Neste episódio, o Antropocast propõe pensar um problema historicamente incômodo: qual foi o papel da tradição judaico-cristã na consolidação do racismo científico europeu? Não se trata de uma acusação simplista à religião, mas de um convite a compreender como uma narrativa bíblica específica (aqui, no caso, o chamado Mito da Maldição de Cam) funcionou, ao longo de séculos, como peça-chave na construção de uma hierarquia racial que se pretendia ser da ordem natural e sagrada. Esta história se origina no capítulo 9 do Livro do Gênesis. Mesmo sem fazer qualquer menção ao continente africano ou sequer à cor da pele, ao longo do tempo, sucessivas gerações de teólogos, cronistas e, depois, cientistas foram remodelando essa passagem para justificar diferentes formas de dominação: primeiro, justificando hierarquias sociais na Europa medieval; depois, a escravização de povos africanos no contexto da expansão marítima ibérica e do neocolonialismo; e, por fim, as teorias raciais do século XIX, quando a autoridade bíblica se combina à autoridade da ciência moderna. Para conduzir essa análise, mobilizamos duas ferramentas teóricas complementares. A primeira vem de Antonio Gramsci e seus conceitos de ideologia e hegemonia: a ideia de que nenhuma dominação se sustenta apenas pela força, pois ela precisa produzir consentimento, tornar-se senso comum, infiltrar-se nas instituições (igreja, escola, ciência) até parecer simplesmente "como as coisas são". A segunda vem de Roland Barthes e sua teoria do mito como sistema semiológico de segundo grau: o mito não inventa uma narrativa do nada, mas recicla um signo já pleno de sentido que, nesse caso, é a história bíblica de Noé e seus filhos. Operando assim, esvazia-o de sua historicidade concreta para carregá-lo com um novo significado, de natureza ideológica, que se apresenta como evidência natural e atemporal. A hipótese que orienta o episódio é que essas duas chaves (a gramsciana e a bartesiana) se articulam de forma particularmente reveladora quando aplicadas à esfera religiosa. Independentemente da literalidade do texto bíblico, a tradição judaico-cristã ofereceu ao racismo científico algo que nenhuma outra instituição conseguiria oferecer com a mesma força: um verniz de sacralidade. Foi por meio da fé, do sermão, da leitura bíblica cotidiana, que essas ideias ultrapassaram os círculos eruditos e alcançaram o imaginário coletivo, tornando-se crença profundamente enraizada muito antes de qualquer teorização racial "científica" (como a de Gobineau, por exemplo) lhes emprestar linguagem acadêmica. A proposta do episódio é entender o Mito da Maldição de Cam não como curiosidade exegética do passado, mas como estudo de caso privilegiado de um mecanismo que segue operando: a capacidade de transformar interesses históricos concretos (econômicos, políticos, de classe etc.) em verdades que parecem simplesmente naturais, evidentes e sagradas. Venha navegar com a gente! Siga-nos no Instagram: @antropocast