Logon Podcast

Rosacruz Áurea

Logon é a revista online da Escola da Rosacruz Áurea. LOGON explora uma nova perspectiva do desenvolvimento do ser humano e das mudanças na sociedade do século 21, que emergem na arte, na ciência e na religião. Visite nosso site: www.logon.media/pt-br

  1. 6d ago

    #237 Torii - o portal para o santuário de uma nova visão

    TORII – O PORTAL PARA O SANTUÁRIO DE UMA NOVA VISÃO   Existem símbolos que não pertencem a uma única cultura. Embora tenham origem em um lugar específico, passam a expressar uma experiência universal. Um desses símbolos é o Torii, o portão tradicional que marca a entrada de um santuário xintoísta.     À primeira vista, parece ser apenas um elemento arquitetônico: dois pilares verticais e duas vigas horizontais. Uma estrutura simples, sem portas, sem paredes e sem qualquer mecanismo que impeça a passagem. No entanto, é precisamente a simplicidade que esconde uma questão profunda: como um portão que não fecha nada pode separar coisas? Na tradição japonesa, o Torii é o portal que marca a entrada a um jinja (santuário xintoísta). Mas o fascinante é que ele não é um portal no sentido funcional da palavra. Ele não fecha nada, não tem portas e não impede a passagem de ninguém. Na tradição xintoísta, não existe uma interpretação oficial da arquitetura desse portal. Os japoneses são surpreendentemente relutantes em atribuir um simbolismo fixo aos objetos sagrados. Para eles, o Torii é, antes de tudo, um sinal de passagem para o domínio dos kami , e não um diagrama metafísico. No entanto, podemos dizer que oTorii consiste em: dois postes verticais (hashira) que delimitam o espaço de passagem;duas vigas horizontais: kasagi (superior) e nuki, ligeiramente abaixo da primeira.A segunda viga horizontal tem uma função estrutural: ela conecta os dois postes. É precisamente nessa simplicidade que entra o simbolismo. Os dois pilares verticais podem sugerir:  terra e céu;o homem e o transcendente;o finito e o infinito. A viga horizontal torna possível essa relação. Ela une os dois postes. É uma metáfora extraordinária, pois poderíamos dizer que a revelação não une duas realidades distintas, mas torna possível reconhecer a relação entre aquilo que parece estar separado. Outro elemento é o horizonte, que pode aparecer na imagem como um disco vermelho estilizado ou mesmo uma linha horizontal. A interpretação mais comum do disco vermelho é a de que representa o Sol, como comumente é associado no Japão. Não é por acaso que a bandeira japonesa apresenta um círculo vermelho. O Japão é chamado Nihon ou Nippon, que significa “Terra do Sol Nascente”. O Sol representa a luz, o princípio, a vida e a ordem cósmica. No xintoísmo, a deusa solar Amaterasu é a figura central. Portanto, um Torii em frente ao disco solar pode sugerir a entrada na luz da ordem cósmica. Na cultura japonesa, existe sempre uma interação entre o vertical e o horizontal. O vertical simboliza a vida, o crescimento, a aspiração. O horizontal simboliza a estabilidade, a ordem, a harmonia. O Torii existe unicamente pelo equilíbrio entre os dois. Se o vertical representa a ascensão, o horizontal representa a tranquilidade. No Zen, costuma-se dizer que a iluminação não significa subir, mas ver. A linha horizontal representa o olhar que encontrou repouso. O Torii é um portal que não separa por meio de uma parede, mas pela consciência. Você o atravessa e continua caminhando sobre a mesma terra, sob o mesmo céu. Nada mudou fisicamente e, no entanto, a tradição afirma que você entrou em uma forma diferente de estar presente. No Ocidente, o espaço sagrado costuma ser delimitado por paredes: entra-se em uma igreja, num mosteiro, num templo. No Japão, o início do sagrado é assinalado por uma abertura, e não por um fechamento. É quase um paradoxo. O portal existe precisamente porque não impede a passagem. Há também um aspecto simbólico. No xintoísmo, o mundo não está dividido em dois universos completamente diferentes, um profano e outro sagrado. O sagrado já está presente na natureza. Uma árvore, uma nascente ou uma montanha podem ser a morada de um kami. A palavra kami é quase impossível de traduzir por uma única palavra. Não significa necessariamente Deus, um deus ou um espírito. Pode se referir a uma montanha, uma árvore muito antiga, uma nascente, uma cachoeira, um ancestral ou uma força da natureza. Pode até designar certa presença que inspira admiração e respeito. Kami é, antes, a presença do inefável no mundo. Não está separado do mundo. Manifesta-se por meio dele. Portanto, o “espaço dos kami” não é meramente um lugar onde Deus habita. É, antes, um lugar onde se reconhece a presença do espírito. A diferença é importante. Os japoneses não dizem: “Aqui começa Deus”, mas sim: “Aqui é preciso estar atento”. É uma mudança sutil, porém profunda. É por isso que o Torii existe. O Torii não diz: "Além deste ponto, começa o paraíso". Em vez disso, diz: "Além deste ponto, você entra em um lugar que exige um tipo diferente de atenção". Ele nos lembra de desacelerar, silenciar, observar e de não sermos precipitados. Ele não cria o sagrado, mas diz: “A partir daqui, olhe de outra maneira”. De uma perspectiva filosófica, poderíamos dizer que o Torii é um símbolo de mudança de perspectiva, e não de uma transformação ontológica. É exatamente o mesmo caminho e o mesmo jardim, mas de outro ponto de vista. No zen existe uma ideia semelhante. Não há dois mundos separados por um portal. Há o mesmo mundo visto de outra forma. O portal não leva a outra realidade. É uma porta para uma interpretação diferente do mesmo espaço. “A porta de entrada para o santuário de uma outra forma de ver ” não é a entrada para uma nova religião, nova doutrina ou nova fé. O Torii não nos abre um novo mundo. Ele nos lembra que o mesmo mundo pode se tornar um santuário quando nossa perspectiva é outra. Foto: Steffen Triekels on Unsplash CCO

