Histórias dos Violões na Velha São Paulo

Flavia Prando

Esta série de episódios traz as histórias da músicas gravadas no álbum Violões da Velha São Paulo, trabalho fruto da pesquisa de doutorado que Flavia Prando defendeu na ECA/USP. A instrumentista, em sua pesquisa, trouxe à tona a história da música para violão na São Paulo do século XIX, período anterior à formação do circuito de partituras para o instrumento, o que significa que muitas das obras do disco foram resgatadas de manuscritos ou arranjadas a partir de versões para piano.  Cada música ganha um episódio, são treze capítulos, nesta primeira temporada, que trazem a história do compositor, da obra e do contexto da cidade de São Paulo, no intuito de enriquecer a audição da gravações e divulgar a trajetória dos artistas e da cidade sob um ponto de vista musical.  Aborda-se um pouco da história do violão brasileiro e das valsas, mazurcas, gavotas e choros cultivados no país.  Flavia Prando

  1. Bombardino e Serelepe - choros de João Reis dos Santos - Epsódio 2 - temporada 2 - Flavia Prando

    12/27/2025

    Bombardino e Serelepe - choros de João Reis dos Santos - Epsódio 2 - temporada 2 - Flavia Prando

    Olá, pessoal, sejam muito bem-vindos. No episódio de hoje, seguimos acompanhando o violão na São Paulo das décadas de 1920 e 1930 para conhecer dois choros curtos de João Reis dos Santos: Bombardino e Serelepe. São peças breves em duração, mas densas em significado. Elas revelam um compositor em trânsito — entre o Rio de Janeiro e São Paulo, entre diferentes modos de escrever choro — que encontrou no ambiente paulista um terreno fértil para sua atividade musical. Embora João dos Santos tenha nascido no Rio de Janeiro, em 1886, foi em São Paulo que sua obra circulou com força, ganhou público e se misturou à prática local do violão, a ponto de Hermínio Bello de Carvalho citá-lo como músico paulista. Essa “adoção” diz muito: João atuou intensamente no circuito musical da capital, tocando, ensinando, organizando programas e participando de conjuntos que animavam a vida cultural da cidade, além de manter presença constante em Campinas e Santos. Na imprensa da época, ele aparece como um músico ativo, requisitado e com repertório próprio — alguém que circulava com desenvoltura entre o rádio, as salas de concerto, o ensino e a publicação de partituras. Também integrava redes coletivas, tocando em formações conjuntas e participando de concursos e audições públicas. Essa vida em movimento se reflete na escrita musical. João compôs tanto choros mais longos, em forma rondó, associados à tradição carioca, quanto choros curtos, em forma ABA — mais concisos e geralmente mais lentos. Esse segundo modelo é identificado por Manoel Corrêa do Lago como uma marca do choro paulistano. É justamente nesse universo que se situam Bombardino e Serelepe. Bombardino, publicado no Volume 3 da coleção Violões na Velha São Paulo, é um choro em duas partes, de escrita econômica e precisa. Alternando registros do instrumento, a peça constrói um balanço discreto, com pequenos arpejos e diálogos entre baixo e agudo. Serelepe, presente no Volume 1 da coleção, também é um choro curto, mas com outra energia. Leve, ágil e cheio de movimento, explora saltos de posição e contrastes rápidos, como se traduzisse a vivacidade de uma cidade em aceleração. Há ali também uma ponta do humor musical de João, conhecido por surpreender colegas com soluções inesperadas. Curiosamente, “Serelepe” era também o apelido de um violonista atuante no mesmo período, figura hoje quase anônima, mas registrada na imprensa. A coincidência revela como esses ambientes se cruzavam e como certos nomes e apelidos circulavam entre os músicos da época. No conjunto, Bombardino e Serelepe formam um pequeno díptico sonoro da São Paulo dos anos 1920: dois choros curtos, contrastantes e cheios de personalidade. Eles carregam a marca de um compositor carioca que foi plenamente incorporado à estética paulistana — e que também ajudou a moldá-la. Seguimos, assim, reativando um repertório que permaneceu silencioso por décadas, mas que hoje volta a ser ouvido e estudado. Ouçam Bombardino e Serelepe. As gravações estão disponíveis no Spotify e nas demais plataformas digitais. Eu sou Flavia Prando e agradeço a companhia em mais um episódio. Até a próxima. O podcast, narrado e produzido por Flavia Prando, conta com dramatizações de Artur Mattar, voice-over de Biancamaria Binazzi e trilhas cuidadosamente selecionadas para acompanhar a narrativa, proporcionando uma experiência sonora rica e contextualizada da história musical paulista.

