José Luiz Alquéres - Artigos

Cedro Rosa Podcast

Artigos do escritor, editor e pensador José Luiz Alquéres publicados pela Cedro Rosa no Portal CRIATIVOS! www.criativos.blog.br

  1. 11/21/2024

    O Social como Elixir

    O lançamento do livro sobre Marcílio Marques Moreira, no dia 21 de novembro na Livraria Travessa Leblon, nos traz a memória um momento extremamente delicado da vida econômica nacional, quando ele foi convocado pelo Presidente da República para colocar em ordem uma economia fragilizada por sucessivos planos de estabilização miraculosos.   A receita de Marcílio, bem-sucedida, foi  “o feijão com arroz” bem feito – ou seja: corrigir distorções, recompor instituições e governar com os bons. Marcílio já possuía um invejável currículo, primeiro como estudante na sua infância na Áustria, como primeiro aluno do Instituto Rio Branco, como notável membro da equipe de San Tiago Dantas, de quem passou a ser o mais fiel discípulo, como diretor do Unibanco, e depois como embaixador brasileiro em Washington. Poucas pessoas no Brasil têm carreiras semelhantes, com passagens tanto na área privada quando pública, tão bem conduzidas. Naquele tumultuado período, que culminou com o impeachment do Presidente Collor, Marcílio elevou o conceito que a economia, ciência humana e comportamental, deve ser entendida na sua clássica concepção de Economia Política, como os velhos tratadistas franceses a denominavam.  A sua atuação criou os fundamentos e trouxe para o governo importantes artífices do plano Real, como Pedro Malan, Arminio Fraga, Roberto Macedo, Gelson Fonseca, Eduardo Guimarães e outros. O livro não se limita, porém, a narrar os fatos desse período. Ele traz de suma importância toda a história da formação humanística de Marcílio; os exemplos éticos vindos de sua educação familiar; a exemplar convivência, companheirismo e amor com Maria Luiza e filhas; e a estimulante fraternidade com renomados colegas como José Guilherme Merquior, Sérgio Paulo Rouanet, Octavio Dias Carneiro, sob a liderança intelectual de Francisco San Tiago Dantas, vulto proeminente da inteligência brasileira. Fora do governo, Marcílio mantem-se até hoje extremamente ativo, tendo colaborado com algumas grandes empresas nacionais e internacionais, presidido a Associação Comercial do Rio de Janeiro e desenvolvido um inovador trabalho de pesquisa da história econômica nacional e em especial do estado do Rio de Janeiro. Os norte-americanos costumam denominar as universidades que estudam de Alma Mater, que no caso de Marcílio além do Instituto Rio Branco, foi Georgetown University, universidade jesuíta mais antiga daquele país. Sua concepção de vida lá se reforçou e ficou registrada no magnifico prefácio que fez a obra: Dom Quixote, um apólogo da alma ocidental, de San Tiago Dantas, onde a universalidade do amor cristão, feito do dom de si mesmo fica registrada como uma marca de Marcílio. Livros anteriores já haviam mergulhado na vida diplomática e de ministro da Economia de Marcílio, dois aspectos, porém, da sua rica vivência são destacados neste livro. Edmar Bacha realça o peso da preocupação social que já havia merecido de Marcílio um tratamento inovador quando presidiu a Codesco, que realizou um sensacional trabalho, ainda hoje referência, na favela de Brás de Pina. Celso Lafer confirma que as 40 horas de depoimento de Marcílio que Luiz Cesar Faro, João Pedro Faro e Mônica Sinelli, transformaram neste belo livro, mostram a vigorosa estrutura intelectual deste pensador, jurista, economista, diplomata, sociólogo, e homem público, cujo legado deve ser conhecido e cultivado pelas presentes e futuras gerações.

