Logon Podcast

Rosacruz Áurea

Logon é a revista online da Escola da Rosacruz Áurea. LOGON explora uma nova perspectiva do desenvolvimento do ser humano e das mudanças na sociedade do século 21, que emergem na arte, na ciência e na religião. Visite nosso site: www.logon.media/pt-br

  1. Jul 1

    #226 A chama interior da oração: reflexões sobre "O Judeu Que Ora", de Chagall.

    A CHAMA INTERIOR DA ORAÇÃO:  REFLEXÕES SOBRE "O JUDEU QUE ORA", DE CHAGALL A oração é o limiar, a abertura através da qual a nova alma pode emergir. Momentos na arte transcendem a forma e a narrativa quando parecem expressar algo universal. A pintura O Judeu em Oração, de Marc Chagall, é um exemplo. Nela, um homem curvado, envolto em um manto branco, está imerso em oração. Não há ação nem palavras. Ele simplesmente está. Quieto, ele ora.  Mas o que é a oração? A oração não é uma súplica dirigida a uma divindade distante nem um pedido por favores ou resultados. Na tradição rosacruz, é um movimento silencioso da alma, um ato de escuta, alinhamento e entrega à chama interior. Tal visão está em sintonia com a corrente da Linguagem Sagrada, o conhecimento sagrado revelado por Cristo e, antes dele, por grandes iniciados de diferentes épocas. Como escreve Édouard Schuré em Os Grandes Iniciados, a verdade do Espírito “passa pela alma em silêncio”. A transmissão da sabedoria divina não é de uma religião ou povo específico, mas constitui um legado transmitido àqueles que estão prontos para ouvir. Sob essa perspectiva, a figura retratada por Chagall simboliza o momento eterno em que o ser humano se volta para dentro e escuta. Aqui, não há pretensão de definir a oração, mas aproximar-se dela, ainda que por um instante. À primeira vista, O Judeu em Oração parece uma obra simples. Retrata uma figura solitária em silenciosa reverência, segurando objetos sagrados, com a cabeça levemente inclinada. A imagem remete ao gesto da oração, que pertence a buscadores de todas as tradições. As cores suaves, a ausência de drama e o mínimo de movimento irradiam quietude. Tudo conduz à introspecção. No misticismo judaico, a oração é frequentemente compreendida como um caminho de união com o Divino. O homem retratado por Chagall não está em êxtase. Está silencioso, presente e enraizado. Sua quietude revela um sentido profundo da oração que não é de pedidos nem louvores, mas de permanência diante do invisível. A obra nos convida a contemplar a oração como uma atitude. A oração como um voltar-se para dentro em direção a algo sagrado e vivo. Como ensinaram os grandes iniciados, a verdade se revela na íntima quietude da alma. Nos ensinamentos da Escola Rosacruz Áurea, a oração não é um ato de súplica nem depende de formas, palavras ou rituais.  Em vez disso, é uma orientação, um alinhamento do ser interior com o núcleo divino.  É a alma se reajustando à sua frequência original. Trata-se de uma recordação daquilo que a alma realmente é.  A alma que ora dessa forma não busca persuadir ou direcionar o Divino. Escuta. Entrega-se. E, nessa entrega, abre espaço para que algo superior surja em seu interior. Por isso, a verdadeira oração não pode ser ensinada. Ela é um estado de ser. Como descreve Catharose de Petri em A Palavra Viva, a verdadeira invocação surge de um coração transformado. Ela se torna possível quando a personalidade cessa sua luta e entra na quietude nascida da entrega. Nesse silêncio, a Linguagem Sagrada — a voz do Espírito — pode começar a ser ouvida. O caminho rosacruz descreve esse processo como uma transformação gradual na qual o antigo Eu cede lugar ao novo, não apenas pelo esforço humano, mas pela ressonância com a Luz. É isso que a oração torna possível. Trata-se da abertura de um templo interior preparado para o retorno da chama divina. Visto dessa forma, o homem retratado por Chagall é mais do que um símbolo de devoção. Ele reflete aquilo que todo buscador é chamado a se tornar: um ouvinte silencioso e entregue. Ele se torna a própria oração. Ao longo dos séculos e em diversas culturas, muitas pessoas se voltaram para o interior. Preocupam-se não apenas com a observância exterior, mas com o despertar interior. Por meio deles, o fluxo vital do Espírito continua. Em Os Grandes Iniciados, Schuré descreve essa continuidade como uma tradição espiritual que atravessa os mistérios do Egito e da Índia, passa por Orfeu, Pitágoras, Moisés e os profetas, culminando em Cristo. É um fio vibracional, uma corrente viva de conhecimento sagrado transmitida de alma para alma por meio da transformação interior.  