Cemitério dos Infinitos

Cemitério dos Infinitos

Um podcast de poesias melancólicas e de somenos, dificilmente, você achará aqui um amor correspondido. Eu falo muito de laços perdidos, esperanças nunca alcançadas, fantasmas do passado, traumas. O Cemitério dos Infinitos é o meu autorretrato lírico, desbotado. Todas as obras poéticas apresentadas são originais de Thiago Lucarini. "Existem sentimentos Enterrados na carne do dia. À espreita Quase vivos Quase mortos Eternos."

  1. 06/20/2021

    Crônica 04: Terminal de nós

    TERMINAL DE NÓS Thiago Lucarini Na parada, à espera, observo aqueles cotidianamente iguais atados à hora símile, mesmo uniforme, mesma expectativa de aguardo. Dependendo da graça maior, logo o ônibus chega, embarcamos rumo a lugares diferentes, porém com um pedaço de trajeto semelhante, estrada da vida. Dentro do veículo de inseguranças e desconforto noto outros rotineiros indo para onde não sei, mas que subversivamente imagino. Dou nomes, vidas completas, penso que sonham apesar da indiferença que mutuamente cultivamos, são desconhecidos quase afetivos apesar de nenhuma palavra trocada, só empurrão e odores, muitos odores: mijo, merda, fumo, ranço, cachaça, bafo, perfume barato, são estes puros aspectos da sinceridade humana enlatada às seis da manhã, meras agressões simbólicas. Sem janelas abertas sem iluminação cresce a claustrofobia das emoções amanhecidas, repulsa e simpatia, desolação. Pedante caminho, sono, desgaste antes do abate da labuta, uma luta que jamais será vencida, pressa, prensa de carne, presos, tantos pedindo aos gritos, outros mudos, nenhum ganhando. Somos mundos em forçado choque de aceitação pela necessidade. Sentados estão os mais espertos e rápidos, os primeiros do ato de embarque, ficam de pé aqueles sem oportunidade, mas igualmente cansados, operários, sustentação da parede interna da barriga deste rastejante verme público. Num delírio lúdico e otimista, o ônibus longe do asco, é semente carente de sacolejo e aperto, se porventura, algum broto some, pergunto-me se este se mudou, perdeu o horário ou apenas contrariou a casca de ferro e germinou transporte próprio. Com a vaga aberta surge outro alheio das sombras, somos todos suspeitos, e fica a dúvida se este será mais um repetitivo sujeito sem expressão ou ladrão extrativista do quinto salarial ou celulares da lotação. Sigo jornada diária, a vida adiante da janela é cheia de promessas vazias. Ali, faço amigos que nunca me conhecerão, desejo alguns, tenho aversão a outros e sinto falta de tantos, vamos indo todos embalados ao terminal de nós, estação final da viagem, mas não do eu, pois este só se encerrará na lápide. Além das imaginárias ligações estabelecidas, cada parada é sonho de descida, sonho de ninguém é a subida, todavia a boca do ônibus tem fome contínua, sua barriga jamais está suficientemente cheia mesmo transbordando de trabalhadores. Ao desembarcar, de tudo esqueço, na manhã seguinte é recomeço, refaço tudo outra vez, acalentando a fé de não ser digerido eternamente por este verme ou de ser milagroso rebento em fuga. Cíclico.

    5 min
  2. 05/30/2021

    Crônica 03: Distopia Matrimonial

    Distopia matrimonial Thiago Lucarini Ela não sabia exatamente quando o seu casamento azedou. O tempo não tem piedade nem os homens. No pueril início, não havia flor que murchasse, sorriso que não se abrisse, desejo que não ardesse, estrela que não brilhasse. Ele mudou. Esqueceu-se das rotinas do amor e caiu nas rotinas lodosas diárias, daquelas que matam possibilidades e afetos. Desapareceram os beijos de bom dia, ligações ao meio-dia, o toque espontâneo, a procura a partir da necessidade da carne, casualidades. Em vã tentativa, ainda dividiam “eu te amos” ditos ao vento mais por convenção que convicção. Ela se viu acorrentada a uma união de um só, e insistiu até dar-se por vencida e render-se a mesmice. Acabou presa à rede da rotina corroída por dentro, envenenando-se ao tentar entender o porquê da mudança, nunca soube. Não a traia, nem por sorte era gay, assim saberia o motivo. Só era um homem de plástico, estéril nas relações. A vida tornou-se dilatada, feita de compromissos obrigatórios e enfadonhos. Não existia felicidade, apenas comodismo, desgraçada estabilidade. Ele a renegou à castidade de mãe, negou-lhe a puta entre quatros paredes. Beijava-a feito filha e estendia-lhe a mão em público pelas aparências menores, mas em casa, a esquecia, nada de cuidados maiores. Por sua vez, ela já não se importava em tirar o cheiro de cebola ou de outros suados condimentos, pois por mais temperada que estivesse, ele quase não a comia, e quando, pela obrigatoriedade nupcial mensal cedia o pau à boceta, gozava rápido, já que estava sempre cansado e precisava trabalhar cedo no outro dia. Era trabalhador, de fato. Este era um dos maiores erros dele: acreditar que ter a mesa cheia era o suficiente, prover o básico não alicerça cumplicidade, confiança, loucura abissal. Existem outras fomes, tão maiores e violentas, quanto à fome do estômago. Esquecia ele que um coração relegado ao vazio igualmente derrubava um lar. Em algumas noites em orações frias, mas não de todo mentira, ela suplicava aos bons anjos que mandassem a morte a ele, e desse-lhe liberdade, quem sabe, nova vida. Ambiguamente, já não sabia viver sem ele e nem o suportava, mas como boa senhora e cristã, o respeitava, uma vez feitos os votos perpétuos. Achava indigno até tocar-se sozinha tendo um homem. Via as manhãs e tardes passarem tendo por companhia a solidão, durante a noite, lá também estava à solidão entre eles na cama, lugar de repouso e silêncio e não de amor. Miúda, ela foi murchando à sua sombra ausente e ainda onipresente. Infalivelmente, ela era dele. Ele não dava sinais de compreensão da situação ou fez-se entender, ela orgulhosa não perguntaria ou confessaria a dor da intocabilidade. Nunca reclamou em sociedade nem a sós. Este fora seu erro. Ao outro, o silêncio pode significar paz e regularidade, aceitação. Ele a amou pouco, ela ansiou demais. Eram planetas em órbitas opostas em que o alinhamento ocorre por poucas horas apenas uma única vez, e depois, seguem trajetórias separadas sem se lembrarem da gravidade de atração inicial. Ela desejava que ambos não pertencessem ao mesmo Céu, queria um Paraíso livre para si, sem ele, só ela. Refeita. Renascida sob outros signos mais alegres. Covarde, viveu fiel ao seu tédio e amargor até o fim, por azar, se foram juntos, não se sabe se para lugares distintos ou iguais. O destino não permitiria tamanha afabilidade em irem desconexos como foram em vida. Que Deus possa ceder no além grata separação aos infelizes.

    6 min

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Um podcast de poesias melancólicas e de somenos, dificilmente, você achará aqui um amor correspondido. Eu falo muito de laços perdidos, esperanças nunca alcançadas, fantasmas do passado, traumas. O Cemitério dos Infinitos é o meu autorretrato lírico, desbotado. Todas as obras poéticas apresentadas são originais de Thiago Lucarini. "Existem sentimentos Enterrados na carne do dia. À espreita Quase vivos Quase mortos Eternos."