    10 min
  2. Céu do Paraná - Leopoldo Silva - Epsódio 1 - temporada 2 - Flavia Prando

    06/28/2025

    Céu do Paraná - Leopoldo Silva - Epsódio 1 - temporada 2 - Flavia Prando

    No primeiro episódio da segunda temporada do podcast "Histórias dos Violões na Velha São Paulo", Flavia Prando apresenta a trajetória do compositor Leopoldo Silva, destacando especialmente sua valsa intitulada "Céu do Paraná". Este episódio mergulha na história pouco conhecida de Silva, músico que, apesar de sua relevância no cenário musical paulista do início do século XX, deixou poucos registros pessoais ou oficiais. O episódio explora os rastros deixados por Silva através de seus discípulos, como Antonio Giacomino, conhecido como Lourinho, que se destacou como compositor nos anos 1930. A relação entre mestre e discípulo é enfatizada por meio do arranjo conjunto da gavota "Tu e Eu", composição originalmente de Alphons Czibulka, músico austro-húngaro conhecido por suas peças de sucesso nos salões europeus e latino-americanos do fim do século XIX. A peça foi publicada no Volume 4 da coleção "Violões na Velha São Paulo", reforçando como o violão incorporava e adaptava repertórios que circulavam pela cidade, das modinhas às melodias internacionais. Leopoldo Silva é também reconhecido pelos manuscritos encontrados na Coleção Ronoel Simões, destacando-se a "Fantasia sobre O Guarani" de Carlos Gomes, e transcrições como o Hino Nacional Brasileiro e a tradicional "Canción de Cuna" espanhola. Esses trabalhos sugerem tanto uma vocação didática quanto uma atuação destacada em pequenos concertos. O episódio resgata ainda um episódio marcante na carreira de Silva: sua passagem por Ponta Grossa, Paraná, em 1921, onde foi recebido com entusiasmo, segundo registros do jornal "A República". Esse momento histórico inclui uma célebre citação atribuída ao grande violonista paraguaio Agustín Barrios: "Você não toca melhor do que eu, mas tão bem quanto eu", indicando o reconhecimento do talento de Leopoldo Silva entre seus contemporâneos. Em São Paulo, Silva participou ativamente do circuito musical, integrando audições ao lado de nomes como João Avelino, Oswaldo Soares e Aristodemo Pistoresi. Uma dessas audições ocorreu no prestigiado Salão Germânia, onde sua presença confirma sua inserção nas redes musicais relevantes da época. Outra apresentação destacada ocorreu no salão da revista "A Cigarra", dedicada especialmente à imprensa paulistana, sendo amplamente aplaudido e reconhecido por seu estilo interpretativo marcadamente sentimental. Apesar da relevância de Leopoldo Silva, o podcast ressalta o mistério em torno de sua figura, ressaltando que não existem imagens ou documentos precisos sobre datas fundamentais da sua vida. Este silêncio histórico, no entanto, amplifica a escuta das composições que sobreviveram ao tempo, permitindo que sua obra permaneça viva na memória e nas execuções contemporâneas. A valsa "Céu do Paraná", única peça solo identificada de Silva, está disponível na íntegra no Spotify, gravada em um violão histórico construído por Francisco Pistoresi, oferecendo uma sonoridade autêntica à época em que a música foi criada. O podcast, narrado e produzido por Flavia Prando, conta com dramatizações de Artur Mattar, voice-over de Biancamaria Binazzi e trilhas cuidadosamente selecionadas para acompanhar a narrativa, proporcionando uma experiência sonora rica e contextualizada da história musical paulista.