No coração dessa tradição está a oração. O verdadeiro iniciado torna-se instrumento do Divino no mundo. Nesse contexto, a oração torna-se uma chama silenciosa, uma receptividade à Vontade Superior.  Ela deixa de ser algo pessoal para tornar-se universal. Nasce do reconhecimento da unidade interior.  Essa é a oração que vislumbramos em O Judeu em Oração. Embora a figura esteja profundamente enraizada na tradição judaica, ela transcende seu contexto cultural e representa uma experiência humana universal. Sua presença silenciosa expressa a mesma força espiritual que animou os grandes iniciados de todas as épocas. Sob essa luz, a pintura transforma-se em um ícone do caminho interior. Ela fala não apenas aos que pertencem a uma tradição religiosa, mas a todos os que já sentiram o chamado do Divino em seu coração. Recorda-nos que as verdades mais profundas muitas vezes permanecem implícitas. São reconhecidas na quietude. Vivemos em um mundo saturado de palavras, imagens e opiniões. Vozes disputam nossa atenção a cada minuto. Num clima assim, o silêncio pode parecer vazio ou até desconfortável. Contudo, é precisamente nele que algo essencial pode ressurgir. O homem retratado por Chagall não argumenta, não proclama nem persuade. Sua quietude não é passividade, mas sintonia. Ele retorna ao seu santuário interior. Revela uma força que nasce do alinhamento. Para o buscador da Gnose, do conhecimento superior, esse tipo de oração torna-se vital. Somos lembrados pelos ensinamentos rosacruzes de que toda transformação verdadeira começa com um retorno ao interior, uma preparação da alma para que o Espírito possa novamente falar. E a voz do Espírito nunca é estridente. Ela espera pacientemente ser acolhida. Esse é, talvez, o convite silencioso da pintura: perceber o mundo de outra maneira e agir a partir da clareza que nasce da escuta interior. Nesse sentido, a oração torna-se uma atitude permanente da alma. Uma abertura silenciosa que escuta antes de falar e ama antes de julgar. Ela retorna à sua profundidade original e deixa de ser apenas um ato para tornar-se uma forma de ser. Uma transformação. Um estado de ressonância com o eterno. O que Chagall capturou em O Judeu em Oração ultrapassa o tempo e a cultura. É a imagem daquele que se recorda com a alma, daquele que reencontra uma memória profunda de sua origem divina, muitas vezes encoberta pelo ruído do mundo e pelas identidades que acumulamos ao longo da vida. Mas essa memória exige escuta. E para escutar é preciso fazer uma pausa. Por isso, a oração não pode ser dissociada da transfiguração. Ela é o limiar, a abertura por onde a nova alma pode emergir. Não pelo que é dito, mas pelo que é oferecido: uma vida entregue, um coração sereno e um silêncio suficientemente profundo para que a Linguagem Sagrada possa ser ouvida mais uma vez. Talvez seja por isso que O Judeu em Oração nos comove. Ele fala sem palavras e aponta sem gestos. Atrai-nos para sua quietude, e algo dentro de nós se agita. Algo vagamente lembrado. Algo que nos chama de dentro e aguarda uma resposta, silenciosamente, com todo o nosso ser.   Referências Chagall, Marc. Minha Vida . Tradução de Elisabeth Abbott, Peter Owen Publishers, 1965. De Petri, Catarose. O Verbo Vivente. Editora Rosacruz. Schuré, Édouard. Os Grandes Iniciados: Um Estudo da História Secreta das Religiões . Tradução de Fred Rothwell, Kessinger Publishing, 1999. Van Rijckenborgh, J. A Gnosis Original Egípcia. Editora Rosacruz. Van Rijckenborgh, Jan e Catharose de Petri. Os Mistérios Gnósticos da Pistis Sophia . Editora Rosacruz. Foto:Marion Pellikaan