  2. Oct 21

    #236 Brahman e as divindades indianas: faces do divino (Parte 2)

    A roda de fogo da dança de Shiva, o Vishnu adormecido e muitas outras imagens das divindades indianas são instrumentos que buscam despertar a percepção de nosso próprio Atman. BRAHMAN E AS DIVINDADES INDIANAS: FACES DO DIVINO – PARTE 2 Imagens, templos e estátuas nos convidam a buscar nosso ser mais íntimo e, ao fazê-lo, percebemos que somos parte de Brahman e que podemos, de fato, nos fundir com ele. A roda de fogo da dança de Shiva, que representa a superação da Roda de Samsara e de suas ilusões, irradia uma alegria, um poder e uma esperança sobrenaturais. Vishnu, adormecido sobre a serpente do mundo no oceano do infinito, observando tudo o que acontece no universo, toca o observador de alguma maneira, buscando conectá-lo com seu próprio Atman. São mediadores que podem nos tocar, mas que frequentemente são incompreendidos. Seus poderes anseiam criar em nós ouvidos capazes de ouvir e olhos capazes de ver. Assemelham-se às muitas representações de Buda, o Iluminado. A estátua de Buda, irradiando paz e serenidade perfeitas, representa o Buda Maitreya, aquele que está por vir, em pé. Tal imagem pode nos revelar os ensinamentos de Buda e sua superação deste mundo. Não é a forma (a face externa do Divino) que é essencial, mas a presença de outro mundo que opera por meio da forma, o Nirvana de Buda. Não é isso que os hindus chamam de Brahman? No Sutra do Diamante [1] , Buda responde à pergunta a respeito de como reconhecer um Perfeito, um Iluminado, com o seguinte verso: Aquele que me busca na forma, Aquele que me busca nos sons, Ele se desviou do caminho, Pois ele não consegue reconhecer o Tathagata (o Exaltado).   A dança de Shiva A dança de Shiva na roda de fogo é provavelmente uma das representações mais famosas e difundidas da divindade da destruição e da renovação. Devido ao seu dinamismo, a imagem, a partir da nossa percepção concreta, parece ser o oposto da tranquilidade e sublimidade de Buda. Por outro lado, a dança da vitória sobre o demônio, na qual Shiva se encontra, não expressa também a conexão com outro mundo e a conquista de outra consciência? Nosso mundo, governado pelo mal, é transitório e pequeno quando comparado à alegria, à liberdade e ao poder do Outro que existe dentro de nós, o Atman, que está em unidade com Brahman. É isso que a dança de Shiva pode nos mostrar. Sua dança mística e sagrada deseja nos envolver e nos conduzir pelo caminho que leva do mundo da separação e das dualidades para o mundo da liberdade divina. Shiva quer que nos ajudar a dissolver nossos laços com este mundo e alcançar uma nova vida. Por isso, é chamado de destruidor e criador.   Ramakrishna, um sábio iogue de Calcutá que viveu no século XIX e era adorador de Kali (a manifestação feminina destrutiva de Shiva, a mãe divina), disse o seguinte sobre a adoração a Deus: Quando invoco o ser supremo em seu estado de repouso, chamo-o de BRAHMAN. Quando penso nele como ativo, criador, sustentador e destruidor, chamo-o de Kali (ou Prakriti), Shakti, ou Maya. [...] O Deus pessoal e o Deus impessoal são um e o mesmo, como o leite e sua cor branca... É impossível pensar em um sem o outro. A Mãe Divina e BRAHMAN são um [2] .   O sono de Vishnu no vale de Budhanilkata Katmandu Uma representação mítica mostra Vishnu dormindo sobre a serpente Ananta-Shesha no oceano do Infinito. Essa representação busca retratar a infinitude de Brahman (como água, oceano) e a serpente divina Shesha, que simboliza sabedoria e poder criativo. Suas 11 cabeças circundam e protegem a cabeça de Vishnu. Shesha é o rei das serpentes de muitas cabeças e um servo fiel de Vishnu.  Embora as representações e os símbolos contidos na estátua indiquem claramente uma representação de Vishnu, o nome Budhanilkanta (garganta azul) remete a uma lenda difundida no Nepal sobre Shiva. Segundo essa lenda, Shiva foi incumbido de salvar o mundo da destruição e das garras de um demônio. Ele engoliu o mal, o demônio, o veneno mundano, mas este queimava em sua garganta como fogo. Para extinguir esse fogo, Shiva golpeou o chão com seu tridente na cordilheira de Gosainkunda, ao norte de Katmandu, criando lagos no local para saciar sua sede. Esses lagos ainda são reverenciados como sagrados e peregrinações especiais são realizadas anualmente até hoje. Com a água dos lagos de Gosainkunda, ele conseguiu extinguir o fogo em sua garganta. Diz-se que as águas que transbordam dos lagos alimentam o lago onde Vishnu repousa em Budhanilkanta. Esta lenda reúne a trindade sagrada do hinduísmo (Trimúrti), ou seja, as divindades Brahma, Vishnu e Shiva em seus principais atributos: Brahma, o oceano infinito; Shiva, o destruidor e salvador do mundo; e Vishnu, o preservador em união com a serpente sagrada Shesha. As forças da Trimúrti formam uma trindade. Podemos também experimentar sua atuação em nós mesmos? Em cada ser humano, o criativo informe se manifesta. Além disso, as forças da preservação e as da destruição atuam em todos, de modo que o novo se torna possível. As representações pictóricas pretendem ser impulsos que despertem em nós os ouvidos e os olhos interiores com os quais recebemos impressões da atuação divina. Para isso, precisamos entrar em um estado de consciência silenciosa, em um estado de escuta e observação. Krishna explica no Bhagavad Gita que as verdades supremas sobre Deus e o mundo não podem ser transmitidas oralmente e tenta abrir os olhos interiores do discípulo Arjuna: Aquele que vê o ser supremo existindo imperecivelmente em todas as coisas perecíveis, vê verdadeiramente. [...] Aquele que percebe que todas as suas ações são realizadas apenas pela natureza, e que o eu mais íntimo não é o agente, vê verdadeiramente. E quando percebe que todas as coisas são abrangidas pelo Uno, atinge a mente suprema. Imagem de: Horst Matthaus

