Coluna Atílio Bari

Atilio Bari

Coluna Atílio Bari

  1. Mahagonny e o retrato de um país em desordem

    4d ago

    Mahagonny e o retrato de um país em desordem

    Na coluna desta quarta-feira (03), Atílio Bari compartilha sua perplexidade diante dos acontecimentos que marcam a vida pública brasileira. Entre crises na política, na economia, na segurança, na saúde e na educação, prevalece a sensação de que “tudo que deveria ser sólido vai se desmanchando no ar”. O resultado seria uma espécie de anestesia coletiva diante de escândalos, injustiças e desvios, enquanto a maior parte da população segue tentando sobreviver entre dívidas, promessas de renda fácil e expectativas cada vez mais modestas. A reflexão conduz à obra “Ascensão e queda da cidade de Mahagonny”, escrita pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht em 1930. Na peça, um grupo funda uma cidade onde praticamente tudo é permitido, exceto uma coisa: não ter dinheiro. “Lá não existe a justiça, não existe a solidariedade, não existe o bem comum.” Ao longo da trama, são revelados crimes graves cometidos por pessoas que possuem recursos financeiros, enquanto a pobreza se transforma no único delito imperdoável. A indiferença coletiva diante dessas distorções é um dos elementos centrais da crítica social. Ao relacionar a ficção de Brecht com a realidade brasileira, o autor afirma ter a impressão de que “os condutores dessa carruagem chamada Terra Brasilis viram uma placa indicando o rumo para Mahagonny, e apontaram os cavalos nessa direção”. Ao final, ele recomenda a leitura da obra, lembrando que a história não trata apenas da ascensão de uma cidade, mas também de sua queda.

    5 min
  2. Fagundes discute a relação entre palco e plateia em “Sete minutos”

    May 27

    Fagundes discute a relação entre palco e plateia em “Sete minutos”

    Na coluna desta quarta-feira (27), Atílio Bari comenta o espetáculo “Sete minutos”, estrelado por Antonio Fagundes, em cartaz até agosto no Teatro Cultura Artística. A peça parte de uma provocação curiosa: a ideia de que as pessoas conseguem manter a atenção por apenas sete minutos. A partir dessa premissa, o ator e dramaturgo constrói uma comédia sobre os desafios contemporâneos da relação entre artistas e público, tema que dialoga diretamente com os tempos de redes sociais, excesso de estímulos e consumo rápido de conteúdo. No palco, Fagundes vive um ator que interrompe uma apresentação de “Macbeth”, de Shakespeare, após se irritar com tosses, conversas, celulares e até um espectador da primeira fila que coloca os pés no palco. “Diante do que considerou um ultraje, o ator, extremamente irritado, interrompe a encenação e manda o público se retirar, o que causa um tumulto na frente do teatro”. A partir desse incidente, a montagem passa a discutir os limites da convivência dentro das salas de espetáculo e o impacto da dispersão do público sobre o trabalho dos artistas. Ao mesmo tempo, Fagundes também lança um olhar para o outro lado dessa relação: o das pessoas que enfrentam trânsito, chuva, distância e o preço dos ingressos para viver a experiência teatral. Para o colunista, “o artista é o grande anfitrião desse encontro”, ressaltando que a plateia também ocupa um papel central nesse ritual coletivo. Entre humor e reflexão, “Sete minutos” transforma situações corriqueiras do teatro em um debate atual sobre atenção, respeito e presença.

