Verbalizando A Mente

Igor Durkheim

Podcast onde falo falo falo e se tu quiser tu pode falar também, me manda um áudio do telegran que a gente joga conversa fora. Até!

  1. Sep 26

    Rebelião escrava no Brasil - Parte III

    Agindo sob pressão popular, as autoridades locais também puniam os atravessadores confiscando suas mercadorias.Em 1834, um desses comerciantes apresentou queixa ao Tribunal da Relação contra um inspetor da freguesia de Santanado Catu, que segundo ele havia tomado ilegalmente uma cargasua. O acusado defendeu-se revelando à corte os métodos docomércio clandestino e a reação do povo. Segundo ele, os negociantes costumavam simular “obrigações de pagar [dívidas]com farinha ... para se subtrairem a levá-la ao mercado, conduzindo-a por atalhos desviados da estrada pública”. O momento era “de fome extrema e grande clamor dos moradoresd’aquelle lugar”. Pressionado por esse “clamor”, a autori­dade teria obrigado o atravessador a vender dez quartas emeia de sua farinha ao povo por um preço razoável.O estabelecimento de “preços justos” era uma forma dejustiça popular direta semelhante ao saque, embora menosdrástica. Os consumidores forçavam as autoridades a pôrfreios nos especuladores. Esse controle do mercado se parecia com o que Edward Thompson chamou de “economia moral do povo” (moral economy ofthe crowd), conceito que utiliza para discutir o fenômeno na Inglaterra do século XVIII.O atravessador brasileiro, como o inglês, representava o espírito usurário próprio da economia de mercado em expansão.Sua prática se chocava com o caráter ainda paternalista quepredominava nas relações sociais, não obstante a naturezaplenamente comercial da economia de exportação. Pressionadas pelo povo, as autoridades procuravam impedir que a selvageria inerente ao monopólio da moralidade do lucro viesse aperturbar o precário equilíbrio social da província.Os dirigentes baianos andavam genuinamente preocupados com o potencial explosivo dos acontecimentos. O presidente da província alertou o governo nacional sobre o “descontentamento no povo pelo excessivo preço dos generos, principalmente os de primeira necessidade” ?0 Estava claro aosolhos das pessoas encarregadas da lei e da ordem provinciaisque a tendência do povo urbano para a rebeldia se relacionavafortemente com o alto custo de vida. As revoltas popularesdessa época — tema do próximo capítulo — foram, pelo menos em parte, motins por comida, ou o que na historiografiade língua inglesa chama-se mais precisamente food riots.

  2. Sep 26

    Rebelião escrava no Brasil - Parte I

    file:///C:/Users/Igor/Downloads/feismo.com-rebeliao-escrava-no-brasil-a-historia-do-levante-dos-males-em-1835-by-joao-jose--pr_7fb564df2da4bd1b5de37c029cccfdfd.pdf Sociedade, economia,rebeliões na época dosmalês Há ainda muito que se aprender a respeito dos grupos eclasses sociais que compunham a Bahia do século XIX. Umacoisa, porém, é certa: não podemos discutir a historia desseperíodo baseados num modelo de sociedade que se limite apenas aos senhores de engenho e de escravos, de um lado (e emcima), e de outro (e embaixo) os próprios escravos. Esta é umavisão extremamente simplista, mesmo quando se reconhecequase de favor a existência de outras categorias sociais.É verdade que os senhores de engenho eram proprietáriose controlavam em seus aspectos essenciais os principais meiosde produção da sociedade e, não só por isso, mas por seuimenso poder social, político e simbólico, eles representavama classe dominante por excelência. Fora todo o exagero que amitologia senhorial, e depois historiográfica, produziu parasuperdimensionar a onipotência do senhor de engenho, esteainda persiste como figura de grande poder.É também verdade que os escravos formavam a principalcategoria-de trabalhadores, eram subordinados política, social e economicamente aos senhores, e por isso, inclusive porseu peso numérico, pode-se dizer que constituíam a principalclasse subordinada da Bahia na época. Por essa razão, qualquer análise terá de levar em conta o fato de que as relaçõessenhor/escravo constituíam a matriz estruturadora da sociedade e da economia. No entanto, esse paradigma elementaraparece na história numa variedade de formas e significados.

  3. Sep 25

    Rebelião escrava no Brasil - Prefácio

    Na noite do dia 24 para 25 de janeiro de 1835, um grupode escravos de origem africana ocupou as ruas de Salvador,Bahia, e durante mais de três horas enfrentou soldados e civisarmados. Os organizadores do levante eram “malês”, comoeram conhecidos na Bahia da época os africanos muçulmanos.Embora durasse pouco tempo, foi o levante de escravosurbanos mais sério ocorrido nas Américas. Centenas de africanos participaram, cerca de 70 morreram e mais de 500,numa estimativa conservadora, foram depois punidos com penas de morte, prisão, açoites e deportação. Se uma rebeliãodas mesmas proporções acontecesse hoje (1985) em Salvador,com seus 1 milhão e 500 mil habitantes, resultaria na puniçãode cerca de 12 000 pessoas. Isso dá uma idéia da dramáticaexperiência vivida pelos africanos na Bahia em 1835.A rebelião teve repercussão nacional. No Rio de Janeiroa notícia provavelmente chegou ao público através dos periódicos que publicaram o relatório do chefe de polícia da Bahia.Temendo que o exemplo baiano fosse seguido, as autoridadescariocas passaram a exercer vigilância estreita sobre os negros. Os rebeldes da Bahia também reavivaram no Parlamento nacional os debates sobre a escravidão e o tráfico deescravos da Ãfrica.A seriedade com que as classes dirigentes encararam arebelião se revela na extensa devassa que se fez. Esses processos resultaram numa formidável coleção de documentos so­8 JOÃO JOSÊ REISbre a rebelião e os africanos que viviam na Bahia. Mais umavez, a história dos dominados vem à tona pela pena dos escrivães de polícia. A qualidade e a quantidade desses docurmentos toma-os um testemunho único sobre a escravidão urbana e a cultura africana nas Américas. Temos aí, por exemplo, mais de duzentos interrogatórios em que, apesar do óbvioconstrangimento da situação, os africanos falam, além darebelião, de aspectos de sua vida cultural, social, econômica,religiosa, doméstica e até amorosa.Este livro se baseia nessas falas dos africanos presos e emoutros documentos da devassa. Nele narramos à história dosrebeldes e da rebelião de 1835. Na Parte 1 discutimos o cenário social, econômico e político da Bahia na época. Os leitoresque preferirem ir direto à ação principal, encontrarão o relatodo levante no capítulo “A batalha pela Bahia Nos dois capítulos seguintes descrevemos a formação da comunidade muçulmana na Bahia e analisamos o papel que ela desempenhouna rebelião. Em seguida, no pequeno capítulo “Perfis malês",apresentamos aos leitores os personagens mais destacados domovimento. Na Parte 3 discutimos a formação de uma culturaafricana fortemente influenciada pela identidade étnica e expressa na organização do trabalho e da vida cotidiana. Sugerimos também como a consciência étnica, a escravidão urbanae as condições de vida dos africanos teriam influenciado a rebelião. Por fim, na última parte do livro■ estudamos a repressão aos rebeldes e os castigos que sofreram.

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