  2. Jun 25

    #225 Wu Wei na pintura chinesa

    WU WEI NA PINTURA CHINESA Wu Wei é um termo taoísta que aparece pela primeira vez no Tao Te Ching e é geralmente traduzido como não-ação.  É um modo de vida também praticado na pintura chinesa. Nela, o mesmo motivo é pintado repetidamente, como uma montanha ou uma árvore.  O que isso poderia ter a ver com o não-ação? Não se torna entediante pintar o mesmo tema várias vezes? Não é o tema ou o resultado da pintura que importa, mas sim o processo.  O artista pratica uma atitude perante a vida. Ele busca trabalhar em harmonia com o Tao.  Segundo a tradição chinesa, o Tao é o princípio original através do qual tudo é criado e sustentado. É um princípio de uma ordem espiritual-divina elevada, cuja sabedoria transcende em muito a compreensão humana. O pintor orienta-se por esse princípio superior e adapta-se a ele. Ele não quer mais ser o agente, o pintor, mas sim permitir que o Tao atue por meio dele, por meio de sua mão. Ele "faz" e, no entanto, não faz. Ele é ativo na não-ação. Poderíamos também chamar isso de não-intervenção, uma não-intervenção nas leis do Tao. O pintor deixa que essas leis atuem através dele intuitivamente; ele busca unir-se à obra criativa do Tao, reconhecê-la e reproduzi-la no tema da pintura. Através do processo de pintura, ele aprende a discernir até que ponto ainda deseja realizar sua própria vontade ou permitir que o Tao atue dentro dele. Pois o Tao está em tudo; sem o Tao, nada há. Portanto, o sábio se mantém no não-fazer; ele pratica o ensino sem palavras. Quando o trabalho está feito, ele não se apega a ele; precisamente porque não se apega a ele, ele não o abandona. Lao Tzu Photo: Anita Vieten

