O Tal Podcast

Paula Cardoso e Georgina Angélica

Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião, com autoria de Georgina Angélica e Paula Cardoso.

  1. 2d ago

    Iolanda Évora: “Estamos cheios de verdades. Não haver esse ‘não sei, vou procurar saber’, acaba por nos consumir. Dá a impressão que tens que saber tudo, ter opinião sobre tudo”

    Doutorada em Psicologia Social, investigadora associada do CESA - Centro de Estudos sobre África e Desenvolvimento, e professora universitária, Iolanda Évora é a convidada deste episódio d’ O Tal Podcast. Nascida em Moçambique, viveu a independência do país, passou pelo Brasil recém-saído da ditadura militar e integrou um programa de reforma administrativa em Cabo Verde, país das suas raízes familiares. Nesta conversa, revisita esse percurso e explica como influenciou o seu olhar sobre a  sociedade. As pessoas estão no centro da forma como Iolanda Évora pensa o mundo. Nesta conversa, a psicóloga social regressa várias vezes à importância das relações, da interação e do coletivo na construção da identidade. "Para você se identificar como um indivíduo, passa por esse reconhecimento coletivo", afirma. "A gente precisa ter mais consciência daquele ir e voltar. Ir e individualizar, mas individualizar coisas que partilhamos com os outros." A economia solidária também faz parte do seu percurso académico, a partir de uma tese de mestrado sobre cooperativismo, que a levou a estudar modelos de organização assentes na cooperação e na partilha, um interesse que mantém até hoje através da ligação ao Instituto Paul Singer, no Brasil.  Ao longo do episódio, Iolanda Évora revisita ainda o debate sobre identidade, racismo e imigração, questionando a forma como essas discussões têm sido conduzidas. "Estão sempre a pedir-nos para descrever o que é ser negro, o que é ser imigrante", observa, defendendo que continua por conhecer o outro lado da discussão, referindo-se às conversas que acontecem entre quem ocupa posições historicamente dominantes, raramente presentes no espaço público. "Eu quero saber qual é essa conversa", reitera a investigadora, acrescentando: "Sei que há famílias [brancas] que vivem um grande desconforto quando se encontram, precisamente porque não concordam entre si. Não sei qual é a conversa que acontece ali." A investigadora partilha ainda a sua frustração com a pressão por resultados rápidos na academia, e defende uma investigação capaz de acompanhar a complexidade dos fenómenos sociais. Explica por que privilegia metodologias qualitativas, que permitem compreender a dinâmica dos processos para lá de um simples retrato da realidade. "A pesquisa quantitativa dá-te uma fotografia daquele momento. Mas, se tu queres entender como é que o processo funciona, dificilmente consegues isso com métodos quantitativos." A reflexão passa igualmente pela importância de se recuperar a humildade intelectual. "Estamos cheios de verdades", observa, perante um espaço público e académico onde considera existir demasiada pressa para chegar a conclusões. Ouça aqui a conversa completa, com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Iolanda Évora: “Estamos cheios de verdades. Não haver esse ‘não sei, vou procurar saber’, acaba por nos consumir. Dá a impressão que tens que saber tudo, ter opinião sobre tudo”
  2. Aug 13

    Miguel Sambé:  “Desacelerar não é importante apenas para o planeta; é também importante para nós, enquanto seres humanos. É por isso que gosto tanto desta frase: 'Sou ser humano, mas não sei ser humano'”