    13 min
  3. 05/19/2024

    Episódio 13. Recordação. José Alves da Silva, o Aimoré

    Olá, pessoal, muito bem-vindos! No último epsódio da nossa primeira temporada, vamos falar sobre o choro Recordação, de José Alves da Silva, Aimoré - Redenção da Serra 1908 – São Paulo 1979 Regional da Rádio Cosmos, Aimoré (José Alves da Silva); Garoto do Banjo (Aníbal Augusto Sardinha) e Petit (Hudson Gaia). As atividades de Aimoré (1908-1979) na radiofonia paulistana foram variadas e intensas. No ano de 1934, executou o Choros nº1, de Heitor Villa-Lobos, na cerimônia de inauguração do Centro Social dos Sargentos da Força Pública, que foi irradiada pela Rádio Educadora Paulista. Ele foi chefe do regional da rádio Cruzeiro do Sul, que contava com José Sampaio, violão; Santana, cantor; João Carrasqueira, flauta; e Mário Portela, violão tenor. Pouco depois, em 1941, organizou, a convite de Nicolau Tuma, diretor da Rádio Difusora, o regional da emissora, com Miranda, cavaco; Antoninho, clarinete; Ernesto, violão e Petit, que o havia recrutado no início da carreira, também ao violão. Na emissora também executava composições de Agustín Barrios e Francisco Tárrega. No ano seguinte organizou o conjunto regional da Rádio Piratininga, onde também tocava solos ao violão. Atuou ainda na Rádio América, dirigindo o regional desta emissora. Participou do regional da Rádio Record com Armando Neves (1947). Na indústria fonográfica, deixou algumas gravações, transitando entre o repertório erudito e popular. Em 1953, acompanhou Vanja Orico ao violão na trilha sonora do premiado filme O Cangaceiro, de Lima Barreto. Em 1958, trabalhou com Camargo Guarnieri na trilha sonora do filme Rebelião em Vila Rica, de Geraldo dos Santos Pereira e Renato dos Santos Pereira. A partir de 1950, começou a trabalhar como arquivista do Theatro Municipal, onde permaneceu por onze anos. Durante todo esse período, continuou como professor do instrumento, até o final de sua vida, sendo Francisco Araújo (1954) seu discípulo mais expressivo. Apesar de toda esta diversificada e rica trajetória, Aimoré segue pouco conhecido, mesmo entre os violonistas. Ficou conhecido por ter feito dupla com Garoto e por uma composição, Choro Triste, gravada pelo violonista paulistano Antônio Rago (1916-2008) e pelo célebre músico Mário Zan (1920-2006)[5]. Aimoré sabia ler e escrever partituras e editou algumas músicas de Armando Neves. Ao que tudo indica, o arquivo de partituras de Aimoré foi incorporado à Coleção Ronoel Simões. Ele fez parte do regional da Rádio Cosmos, com o trio formado por Garoto, no banjo e Petit e Aimoré, violões: Festa da Garoa, segunda-feira no Santana Sob a orientação artística de Milton Amaral, autor da valsa “Folhas ao vento”, realizar-se-á, segunda-feira próxima no Theatro Santana, a Festa da Garoa, em homenagem ao speaker, Dr. Nicolau Tuma e ao cantor paulista Gastão Formenti. O programa organizado não poderia ser mais completo, nele tomando parte os “ases” do “broadcasting” paulista, como também carioca, vejamos: Alzirinha Camargo […], José Lucas, Nuno Rolando, Paraguassú, Pedrinho Romano, Raul Torres, a dupla Ranchinho e Alvarenga e outros mais. O acompanhamentos serão feitos pelo “jazz” da Rádio Difusora e o Conjunto Regional da Rádio Cosmos, assim organizado: Garoto do Banjo, Petit e Aymoré. Num dos intervalos, Gastão Formenti, que também é exímio pintor, receberá significativa homenagem de Milton Amaral, o organizador do espetáculo. Recordação é um choro tipicamente paulista: composto em duas partes, em forma ternária ABA, em tonalidade menor, mais lento que os choros cultivados na capital federal e que se firmaram na radiofonia e na fonografia brasileiras. Voice-over: Biancamaria BinazziDramatização dos trechos dos periódicos: Artur MattarVinheta: Sabãozinho, João Avelino de Camargo, arranjo Edmar Fenício. Violão, Flavia Prando.Música incidental: O que faria Vera?, violão Aimoré, José Alves da Silva.Concepção, criação, pesquisa e narração: Flavia Prando

