O podcast “Gineceu, uma História da Arte” em pausa desde Dezembro passado, reabre agora com um episódio especial, em que iremos falar com a artista Rita Magalhães sobre a exposição “Face a Face – Rita Magalhães e a Natureza Morta na coleção do MNSR”, patente no Museu Soares dos Reis até ao próximo dia 18 de Maio. Este episódio tem início com uma breve introdução e depois uma conversa; destina-se a todos(as) que quiserem visitar esta exposição com o acompanhamento de uma visita guiada por nós. O processo que conduziu a esta exposição e teve a minha curadoria, começou a esboçar-se acerca de dois anos ou talvez mais, e teve início com a ideia da “Natureza Morta”, tema intemporal, várias vezes relegado para segundo plano em detrimento da pintura histórica e mitológica, épica, das conquistas, e da virilidade masculina. Foi no entanto resgatada em diferentes planos temporais e espaciais, tendo tido o seu apogeu no século XVII e XVIII nos Países Baixos, por vezes associado à figura da “Vanitas”, elemento alegórico da brevidade da existência humana, face aquilo que se consideram as suas vaidades, sejam elas a aparência física e os seus ornamentos, a cobiça, a luxuria, ou a vontade de poder. As pintoras flamengas e holandesas que se dedicaram a este tipo de pintura, tema que lhes era permitido, acarinhado e incentivado, nele encontraram um mercado seguro que lhes permitiu viver deste mister: Clara Peeters, Michaelina Waultier, Maria Von Oosterwijck, Rachel Ruysch, Maria Sybilla Merian, mas também as italianas Fede Galizia e Giovanna Garzoni, a portuguesa Josefa d’Óbidos, são apenas algumas das que se conhecem e que encontraram um motivo maior na sua representação. Frequentemente vista apenas como um exercício, a natureza-morta ocupou durante séculos, um lugar secundário na tradição pictórica ocidental — à margem da pintura de história, da mitologia e do retrato. No século XIX caiu em esquecimento, e foi muitas vezes associada à prática artística feminina, refletindo uma persistente falta de reconhecimento crítico das suas criadoras. Entre flores, frutos e objetos do quotidiano, sobreviveu nas margens das academias, nas oficinas de porcelana e cerâmica, e nas fábricas têxteis, onde o gesto paciente das mãos femininas continuou a renovar o motivo. Essa ambiguidade — entre o exercício e a afirmação — travessa as carreiras de muitas artistas. O que por vezes se considerava simples treino técnico tornou-se um território de experimentação silenciosa, onde deixaram marcas subtis mas duradouras, antes de se voltarem para outras formas de expressão que julgavam mais adequadas ao seu tempo. Mas não foi só pela mão das mulheres que a natureza-morta prevaleceu. Diversos artistas a praticaram, de Fantin Latour a Chardin, Zurbaran, Baltazar Figueira, bem como a sua filha Josefa d’Óbidos, Van Gogh, Manet, ou Cézanne, já numa antevisão do cubismo, movimento que se apropriou do tema para as suas representações formais atribuindo-lhe uma importância histórica, assim como Morandi, e pontualmente Amadeo, e Eduardo Vianna, nas suas composições cubistas. Hoje é retomada pelo olhar criativo de inúmeros artistas contemporâneos de David Hockney a Damien Hirst, e também por Rita Magalhães nesta exposição.