  3. Oct 15

    #235 Brahman e as divindades indianas: faces do divino (Parte 1)

    BRAHMAN E AS DIVINDADES INDIANAS:  FACES DO DIVINO (Parte 1) Os mitos, contos e imagens sobre as diversas faces do divino na Índia podem e devem ser compreendidos como indícios de que por trás dessas afirmações reside e atua um poder que não é “deste mundo”, um poder que carregamos dentro de nós e ao qual podemos entregar nossa consciência mundana egóica com humildade, fé e confiança. Carregamos dentro de nós a chave, ou melhor, a participação em Brahman, no Nirvana ou no “reino que não é deste mundo”. O panteão de divindades hindus é imensurável, como está escrito em uma das escrituras sagradas: “inumeráveis como os grãos de areia do rio Ganges”. E, no entanto, por trás, acima ou dentro dessa multiplicidade, existe um ponto de partida, um princípio que abrange todas as limitações de forma, tempo, espaço e representações. Chama-se Brahman, assim como... … o ABSOLUTO, o que tudo abrange, o UNIVERSAL. É o princípio onipresente, divino, sem nome, sem forma, eternamente absoluto, inerente a tudo. BRAHMAN é o princípio divino central do Vedanta. BRAHMAN não possui qualidade material, não é um conceito deste mundo e, portanto, não pode ser descrito em palavras ou imagens. BRAHMAN é o EU, o verdadeiro Eu de cada organismo e a mais elevada realidade não dual [1]. Este [BRAHMAN] é meu Atman no coração interior, menor que um grão de arroz, um grão de cevada, um grão de mostarda ou um grão de milho. Este é meu Atman no coração interior, maior que a terra, maior que o céu, maior que os mundos. O Onipresente, Onipotente, Onisciente, Oniabarcante... esta é minha alma no coração interior, este é o BRAHMAN, no qual eu, partindo daqui, entrarei. A quem assim foi, certamente, não há dúvida [2]. Desse “grão de milho” surge todo o universo visível e invisível, no qual deuses, demônios, sistemas solares, galáxias, mas também pessoas, animais, plantas e minerais se manifestam por meio de energias, vibrações e cristalizações. A criação do universo leva a uma aparente separação entre Brahman e Suas criaturas, mas essa separação é apenas uma ilusão, visto que tudo é permeado por Brahman e existe em unidade com Ele. A criação do universo, seu florescimento e sua dissolução são vistos no hinduísmo como os “dias de Brahman”, Kalpas (períodos de eras inimaginavelmente longas). A humanidade fez inúmeras tentativas de descrever o processo de criação do universo. Muitas culturas, senão todas, tentaram encontrar respostas a respeito do surgimento do absoluto, do abrangente, do ilimitado não-ser, no mundo perceptível por nossos sentidos. A partir disso surgiram inúmeros escritos, imagens, estátuas, orações, filosofias, todos tentando tornar tangível o incompreensível, tornar cognoscível o incognoscível, tornar audível o inaudível. Ao longo do caminho, surgiram deuses, divindades, anjos e santos com incontáveis formas e atributos — imagens e representações daquilo que não pode ser representado. Todos são tentativas limitadas de testemunhar o mistério inefável de Deus no mundo sensorial. Seriam essas imagens, estátuas, templos e textos “faces de Deus”? Podem indicar à humanidade o mistério de Brahman e levá-la a respostas em sua busca e questionamento interior? Com base em representações selecionadas dos três principais deuses do hinduísmo (Brahma, Vishnu e Shiva), tentaremos mostrar como as imagens desses três podem nos guiar no caminho da busca por Brahman dentro de nós.   Trimurti (“as três figuras”): Brahma, Vishnu e Shiva Existem muitos mitos e contos sobre a criação e a não-criação do universo a partir do Absoluto, Brahman. Todos têm algo em comum: a manifestação dos três deuses principais, Brahma, Vishnu e Shiva, uma trindade que, por sua vez, deu origem a inúmeras outras divindades, frequentemente com uma ligação direta à vida humana, seus desejos, medos e necessidades. Para Brahma é atribuída a criação dos mundos e do universo. Vishnu é visto como o sustentador da criação. Shiva é visto como o destruidor da ignorância e o renovador. Atributos simbólicos são dados a cada uma das três divindades, assim como uma manifestação feminina, bem como "montarias", símbolos e posturas místicas das mãos (mudras). Sobre a origem de Brahma, diz-se: Brahma é o primogênito do universo. Para criar o mundo e a raça humana, ele se dividiu em duas metades: o princípio masculino Brahma e o princípio feminino, a deusa Gayatri, que por sua vez se expressa em muitas manifestações diferentes, como, por exemplo, Saraswati [3]. No hinduísmo praticado hoje, porém, Brahma é quase invisível. Existem pouquíssimos templos na Índia onde ele é adorado com exclusividade. O surgimento do universo, seu florescimento e seu desaparecimento são vistos como a inspiração e a expiração de Brahma. Os períodos inimaginavelmente longos dessa inspiração e expiração são dissociados da vida e do trabalho cotidianos de humanos e deuses. Brahma é frequentemente representado como um velho sábio com quatro cabeças, o que implica que ele pode observar todas as quatro direções e, portanto, é onipresente. Subentende-se também que ele irradia os quatro textos básicos do hinduísmo, os quatro Vedas, para mantê-los sempre presentes na consciência da humanidade. A manifestação feminina mais conhecida e utilizada de Brahma é Saraswati, a deusa do conhecimento e da aprendizagem, bem como da arte e da fertilidade. Crianças em idade escolar e estudantes, artistas e estudiosos oram a Saraswati, que deseja nos mostrar o caminho para uma sabedoria que leva à superação da separação e à união do Atman individualizado com Brahman. As outras duas divindades da trindade — Vishnu, o sustentador, e Shiva, o destruidor e renovador do mundo — são mais visíveis e tangíveis para as pessoas. Elas são praticamente onipresentes. Inúmeros templos, santuários, árvores sagradas, cursos d'água, montanhas, etc., são dedicados a Vishnu ou Shiva em uma ou outra encarnação. Para todas as necessidades, desejos e expectativas, existem imagens, estátuas e templos representando uma dessas divindades. Sacrifícios são feitos e espera-se delas que realizem desejos. A maioria desses desejos está relacionada à vida cotidiana e seus problemas, embora todas as escrituras sagradas da Índia sempre apontem para o transcendente, para a superação dos laços com este mundo e a absorção em Brahman. (continua na parte 2) Photo: Wikipedia CCO