    8 min
  4. 05/05/2024

    Episódio 12. Paulista. João Reis dos Santos

    No episódio de hoje, vamos falar sobre o choro Paulista, de João Reis dos Santos Rio de Janeiro, 29 de julho de 1886 – 02 de setembro de 1950. João dos Santos foi um violonista de bastante destaque no cenário paulistano das décadas de 1920 e 1930. Sua obra é praticamente desconhecida atualmente e pouco se sabe sobre este músico, cujo nome completo era João Reis dos Santos. Felizmente, diferente da maioria dos violonistas deste período, muitas de suas obras solo sobreviveram em versões manuscritas em diferentes acervos particulares e públicos. Hermínio Bello de Carvalho levantou a hipótese de que João dos Santos fosse paulista: Bandolim de Ouro, da Rua Uruguaiana, “ponto” dos artistas da época, onde se encontrava facilmente João dos Santos, compositor bastante divulgado por Dilermando. Ao que se sabe era paulista. Além dos Batuques n°1 e 2, conhecem-se também o Paulista, o Alma Brasileira. Gostava de escrever choros com modulações inesperadas para “derrubar” seus companheiros de roda, prática musical da época[1]. [1] CARVALHO, Hermínio Bello de. Mudando de conversa. São Paulo: Martins Fontes, 1986, p. 107. A julgar pelas notícias dos periódicos, ele deve ter residido na capital paulistana entre 1920 e 1936. Publicou um método prático com seu nome completo, João Reis dos Santos.  A exemplo dos demais violonistas do período, o repertório de João dos Santos era eclético, composto de obras de sua autoria, danças de salão e músicas de Francisco Tárrega. Recebeu a quinta maior votação como violonista no concurso da Rádio Gazeta (1931), com mais de 30 mil votos, e participou ativamente no certame, organizando programas na mesma emissora para promovê-lo. Era um compositor inventivo. Embora simples harmonicamente, suas obras exploram o idiomatismo do instrumento, utilizando paralelismo, que é o uso de uma mesma posição de mão esquerda transitando em diferentes casas do violão. No piano, tal progressão seria dificultada pela constante mudança de molde da mão. Este recurso pode ser encontrado abundantemente nas obras de João Pernambuco e Villa-Lobos, mas ainda não era tão frequente no início dos anos 1920. Além disto, a utilização de contracantos típicos do gênero revelam uma técnica composicional sofisticada e moderna. A grande quantidade de violonistas que grafaram as peças de João dos Santos, entre eles, entre eles Ronoel Simões, José Lansac, Vital Medeiros, Atílio Bernardini, Maurício Nogueira, Edmar Fenício e Paulo César Faria (Paulinho da viola), aponta para uma difusão considerável de suas obras entre os pares de diversas gerações e formações. Além de se apresentar e promover programas em emissoras de rádio, João dos Santos organizava recitais do instrumento, e um deles, no Salão da Sociedade Germânia, chamou atenção pela presença de violonistas de diversas formações e gerações, citados ao longo dos episódios do nosso podcast. De todas as composições de Santos, Paulista foi a única que recebeu edição, pela Fermata do Brasil (1966), com digitação de Ronoel Simões e nome de Arrufos. Datada de 1925, pode-se ouvir nela os princípios da linguagem que Garoto desenvolveria nas décadas posteriores, e não por acaso. Certamente Garoto, quando ainda era chamado de Moleque do Banjo, conviveu e foi influenciado por João dos Santos. Os dois transitavam no ambiente das rádios, circos, cafés, cinemas e lojas e fábricas de instrumentos paulistanos, trabalhando em diversos conjuntos instrumentais, chamados de Regionais de Choro. Voice-over: Biancamaria BinazziDramatização dos trechos dos periódicos: Artur MattarVinheta: Sabãozinho, João Avelino de Camargo, arranjo Edmar Fenício. Violão, Flavia Prando.Música incidental: Carioca, João dos Santos, Flavia Prando, violão.Concepção, criação, pesquisa e narração: Flavia Prando