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  2. 11/13/2024

    AINDA ESTOU AQUI, artigo de José Luiz Alquéres

    Minhas filhas mais moças e também as netas mais velhas perguntaram a mim e minha mulher nossa opinião sobre o admirável filme novo de Walter Salles sobre Eunice Paiva. Elas sabiam que éramos ambos jovens na época e que, alguns anos depois do momento retratado no filme, tivemos alguma convivência com Eunice Paiva. Estas pessoas de minha família, todas nascidas a partir de 1980, haviam se emocionado muito durante o filme, e nos perguntaram: “Era assim mesmo ??”   Eu respondi lembrando que na reunião ministerial em que foi promulgado o Ato Institucional número 5, ato que suspendeu as garantias do Estado de direito, a única voz discordante foi do vice-presidente Pedro Aleixo. Os militares presentes o questionaram se eles não seriam de confiança, afinal eram todos seus colegas de ministério. Diante da pergunta, o vice Pedro Aleixo, um civil, respondeu apenas que: “... não é de vocês que eu temo as ações, mas sim do guarda de esquina”. Estava certo.   Ele quis dizer que o Ato Institucional número 5, criaria, como realmente criou, uma cadeia de arbitrariedades e de arrogância por parte das autoridades que, saindo do mais alto escalão de Brasília, atingiria e empoderaria o mais ínfimo representante da ordem pública, conferindo-lhe poderes discricionários.   Ao fato acima, eu acrescento ainda a patética visão do Ministro do Exército, em uma exaltação infame do corporativismo, carregar o caixão no enterro de um dos militares recrutados para forjar um atentado em um festival de música. O plano deu errado e as forças militares acabaram ainda mais mal vistas na ocasião, precipitando a pressão por mais abertura no regime.   Quando a exacerbação de fatores polarizadores se combina com o espírito de corpo e litigância em um ambiente onde carece o Estado de direito, o que se pode esperar é o que vivemos naqueles anos de chumbo: um ambiente permanente de medo, de revolta interna e desestímulo à formação de novas lideranças, mas, também, de atos de heroísmo, às vezes não compensadores, para alterar a marcha dos acontecimentos.   O ato de Rubens Paiva, ao se expor como um elo entre grupos clandestinos e seus parentes ou amores na legalidade foi nobre e generoso. O impacto do filme que o relembra combinado com o sofrimento e sublimação familiar pode estar produzindo um efeito de alerta da maior importância em nossos dias. A barbárie cometida pelo Estado é algo repugnante.   Fernanda Torres está perfeita como a Eunice que conheci, mas a expressão do olhar de Fernanda Montenegro em sua curta aparição vale o filme. Eunice não pegou em armas e nem imolou a sua vida em causa perdida.   Ela fez de sua vida um exemplo de dignidade, de como se conduzir como mãe, cidadã participante e defensora dos direitos dos indígenas.   Rubens Paiva eu conheci como engenheiro e sócio de Mauro Sá Motta, primo de um grande amigo meu. Duas décadas depois, ao criar o CCMA, Comitê Consultivo de Meio Ambiente da Eletrobras, para orientar ações mitigadoras de impactos de grandes barragens sobre populações ribeirinhas, tive a honra de poder contar com a Eunice entre seus membros. Poucos anos depois, em 1996, com a sanção da Lei dos Desaparecidos pelo presidente FHC, ela recebeu finalmente a certidão de óbito de Rubens Paiva e o reconhecimento da culpa do Estado em sua morte. Como o filme relata, foi uma vitória da persistência contra tudo, contra todos e contra até o abstrato, como o esquecimento daquilo que nos incomoda.   Eunice em grego é uma palavra que deriva etimologicamente de “Nike”, que significa Vitória. A vitória desta mulher é a vitória da decência, da dignidade de uma mãe, do amor e companheirismo de uma mulher por seu marido, mas também da importância da memória nacional se fazer presente em momentos delicados de nossa História e mesmo da História Mundial, como aqueles em que estamos vivendo.