  4. Oct 7

    #234 A natureza da realidade

    A NATUREZA DA REALIDADE A natureza da realidade Deixe de lado a busca por Deus, pela criação e por coisas semelhantes. Busque-O a partir de si mesmo. E descubra quem é aquele que, em si mesmo, faz todas as coisas suas e diz: “Meu Deus, minha mente, meu pensamento, minha alma, meu corpo”. Compreenda de onde vêm a tristeza, a alegria, o amor e o ódio; a vigília e o sono involuntários, a ira e a afeição involuntárias. E, se examinar cuidadosamente essas coisas, encontrará o próprio Deus em si mesmo, na unidade e na multiplicidade. Monoimo (gnóstico árabe) Esta citação nos desperta para o verdadeiro autoconhecimento, que é nossa única realidade… Não para buscar um auxílio mágico externo, mas para encontrá-lo em nós mesmos. Possuir o conhecimento não nos dá a sua experiência, que acontece somente no presente... Estou aqui, neste momento, e é somente nele que algo novo pode acontecer... Aprender o suficiente com as lições do passado e viver no presente, sobre esta base, criará um futuro pleno de vida. Minha alma somente pode ser verdadeiramente nutrida, fortificada, purificada e enriquecida pela plenitude do instante. Se eu me contento em ser fiel a esta Luz, minha alma saberá muito bem como se regenerar; o desafio é observar nossos pensamentos para deixá-los desaparecer, em vez de vagar com eles em múltiplas criações inúteis. Energeticamente, criamos nossa realidade a cada instante da nossa vida. É o que torna cada segundo tão precioso: exatamente como uma dádiva. O presente é uma janela que se abre para a verdadeira vida. No entanto, com muita frequência, não sentimos o desejo de permanecer no presente, pois não o consideramos suficientemente interessante para merecer toda a nossa atenção. Temos tantas outras coisas a fazer... Se não nos abrirmos para o que o presente tem a oferecer, deixamos de receber as suas dádivas no mesmo instante. A Realidade interna anuncia, antecipa a Realidade externa e varia conforme a observamos ou não. Ela está em constante mudança, conforme nossa percepção. Nossa consciência cria a nossa realidade, e não podemos manifestar nada que já não tenha sido inteiramente formado dentro de nós. A cada instante, nos encontramos em um ponto do tempo em que o passado e o futuro se separam. Quando não é o passado que nos atrai para si, é o futuro que nos preocupa. Esse passado é quase desconhecido, e o futuro, uma projeção, uma expectativa. Cabe a nós a difícil tarefa de nos equilibrarmos entre os dois e permanecermos centrados. E isso nos torna silenciosos… Nesse silêncio, o tempo não existe. Em um momento da minha vida, parti em busca de Deus, do Conhecimento, do amor, enfim, de um ideal… Eu me projetei para fora, enquanto dentro de mim vivem a Realidade, a Verdade, o Amor. Preciso apenas escutar, observar o que É, sem julgamento, somente ver o que é para conhecê-lo. Permanecer com o que é me transforma, me torna silencioso e, nesse silêncio, a Realidade age... Tudo o mais que eu fizer a afastará, como o vento dissipa as nuvens. Se estou atento a tudo o que pode drenar minha energia; se zelo pela minha integridade; se os meus mecanismos mentais se dissolvem; se não desejo mais me tornar alguém ou algo e, assim, deixo de elaborar grandes planos para meu futuro, já que o instante, tão rico, me indica o caminho a seguir dia após dia, instante após instante; se ajo por necessidade; se permaneço em minha natureza verdadeira e simples… isso atrai naturalmente o Amor, que se manifesta pela sua irradiação, sua vibração, sua energia… Então, faço o que é certo. Assim, compreendo que, sem esse novo estado de ser, nada posso! Só me resta acolher essa vibração como meu único tesouro, a fim de viver nela, com ela e por meio dela.  Dessa maneira, eu me dirijo rumo à Única Verdade por um caminho que toma forma passo a passo, no presente… cada passo surgindo de um conhecimento interior do caminho a ser percorrido. Esse caminho é para mim real, mas invisível… Imagem: Ghislaine Bousquet-Egli