    8 min
  5. 04/28/2024

    Episódio 11. Cruzeiro - Theotonio Côrrea

    O violonista e compositor Theotonio Côrrea (1881-1941), filho de Theotonio Gonçalves Côrrea (violonista pioneiro na cidade, tratado no episódio 2), participou do início da radiofonia e da fonografia elétrica em São Paulo. Em 1929, apresentou-se em duo com José Martins Duarte de Mello, o Melinho de Piracicaba  (1873-1960), e meses depois, João Avelino Camargo (abordados nos episódios 8, 9 e 10) somou-se ao duo. Juntos, formaram o primeiro trio brasileiro de violões do qual se tem notícias, o trio Três Sustenidos. Theotonio teve dois choros registrados na fonografia pelo trio (1930): Cadê o cruzeiro e Bancando o Nazareth. CLUBE DAS PERDIZES - SARAU LITERÁRIO-MUSICAL Organizada pelo Sr. Luiz Assumpção, essa festa vem despertando um vivo interesse e se revestirá certamente de desusado brilhantismo. Foi organizado um excelente programa, que ficou a cargo dos elementos de destaque do nosso meio artístico e social como se vê abaixo: Dr. Plinio Ferraz, em anedotas, Antonio Gouvea, em canções, José Galante, em fados, Marcelo Tupinambá, em suas composições, cantadas por Sr. Edgard Arantes, Trio de violões pelos Srs. Theotonio Correa, João Avelino e José Mello[1]. [1] Correio Paulistano, 31 de outubro de 1929, p. 7. A música foi editada como maxixe e com o nome de Cruzeiro,  pelos fabricantes de violão Di Giorgio e também por Del Vecchio, ambas com revisão de Atílio Bernardini (c. 1930). Este é o período em que as fábricas de violão Di Giorgio, Del Vecchio e Giannini passaram a editar métodos e partituras para o instrumento. Estas fábricas, certamente com intuito de auxiliar as vendas, passaram a exercer elas mesmas o papel que as grandes casas editoras só assumiriam na década de 1940 e publicaram métodos e partituras para violão. Além do mais, estes estabelecimentos tornaram-se ponto de encontro entre os músicos: promoveram aulas, saraus, recitais, discos. Criaram, assim, um circuito que, se alimentava as vendas, ajudava também na expansão das práticas em torno do instrumento. Composto em três partes, na forma rondó ABACA, o choro apresenta a primeira parte em Fá maior, uma tonalidade nada usual, que complica um tanto a vida do intérprete, devido a grande quantidade pestanas que a tonalidade demanda. No entanto, trata-se de uma música bastante idiomática. A parte B está na tonalidade de dó maior e o trio em si maior e seguem o padrão do choro tradicional, alternando as melodias sincopadas com os contracantos nos baixos típicos do gênero. Voice-over: Biancamaria BinazziDramatização dos trechos dos periódicos: Artur MattarVinheta: Sabãozinho, João Avelino de Camargo, arranjo Edmar Fenício. Violão, Flavia Prando.Música incidental: Cadê o Cruzeiro, Theotonio Côrrea. Trio Três Sustenidos, selo Brunswick, 1929. Concepção, criação, pesquisa e narração: Flavia Prando

