Na noite do dia 24 para 25 de janeiro de 1835, um grupode escravos de origem africana ocupou as ruas de Salvador,Bahia, e durante mais de três horas enfrentou soldados e civisarmados. Os organizadores do levante eram “malês”, comoeram conhecidos na Bahia da época os africanos muçulmanos.Embora durasse pouco tempo, foi o levante de escravosurbanos mais sério ocorrido nas Américas. Centenas de africanos participaram, cerca de 70 morreram e mais de 500,numa estimativa conservadora, foram depois punidos com penas de morte, prisão, açoites e deportação. Se uma rebeliãodas mesmas proporções acontecesse hoje (1985) em Salvador,com seus 1 milhão e 500 mil habitantes, resultaria na puniçãode cerca de 12 000 pessoas. Isso dá uma idéia da dramáticaexperiência vivida pelos africanos na Bahia em 1835.A rebelião teve repercussão nacional. No Rio de Janeiroa notícia provavelmente chegou ao público através dos periódicos que publicaram o relatório do chefe de polícia da Bahia.Temendo que o exemplo baiano fosse seguido, as autoridadescariocas passaram a exercer vigilância estreita sobre os negros. Os rebeldes da Bahia também reavivaram no Parlamento nacional os debates sobre a escravidão e o tráfico deescravos da Ãfrica.A seriedade com que as classes dirigentes encararam arebelião se revela na extensa devassa que se fez. Esses processos resultaram numa formidável coleção de documentos so8 JOÃO JOSÊ REISbre a rebelião e os africanos que viviam na Bahia. Mais umavez, a história dos dominados vem à tona pela pena dos escrivães de polícia. A qualidade e a quantidade desses docurmentos toma-os um testemunho único sobre a escravidão urbana e a cultura africana nas Américas. Temos aí, por exemplo, mais de duzentos interrogatórios em que, apesar do óbvioconstrangimento da situação, os africanos falam, além darebelião, de aspectos de sua vida cultural, social, econômica,religiosa, doméstica e até amorosa.Este livro se baseia nessas falas dos africanos presos e emoutros documentos da devassa. Nele narramos à história dosrebeldes e da rebelião de 1835. Na Parte 1 discutimos o cenário social, econômico e político da Bahia na época. Os leitoresque preferirem ir direto à ação principal, encontrarão o relatodo levante no capítulo “A batalha pela Bahia Nos dois capítulos seguintes descrevemos a formação da comunidade muçulmana na Bahia e analisamos o papel que ela desempenhouna rebelião. Em seguida, no pequeno capítulo “Perfis malês",apresentamos aos leitores os personagens mais destacados domovimento. Na Parte 3 discutimos a formação de uma culturaafricana fortemente influenciada pela identidade étnica e expressa na organização do trabalho e da vida cotidiana. Sugerimos também como a consciência étnica, a escravidão urbanae as condições de vida dos africanos teriam influenciado a rebelião. Por fim, na última parte do livro■ estudamos a repressão aos rebeldes e os castigos que sofreram.