    Especialista em análise geoespacial e ciência climática, videógrafo e fotógrafo, Miguel de Andrade Sambé é o único português na Agência Espacial da Tailândia, onde desenvolve projetos ligados às alterações climáticas através de imagens de satélite. Nesta conversa para “O Tal Podcast”, este filho de pai guineense e mãe angolana, nascido e criado em Portugal, fala sobre a “triangulação de identidades” que marca profundamente a forma como olha para o mundo. Quando aos 28 anos viajou pela primeira vez para a Guiné-Bissau, Miguel somava já mais de 20 países na sua rota de voos. Mas foi esse destino, de encontro com a terra natal do pai, que marcou um antes e depois.“Em África aprendi a não olhar, mas sim a observar”, conta o geoengenheiro que, a par das viagens, tem na geografia uma grande paixão. Desde a infância estimulado pelos pais a aprender, foi com eles que o também videógrafo despertou a curiosidade pelo mundo e pelo conhecimento. Mais tarde, dividido entre o atletismo de alta competição no Sporting e a ciência, acabou por seguir uma carreira internacional na área da engenharia geográfica, desenvolvendo a fotografia e a videografia como linguagens complementares ao trabalho científico. “A ciência dá-me a confirmação matemática; a fotografia e o vídeo dão-me a confirmação e a conexão espiritual com a Terra.” Ao longo da conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, Miguel reflete sobre a importância de valorizar o conhecimento local, defendendo que pescadores, agricultores e comunidades tradicionais possuem saberes essenciais para compreender fenómenos ambientais e enfrentar as alterações climáticas. Para o investigador, a ciência deve aprender a escutar essas vozes. “O conhecimento científico é apenas um acessório. A base, essa, é o conhecimento local.” Outro dos grandes temas abordados neste episódio é a necessidade de a humanidade abrandar. “Desacelerar não é importante apenas para o planeta; é também importante para nós, enquanto seres humanos. É por isso que gosto tanto desta frase: 'Sou ser humano, mas não sei ser humano.'” Miguel de Andrade Sambé aborda também o racismo que enfrentou durante a infância, a educação exigente que recebeu dos pais e a forma como essas experiências moldaram a sua identidade. Partilha ainda a visão de um cientista que acredita que o futuro passa por aproximar o conhecimento académico dos saberes locais, e por reaprender a observar a natureza. Ouça aqui a conversa completa com Georgina Angélica e Paula Cardoso  See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Miguel Sambé:  “Desacelerar não é importante apenas para o planeta; é também importante para nós, enquanto seres humanos. É por isso que gosto tanto desta frase: 'Sou ser humano, mas não sei ser humano'”
  3. Aug 6

    Virgílio Varela: "Precisamos de resgatar o que hoje estou a chamar de soberania da imaginação. Quando não a temos, somos facilmente enganados, colonizados"

    Fundador da Human Fleet, facilitador internacional, contador de histórias e cultivador de possibilidades, Virgílio Varela é o convidado desta semana d’ “O Tal Podcast”. Enquanto percorremos a sua trajetória de vida, na qual tem procurado criar espaços de transformação humana e coletiva, conversamos sobre o que identifica como uma “crise de imaginação”, desafiando-nos a recuperar a capacidade de sonhar e projetar outros futuros. Cresceu no já demolido bairro de Santa Filomena, na Amadora, onde encontrou na comunidade o primeiro espaço de aprendizagem e pertença. Foi aí que percebeu que ninguém cresce sozinho. “Estou sobre os ombros de gigantes. Foram essas pessoas que me permitiram chegar a estes lugares. Eu nunca entro num lugar sozinho. Entro com todas elas.” Uma visão coletiva que continua a orientar a forma como olha para as pessoas e o trabalho que desenvolve. Começou por dar expressão a essa leitura do mundo na música, integrado na primeira geração do hip-hop português, tendo participado na compilação “Rapública”, a primeira do género editada no país e, por isso, reconhecidamente um marco.  De volta a esses tempos, o convidado desta semana d’ “O Tal Podcast” recorda um movimento que abriu caminho para os talentos que se seguiram, e para quem a música era também um exercício de descoberta. “Sem dúvida que os livros que lemos e as referências que tivemos nos moldaram. Mesmo na música, éramos muito diggers. O digging é ouvires um tema e quereres saber quem o produziu, de onde vem aquele sample, quem é o autor.” Antes ainda dessas ‘escavações’ musicais, Virgílio conta que a leitura precoce do livro “The Silva Method” despertou-lhe a curiosidade por tudo aquilo que não se vê. Tinha apenas sete anos, e foi aí que começou a explorar a imaginação, os sonhos e o invisível, caminho que continua a influenciar a forma como vive, escreve e trabalha. “Quando somos crianças, vivemos muito naquilo que tocamos. ‘The Silva Method’ trouxe-me a consciência de que há coisas que não vemos, mas têm vida, têm força.” Para Virgílio, recuperar a imaginação é vital no mundo em que vivemos: “Precisamos de resgatar o que hoje estou a chamar de soberania da imaginação. Quando não a temos, somos facilmente enganados, colonizados.” Convicto de que “navegar num mundo como o de hoje” exige “ser capaz de sair da ilha, vê-la de fora e regressar com novos recursos e ferramentas”, o facilitador defende que “vivemos uma enorme crise de imaginação.” Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, Virgílio Varela aborda igualmente o conceito de Ubuntu, a escrita como um exercício de sobrevivência, a cerimónia de cura que viveu durante uma travessia do Atlântico e as aprendizagens que recolheu junto de comunidades quilombolas e indígenas no Brasil. Reflete ainda sobre a necessidade de descolonizar a imaginação e reconhecer que existem outras formas de conhecimento, tão válidas quanto aquelas a que o pensamento ocidental nos habituou. Ouça aqui a conversa completa. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Virgílio Varela: "Precisamos de resgatar o que hoje estou a chamar de soberania da imaginação. Quando não a temos, somos facilmente enganados, colonizados"
  4. Jul 30