    6 min
  6. 04/21/2024

    Episódio 10. Edith - João Avelino de Camargo

    João Avelino era um compositor inspirado, autor de melodias contagiantes e suas peças representam a síntese do repertório cultivado pelos violonistas neste período: músicas de salão e choros, explorando os idiomatismos do instrumento e deixando transparecer, aqui e ali, o sotaque caipira que insistia em permanecer na música e nos costumes da metrópole em crescimento. Ele foi tema dos episódio 8 e episódio 9, quando tratamos do choro Sabãozinho e da gavota Iole. Participou ativamente de apresentações públicas, em 1931, por exemplo, apareceu ao lado da soprano brasileira Elsie Houston (1902-1943) em apresentação no Portugal Clube: Antes de mais uma viagem para a Europa, Elsie Houston participou da “Tarde Musical” organizada pelo compositor Luiz Gonzaga Assumpção no dia 08 de janeiro de 1931 no salão do Portugal Clube. Encarregaram-se das interpretações, além de Elsie Houston, Jayme Redondo, Edgard Arantes, Antônio Marino Gouvêa, Maria Graccho e José Galante. Elsie Houston interpretou Porque sou triste, de Decio Abramo, e Papai, de Assumpção Fleury. Os acompanhamentos foram feitos, ao piano, pelo próprio L. Gonzaga Assumpção. A apresentação reuniu, também, músicos populares como Gaó (piano); Jonas; Zezinho (banjo, cavaquinho); Petit (violão); Calazans; Sampaio (violão); Theotônio Corrêa (violão); Pinheirinho (cavaquinho) e João Avelino Camargo[1].  [1] BERTEVELLI, Isabel. Elsie Houston e o canto nacional dos anos 1920 a 1940: trajetória profissional da “genuína voz brasileira”. Revista Brasileira de Música, v. 29, n. 2, p. 365-397. Na biblioteca de Isaías Sávio, pertencente à Coleção Ronoel Simões, as duas obras de Avelino, as gavotas Edith e Iole, aparecem com dedicatória do compositor paulista ao violonista uruguaio recém chegado ao país naquele momento. Assim, sabe-se que, no ano de 1933, Avelino esteve na capital federal. Além de evidenciar a relação entre os dois músicos, trata-se de uma demonstração evidente de que Isaías Sávio tinha conhecimento do movimento do violão na cidade de São Paulo já no início da década de 1930. Edith foi executada também por João dos Santos, personagem que será abordado no episódio 12 deste podcast. A última aparição de Santos em concertos públicos noticiada pelo jornal foi em 1936, participando de um duo com um violonista chamado Antonio Mastrangelo, quando executaram a peça Edith, de João Avelino de Camargo e Una Lagrima, de Sagreras.[1] Foi publicada inicialmente por Bernardini & Di Giorgio em 1931, e depois, no início dos anos 1940, também pela Casa Del Vecchio, sempre com revisão de Atílio Bernardini, professor de violão da cidade, um dos responsáveis pela implementação do circuito de partituras na cidade. Em forma rondó, com uma pequena introdução de quatro compassos, que apresenta a tonalidade de ré maior e os materiais temáticos da primeira parte da dança. A segunda parte, também em ré maior, utiliza a técnica dos harmônicos naturais, recurso bastante utilizado no final dos anos 1920, muito provavelmente impulsionado pelo advento das gravações elétricas que possibilitavam a captação das sutilezas dos instrumentos. Já o trio, em sol maior, apresenta uma sequência de tríades arpejadas que caminham acelerando em direção descendente e cuja voz mais grave desenha uma melodia, conferindo mais movimento ao trecho. Edith não foi registrada na fonografia, mas foi bastante executada, inclusive pelo trio Três Sustenidos em apresentações públicas pela cidade. Além da gavota Iole e do choro Sabãozinho, o trio gravou o choro Negrinha de filó, todas de autoria de Avelino Camargo. Voice-over: Biancamaria BinazziDramatização dos trechos dos periódicos: Artur MattarVinheta: Sabãozinho, João Avelino de Camargo, arranjo Edmar Fenício. Violão, Flavia Prando.Música incidental: Eh JurupanãCoco do Norte de motivo popular em arranjo de Elsie HoustonGravado por Elsie Houston, acompanhada Hekel Tavares, João Pernambuco e JararacaDisco Columbia 7.053-B, matriz 380587Gravado em dezembro de 1929 e lançado em 1930. Concepção, criação, pesquisa e narração: Flavia Prando

