FACES DO HERÓI

Lucas P. Silva

Em algum lugar entre dimensões um humano cria histórias de um universo em construção. Com sua voz e efeitos sonoros ele tenta guiar heróis através dos trilhos da imaginação em busca de novas experiências. O faces do herói é um podcast de contos originais sonorizados.

  1. 04/26/2020

    Enigma

    A vida triste e cansada nada mais poderia lhe oferecer do que uma rotina sem sal onde tudo tende a se repetir na segunda feira seguinte. A mente dessa pessoa sempre sentiu uma inquietação, algo como uma coceira em alguma parte do corpo que, por mais que coçasse, jamais seria saciada. Era esse eterno calafrio que o fazia buscar conhecimento de todas as maneiras que sua mente conseguisse assimilar. No início eram as notícias, mas ele logo viu que elas não lhe proporcionavam a realidade do seu entorno. Ele precisava de algo que não temesse falar o que ele procurava. Depois foram os boatos, conversas de pessoas a sua volta e mais ao longe. Ouviu pessoas de todos os cantos do mundo e com isso ele chegou a uma conclusão primária, uma verdade que todos sabiam que existia, mas que ninguém sozinho tinha a coragem de assumir. "Eles existem!" Com a verdade em sua mente ele passou a procurar desesperadamente alguma coisa mais concreta, alguém que pensassem minimamente como ele. Tinha de ter certeza que não estava enlouquecendo e ter um registro histórico seria o suficiente para que isso se provasse verdade. Foi quando ele partiu para os livros. Obras e mais obras, contemporâneas e antigas, de teologia a física nuclear e quântica. Todas elas possuíam fragmentos da verdade, todas tinham os resquícios daquilo que ele procurava, uma espécie de enigma que fora dividido na mente de inúmeras pessoas através do tempo. E a cada página lida ele se convencia que ele era o único ser vivente em toda a história que conseguia ver os indícios das escritas. "As sombras" "A cidade antes das cidades" "A ganância do regente" "Os homens das trevas" "Os vasculhadores de estrelas" "A explosão furiosa do guerreiro magoado" Era como ver um filme que se tornava turvo a medida que o tempo passava e as capacidades de registro humano evoluíam. "Eu não posso me dar ao luxo de esquecer nada!" Tendo isso em mente ele passou a escrever todas as conclusões. Todo o saber que ele decodificou pelos anos passou a ser registrado em seu único lugar seguro, um lugar onde ele sabia que nenhum ser humano se atreveria a pisar, não enquanto ele estivesse ali para defendê-lo. Após dias de trabalho intenso suas mãos cansaram de escrever, foi aí que, em seu desespero por registrar o que havia descoberto, ele usou os pés. E quando seus pés cansaram ele percebeu que não mais precisava de esforço físico para armazenar o saber descoberto, sua mente se encarregava de fazer as palavras surgirem a sua frente. Paredes, chão, teto. Tudo foi preenchido pelas sentenças claras em sua língua mãe para que qualquer um à sua volta pudessem usufruir. "Agora todos saberão tudo de vocês. [...]

    Enigma
  2. 04/26/2020

    Sorria sempre!

    O fim de semana para muitas pessoas é um descanso, mas isso não é uma unanimidade. Em todos os lugares e setores existem aqueles que se veem mais atarefados justamente nesses dois dias. Um bom exemplo disso são os profissionais das ligações, os famosos atendentes. Para muitos não existe fim de semana, seus horários têm de ser diferentes, do contrário os clientes não conseguiram ligar para reclamar que seus celulares que não ligam por estarem descarregados. — Tá acabando, graças a Deus. Naquele momento o relógio batia as três horas da tarde de um sábado, o atendente, conhecido por todos como Ezequiel, esticava-se em sua cadeira. A partir daquela hora nenhuma ligação poderia aparecer mais, ao menos era isso que ele imaginava. — Ah, não cara! Que desgraça! Levantou-se de sua cadeira e olhou em volta, sabia que algum colega de outro setor o transferiu aquela ligação de propósito para se livrar do cliente. Se pudesse teria arrancado os olhos do responsável pela astúria, mas o cliente estava a sua espera e ele não iria derrubá-lo ou transferi-lo. — Ezequiel boa tarde com quem eu falo? — Perguntou controlando-se para não descarregar a ira em quem não deveria. Vinte e dois minutos mais tarde a chamada se encerrava, os colegas de Ezequiel já haviam ido embora e só havia sobrado ele na central inteira. Normalmente ele teria recolhido suas coisas e saído porta a fora enfurecido com aquela sacanagem sofrida, mas por alguma razão ele simplesmente deixou para lá. Calmamente ele foi até o banheiro lavar o rosto e retirar todo o resquício de stress que sua expressão ainda apresentava. Aquele ritual de lavagem facial o refrescava e levava embora pelo ralo todos dos xingamentos que ele recebera no dia. Observar os itens dispostos ali dentro era outra maneira de apagar tudo de ruim que ele acumulara; papeis bem posicionados pia de granito bem seca e limpa, sabonetes cheios e espelho impecável. O atendente sempre percebera que aquele banheiro era bem cuidado, no entanto jamais viu a pessoa responsável por aquilo. Não até aquele momento. [...]

    Sorria sempre!

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