    Gil Semedo: “Além da música, quero inspirar com a escrita. Acredito que Deus me fez um mensageiro para passar aquelas mensagens e inspirações para a multidão, e para mim”

    Popularizado como “Rei do Pop de Cabo Verde”, Gil Semedo conta, neste episódio d’ “O Tal Podcast”, como a sua carreira foi influenciada por Michael Jackson. Desde os 16 anos na música, já lá vão 35, o autor do hit “Maria Julia”, apresenta, a 11 de setembro, no Coliseu dos Recreios, o espetáculo “Caboswing - Novo e Velho Tour”. Uma oportunidade para revisitar alguns capítulos da sua história, incluindo a queda de um oitavo andar. “Continuar em cima do palco, a cantar, é mesmo um milagre, porque Deus disse: Ainda não é o teu tempo". Nascido em 1974, na ilha de Santiago, Gil Semedo emigrou para a Holanda aos seis anos. Inspirado pelos ritmos tradicionais cabo-verdianos –  como o batuku, o funaná e a coladera –  cruzou essas sonoridades com as influências musicais que encontrou fora do seu país de origem, dando vida a um novo género: o Caboswing. O sucesso das suas músicas ficou implantado nas memórias afetivas de muitos cabo-verdianos, e não só, fazendo parte da banda sonora de festas e celebrações até aos dias de hoje. Entre os seus maiores êxitos destaca-se "Maria Julia", tema que atravessa gerações e continua a encher pistas de dança sempre que toca, consolidando Gil Semedo como um dos artistas cabo-verdianos mais populares de sempre. Ao “O Tal Podcast”, o cantor, que hoje conta com 51 anos, recorda a influência que Michael Jackson teve no seu percurso: “Fui para a Holanda com seis anos e um ano depois, o Michael lançou o álbum “Thriller”. Teve tanto impacto e sucesso que eu apaixonei-me totalmente e disse: ‘Quero fazer isso, subir em cima do palco, alegrar os corações da multidão.” Com 35 anos de carreira e um concerto marcado para o Coliseu dos Recreios, no próximo dia 11 de setembro, Gil Semedo falou também sobre o seu mais recente álbum, “Caboswing: O Novo Capítulo”, lançado no final de maio. O novo trabalho inclui um momento especial: o primeiro dueto da sua carreira, gravado com a filha de 16 anos, Melodia. “A minha filha é a minha melhor composição. Uma composição viva”, afirma. Durante a conversa, o cantor revelou também detalhes sobre o grave acidente que quase lhe tirou a vida, quando caiu do oitavo andar de um hotel, no Senegal, permanecendo três meses em coma. “Eu continuar em cima do palco, a cantar, é mesmo um milagre, porque Deus disse: Ainda não é o teu tempo". Este episódio marcante, bem como a sua história familiar e o percurso de vida, estarão retratados na autobiografia que tem lançamento previsto para o final deste ano. Ouça aqui a conversa completa, com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Gil Semedo: “Além da música, quero inspirar com a escrita. Acredito que Deus me fez um mensageiro para passar aquelas mensagens e inspirações para a multidão, e para mim”
  5. Jul 23

    Felso Ganhane: “Trabalhei com migrantes e refugiados. Foram 40 e tal nacionalidades em cerca de quase quatro anos. Despi-me de muitos estereótipos e preconceitos”