    7 min
  7. Episódio 9. Iole - João Avelino de Camargo

    04/15/2024

    Episódio 9. Iole - João Avelino de Camargo

    O violonista paulistano João Avelino de Camargo (1880-1936) e seu filho Américo Piratininga de Camargo (1903-1928) teriam sido dois dos melhores amigos e alunos de Barrios na cidade. Consta que o violonista paraguaio se hospedava na casa de Avelino quando estava em São Paulo. Em 1929, ao chegar para sua segunda turnê na cidade, foi surpreendido pela notícia da precoce morte de Américo, vitimado pela tuberculose, e teria composto o Choro da Saudade. Estas informações encontram-se na Coleção Ronoel Simões, anexadas a uma cópia manuscrita do citado choro, datada de 1935, que teria sido escrita por João Avelino de Camargo, segundo o documento. Ronoel Simões adquiriu, de um sobrinho de João Avelino de Camargo, diversas partituras manuscritas que pertenceram ao violonista paulista, entre elas a citada cópia do Choro da Saudade. Abaixo, a transcrição de um excerto do documento localizado na citada coleção: Choro da Saudade. Composto em novembro de 1929, na casa de João Avelino de Camargo, na Rua Barão de Iguape, 58, no Bairro da Liberdade, em S. Paulo, Brasil. O Américo Piratininga de Camargo, filho de João Avelino de Camargo, nasceu em São Paulo, em 01/06/1902 e morreu em São José dos Campos, estado de São Paulo, em 20/10/1928, de tuberculose. João Avelino de Camargo nasceu em 27/05/1880 e faleceu, de câncer na próstata, em 26/02/1936, com 56 anos de idade. João Avelino de Camargo e Américo Piratininga de Camargo foram alunos de Barrios e quando Barrios estava em São Paulo, hospedava-se na casa de João Avelino de Camargo [1]. [1] Trecho do documento anexado à cópia manuscrita do Choro da Saudade, pertencente à Coleção Ronoel Simões. A partitura exibe ainda a data de morte de Agustín Barrios como tendo sido em 1934, evidenciando que a inverídica notícia se espalhou entre os violonistas paulistanos, conforme já citado no episódio 7. João Avelino, que faleceu em 1936, provavelmente não soube que a notícia da morte do mestre e amigo era falsa. Paulo Prata, autor de uma biografia de João Pernambuco, gentilmente cedeu uma cópia da carta citada no episódio 8 para que fosse possível comparar a letra de Avelino com a caligrafia de manuscritos constantes na Coleção Ronoel Simões. Pela semelhança da letra, o excerto abaixo é parte de um manuscrito autógrafo da gavota Iole (s.d.). As peças de João Avelino representam a síntese do repertório cultivado pelos violonistas naquele período: músicas de salão e choros, explorando os idiomatismos do instrumento e deixando transparecer, aqui e ali, o sotaque caipira que insistia em permanecer na música e nos costumes da metrópole em crescimento. Outro exemplar de Iole, também localizado na Coleção Ronoel Simões, trouxe a dedicatória do compositor para o luthier paulistano Romeo Di Giorgio. Esta gavota em ré maior, composta em três partes, na forma rondó, recebeu versão para trio e foi gravada em 1929, pelos Três Sustenidos, selo Brunswick e recebeu edição para violão solo pela Casa Manon e impressão dos Irmãos Vitale. O violonista e professor Antônio Rebello, avô dos irmãos Abreu, realizou duas cópias da Iole, uma em 1930 e outra em 1940, indicando que a obra circulou no ambiente violonistico da então capital federal, Rio de Janeiro. Foi bastante executada na radiofonia e nos palcos paulistanos, tanto na versão em trio como na versão para violão solo. Voice-over: Biancamaria BinazziDramatização dos trechos dos periódicos: Artur MattarVinheta: Sabãozinho, João Avelino de Camargo, arranjo Edmar Fenício. Violão, Flavia Prando.Música incidental: Maxixe de Agustin Barrios, execução Agustin Barrios, NAXOS of America Maxixe · Agustín Barrios Mangoré Segovia & Contemporaries, Vol. 11: Rio de la Plata Guitarists ℗ 2017 DOREMI.Concepção, criação, pesquisa e narração: Flavia Prando