  3. May 27

    #223 De uma peça de quebra-cabeça a uma imagem

    DE UMA PEÇA DE QUEBRA-CABEÇA A UMA IMAGEM   À minha frente, vejo peças de um quebra-cabeça dispostas sobre a mesa. Se tudo der certo, o resultado será uma bela paisagem. Começo com algumas peças da borda e vou avançando em direção ao centro da imagem. Penso: não somos nós, humanos, como peças de um quebra-cabeça? Cada um tem forma e conteúdo próprios, sentimentos e pensamentos distintos, hábitos e objetivos que variam. Apesar dessa individualidade, estaremos atuando na formação de um novo e belo quadro? Estaremos trabalhando por um objetivo comum, pelo próximo passo no desenvolvimento da humanidade, como se espera da Era de Aquário? Grandes visionários descrevem um objetivo comum para a humanidade e estágios de desenvolvimento que precisam ser alcançados. Alguns falam de paz e liberdade. Outros, de amor fraternal que abrange toda a criação. Diferentemente de um quebra-cabeça, não somos peças prontas que se encaixam para formar uma imagem pré determinada. Como o indivíduo está ligado ao coletivo e as ondas da vida são interdependentes, o desenvolvimento de cada um afeta o cosmos como um todo. Todas as ondas da vida têm suas próprias tarefas de desenvolvimento, mas permanecem conectadas, influenciando-se mutuamente. Assim, por exemplo, sem o mundo vegetal, não teríamos oxigênio para respirar. Sem a polinização pelos insetos, as flores não gerariam novas plantas. Toda a criação se baseia em um único grande plano, que vibra como potencial impulsionador em cada ser. Max Heindel, autor dinamarquês-americano, teosofista e rosa-cruz, fala de sete corpos celestes que passam por sete vezes sete ciclos de desenvolvimento ao longo de longos períodos, alternando fases de atividade e repouso. DIAGRAMA Embora um objetivo seja predeterminado, o desenvolvimento em direção a ele é um processo criativo no qual a liberdade é intencional e a participação é voluntária. Todas as ondas da vida passam por esse processo criativo em grande harmonia e consonância.  A humanidade atual desviou-se desse plano divino de desenvolvimento ao usar seu livre-arbítrio para fortalecer seu próprio ego. Por isso, precisa amadurecer pela experiência. Somente então, poderá reconhecer a alma espiritual em desenvolvimento e, assim, servir ao processo de desenvolvimento do cosmos. Então, a humanidade se transformará em peças de um quebra-cabeça que criarão uma nova e bela imagem da humanidade. A humanidade é acompanhada em tudo pela harmonia e unidade do Divino-Espiritual, o que permite que a alma espiritual em cada um, mais cedo ou mais tarde, se expresse — a alma em cuja consciência o todo pode resplandecer. Assim, somos constantemente confrontados com uma escolha. Antes de desejar e escolher algo livremente, precisamos compreender com clareza o que buscamos com nossos pensamentos e sentimentos. Por meio de experiências diversas, aprendemos que a vontade, muitas vezes, produz o oposto do que pretendemos, devido à imprevisibilidade das outras pessoas, das circunstâncias e de nossa própria incerteza. Nossos sentimentos também podem nos enganar, e aprendemos isso por correções internas e externas. Internas, porque nosso eu mais íntimo sabe o que é certo; externas, porque o mundo nos mostra repetidamente o quanto nossos sentimentos estão distantes de perceber e compreender pessoas e coisas a partir de uma perspectiva mais ampla. Somente quando razão e sentimento são purificados pela experiência é que conseguimos nos orientar para o que realmente faz sentido. Isso só pode ser compreendido intuitivamente quando escutamos profundamente nosso interior, pois é ali que reside a resposta. Ela se torna clara à medida que nos purificamos, quando os véus diante do nosso íntimo se tornam mais permeáveis e podemos ouvir e compreender a voz interior. Em seu livro Dei Gloria Intacta, Jan van Rijckenborgh descreve o processo de tornar-se verdadeiramente humano com base em etapas de iniciação. Antes que uma nova vontade possa se sintonizar com o plano divino — o que ele chama de iniciação de Marte —, ocorrem as iniciações de Vênus e Mercúrio. As iniciações de Mercúrio (mente) e Vênus (sentimento) tornam-se patrimônio do novo ser humano. Uma luz de Deus e um poder de Deus lhe são concedidos. Uma nova vontade, forte, equilibrada e dinâmica, passa a direcionar os dons de Mercúrio e Vênus.  Ainda assim, após a iniciação de Vênus, a alma espiritual — o novo “companheiro” — ainda não está plenamente formada. Essa plenitude só se revela após a iniciação de Marte, na qual se desenvolve a nova vontade. Quem começa pela vontade segue por um caminho equivocado. Age de modo experimental e forçado. Permanece nos circuitos do condicionamento, como uma peça que não se encaixa organicamente no todo vivo. No entanto, novos aspectos da consciência podem despertar, e uma auto-iniciação no íntimo do ser pode acontecer. Isso conduz à compreensão do que é bom para o organismo humano e para a Terra, para as criaturas e os mundos aos quais estamos indissoluvelmente ligados. A alma em amadurecimento nos transforma em um novo ser humano, capaz de se integrar de forma criativa e responsável ao processo contínuo de desenvolvimento da criação, momento a momento, situação a situação. Cada um de nós é uma peça indispensável do quebra-cabeça desse todo maior. Tudo está à sua espera de que encontre o lugar que só ele ou ela pode ocupar. O impulso para isso vem do Espírito. O Espírito inquieta a alma e a impele ao desenvolvimento. O objetivo é a espiritualização da alma e, em última instância, a espiritualização do mundo. 1 Max Heindel, A Visão de Mundo Rosacruz, Diagrama 8. 2 Jan van Rijckenborgh, Dei Gloria Intacta , Capítulo 6  Imagem: puzzle-Bild-von-Shelby-Herbel-auf-Pixabay CCO