    6 min
  3. Musical recria principais momentos da Princesa Diana

    May 20

    Musical recria principais momentos da Princesa Diana

    Na coluna desta quarta-feira, Atílio Bari reflete sobre o fascínio persistente da monarquia britânica, uma instituição que atravessa os séculos sustentada por rituais, símbolos e personagens que alimentam o imaginário popular. Em meio a coroações, casamentos reais, carruagens douradas e palácios suntuosos, a realeza inglesa preserva tradições que parecem imunes ao tempo e às transformações do mundo contemporâneo. Entre todas as personalidades da realeza, nenhuma despertou tanta identificação popular quanto Diana Spencer. Conhecida como “A Princesa do Povo”, Diana rompeu a imagem distante da aristocracia ao se mostrar acessível, espontânea e profundamente envolvida em causas humanitárias. Sua trajetória, marcada pela exposição midiática, pelas tensões com a família real e pelo casamento conturbado com o então príncipe Charles, transformou-a em um ícone mundial. Atílio Bari aproxima sua figura da imperatriz Sissi, da Áustria, outra mulher que desafiou as convenções rígidas da corte e cuja vida também atravessou gerações entre romantização, tragédia e fascínio popular. Esse legado agora ganha nova leitura nos palcos brasileiros com o musical “Diana – A Princesa do Povo”, em cartaz no Teatro Liberdade, em São Paulo, até 5 de julho. A montagem, dirigida por Tadeu Aguiar e produzida por Eduardo Bakr, recria os principais momentos da trajetória da princesa, incluindo os embates com a rainha Elizabeth II e as traições de Charles. Com Sara Sarres no papel principal, Claudio Lins como Charles e orquestra ao vivo sob direção de Thalyson Rodrigues, o espetáculo aposta em cenários grandiosos, figurinos luxuosos e forte carga emocional para revisitar uma personagem que segue mobilizando o imaginário coletivo décadas após sua morte.

    7 min
  4. O riso crítico de Juca de Oliveira em “Caixa 2” retorna

    May 6

    O riso crítico de Juca de Oliveira em “Caixa 2” retorna

    Na coluna desta quarta-feira, Atílio Bari relembra a trajetória do ator e dramaturgo Juca de Oliveira, falecido há pouco mais de um mês, e sua formação no histórico Teatro de Arena, ao lado de Gianfrancesco Guarnieri, Milton Gonçalves e tantos outros. Surgido no início dos anos 1960, o grupo desenvolveu uma dramaturgia voltada às questões sociais e políticas do Brasil, em contraste com o repertório clássico do Teatro Brasileiro de Comédia e a estética mais acadêmica ligada à Escola de Arte Dramática. Foi nesse ambiente de intensa efervescência política que Juca consolidou uma carreira marcada pelo engajamento crítico. Ele nunca abandonou o olhar atento às contradições do país. Essa postura se reflete em “Caixa 2”, comédia de sua autoria que expõe, com humor ácido, as relações obscuras entre o sistema financeiro e figuras de poder. Na trama, uma quantia milionária vai parar em uma conta errada, desencadeando um conflito que revela suspeitas de corrupção, propinas e crimes diversos. Montada originalmente em 1997, a peça foi um grande sucesso. Agora, retornou aos palcos no Teatro das Artes, no Shopping Eldorado, sob direção de Alexandre Reinecke, com Paulo Gorgulho no papel do banqueiro, ao lado de Cássio Scapin, Taumaturgo Ferreira e Flávia Garrafa. O espetáculo, em cartaz até 31 de maio, constrói um retrato irônico e perturbador das engrenagens da corrupção, convidando o público a rir — e se indignar — diante de escândalos que já não surpreendem, mas seguem profundamente presentes.

    5 min
  5. Livros no lixo e o peso simbólico do descaso cultural

    Apr 29

    Livros no lixo e o peso simbólico do descaso cultural

    Na coluna desta quarta-feira (29), Atílio Bari comenta um caso de descarte de livros em Osasco, na região metropolitana de São Paulo, onde funcionários da Prefeitura foram flagrados jogando centenas de exemplares da Biblioteca Pública Monteiro Lobato em caçambas. As imagens mostram livros sendo transportados em carrinhos de mão e arremessados sem qualquer cuidado. Diante da repercussão, a Prefeitura apresentou explicações que, na avaliação do colunista, não se sustentam diante do que foi registrado. Ele chama atenção para o contexto mais amplo do problema. A biblioteca está fechada desde 2020 para uma reforma que nunca começou, o que pode ter contribuído para a deterioração do acervo. Ainda assim, Atílio argumenta, existem técnicas capazes de recuperar livros afetados por fungos, o que torna o descarte ainda mais questionável. Além disso, havia entre os títulos descartados, possivelmente obras raras, títulos fora de catálogo e produções de autores locais — materiais que não podem simplesmente ser substituídos. Para o colunista, o episódio escancara o descaso recorrente com espaços culturais como bibliotecas, museus e teatros. Ao refletir sobre o caso, ele amplia a discussão ao lembrar que a eliminação de livros carrega um peso simbólico histórico, presente em episódios como a “Queima de livros” na Alemanha Nazista. O colunista também cita o filme Fahrenheit 451, de François Truffaut, que retrata uma sociedade onde a palavra escrita é proibida e livros são sistematicamente destruídos. Embora reconheça diferenças entre ficção, história e o caso de Osasco, ele destaca que a reação popular é essencial para conter o descaso e preservar o valor da cultura.