    7 min
  8. Episódio 8. Sabãozinho - João Avelino de Camargo

    04/07/2024

    Episódio 8. Sabãozinho - João Avelino de Camargo

    No episódio de hoje, vamos falar sobre o choro Sabãozinho, de João Avelino de Camargo (São Paulo 27/05/1880 - São Paulo 26/02/1936) João Avelino de Camargo foi aluno e amigo do paraguaio Agustín Barrios, e as informações sobre sua atuação e trajetória são bastante dispersas. As primeiras notícias nos periódicos sobre ele surgiram no ano 1921, embora seja bem provável que ele tenha iniciado sua atuação anteriormente. Seguindo o mesmo padrão de repertório de seus contemporâneos, mesclava obras clássicas transcritas para o instrumento, peças características e obras de sua autoria. Apresentou-se no Conservatório Dramático e Musical[1] e na Associação do Rosário Perpétuo do Brás[2]. Em 1924, apresentou-se na União Católica Santo Agostinho, tocando, além da mazurca Iole e Una Lagrima, de Sagreras, a mazurca Recordação Saudosa, de Theotonio Gonçalves Côrrea (pai), abordado no segundo episódio do nosso podcast. Com muito brilho, realizou-se sábado último na sede da União Católica Sto. Agostinho, o festival oferecido às famílias dos associados. A segunda parte do programa se iniciou com três solos de violão pelo professor João Avelino, que interpretou “Recordações saudosas”, “Yole”, de sua composição e “Lágrimas”, de Sagreras, arrancando demorados aplausos da assistência[3. [1]  Correio Paulistano, São Paulo, ano LXII, n. 21.803, 19 mar. 1924, p. 4. [2] Correio Paulistano, São Paulo, ano LIX, n.20664, 10 jan. 1921, p. 2. [3] Correio Paulistano, São Paulo, ano LIX, n. 20942, 23 out. 1921, p. 4. Duas citações sobre Avelino em livros que se restringem ao território musical do choro carioca — “nasceu presumivelmente em São Paulo, por volta de 1870, e deve ter falecido também na capital paulista, lá por 1940”, em citação de Ary Vasconcellos[4] e “violonista de mérito, discípulo do grande Barrios. É de São Paulo. Vive ainda, pesado de anos”[5], em verbete no célebre livro sobre o Choro e chorões, de Alexandre Gonçalves Pinto, o Animal, nos fazem crer que Avelino frequentava o ambiente musical da então capital federal. Avelino era próximo de João Pernambuco, a quem endereçou uma carta, em 1924, quando se referiu a um período passado no Rio de Janeiro, durante o carnaval daquele ano. O conteúdo da carta é interessantíssimo para o rastreamento da rede de sociabilidades em torno do instrumento: [4] VASCONCELLOS, Ary. Panorama da música popular brasileira na “Belle époque”. Rio de Janeiro: Livraria Sant'Anna, 1977, p.262. [5] PINTO, Alexandre Gonçalves. O choro: reminiscências dos chorões antigos. Typ. Glória, fac-símile, 1936 p.250. Destaca-se a citação sobre Mário Amaral, personagem abordado no episódio 5. Avelino ainda teve destaque na radiofonia com o grupo Três Sustenidos (1929), com Melinho de Piracicaba e Theotonio Correa (filho, que será abordado no episódio 11) e algumas de suas obras sobreviveram, seja pelas gravações do trio, ou através de partituras manuscritas e editadas. O choro Sabãozinho foi registrado pelo trio Três Sustenidos na fonografia paulistana (1929), pelo selo Brunswick e a gravação é raríssima.  O choro recebeu transcrição e arranjo do violonista Edmar Fenício (1942) e é utilizado como vinheta do nosso podcast. Trata-se de uma joia do repertório paulistano, sendo uma bela síntese dos processos culturais em ação naquele momento. Composto em três partes, ABACA, a primeira parte, em sol maior, é um maxixe, com uma linha de baixo bem marcada e característica do gênero. Já a segunda parte, em ré maior, apresenta uma melodia que remete à música caipira e idiomatismos típicos da viola, com portamentos e sequências de terças, que externam características rurais que resistiam nos hábitos da cidade em rápido processo de urbanização. Na tonalidade de sol menor, a terceira parte externa a grande influência do tango argentino na música brasileira, em um período em que os gêneros populares urbanos estavam ainda em decantação.  Sabãozinho é um belo exemplar da música urbana paulista daquele período.

    8 min

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Esta série de episódios traz as histórias da músicas gravadas no álbum Violões da Velha São Paulo, trabalho fruto da pesquisa de doutorado que Flavia Prando defendeu na ECA/USP. A instrumentista, em sua pesquisa, trouxe à tona a história da música para violão na São Paulo do século XIX, período anterior à formação do circuito de partituras para o instrumento, o que significa que muitas das obras do disco foram resgatadas de manuscritos ou arranjadas a partir de versões para piano.  Cada música ganha um episódio, são treze capítulos, nesta primeira temporada, que trazem a história do compositor, da obra e do contexto da cidade de São Paulo, no intuito de enriquecer a audição da gravações e divulgar a trajetória dos artistas e da cidade sob um ponto de vista musical.  Aborda-se um pouco da história do violão brasileiro e das valsas, mazurcas, gavotas e choros cultivados no país.  Flavia Prando