  4. May 20

    #222 Beleza - Uma revelação

    A BELEZA - UMA REVELAÇÃO Quando vamos ao encontro da verdadeira Beleza, uma parcela de nossa nobreza interior se revela. Então, um grande anseio desperta em nós: o de nos elevarmos à altura dessa Beleza e dessa Perfeição. Um fio de grama salpicado de cristais de gelo cintilantes. Um céu noturno repleto de estrelas. Uma macieira em flor contra um céu azul-claro de primavera. Um pôr do sol vermelho-sangue. O que faz nosso coração se encher de admiração, maravilhado diante de tanta beleza?Um fio de grama salpicado de cristais de gelo cintilantes. Um céu noturno repleto de estrelas. Uma macieira em flor contra um céu azul-claro de primavera. Um pôr do sol vermelho-sangue. O que faz nosso coração se encher de admiração, maravilhado diante de tanta beleza? Isso parece ser algo próprio do ser humano, pois nenhum animal seria capaz de um sentimento como esse. Enquanto a felicidade do animal depende, acima de tudo, da procura por alimento e procriação, parece haver no ser humano uma busca que se alimenta da beleza. Essa busca incessante tem muito pouco a ver com o pensamento – por mais que este eleve o ser humano acima do animal. Trata-se, na verdade, de alguma coisa que vai além: algo imediato, quase uma comoção que nos toca de repente no mais profundo de nosso ser e nos conecta a um “não sei quê” sublime e verdadeiro, que não pertence à nossa natureza mortal. Todas as grandes obras de arte, sejam elas pinturas, esculturas, literatura ou música, nasceram desse princípio. Quando mergulhamos em obras desse tipo, temos um rápido vislumbre do que significam Perfeição e Eternidade. Elas despertam em nós uma lembrança que já conhece essa Perfeição. Então, um cintilar do Sagrado nos toca – e ficamos sem palavras. O que é esse “não sei quê”? Talvez seja o que Plotino menciona quando diz que há algo no ser humano que se reconhece a si mesmo no sentido literal. É a parte espiritual da alma que toma consciência de que existe e de quem é. Ao contemplar o Ser, ela contempla a si mesma em toda a sua plenitude. Quando vamos ao encontro da verdadeira Beleza no exterior, de repente tomamos consciência de quem somos no mais profundo de nós mesmos: um deus em farrapos; uma pedra preciosa escondida na pedra bruta e cinzenta, que pede para ser desenterrada e lapidada. É então que uma parcela de nossa nobreza interior se torna visível. Então, um grande anseio desperta em nós: o desejo de crescer em direção a essa Beleza e Perfeição – como uma flor que estava coberta de mato, e que descobre pela primeira vez o poder da Luz, que a eleva e permite que ela floresça. É que a Beleza está intimamente ligada ao Amor. Tudo o que é contemplado com os olhos do amor se torna beleza. A pessoa que amamos é, para nós, a mais bela do mundo. Quanto mais estamos preenchidos de amor, mais o mundo ao nosso redor se torna belo. Quanto mais libertamos a pedra preciosa de sua capa grosseira e a lapidamos, mais a beleza de seu interior radiante brilha no exterior. Quanto mais libertamos o Deus-em-nós de seus trapos, para que seu amor possa despertar em nosso interior, mais reconhecemos o esplendor da vida. Portanto, a Beleza não é algo objetivo, pois nasce na mente daquele que a contempla. O que alguém considera belo pode deixar outra pessoa totalmente indiferente. O que é determinante é o que o observador faz com aquilo que percebe. Como a imagem exterior ressoa dentro dele? Será que ele já desenvolveu uma consciência do mundo espiritual? “A beleza é a perfeita harmonia entre o sensual e o espiritual”, diz o poeta Franz Grillparzer. Mas, para percebermos essa harmonia, precisamos possuir, por um lado, órgãos dos sentidos capazes de reconhecer o que é espiritual, e, por outro, órgãos dos sentidos naturais suficientemente despertos para captar os impulsos do exterior. Assim, uma pessoa que se preocupa apenas com sua luta pela sobrevivência terá pouca sensibilidade para as maravilhas que a cercam. E, quanto mais descobrirmos o mundo espiritual, mais beleza descobriremos no mundo exterior. Tudo o que é terreno não passa de uma parábola. E, quando percebemos a realidade que se esconde por trás dessa parábola, a beleza de seu símbolo se revela diante de nós. Mas isso só pode acontecer no aqui e agora. Precisamos estar plenamente despertos neste exato instante, para não perdermos os raios de luz que brotam do mundo espiritual em meio ao tumulto do cotidiano. A beleza que vivemos no passado vai se desvanecendo a cada lembrança que evocamos. O que esperamos de maravilhoso do futuro não passa de uma ideia que criamos – e não vai além daquilo que já conhecemos. Mas é aqui e agora que se encontra a Vida. E ela espalha sua magia por toda parte: só precisamos enxergá-la. Essa Beleza atemporal não pode ser descrita com palavras. Não podemos contá-la a ninguém. Cada palavra a aprisiona em uma camisa de força que retira seu caráter especial e rouba todo o seu brilho. Mesmo quando tentamos contar para alguém, percebemos que só conseguimos transmitir uma pálida cópia do que se revelou para nós como um milagre.  Então, só nos resta um sentimento de decepção e perda. É o que sempre acontece com todas as coisas do mundo espiritual que queremos manifestar no mundo material. Elas só podem ser reconhecidas e eficazes no momento presente. Toda tentativa de reter essa felicidade está fadada ao fracasso. Rainer Maria Rilke descreve tudo isso maravilhosamente em seu poema Mir zur Feier (1898):   Não precisas compreender a vida: assim ela se tornará uma festa. E deixa cada dia passar como uma criança que, ao caminhar, recebe muitas flores de cada brisa. Esse tipo de Beleza nos inunda, nos deixa perplexos e sem palavras. Não conseguimos compreendê-la – e, além disso, não temos a menor vontade de explicá-la. Para nós, basta simplesmente viver esse mistério. Mergulhamos no maravilhamento e nos esvanecemos nele. É o sabor do prenúncio do mundo espiritual, onde nos tornamos unos com a Beleza, onde o nosso eu perde todo o sentido, onde – fora do tempo, do espaço e dos limites – fazemos parte dessa maravilha. Momentos como esses nos deixam sem fôlego e nos enchem de uma alegria indescritível. São presentes da eternidade – apenas para nós e só para este instante. Foto: ice-crystals-Bild-von-Myriams-Fotos-auf-Pixabay_CC0