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  3. 11/05/2024

    SENSAÇÕES

    Este é um texto que trata de lembranças. Lembranças que, em seu devido tempo, provocaram sensações marcantes e indeléveis.   Uma marcante sensação de perigo em minha infância originou-se de uma brincadeira comum entre os alunos de natação da professora Maria Lenk, na piscina do Hotel Copacabana Palace. Maria Lenk foi uma grande atleta olímpica brasileira. Era referência na natação e cujo nome é, ainda hoje, lembrado em diversos parques olímpicos. Eu tinha uns 4 ou 5 anos na ocasião e uma vez sofri um “caldo” de um menino mais velho. Aquela sensação de afogamento, beber água e não conseguir respirar ficou para sempre presente em minha mente, embora depois eu tenha até sido um razoável nadador. Sensação de morte.   Outra sensação dos tempos antigos era passar sob a marquise do Cinema Metro Copacabana em dias de calor. Por algum artifício de marketing, o Cinema resolveu, além de refrescar seus salões, fazer o mesmo com a calçada em frente à porta principal – e era um bálsamo nos dias de verão passar por ali. Não há pessoa de minha geração que não se lembre disso. Sensação de alívio.   A campainha que tocava às 16:50 marcando o fim da quinta aula do período da tarde do Colégio Santo Inácio era um enorme sinal de alegria em uma rotina que havia começado bem cedo pela manhã. Rotina pesada na qual se sucediam inúmeras atividades, sempre corridas, e algumas até muito tensas em dias de prova ou outros eventos especiais. A partir da campainha, a expectativa de retorno para casa e de descanso ou distrações aleatórias representavam uma verdadeira sensação de reconquista de liberdade.   Anos depois, fui viajante frequente na velha ponte-aérea Rio – São Paulo, com seus aviões Viscount ou Electra. Desembarcar no Santos Dumont e entrar naquele impressionante salão, onde um enorme painel retratava a história da aviação, tinha também este duplo efeito calmante: o de estar em terra firme e, ao mesmo tempo, reencontrar aquela destacada obra de arte popular, educativa e marcante da conquista científica e tecnológica do homem. Sensação de segurança.   A primeira vez que viajei ao exterior foi quando ganhei uma bolsa de estudos para um estágio de 3 meses nos Estados Unidos. Pousei em Nova Iorque e fui direto para um hotel – Sheraton, na sexta ou sétima avenida. Depois de tomar um banho, desci para a cafeteria. Isso foi em 1967. A atendente me passou um daqueles menus plastificados com imagens de monumentais ícones de junk foods americanos: sundaes, pilhas de panquecas, mega sanduíches, ice cream sodas, travessas de danish pastries e de french toasts.   Olhei para aquilo maravilhado e senti-me intimidado. Só consegui pedir um “coffee and milk”. A atendente me olhou com cara inquisidora e retrucou: “coffee and cream”? Eu, ignorante, respondi: “No, coffee and milk, please”. Naturalmente, ela me trouxe uma xícara daquele café americano e meio litro de leite gelado. Sorri amarelo e agradeci “Thank you!”. Ao que ela respondeu “You´re welcome”.    Fiquei desvanecido por ser considerado bem-vindo. E assim repetimos o “Thank you” e o “You´re welcome” umas 3 vezes. Até que um amigo me cutucou e falou que ela estava apenas respondendo o meu agradecimento – e não me dando boas vindas. Sensação da dificuldade de de ser compreendido no estrangeiro. Devo ter voltado aos EUA umas 40 vezes em minha vida – e nunca deixei de me lembrar como aprendi a responder a um “Thank you”, coisa que nenhum cursinho ou aula haviam me ensinado.   As mais importantes sensações da vida, porém, são aquelas ligadas às relações humanas: encontro com o amor, a paternidade ou a maternidade, aquele abraço apertado em um bom amigo ou amiga, a perda de pessoas queridas, ou a enorme satisfação de um dever cumprido. Uma ação caritativa bem sucedida ou a possibilidade de expressar um fervoroso agradecimento a quem tenha merecido.

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  4. 10/29/2024

    PERDEDORES OU VENCEDORES?

