Era sábado à noite, nos anos 2000. Mais cedo, no MSN: “10h na porta?”“Fechou.” Você se arrumava, encontrava os amigos e ia para a balada. Sem stories, sem localização em tempo real, sem saber antes quem estaria lá. Você simplesmente descobria quando chegava. Na pista, tocava Summer Eletrohits. No refrão, ninguém levantava o celular. Levantava os braços. O momento ficava na memória de quem estava vivendo. Não virava Reels no dia seguinte. Se quisesse uma foto do rolê, precisava ter um amigo com câmera digital ou encontrar o fotógrafo da balada. No dia seguinte, todo mundo procurava as fotos na internet. Flash estourado, olho vermelho, alguém cortado, foto tremida. E todo mundo achava incrível. Uma delas ainda podia virar sua foto do Orkut pelos próximos seis meses. E se você fizesse alguma besteira durante a noite e ninguém tivesse fotografado, acabava ali. No máximo, virava história entre os amigos. Você não acordava no domingo viralizado. Até para encontrar alguém que sumiu no rolê era diferente: “kd vc?” E localização em tempo real? Kkkkk. Sonha. Ficar em casa também tinha seu ritual. Pizzaria pelo telefone fixo, Zorra Total, depois Supercine. No domingo, Fórmula 1, Globo Rural, almoço em família, Turma do Didi e Domingo Legal. Lasanha ou frango no forno. Coca-Cola de 2 litros. Todo mundo à mesa. Ninguém dizia: “Peraí, deixa eu tirar uma foto.” A comida não precisava esperar por um story. Mais tarde, alguém chamava: “Bora dar uma volta?” E “dar uma volta” podia significar praça, calçadão, sorveteria ou casa de alguém. Ninguém escolhia o lugar pensando em qual foto ia render. À noite, o Fantástico anunciava que o fim de semana estava acabando. E você não passava o domingo comparando sua vida com a de outras 300 pessoas nos stories. Não sabia quem tinha viajado, saído mais ou almoçado melhor. Você tinha vivido o seu. Na segunda-feira, a pergunta era simples: “E aí, fez o quê no fim de semana?” E você contava tudo. Porque ninguém tinha acompanhado sua vida pela internet antes de você contar. Era real time de verdade. Talvez alguns dos melhores fins de semana da nossa vida não tenham virado conteúdo porque não precisavam. Eles simplesmente aconteceram. Talvez a gente tivesse menos conteúdo, mas mais presença. Menos comparação e mais experiência. Menos necessidade de mostrar e mais liberdade para viver. Bons tempos. Ou talvez tenham sido tão bons porque a gente estava inteiro dentro deles.