  5. May 13

    #221 Paz para todos

    PAZ PARA TODOS  "A Paz invadiu o meu coração" (Gilberto Gil e João Donato)    Buscava pela paz utilizando a sua vontade férrea   o esforço individual levado ao limite mas sempre retornava à guerra   pequeno ou grande um combate sempre vinha sem avisar arrebatando-o para a luta   a vontade pessoal era totalmente ineficaz e, enfim, ele esmoreceu   por mais que sua razão insistisse o seu coração o traía pois olhava o mundo à distância desconfiado   mas sempre pensava no porquê das guerras nenhum sofrimento é de todos na loucura do mundo   extenuado de tanto pensar caiu em desgosto por enfrentar tanta dor e desesperança   até que dirigiu-se diretamente para dentro de si em auto investigação o que fez surgir uma clareza interna   Naquele átimo de segundo sentiu-se aliviado pois sentiu que não estava só… Mas quem estaria assim tão próximo?   Não percebeu ninguém mas foi envolvido por uma sensação incomum de paz que o irmanou a todos e ao mundo inteiro mesmo em relação aos mais irascíveis ou ferozmente amedrontados   Oriunda dessa conexão interna com o universal a paz que ele sentiu não era posse individual do seu ser e, não sendo, era expressa por meio de um só verbo que ascende do nadir às alturas mais celestiais   Sim, como uma força que inundava seu coração central e subia ao centro de sua alma que prontamente se submeteu   Era, então, uma paz definitiva independente do bem ou do mal disponível livre e atemporal estaria acessível a todos era só questão de tempo tempo para o amadurecimento das consciências   desejava intensamente isso ao mundo na certeza de que essa paz chegará para todos nós Foto gentilmente cedida por Adriana Ponte à revista Logon.