    A análise dos resultados das recentes eleições municipais dividiu os analistas políticos que vicejam nos meios de comunicação.   Segundo alguns, o grande perdedor é Lula, cujo partido apenas venceu em uma capital do nordeste. Outros, porém, apontam que o número de prefeituras onde o PT venceu, ainda que muito menor que outros partidos, foi bastante superior ao ocorrido em 2020, caracterizando assim um progresso do partido. Outro caso que divide os referidos analistas é o de Bolsonaro, que, para alguns, caso consiga revogar a inelegibilidade que lhe foi presenteada pelo STE seria o maior beneficiário da guinada para a direita, com a vitória em grande quantidade de municípios brasileiros com suas esdrúxulas composições partidárias. Segundo outros, porém, Bolsonaro, dentro dessas referidas composições, apoiou candidatos de partidos que na maioria das grandes cidades onde se encontra o eleitorado ficaram alijados do poder. Ele teria apenas um pequeno número de vitórias. Duas ou três prefeituras de maior expressão onde o núcleo da chamada ultradireita elegeu seus candidatos. Kassab, presidente do PSD, aparece como um gênio estrategista, uma vez que o partido que preside foi aquele que elegeu o maior número de prefeitos - embora em muitos casos estas vitórias se devam também a importantes contribuições de partidos coligados. Assim como o PSD de Kassab, o MDB de Baleia Rossi venceu em um número quase igual de municípios, embora o PSD tenha amealhado um maior número de cidades importantes.   No frigir dos ovos, parecem surgir como possíveis candidatos para as eleições presidenciais, se considerados apenas os resultados dessas eleições, pelo lado da centro direita, nomes como Kassab, Tarcísio, Eduardo Paes e Caiado. Pelo lado da centro-esquerda, João Campos, de Recife, que alia uma boa administração ao carisma herdado de seu pai e bisavô, de um forte clã político em Pernambuco.   Em território ideologicamente diluído, como possivelmente se dará a próxima eleição presidencial, não há como se ignorar o potencial de Lula da Silva, que estará dois anos mais velho e muito mais comprometido com práticas políticas do passado, como as emendas parlamentares secretas, o toma-lá-dá-cá, a indicação de incompetentes para cargos políticos e outros fatores que lamentavelmente podem explicar uma grande parte dos resultados da atual eleição municipal.   Embora deva se ressaltar que a recondução de muitos prefeitos possa significar não o uso abusivo da máquina do governo, mas o mérito mesmo de uma gestão competente, paira sobre o eleitorado nacional uma grande dúvida: estarão os brasileiros aprendendo a votar ou ainda se aplica a famosa frase de Pelé "o brasileiro, se quisesse reivindicar os seus direitos, tinha que tentar votar direito, não em cacareco". [*]?   Vale destacar que os analistas políticos e os institutos de pesquisa parecem que aprenderam a trabalhar os dados sobre as intenções de voto mergulhando no comportamento diferenciado de um maior número de segmentos: jovens, mulheres, evangélicos, católicos, eleitores influenciáveis por líderes nacionais, eleitores que votam em protesto, e as razões de abstenção ou anulação do voto.   Em suma, as eleições mostraram em sua tranquilidade, na rapidez do processamento dos resultados e na aceitação da voz das urnas que o eleitor foi o grande vencedor, pois o processo democrático se fez presente e as inúmeras distorções, agressões verbais, fake news, constrangimento de boca de urna e outras práticas não se mostraram eficazes. Resta agora manter o clima de participação cidadã no processo político durante o intervalo entre as eleições! [*] - https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/12/29/frase-pele-brasileiro-nao-sabe-votar.htm?cmpid=copiaecola