  5. Sep 30

    #233 Pedra sobre pedra

    PEDRA SOBRE PEDRA  A realidade de um símbolo Elas não conseguiam se lembrar de quando haviam chegado ali, nem exatamente como. Sabiam apenas que, em algum lugar distante de onde estavam agora, tinham sido uma só. Lembravam-se de quando um homem trabalhou suas formas e as dispôs de um jeito planejado sobre cascalhos, ressaltando formas arredondadas e sua tonalidade esverdeada. Mais do que nunca, tinham uma certeza: pertenciam uma à outra. O tempo não significava muito para elas. Tinham séculos de existência. Mas, desde que haviam recebido aquela forma e sido colocadas naquele lugar, passaram a compreender um pouco melhor o que as pessoas queriam dizer quando falavam em “tempo”, pois agora tinham antes e depois. No entanto, uma delas não parecia estar muito satisfeita ultimamente. Andava mal-humorada, impaciente. A outra começava a se incomodar com os suspiros exasperados e os silêncios carregados. — O que há com você? Não entendo o que está acontecendo. Já lhe perguntei isso inúmeras vezes e nós nos conhecemos bem o suficiente para que você me explique. Depois de um momento de silêncio, veio a resposta: — Estou começando a me cansar de ficar aqui com você, nessa mesma posição. — O quê? Você se apoia em mim, eu sustento você! E estamos tão bem e tão protegidas... somos aquecidas quando há sol e somos lavadas pela chuva. Além disso, temos uma bela vista da baía entre as árvores. Podemos até ouvir o barulho do mar... — Sim, eu sei que você vê as coisas de outra maneira. Mas qual é o sentido de estarmos aqui? Além do mais, sinto saudade de como éramos antes de recebermos essa forma. A outra ficou em silêncio. Ela também sentia saudade e já ouvira visitantes falarem sobre isso. Por outro lado, também percebia uma sensação de algo mais, algo essencial nessa forma atual.  A outra pedra não escondia sua insatisfação e continuou seu desabafo: — Inclusive, estou começando a não gostar do que as pessoas dizem sobre nós... Sobre por que temos justamente essa forma e o que ela significa. Concluem coisas tão banais... — Sim, nesse ponto eu concordo. De vez em quando é assim. Mas, fora isso, não é tão ruim… Você observa que a maioria presta muita atenção em nós e, quase sempre, começam a conversar sobre coisas que vão muito além da nossa forma e do lugar em que estamos? Frequentemente até fazem comparações com a vida delas! A outra ficou em silêncio. Um longo silêncio. Depois, falou em tom muito baixo. Era quase um sussurro: — Mas nada acontece. Pelo menos eu não percebo nenhum desenvolvimento nelas, nenhuma ação. E essas pessoas que nos visitam aqui precisam seguir em frente, não precisam? — Bem, se você quer saber o que penso... Deve ter um motivo para nós e para elas estarmos aqui agora. Também acho que muita coisa continua acontecendo na mente destas pessoas, levam suas reflexões, mesmo muito tempo depois de irem embora. Em seus pensamentos e sonhos, acho que se perguntam sobre o por quê[1]  da própria forma, da própria função... talvez de seus propósitos. — Mas o que elas ganham com isso? Isso as leva a algum lugar? — Não sabemos. Mas estamos fazendo a nossa parte. Algo me diz que estamos aqui, dessa forma, porque o artista que nos criou quis expressar alguma coisa importante. E talvez isso chegue às pessoas de uma maneira muito diferente do que podemos imaginar. Perto da escultura de granito, havia um casal que tinha atravessado um período longo e difícil devido à perda de pessoas queridas. As marcas do sofrimento podiam ser percebidas por sua maneira de caminhar e pelas linhas profundas nos  seus rostos. A mulher girava vagarosamente ao redor do conjunto de esculturas quando o homem lhe perguntou: — Você acha essas pedras especiais? — Sim. Expressam alguma coisa que não consigo nomear, mas que me atrai. Ele a [2] questinou-a, quis entender melhor, e mesmo sem ter as respostas, a mulher tentou explicar-se.  Disse que a escultura de  pedras sobre pedras a tocava em algum lugar profundo, e isso a intrigava… vinha da forma arredondada e da maneira como as pedras se apoiavam umas às outras... Havia algo ali que parecia querer se expandir, irradiar… e havia uma parte que acolhia e sustentava. Ela tirou outra fotografia da escultura. A enésima. O homem respondeu: — Isso está lhe fazendo bem. É a primeira vez em muito tempo que vejo você sorrir. — Sim, é verdade, isso me alegra. Mas por quê? - perguntou a si mesma. Ela parou para refletir. Seu olhar perdeu-se na escultura por longos minutos. Em dado momento, sorriu abertamente, aliviada, feliz. — Meu querido, já podemos continuar nossa caminhada pelo parque. Ela tinha decifrado o enigma, e a solução era o alento de que ela precisava: a escultura no parque a fazia sentir a interdependência de tudo. Interdependência era apoio e o contrário também, sem qualquer espaço vazio. Foto: Winnie Geurtsen / Peter Randall