  6. May 9

    #220 Limiar

    LIMIAR Viver no limiar da eternidade   A imagem de um limiar se repete em diversas tradições espirituais. Uma porta entre dois cômodos, a primeira luz da aurora antes do nascer do sol, a pausa antes do início de uma jornada — tudo sugere a mesma experiência: o momento entre dois estados de ser. Um limiar sinaliza que uma transição se tornou possível, mas o próximo passo ainda não se revelou totalmente. De certa forma, o Limiar é um lugar de consciência aguçada. Começamos a perceber que os padrões familiares da vida não satisfazem as questões internas mais profundas. Ao mesmo tempo, desconhecemos o que nos espera além deles. No livro As Bodas Alquímicas de Christian Rosacruz, o buscador encontra repetidamente portões e limiares que não podem ser transpostos apenas com esforço. Entrar só é possível quando ele está pronto. O reconhecimento deve preceder a travessia. Portanto, o Limiar representa um momento sutil, mas decisivo, na jornada humana: o despertar de uma consciência interior de que algo novo nos chama.   A Luz da Consciência O que possibilita um momento assim é o surgimento de um novo tipo de consciência. As tradições espirituais frequentemente falam de uma radiação silenciosa que envolve a vida humana, mesmo que não a reconheçamos. Ela não interfere em nossa liberdade nem nos impõe crenças, mas está presente como um convite gentil. Essa presença pode se revelar, por exemplo, como uma percepção repentina, um profundo anseio pela verdade ou como a tranquila sensação de que a vida possui um significado que não se reduz a sucessos ou fracassos exteriores. A princípio, pode parecer distante ou incerta, como a tênue luz no horizonte que precede o nascer do sol. Contudo, uma vez notada, é difícil de ser ignorada. É esta consciência crescente que revela o Limiar. Começamos a sentir que existe outra dimensão da vida que nos convida a olhar para além da superfície das coisas.   Uma Mudança Interior Quando esta consciência desperta, algo começa a mudar internamente. As questões que surgem já não são ideias abstratas, mas realidades pessoais. Refletimos mais profundamente sobre o rumo e o significado por trás de nossas experiências na vida. Nestes momentos, o Limiar torna-se real. Reconhecemos que viver não é meramente passar por uma sequência de acontecimentos, mas um processo no qual nossa vida interior desperta gradualmente. A tradição rosacruz costuma descrever essa etapa como o início de uma nova orientação. O buscador ainda não enxerga todo o caminho à sua frente, mas algo dentro dele mudou. A antiga certeza começa a ceder lugar a uma profunda busca da verdade. Esse despertar raramente é dramático. Na maioria das vezes, é silencioso e quase frágil, como a primeira luz que surge antes do nascer do sol. Contudo, carrega um significado profundo, pois marca o início de uma resposta consciente às possibilidades mais profundas da vida.   Vivendo no Limiar Uma vez que essa consciência surge, a vida raramente continuará a mesma que antes. Exteriormente, os padrões familiares da vida diária podem permanecer inalterados, mas interiormente uma nova sensibilidade começa a se desenvolver. Tornamo-nos mais atentos aos profundos movimentos do coração, e também mais conscientes das questões que moldam nossa vida interior. O Limiar ainda não é a nova vida, mas também não é a velha vida que tínhamos sem questionar. É um momento de tensão silenciosa em que algo dentro de nós começa a escutar com mais atenção. Frequentemente, esse estado traz consigo uma sensibilidade aguçada. Surgem questões que não podem ser facilmente descartadas. O significado de nossas ações, o rumo de nossas vidas e o propósito por trás de nossas experiências adquirem uma nova importância. Contudo, o Limiar não é apenas um lugar de incerteza. É também um lugar de atenção. Viver no Limiar é permanecer consciente do chamado mais profundo que se revelou, mesmo ainda sem compreender seu significado completo. Cruzando o Limiar Transpor o Limiar, fazer a transição para além dele raramente se dá de forma repentina. Com frequência ela se desenrola gradualmente, à medida que o ser humano começa a responder à consciência que despertou em seu interior. Essa resposta pode começar como uma mudança de foco. O que antes parecia insignificante passa a ter significado. A vida interior, que as exigências da atividade diária podem obscurecer, começa a assumir uma nova importância. Quem percebe esse chamado mais profundo acha cada vez mais difícil ignorá-lo. Questões que antes pareciam distantes agora se tornam profundamente pessoais. Desta vez, o Limiar foi reconhecido, e a jornada rumo a uma nova compreensão da vida já começou. Assim, aos poucos ele se torna uma passagem. Gradualmente, entramos em uma nova relação com a vida, na qual a dimensão mais profunda da existência pode iluminar o caminho à frente. Foto: NIR HIMI (@nirhimi) on Unsplash CC0

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