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  5. 10/21/2024

    Mudanças Climáticas e Eleicões

    O ano de 2024 ficará marcado pela relevância das questões ambientais no debate político-eleitoral, especialmente as relacionadas às mudanças climáticas. No passado, as agressões ao meio ambiente eram majoritariamente vistas como poluição de rios, mares, perda de biodiversidade e despejos industriais tóxicos localizados, cujas consequências para os seres humanos não eram imediatamente perceptíveis. Dessa forma, a preocupação com suas causas e efeitos permanecia restrita a círculos técnicos ou órgãos de fiscalização. Hoje, esse cenário mudou. Todos esses eventos estão interconectados por uma causa comum: o modelo predatório de exploração dos recursos naturais que caracteriza nossa civilização. Não é surpreendente que, nas eleições americanas, Trump e Kamala troquem acusações sobre a responsabilidade pelas medidas de mitigação dos efeitos do furacão Milton. No Brasil, as inundações em Porto Alegre tornaram-se o tema central da campanha para prefeito, enquanto em São Paulo, a disputa pelo segundo turno entre Guilherme Boulos e Ricardo Nunes concentrou-se na resposta da prefeitura ao apagão de energia que se seguiu a uma tempestade extrema. Como é comum entre os brasileiros, mesmo em meio a temas sérios, as piadas surgem. Em alusão ao passado de Boulos como líder do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), já se diz que "com Nunes, sua casa pode ficar sem luz, mas com Boulos, você pode ficar sem casa". Brincadeiras à parte, o impacto final desses acontecimentos no resultado eleitoral ainda não pode ser medido, mas é um avanço ver o tema ambiental sendo incluído de forma proeminente no debate político. Neste, como vemos, a discussão ainda se concentra nos efeitos, mas logo deverá se estender para as causas. Infelizmente, o foco das propostas políticas tem sido os efeitos dessas disfunções, cuja origem está muito além da responsabilidade dos governos locais. Contudo, é essencial que a discussão avance para questionar as causas desses fenômenos naturais, que são resultado das ações humanas, das empresas e das atividades produtivas. Desde 1972, a Organização das Nações Unidas (ONU) alerta o mundo sobre os riscos crescentes que nosso modelo de vida representa para a sustentabilidade do planeta. Em 1988, a ONU apoiou a criação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), um organismo que reúne cientistas de mais de 99 países para monitorar a progressão das mudanças climáticas. Desde 2015, ano do Acordo de Paris, o IPCC vem promovendo esforços para zerar as emissões de carbono causadas pelo uso inadequado da terra, a devastação das florestas e o uso de combustíveis fósseis. Embora os alertas do IPCC não tenham sido suficientes para alterar o comportamento humano de forma ampla, é alentador ver que os eventos climáticos recentes, que se multiplicam pelo mundo, começam a influenciar o comportamento dos eleitores. As grandes transformações na economia e na sociedade só serão alcançadas com forte apoio popular, que tende a crescer à medida que os desastres climáticos causem mais sofrimento e perdas. Os alertas da ciência não bastaram, mas talvez a dor e as perdas finalmente despertem a humanidade para a necessidade de um novo modo de vida.