    Natural de Maputo, capital de Moçambique, Felso Ganhane sonhava, desde criança, construir edifícios. Foi esse objectivo que o levou a estudar no Instituto Industrial 1º de Maio, ainda na terra natal, e mais tarde a mudar-se para Castelo Branco, onde tirou o curso de Engenharia Civil. A experiência aproximou-o do associativismo, território de descoberta de uma nova vocação, partilhada neste episódio d’ “O Tal Podcast”, entre reflexões sobre os desafios da migração. O envolvimento em projetos comunitários despertou em Felso o interesse por causas sociais e políticas públicas, levando-o a prosseguir estudos em Ciência Política e Relações Internacionais. Foi no contexto associativo que começou a trabalhar com migrantes e refugiados de mais de 40 nacionalidades, vivência que o levou a questionar estereótipos e preconceitos e o instigou a construir pontes entre diferentes comunidades. “Não há nada maior do que a satisfação de olhares para o teu entorno e perceberes: ‘Consegui impactar imensa gente.’” Em 2020, a participação na Academia Ubuntu revelou-lhe a filosofia do “eu sou porque tu és”, que descreve como transformadora, enquanto via a consolidação da ideia de uma vida orientada pelo serviço aos outros e pela construção de pontes. O percurso acabaria por levá-lo à representação da Comissão Europeia em Portugal — onde trabalhou com jovens na promoção do projeto europeu — e também à comunidade Global Shapers, iniciativa do Fórum Económico Mundial. Atualmente, concilia esta intervenção com o empreendedorismo tecnológico, sendo cofundador da SpectrAll, uma startup que utiliza inteligência artificial para apoiar a conformidade regulatória em cibersegurança de infraestruturas críticas. Pai de uma filha, explica que a paternidade redefiniu as suas prioridades. “Os meus propósitos passam principalmente por ser bom pai”, afirma, acrescentando que a responsabilidade de deixar um mundo melhor para as gerações futuras reforçou o seu compromisso com a procura de soluções. Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, Felso Ganhane reflete ainda sobre a infância em Moçambique e o choque de chegar a Castelo Branco, os desafios da integração de migrantes na Europa, a importância da representatividade e a necessidade de arregaçar as mangas. “Podemos ser sempre adeptos e treinadores de bancada. Outra coisa é estar disposto e disponível a fazer acontecer, e querer ser parte da solução.” Ouça aqui a conversa completa. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Felso Ganhane: “Trabalhei com migrantes e refugiados. Foram 40 e tal nacionalidades em cerca de quase quatro anos. Despi-me de muitos estereótipos e preconceitos”
  6. Jul 16

    Patrícia Vaz: “Amo ver o mar. O dia-a-dia é tão corrido que necessitamos destes momentos, de olhar para o nada e simplesmente apreciar”

    Investigadora, gestora de programas na Fundação Calouste Gulbenkian e doutoranda em Estudos do Desenvolvimento, Patrícia Inês Vaz é a convidada desta semana d' “O Tal Podcast”. Nascida em Portugal, com raízes em Cabo Verde e Angola, construiu um percurso ligado ao conhecimento, movida por um profundo compromisso com a justiça social. Integrada na Fundação Calouste Gulbenkian, Patrícia Vaz acompanha programas de bolsas e iniciativas na área da Educação e Ciência, enquanto desenvolve a sua investigação de doutoramento sobre as relações entre o Norte e o Sul Global. “Se eu quero falar de desenvolvimento, tenho de entender toda a história que está para trás”, afirma, explicando a importância de compreender o passado para pensar as desigualdades do presente. As viagens de infância à Ilha do Fogo despertaram-lhe uma consciência precoce sobre o privilégio e a importância de criar oportunidades para os outros. Ao longo da conversa, fala ainda do papel da educação como ferramenta de transformação social, lembrando que uma bolsa representa muito mais do que apoio financeiro: “É a capacidade de alguém simplesmente estudar e focar-se no estudo.” Apaixonada por música, livros e viagens, Patrícia estreou-se recentemente na escrita para a plataforma “Rimas e Batidas”, onde entrevistou a artista Nenny, trabalho que descreve como transformador. Nos seus sonhos, tem de escrever um livro dedicado às vivências das mulheres negras, refletindo sobre identidade, colorismo e autoestima. “A sociedade é cruel connosco. Não é fácil para mulheres negras.” Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, Patrícia Inês Vaz fala ainda da procura pelo seu lugar no mundo, recusando a ideia de caber numa única definição. “Ainda estou a tentar encontrar-me, e entender onde é o meu lugar. Mas sinto que são vários lugares. E eu estou bem também em ser vários lugares. Hoje, se calhar, é este lugar aqui e amanhã aquele lugar.” Ouça aqui a conversa completa. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Patrícia Vaz: “Amo ver o mar. O dia-a-dia é tão corrido que necessitamos destes momentos, de olhar para o nada e simplesmente apreciar”
  7. Jul 9

    Carlos Kangoma: “Assusto-me quando vou ver as notícias. Sinto que estamos a descair para um certo regime, um tipo de fascismo light”

