis (como a gasolina e o diesel), numa defasagem que está em 88% para o diesel e 43% para a gasolina em relação aos preços internacionais. Enquanto esses preços controlados por canetadas empurram o IPCA-15 temporariamente para o campo negativo, a inflação de serviços, puxada este mês por aumentos dos grupos de Saúde e Cuidados Pessoais (0,40%), Educação (0,46%) e Despesas Pessoais (0,66%) continua rodando em patamares desconfortáveis, sustentada pela inércia dos custos. Trata-se de uma tática perigosa da história econômica brasileira: o represamento artificial de preços em pleno período eleitoral. O problema central da inflação reprimida é que ela não desaparece por mágica; ela apenas é represada temporariamente por uma barreira artificial e insustentável que, inevitavelmente, cederá. O filme que assistimos hoje é uma reprise do trágico enredo vivido na reeleição da ex-presidente Dilma Rousseff. Em 2014, o governo represou agressivamente os reajustes da energia elétrica e dos combustíveis para segurar o índice de inflação durante a disputa eleitoral, transmitindo a falsa sensação de controle econômico. O resultado foi devastador: logo após as urnas, em 2015, o realinhamento violento dos preços represados fez a inflação disparar para além dos 10%, empurrando o Brasil para uma profunda recessão. O perigo de repetir esse erro é iminente. A deflação artificial de -0,40% no IPCA-15 de agosto gera uma ilusão de ótica perversa. O represamento do custo da energia e dos combustíveis hoje acumula uma fatura pesadíssima para o pós-eleição. Quando a realidade fiscal se impuser e os reajustes tiverem de ser repassados, o consumidor enfrentará uma ressaca inflacionária, forçando o Banco Central a manter os juros em níveis restritivos. A história não perdoa a manipulação artificial de preços; o alívio provisório de hoje é a garantia do descontrole de amanhã.

  7. Aug 26

    A Ilusão do IPI Zerado e o Preço do Populismo Fiscal Sem Planejamento

    O recente anúncio feito pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, de que o governo publicará um decreto zerando a alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) em todo o país, pode até soar como uma música agradável aos ouvidos do setor produtivo e dos consumidores. A justificativa oficial é a de que a medida trará transparência, pois o tributo passará a ser cobrado "por fora", e acabará com o acúmulo de créditos tributários pela indústria, aproximando o Brasil do modelo de Imposto sobre Valor Agregado (IVA). Contudo, à medida que a corrida presidencial de 2026 se acirra, essa proposta desafina terrivelmente na partitura da nossa responsabilidade fiscal, revelando-se uma manobra de forte apelo eleitoreiro e totalmente vazia de planejamento econômico estrutural. Não é a primeira vez que o Brasil assiste a esse exato mesmo filme. No passado recente, a política de desonerações e cortes sucessivos do IPI — notadamente para veículos e eletrodomésticos da "linha branca" — foi vendida como a grande salvação da indústria nacional. O resultado prático que colhemos anos depois desmascarou a mágica: tivemos um estímulo artificial de curtíssimo prazo que não gerou ganho real de produtividade, não modernizou o nosso parque fabril e abriu um rombo nas contas públicas que ajudou a nos empurrar para uma das piores recessões da nossa história. O IPI é um tributo que, historicamente, recolhe dezenas de bilhões de reais anualmente aos cofres da União. Mais do que isso, quase metade dessa receita tem destinação constitucional vinculada a fundos regionais, compondo o grosso do Fundo de Participação dos Estados (FPE) e do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Ao abrir mão dessa gigantesca arrecadação por meio de um decreto, sem apresentar qualquer contrapartida no corte de despesas, o governo federal não apenas sufocará os orçamentos de prefeituras e estados, como jogará gasolina no incêndio do nosso já alarmante déficit primário. Como venho alertando neste espaço, um país que gasta muito além do que arrecada não tem margem para "bondades" fiscais isoladas. O mercado financeiro lê essa renúncia de receitas não como um alívio tributário moderno, mas como uma flagrante irresponsabilidade com foco exclusivo nas urnas. O risco fiscal dispara, afugentando investidores e pressionando a taxa de câmbio para cima. Para conter a inflação que surge desse dólar mais caro e da demanda artificialmente estimulada, o Banco Central é forçado a manter a taxa Selic em patamares fortemente restritivos. No fim das contas, a fatura é repassada à própria sociedade. O consumidor ganha a ilusão de um desconto na vitrine da loja hoje, mas pagará juros muito mais altos no cartão de crédito, no cheque especial e no financiamento de longo prazo amanhã. O Brasil precisa, urgentemente, consolidar a sua reforma tributária com seriedade e um compromisso com o corte do gasto público, e não ressuscitar atalhos populistas que já provaram ser uma armadilha para o nosso futuro econômico.

  8. Aug 24

    A Sensação de Estar Mais Pobre e a Dura Realidade do Bolso Brasileiro

    Ouvimos frequentemente nos discursos do presidente Lula, do atual Ministro da Fazenda, Dario Durigan, e na análise da comentarista Miriam Leitão, que a inflação brasileira está domada e que existe apenas uma sensação de preço alto ou que o preço alto é porque a população está comprando mais ou até mesmo que a guerra do Irã é a culpada. No entanto, basta uma rápida visita ao supermercado ou o pagamento dos boletos do mês para perceber que a narrativa oficial esbarra em outra realidade: o poder de compra da população derreteu significativamente desde o início de 2023. Para entender essa desconexão, precisamos olhar os dados da evolução do IPCA que revelam uma trajetória preocupante. De janeiro de 2023 até julho de 2026, a inflação acumulada distanciou-se severamente da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (de 3% ao ano). Enquanto a trajetória ideal colocaria um crescimento de 10,9%, a dura realidade cravou o IPCA em 17,7% no acumulado do período. Na prática, o índice encontra-se 6,1 pontos percentuais acima do esperado pela meta para o período, um desvio estrutural que age como um imposto invisível sobre os salários. A situação torna-se ainda mais crítica quando dissecamos esse índice e olhamos para a "inflação da vida real". O índice cheio pode até parecer suportável nos discursos, mas a microeconomia das famílias conta outra história. Itens básicos e serviços essenciais sofreram aumentos estratosféricos no mesmo período. A tangerina subiu absurdos 102,7%, o transporte por aplicativo encareceu 85,0%, a cenoura disparou 75,2% e o café moído, 48,4%. A classe média também sente o golpe de forma aguda: as passagens aéreas (41,2%), o plano de saúde (30,6%), a gasolina (30,3%) e a hospedagem (33,4%) asfixiam o orçamento mensal. Ironicamente, a tão prometida picanha teve alta de apenas 6,5%, mas o brasileiro não vive só de churrasco – a cerveja já acumula alta de 16,8% e até o leite longa vida subiu 19,8%. Essa discrepância escancara o motivo pelo qual as famílias se sentem mais pobres, contradizendo as falas oficiais. O cidadão compromete a maior parte da sua renda exatamente nos itens que mais encareceram, como os custos básicos de moradia (com a taxa de água e esgoto subindo 24,9% e o aluguel residencial 15,9%). A economia real mostra que a inflação, puxada pela forte expansão de gastos públicos e pelo desequilíbrio fiscal, corroeu a renda do brasileiro. Quando o custo de vida supera a meta com folga, não há otimismo retórico que devolva a comida à mesa ou alivie o bolso do consumidor. A conta chegou, e quem a paga é a população.

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