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  6. 10/17/2024

    REFLEXÕES APÓS A TRAGÉDIA PAULISTANA

    Estamos assistindo após grandes tragédias ambientais a tendência de criminalizar supostos culpados e esquecer de implantar soluções que previnam a ocorrência de novas desgraças.   O primeiro exemplo são as enchentes no estado do Rio Grande do Sul. Vimos 95% dos seus municípios afetados por inundações decorrentes da incidência de chuvas torrenciais nunca registradas anteriormente. Os efeitos negativos desse fenômeno natural logo foram atribuídos ao desleixo da prefeitura de Porto Alegre, dada a dimensão dos estragos locais.   Passadas algumas semanas, quando o Sul se recuperava dos piores efeitos das chuvas, o brasileiro tomou conhecimento incidência inédita de queimadas ao final do período sazonal de secas, especialmente no Planalto Central do Brasil. Da mesma forma, a tendência inicial foi a busca imediata de culpados e a criminalização de alguns. Prendeu-se talvez uma centena de acusados, embora os focos de incêndio fossem muitos milhares e distribuídos por um território de área superior à da Europa inteira.   Na última semana viu-se a passagem do furacão Milton pela Flórida. Durante 24 horas inundou não apenas algumas cidades daquele estado norte-americano, mas, com intensidade extrema, os meios de comunicação do Brasil. Talvez por ter um nome próprio, o Milton, a culpa recaiu mais sobre ele - e menos sobre Biden, Trump ou o governador da Flórida.   Mais recentemente, há poucos dias, tivemos chuva intensa e fortes ventos em São Paulo. Não há registro histórico de algo semelhante no passado. Fica claro que chegamos ao ponto em que devemos nos preparar para eventos extremos onde quer que a ciência aponte que eles possam acontecer. As evidências disso vem se repetindo com intensidade e frequência maiores. Ao invés disso, porém, vemos o “jogo de empurra” para apontar culpados atuais para situação que resulta de múltiplos fatores que vêm ocorrendo há décadas.   Com relação ao caso de São Paulo, vale lembrar que até os anos 1960 esta cidade possuía a mesma população que o Rio de Janeiro. Hoje possui o dobro. Bairros inteiros projetados para terrenos com ocupações unifamiliares foram sucessivamente tendo as casas originais demolidas para construção de pequenos edifícios de dois andares. Depois, estes foram demolidos para construção de blocos de apartamentos de quatro andares, que acabaram sendo substituídos anos depois por espigões. A rua, no entanto, continuou sendo a mesma. A vegetação plantada quatro ou cinco décadas antes cresceu e deu origem a frondosas espécimes totalmente inapropriados para arborização urbana e as redes de infraestrutura de esgotos, águas pluviais, comunicação por fio e eletricidade tornam-se obsoletas a cada mudança de densidade de ocupação dos bairros. Tudo isso, em período de eventos extremos, se agrava pela incapacidade de circulação pela rede viária, tomada por milhões de automóveis.   Não adianta culpar a ANEEL, a Prefeitura, a Câmara de Vereadores, as concessionárias dos diferentes serviços públicos. Não adianta culpar o político A ou B por mazelas decorrentes da falta de planejamento urbano e territorial, da má alocação de recursos públicos e privados ao longo de décadas, da ignorância e falta de preparo generalizados dentre as autoridades públicas municipais, estaduais e mesmo dentre os gestores dessas concessionárias. Todos têm a sua parcela de culpa, assim como a população que elege os políticos e se acomoda aos maus gestores públicos e privados.   O mais importante nesse momento é acabar com o amadorismo na gestão, priorizar a contratação de gente competente no lado público e privado e refazer completamente as estratégias de gestão. Estas devem se focar em um mundo substancialmente diferente daquele do passado. As comunicações, os deslocamentos físicos, a essencialidade da energia, as novas formas de trabalho e lazer e a proteção contra eventos climáticos extremos vão exigir um redesenho profundo da cidade moderna.   A solução demandará mais ciência e melhor engenharia, evidentemente sem que se descuide das conquistas do Estado de Direito e da responsabilização de indivíduos e entidades quando desleixos e omissões fiquem caracterizados. Tão importante quanto isto será a participação mais efetiva da sociedade civil, seja através do voto consciente e do voluntariado cívico, para que se apliquem as soluções adequadas aos problemas urbanos e territoriais.