    Após cerca de vinte anos dedicados ao rap, a pandemia obrigou Carlos Kangoma, também conhecido por Lucy, a reinventar-se. Hoje é à frente do seu restaurante de gastronomia libanesa, o Mankooche, que encontra independência financeira para continuar a lutar pela justiça social e bem-estar coletivo. Além de refletir sobre o percurso que o levou da música ao ativismo, o convidado deste episódio d’ “O Tal Podcast” defende que o rap pode ser “uma forma de jornalismo”, capaz de dar voz às comunidades periféricas e desafiar a ideia de que “o bairro é só criminalidade e violência.” Ao longo da conversa, Lucy regressa ao bairro onde cresceu para refletir sobre uma infância marcada pela discriminação, repressão policial e ausência de oportunidades. Recorda que o primeiro contacto com a polícia aconteceu quando tinha apenas 11 ou 12 anos, enquanto jogava à bola, e descreve uma realidade em que “existe uma marginalização e uma discriminação feita de uma forma bastante violenta a nível físico e psicológico.”  Apesar disso, rejeita os estereótipos frequentemente associados às periferias e lembra que é dali que saem muitos dos trabalhadores que garantem o funcionamento da cidade, destacando também o forte sentido de comunidade que caracteriza estes bairros. Filho de pais que fugiram de Angola depois da independência, Lucy fala ainda sobre o peso do trauma migratório e da herança colonial, refletindo sobre as desigualdades que continuam a marcar a sociedade portuguesa. Um dos exemplos que aponta é o sistema educativo, que considera “muito eurocêntrico” e que, na sua perspetiva, falha em valorizar a diversidade cultural e em oferecer referências positivas às novas gerações. A música surge, por isso, como uma forma de responsabilidade social. Para Lucy, quem cria também influencia, e isso implica um compromisso com a realidade de quem raramente vê a sua experiência representada no espaço público. Neste episódio, fala também do trabalho desenvolvido pelo movimento Vida Justa, onde o ativismo acontece no terreno, junto das comunidades. Defende que “o ativismo é uma forma de resistência” e sublinha a importância da organização coletiva para enfrentar as desigualdades, acreditando que a transformação social depende da capacidade das pessoas se unirem para reivindicar direitos e construir um futuro mais justo. Ouça aqui a conversa completa, com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Carlos Kangoma: “Assusto-me quando vou ver as notícias. Sinto que estamos a descair para um certo regime, um tipo de fascismo light”
  8. Jul 2

    Cátia Severino: “É importante esta sociedade começar a assumir que ser português não é ter um perfil específico. A Cova da Moura é tão Portugal como o Saldanha”

    Veio de Angola na barriga da mãe, e foi no Algarve que nasceu e cresceu antes de se mudar para Lisboa, onde construiu uma trajetória académica na área da Linguística. Convidada deste episódio d’ “O Tal Podcast”, Cátia Severino descreve a entrada no ensino superior como a “realização de um sonho de sobrevivência”, enquanto única via possível de mobilidade e dignidade, numa vida marcada pela precariedade, e guiada pela resiliência e educação. Do Algarve para Lisboa, Cátia trouxe não apenas o desejo de estudar, mas também um percurso atravessado pelo esforço contínuo: trabalhar de noite, estudar de dia, e sustentar um ritmo de sobrevivência que se prolongou muito além da licenciatura. Mesmo após o mestrado, doutoramento e pós-doutoramento, o descanso parecia sempre adiado. Só mais tarde, com apoio pessoal, conseguiu finalmente reconhecer e habitar as suas conquistas. Ao longo da sua trajetória, confrontou-se com várias experiências de discriminação, inclusive dentro da academia. Para começar, o seu sotaque “afro-algarvio” era frequentemente lido como menos legítimo. Somou-se a isso uma reprovação no 12.º ano, que alterou profundamente o seu percurso escolar, episódio que a obrigou a mais um ano de esforço, e que expõe as desigualdades muitas vezes naturalizadas no sistema educativo.  Cátia reflete ainda sobre o “branqueamento social” do seu percurso, num meio académico onde se tornou frequentemente a única pessoa negra portuguesa. A sua experiência é também marcada por uma reflexão profunda sobre identidade, pertença e colorismo. Entre o Algarve e Lisboa, Portugal e Angola, Cátia descreve o impacto constante da pergunta “de onde és?”, apesar de ter nascido em Portugal.  As suas viagens a Angola ativaram uma ligação íntima com a terra dos pais, mas também a consciência de uma identidade híbrida, que define como afro-portuguesa ou portuguesa negra. Neste episódio, Cátia revisita ainda a história familiar atravessada pela guerra, pelo colonialismo e pela migração, destacando figuras como a sua avó Angelina. Ao mesmo tempo, recorda os efeitos dolorosos do colorismo dentro da própria família e comunidade, onde o tom de pele podia determinar aceitação ou exclusão. Para Cátia, negar essa complexidade seria negar a própria história. Ouça aqui a conversa completa, com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Cátia Severino: “É importante esta sociedade começar a assumir que ser português não é ter um perfil específico. A Cova da Moura é tão Portugal como o Saldanha”

About

Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião, com autoria de Georgina Angélica e Paula Cardoso.

You Might Also Like