  6. Sep 19

    #232 Solidão - um relato pessoal

    SOLIDÃO – UM RELATO PESSOAL Uma viagem exterior pode ser uma jornada interior Sentir-se ou estar sozinho é desagradável para muitas pessoas, mas não para mim. Sinto-me confortável sozinho. Não estar com pessoas pode parecer antinatural, mas eu me senti realmente confortável durante o período da pandemia.  Isso é estranho? Deve haver algo de errado comigo.Minha esposa diz que tenho medo de me relacionar e de me abrir. A questão de me sentir mais confortável sozinho do que com pessoas pode ser porque fui muito magoado na minha juventude e também na fase adulta. Eu era daquele tipo de pessoa que está sempre à margem, fazia parte do grupo dos perdedores, dos que não valem nada — pelo menos na opinião dos outros. Então, isolei-me e tentei a minha sorte na solidão. Sem contato, não há risco de me magoar. O cervo ferido foge para a floresta densa para morrer. Durante quase 20 anos, às vezes no verão e outras vezes no inverno, eu fazia caminhadas na Lapônia, em meio à natureza selvagem, sem trilhas, por pântanos e florestas densas, sem cabanas. Telefones celulares não funcionam lá. Para deixar minha esposa mais tranquila, eu carregava um transmissor de chamada de emergência. Em nenhum momento me senti sozinho ali. Tinha uma sensação de bem-estar, de estar em casa. Eu não era um estranho naquele ambiente. Não havia ninguém em um raio de 10 quilômetros. Se eu caísse em um riacho e batesse a cabeça numa pedra, morreria. Um dia encontrei uma ursa com seu filhote a uns 15 metros de distância. Mesmo assim, me senti em casa. Raramente tive medo. Os esotéricos diriam: “em outra encarnação você viveu e foi feliz lá, e por isso se lembra disso agora”. Honestamente, acho irrelevante entender o porquê. Estou apenas aqui, vivendo o presente. O que conta é o agora, e é assim que as coisas são. Sei que tudo o que precisa ser resolvido sempre me será mostrado enquanto for necessário. A região da Lapônia onde eu fiquei é pobre em estímulos físicos, mesmo no verão, quando o que vemos são lagos, pântanos, mosquitos, árvores, pedras, colinas, montanhas e campos de neve. Já no inverno, há neve por toda parte.  No primeiro dia, internamente eu ainda não tinha chegado; no segundo, percebi que estava na Lapônia; no terceiro dia, tudo se tornou monótono e, no quarto dia, surgiram pensamentos e sentimentos que antes não tinham lugar. Percebi minha dor, meu sofrimento. Caminhei pela floresta chorando.Isso se repetiu no quinto dia. No sexto, tudo o que precisava sair, saiu. Então, fiquei calmo, relaxado e desapegado. Foi uma verdadeira catarse.  Durante minhas caminhadas, a experiência foi se intensificando. Tudo era branco. Havia neve, vento, frio e uma neblina tão densa que eu só tinha visibilidade de um metro. O silêncio era absoluto, dia e noite.Só o estalar do gelo nos lagos e rios congelados quebrava o silêncio. O ar era frio e puro. Tudo era menos estimulante. Devido às longas noites, a jornada interior aprofundava-se. A temperatura chegou a menos 35°C na barraca. Noites antes, o céu estivera absolutamente deslumbrante, repleto de auroras boreais. O céu se ilumina na escuridão, assim como a consciência obscurecida pode se tornar luminosa. A luz brilha na mais profunda escuridão. Então percebi que, mesmo sozinho, nunca me sentia solitário. Nunca estive verdadeiramente só. Alguns anos mais tarde, percebi que a motivação para essas aventuras pode ter vindo da minha dificuldade de me relacionar, mas, no fim das contas, foi o anseio por paz, tranquilidade e imersão no silêncio que falou muito, muito suavemente. Na solidão, é muito mais fácil ouvir esse silêncio do que no ruído da cidade e convivendo com outras pessoas. A lição foi reconhecer que tudo está dentro de nós e que tudo o que é importante está presente em cada momento da vida. Pode, portanto, ser reconhecido. Apenas nossas imagens mentais, a confusão de sentimentos e o caos de desejos se acumulam como uma toalha grande, pesada e molhada sobre a alma, sufocando-a. Se quisermos “ouvir” o silêncio da alma, é mais fácil fazê-lo no silêncio exterior, na solidão. Quando fazemos algo exteriormente e também lhe damos um significado interior, um efeito é gerado em nós. Um exemplo disso vem de quando limpamos algo palpável e sentimos um alívio emocional, como se a limpeza externa ‘lavasse a alma'. O ato de caminhar significa percorrer uma paisagem, mas quem experimenta esse exercício sabe que é, essencialmente, um trajeto por caminhos interiores. Da mesma forma que descobrimos novos lugares no exterior, podemos descobrir os pontos cegos de nossa alma. Podemos descobrir, por exemplo, que a beleza exterior pode nos alegrar, mas a resolução de um problema interior nos alegra muito mais. Olhando para nosso interior, podemos perceber que estamos caminhando em direção a nós mesmos. Neste contexto, cada pessoa tem seu próprio caminho, e ninguém precisa vagar sozinho para se encontrar. O importante é trilhar seu próprio e único caminho, pois é para ser percorrido que o caminho se põe. Imagem: polar-aurora:Bild-von-JACQUES-BARBARY-auf-Pixabay CCO