    6 min
  6. Tiradentes: da execução ao mito nacional brasileiro

    Apr 22

    Tiradentes: da execução ao mito nacional brasileiro

    Na coluna desta semana, escrita no feriado de 21 de abril, Atílio Bari retoma a história de Tiradentes para refletir sobre sua trajetória e construção como símbolo nacional. Joaquim José da Silva Xavier foi executado em 1792, acusado de liderar a Inconfidência Mineira, movimento contra os impostos da Coroa Portuguesa. Ao longo do tempo, sua figura inspirou obras importantes, como peças teatrais e o “Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles, consolidando sua presença no imaginário histórico e cultural brasileiro. Diferentemente de outros inconfidentes, Tiradentes não fazia parte da elite influente da época. Embora tivesse posses e atuasse como alferes, não contava com proteção política, militar ou religiosa durante o longo processo judicial. Enquanto outros envolvidos conseguiram preservar bens e reduzir punições por meio de manobras e relações de poder, ele acabou isolado, sendo o mais penalizado — perdeu tudo e foi executado, tornando-se o principal bode expiatório do movimento. Após a morte, sua imagem caiu no esquecimento por décadas, sendo resgatada apenas com a Proclamação da República, quando passou a ser construído como herói nacional. Essa reconstrução atendeu a interesses políticos e simbólicos, aproximando-o tanto do povo quanto de instituições como o Exército e a Igreja. A partir disso, Tiradentes tornou-se figura central na memória nacional — mas sua história também levanta questionamentos atuais sobre poder, injustiça e os riscos enfrentados por quem desafia estruturas dominantes.

    6 min
  7. O lado oculto da Lua e as sombras persistentes do Brasil

    Apr 15

    O lado oculto da Lua e as sombras persistentes do Brasil

    Na coluna desta quarta-feira, Atílio Bari explora o lado oculto da Lua, que sempre despertou a curiosidade humana, inspirando cientistas, escritores e até correntes esotéricas ao longo do tempo. Em 1973, a banda Pink Floyd transformou esse fascínio em música ao lançar “The dark side of the moon”, um dos álbuns mais icônicos da história. Com a famosa capa do prisma que decompõe a luz em cores, o disco aborda temas universais como tempo, morte, loucura e dinheiro. O colunista também menciona missões espaciais recentes que voltaram a explorar o satélite natural da Terra, como a Artemis II, reunindo cientistas de diversos países para observar justamente esse “lado de lá”. Lamentando a ausência do Brasil na iniciativa, Atílio faz um paralelo com os “lados ocultos” nacionais, afirmando que, por aqui, o conhecimento parece maior quando o assunto reflete as sombras da política e das instituições. Em sua análise, práticas como ocultação de recursos e irregularidades administrativas continuam sendo recorrentes. Para ele, exemplos recentes reforçam essa percepção: figuras políticas envolvidas em escândalos passados retornam a cargos de destaque após processos prescritos, enquanto denúncias de favorecimento e irregularidades continuam surgindo em diferentes esferas do poder. Ao mesmo tempo, cidadãos comuns, como aposentados, enfrentam prejuízos causados por fraudes e descontos indevidos, muitas vezes sem resposta. Entre metáforas e realidade, o “lado escuro” brasileiro expõe desigualdades e problemas estruturais, já retratados há décadas em obras artísticas como a peça Caixa 2 — em nova temporada no Teatro das Artes, em São Paulo, a partir de 17 de abril — que denuncia justamente os bastidores ocultos das finanças e da política no país.

    5 min

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