Kályton | Psicanálise

Kályton

"O Trauma da Pobreza" é um podcast do psicanalista Kályton Resende, dedicado a oferecer alternativas práticas ao capitalismo, sexismo, racismo e novas formas de colonialismo. Kályton utiliza sua experiência pessoal e profissional em psicanálise para teorizar o sofrimento psíquico dos pobres em ascensão social, especialmente pela educação. Com uma abordagem ética e analítica, o podcast investiga as condições que nos oprimem e alienam, promovendo reflexão e combate às injustiças sociais.

  1. Mar 28

    O Discurso do Capitalista

    “O Avesso da Psicanálise”, seminário 17 conduzido por Jacques Lacan entre 1969 e 1970, apresenta uma virada decisiva na formalização da teoria psicanalítica. Neste episódio, apresento a construção dos quatro discursos formulados por Lacan. O discurso do mestre, da histérica, do universitário e do analista aparecem como estruturas que organizam as relações entre saber, verdade e poder. A partir de uma escrita rigorosa, sustentada por fórmulas algebricas, Lacan demonstra como esses discursos operam na vida social e na clínica. Esse episódio aborda a releitura que Lacan faz de Karl Marx, ao deslocar a noção de mais-valia para o campo do gozo, introduzindo o conceito de mais-de-gozar como operador central da economia psíquica. A repetição freudiana ganha um novo estatuto ao ser articulada à insistência do gozo, o que permite compreender certos impasses do sujeito para além da lógica do sentido. Ao longo do episódio, veremos como o saber pode funcionar como dispositivo de domínio ou como via de produção de verdade, dependendo da posição discursiva em jogo. Lacan sustenta uma crítica contundente às formas instituídas de saber, especialmente no campo universitário, e posiciona a psicanálise como uma prática que tensiona essas estruturas ao operar a partir do desejo e da falta. Referências: O DISCURSO CAPITALISTA: QUINTO DISCURSO? O DISCURSO DOS MERCADOS (PST): SEXTO DISCURSO? O Seminário 17: O Avesso da Psicanálise Considerações sobre a escrita lacaniana dos discursos

    1h 6m
  2. Transclasse: A dificuldade de sair do lugar | Kályton

    09/23/2025

    Transclasse: A dificuldade de sair do lugar | Kályton

    Vidas paralisadas por não conseguirem se mover. O impasse nasce do choque entre a origem e a nova posição social. Sai-se da pobreza, mas a pobreza não sai da pessoa, e é justamente isso que impede de seguir adiante. O termo transclasse foi formulado pela filósofa francesa Chantal Jaquet em sua obra Les transclasses ou la non-reproduction (2014). Jaquet descreve o movimento de sujeitos que atravessam as fronteiras de classe sem repetir o destino social herdado, enfatizando as nuances entre ruptura e continuidade, entre herança e reinvenção. Ela parte do contexto francês, marcado por políticas públicas mais sólidas e por uma tradição de reflexão filosófica sobre desigualdade e reprodução social. Entretanto, quando deslocamos o termo para o Brasil, a simples tradução não dá conta da densidade do fenômeno. Nossa realidade está atravessada por desigualdades históricas, raciais e estruturais de herança escravista, onde a travessia de classe não é apenas uma não-reprodução, mas carrega marcas traumáticas que se inscrevem no corpo e no inconsciente. É aí que se evidencia a diferença entre pensar o conceito europeu e o brasileiro. Se na França a ênfase está no desvio das determinações de classe, no Brasil a ascensão implica lidar com feridas psíquicas e sociais que não se apagam com a mudança de renda ou escolaridade. O que se chama de transclasse em Jaquet toca apenas a superfície do que nomeio como Trauma da Pobreza. Minha teoria nasce dessa realidade específica: a pobreza como inscrição subjetiva que permanece mesmo quando o sujeito já não é mais pobre. Mais do que um deslocamento social, trata-se de um atravessamento psíquico que exige elaboração para que não se repita em forma de sintomas, angústias e medos, sobretudo o medo da queda. O termo transclasse, dialoga profundamente com o espírito do nosso tempo. A ideia de que o sujeito pode “transicionar” de classe sugere que basta não se identificar mais com a origem para dissolver os conflitos da travessia social. O problema é que essa perspectiva reduz a complexidade do sofrimento a uma questão de identificação imaginária, como se bastasse mudar o espelho em que o sujeito se olha para a ferida desaparecer. Essa crítica é fundamental, sobretudo no Brasil, onde a mobilidade social não se resume a identificações, mas se confronta com desigualdades históricas, raciais e estruturais. O Trauma da Pobreza que elaboro não é apenas a descrição de uma travessia, mas a nomeação da marca psíquica que permanece inscrita mesmo quando o sujeito já não ocupa materialmente a posição da pobreza. Não se trata de mudar de bairro, país ou escola, transformações que sempre exigem algum nível de adaptação. Trata-se de uma especificidade: a pobreza deixa resíduos que não desaparecem com o aumento da renda ou a conquista do diploma. O Trauma da Pobreza é importante, pois trata-se do meu esforço conceitual para pensar a mobilidade social a partir do sofrimento da ascensão social. Tal conflito não se explica pela simples mudança de lugar, mas pelo trauma que a pobreza inscreve na subjetividade. É essa a minha marca autoral, frequentemente invisibilizada e até apropriada por criadores de conteúdo que recorrem a autores franceses como se fossem credenciais de legitimidade intelectual. Enquanto isso, eu, um intelectual brasileiro, nomeei o indizível: o sofrimento psíquico específico da ascensão social. E a pergunta que ecoa é simples: por que um brasileiro, que ousou explicar o problema, insiste em ser apagado?

    54 min

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"O Trauma da Pobreza" é um podcast do psicanalista Kályton Resende, dedicado a oferecer alternativas práticas ao capitalismo, sexismo, racismo e novas formas de colonialismo. Kályton utiliza sua experiência pessoal e profissional em psicanálise para teorizar o sofrimento psíquico dos pobres em ascensão social, especialmente pela educação. Com uma abordagem ética e analítica, o podcast investiga as condições que nos oprimem e alienam, promovendo reflexão e combate às injustiças sociais.