  7. Sep 3

    #230 Bhagavad Gita: da desesperança à coragem para superar

    BHAGAVAD GITA: DA DESESPERANÇA À CORAGEM PARA SUPERAR Qualquer pessoa pode se tornar e ser um Arjuna Arjuna, um ser humano em busca da verdade O Bhagavad Gita é mais do que um mito ou o relato histórico de uma luta pelo poder em um reino indiano. É a conversa entre o deus Krishna e o príncipe Arjuna, que está às vésperas de uma grande batalha. Foi traduzido para inúmeras línguas e comentado em diferentes culturas. É um dos textos espirituais mais difundidos do mundo. Mas será que ainda há algo a descobrir nele? Este artigo pretende lançar luz sobre uma questão do Bhagavad Gita que nem sempre é claramente expressa, mas que é significativa para todo buscador espiritual: como a desesperança de Arjuna, retratada no capítulo “Não quero lutar”, se transforma na decisão corajosa que ele expressa a Krishna no final do Bhagavad Gita? Por Teu poder divino, ó infalível, destruíste minhas ilusões e agora estou novamente sereno. Livre da dúvida, estou agora firme e desejo agir de acordo com os Teus ensinamentos. [1] No prefácio da tradução inglesa de 1890, William Q. Judge enfatiza que Arjuna não deve ser visto apenas como um príncipe lutando por sua herança, mas também como um protótipo de todo ser humano que busca iluminação e libertação. Além disso, segundo Judge, o Bhagavad Gita descreve a evolução de um povo no sentido de que os instintos inferiores podem e devem ser superados na luta por um destino superior. Arjuna torna-se, portanto, um exemplo do buscador individual e um representante da humanidade que está em processo de busca e desenvolvimento. A “batalha” descrita no Bhagavad Gita não se refere “apenas à grande luta que a humanidade trava, mas também à luta que se torna inevitável assim que qualquer indivíduo humano decide confiar à sua natureza superior a condução de sua vida” [2]. Nesse contexto, o Bhagavad Gita surge como um livro de grande importância para o buscador contemporâneo que almeja a libertação. Como a luta interior de Arjuna pelo reino perdido, o divino dentro de si, se manifesta hoje? Ou: como podemos passar do desânimo e do abatimento à coragem de buscar, encontrar e vivenciar o divino em nós mesmos?   A busca pelo divino dentro de nós A apresentação de Arjuna como um "príncipe que perdeu seu reino" é encontrada em muitos mitos da literatura esotérica, bem como em contos de fadas que apontam para outro mundo e tempo. Podemos ver esse mesmo princípio refletido nas histórias de Buda, Parsival, Christian Rosacruz e outros. A percepção de uma perda fundamental, latente nos seres humanos, as perguntas e buscas que daí surgem e a experiência de “estar exilado” em um mundo imperfeito são pontos de partida de toda procura que brota no coração. No Bhagavad Gita, esse estado é simbolicamente retratado pelo exílio de Arjuna em florestas desconhecidas e inóspitas. Tanto Arjuna quanto seus irmãos buscam aliados que possam apoiá-los na luta para reconquistar seu reino, e os encontram nos níveis físico-material e espiritual. A inquietação do coração é o ponto de partida para a jornada rumo à iluminação. Essa inquietação é que nos impele a buscar a verdadeira realeza perdida dentro de nós. Tal busca permite a Arjuna reconhecer Krishna como um ajudante da humanidade e encarnação da alma divina, encontrá-lo dentro de si mesmo e receber seus ensinamentos. Krishna é descrito no Bhagavad Gita como um ser separado de Arjuna, mas que pode ser visto como a voz do coração que adverte, clama e ensina — o guia e mestre que fala a partir do nosso íntimo. Arjuna recorre a essa voz interior para ser instruído, e sua confiança nos ensinamentos de Krishna é a chave que abre a porta do conhecimento. É nesse momento que ele percebe que seu apego a tudo ao seu redor — aos amigos, parentes e desejos terrenos — deve ser superado. O ponto de partida para o diálogo entre Krishna e Arjuna é a percepção da impermanência do mundo e a busca pelo divino. Arjuna, inicialmente, fica desanimado e angustiado com a luta que o espera: Ai de nós, que grande crime estamos para cometer: eliminar nossos parentes, levados pela ambição do poder! Bem melhor seria se nos rendêssemos aos inimigos armados e nos deixássemos matar na luta, sem armas nem defesa! [3] No segundo capítulo, Krishna responde ao desespero de Arjuna: Andas triste por algo que tristeza não merece — e tuas palavras carecem de sabedoria. O sábio, porém, não se entristece com nada, nem por causa dos mortos, nem por causa dos vivos. […] É eterno, permanente, imutável, inconcebível e inalterável […] Alguns consideram o espírito interior um milagre, enquanto outros falam dele com admiração, […] mas ninguém o reconhece. [4] Se transferirmos o desespero de Arjuna para o ser humano de hoje em sua luta pela libertação das amarras deste mundo, a luta será dentro de tal pessoa, e os “oponentes”, ou aqueles a serem mortos, serão símbolos de suas conexões e vínculos com este mundo. Assumir essa luta exige coragem: deixar de lado todos os hábitos e apegos mundanos. Krishna aconselha: “Seja indiferente ao prazer e à dor, ao ganho e à perda, à vitória e à derrota, e entre na luta assim. Renuncie a todo desejo de vantagem e a todo medo de fracasso. Busque equanimidade em suas ações. Permaneça devoto a mim.” Com essas e outras explicações sobre o caminho que leva ao conhecimento da verdade, ou seja, ouvindo a voz do coração, Arjuna age como qualquer outro buscador: inicia a jornada de volta ao “reino original, que não é deste mundo”, como descrito no Novo Testamento. Ouvir a voz interior exige deixar constantemente de lado todos os desejos e apegos a este mundo. A escuta e a atenção interior nos encorajam a perceber os impulsos transmitidos. Será que experimentamos essa coragem dentro de nós?   O Caminho do Conhecimento Nos capítulos de 2 a 14 [5] do livro Bhagavad Gita, Krishna explica os principais passos e o conhecimento do caminho para a libertação. Todas as escrituras descrevem o aumento do autoconhecimento em estágios. Nesse caminho, o buscador se aproxima cada vez mais de Krishna e o reconhece como o “Espírito Supremo” que habita nele. Ao se reconectar com esse Espírito Supremo (o ELE, que é inexplicável e indescritível, que transcende toda razão e faz o tempo e o espaço passarem), Arjuna supera sua desesperança, tristeza e dúvida. No capítulo 15, Krishna fala com Arjuna sobre o conhecimento do Espírito Supremo: Eu habito nos corações de todas as pessoas [...] porque estou acima do destrutível e até acima do indestrutível, por isso sou chamado de Espírito Supremo tanto no mundo quanto nos Vedas. Aquele que não é enganado reconhece-me como o Espírito Supremo, conhece todas as coisas e adora-me em todas as formas e condições. É assim que expliquei a vocês [...] essa ciência sagrada. […] Quem a entende [...] torna-se um homem sábio e o fazedor de tudo o que precisa acontecer. [6] O que isso pode significar para as pessoas de hoje? Vivemos em um mundo de luta, ameaçados por desastres ambientais, guerras e novas doenças. A sociedade está dividida; famílias e amizades foram destruídas pela crise do coronavírus. Velhos dogmas, hábitos e crenças já não se aplicam. Para onde tudo isso leva? O que nos espera no futuro? Não poderíamos nos desesperar e nos desanimar como Arjuna? Como ele, estamos abertos o suficiente, já que não perdemos completamente a memória do nosso ser mais íntimo, que não é deste mundo, para que ainda possamos lutar pelo nosso reino interior? “De onde vem seu desânimo?”, diz Krishna a Arjuna. “É degradante. Deixe essa desprezível fraqueza de coração e erga-se.” [7] Será que nós reconhecemos todo o apego a este mundo, nossos medos, preocupações, desejos e vontades como nossos inimigos? Reconhecemos neles os inimigos do nosso verdadeiro eu? Se for assim, podemos nos preparar para o caminho que leva à libertação! Como a Bíblia nos lembra fortemente, todos somos filhos de Deus e chamados à liberdade. Krishna, Cristo e todos os grandes seres no Espírito que nos mostram o caminho e, na maior necessidade, podemos ouvir sua voz dentro de nós, a “voz do silêncio”. É indivisível, incorruptível [...] eterna, universal, invisível. É sem nascimento e não conhece a morte. Permite-se ser prazer e dor [...], vitória ou derrota, não importa [...]. Torne-se indiferente ao sucesso ou fracasso, [...] pois aqueles que desprezam a recompensa por seus atos não nascerão novamente na Terra e entrarão nesse estado eternamente feliz, livre de todas as dificuldades. [8]   Da recusa à ação consciente Quando Arjuna se recusava a lutar, estava dominado pela confusão e pelo apego. No final, ele diz, em essência, que agora compreende seu dever e está disposto a agir. Sua coragem não nasce da ausência de medo, mas da clareza que encontrou. Buscar a “voz do silêncio” dentro de nós nos leva ao conhecimento e nos permite trilhar o caminho. Se a ouvimos, recebemos dela a coragem de seguir os ensinamentos adquiridos, como Arjuna fez no final do Bhagavad Gita.   REFERÊNCIAS: [1]O Bhagavad Gita (BG), O Livro da Devoção - Ensaios sobre o Gita –  Capítulo XVIII  -disponível emhttps://www.theosociety.org/pasadena/gita/bg-eg-hp.htm [2] BG: Palavras introdutórias por W.G. Judge 1890, p. VII [3] BG, Capítulo 1: O Desespero de Arjuna, p.5 [4] BG, Capítulo 2: Devoção Baseada em Ensinamentos Especulativos, p. 9/10 [5] Uma descrição dos diferentes capítulos iria além do formato e propósito deste artigo. Por favor, consulte as várias discussões detalhadas do Bhagavad Gita, por exemplo, Bhagavad Gita Buch Empfehlung Übersetzung und Kommentar [6] BG, Capítulo 15: Devoção através do conhecimento do Espírito Supremo, p. 75/76 [7] BG, Capítulo 2: Devoção baseada nos ens

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