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  7. 10/08/2024

    UMA LEITURA ALTERNATIVA DO RESULTADO DAS ELEIÇÕES

    Domingo, dia 6 de outubro de 2024, o Brasil foi dormir com uma sensação diferente. As eleições para prefeito e vereadores nos quase 6 mil municípios nacionais haviam se realizado com tranquilidade e foram processadas e publicadas, tendo seus resultados sido aceitos pelos candidatos concorrentes.   Pode parecer pouca coisa, mas não é, haja visto exemplos recentes dos Estados Unidos da América e também na Venezuela de Maduro, este tiranossauro que resiste à extinção da sua espécie. Os resultados surpreenderam também pela mudança do perfil dos eleitos, se comparado com o das eleições precedentes. Se em 2022 a eleição apontava para uma grande esperança em que um modelo diferente de gestão da coisa pública poderia resolver ou mitigar algum dos principais problemas brasileiros, na eleição de 2024 o que se viu foi um deslocamento da esperança quanto a mudança da ação de governo para ação das pessoas.   Eu explico: uma recente pesquisa realizada em São Paulo ouviu algumas centenas de pessoas, homens e mulheres, que haviam progredido economicamente e socialmente na última década. A pergunta básica era à que atribuíam o seu sucesso. As respostas se concentraram, em primeiro lugar, no esforço próprio em superar dificuldades de diferentes tipos. Em segundo lugar, foi apontado o apoio da família. Em terceiro lugar, o apoio de amigos e associações de proximidade, como de vizinhos, colegas profissionais e outros grupos de adesão voluntária. O recebimento de apoio do Estado, em suas diferentes formas, ficou relegado a um sexto ou sétimo lugar.   Vamos imaginar, à luz dos resultados da pesquisa acima, que tipo de candidato ou de programa de partido político estas pessoas votariam: a conclusão que parece bastante clara é que candidatos com promessas mirabolantes de criação de programas assistenciais que contemplem todas as necessidades de alimentação, transportes e saúde de seus eleitores não estão encontrando mais a recepção que tinham no passado. Pode ser que esta eleição de 2024 comece a marcar o fim de uma confiança ilimitada que o estado e seus melífluos políticos, doutores em “conversinha mole”, resolverão a vida de 200 milhões de habitantes.   Parece, felizmente, que a população começou a se convencer que a superação de suas dificuldades repousa em seu trabalho e em sua maior participação na vida política, escolhendo propostas mais realistas e menos milagrosas. Um ponto de destaque foi a reeleição ou ida com vantagem para o segundo turno de administradores que se mostraram razoavelmente capazes de gerir as enormes máquinas municipais, em vez do povo eleger críticos de problemas ou arrivistas milagreiros com bons diagnósticos, mas sem experiência alguma na gestão de entidades complexas.   O futuro da democracia brasileira exige não apenas a melhoria do padrão dos candidatos como também o melhor exercício da capacidade de votar. Quem vota precisa perguntar mais, se informar melhor, debater as opções e abandonar vínculos de simpatia, sedução de promessas irrealizáveis e escapismo no duro enfrentamento das dificuldades inevitáveis que a construção de um futuro melhor impõe. Que cada um entenda que o seu futuro é uma construção individual e não uma dádiva do estado ou do céu.

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  8. 09/28/2024

    A SALVAÇÃO ESTÁ NOS OCEANOS

    A vida na Terra segundo a ciência teve origem nos oceanos. Neles reside nossa esperança de regeneração de condições sustentáveis para que ela possa continuar a florescer.   “No princípio criou Deus o céu e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.”   As frases que abrem o livro do Genesis se casam, metaforicamente, com a visão da ciência, ao dizer que a Terra era vazia. Na realidade, uma intensa vida bacteriana havia se desenvolvido em ambiente anaeróbico, sem a presença de oxigênio nas profundezas dos oceanos. As águas apresentavam em sua profundeza uma intensa vida bacteriana que ao longo de 3,5 bilhões de anos evoluiu para organismos complexos que vieram emergir dos mares e povoar a crosta terrestre. Estes organismos se diferenciaram entre aqueles que criaram raízes e evoluíram para o mundo vegetal e os que se tornaram móveis e evoluíram para uma enorme diversidade de espécies animais. Ambos os tipos dependeram da energia solar para sobrevivência.   A energia solar, através do processo da fotossíntese, que captura o carbono do ar e o transforma em caules e folhas das árvores é fonte de energia para o crescimento da vida marinha das algas, corais, plâncton e outros minúsculos seres dos oceanos. A fotossíntese aumentou a proporção do oxigênio na atmosfera terrestre tornando-a respirável e propícia à vida. De tempos em tempos, processos sísmicos produziam a extinção em massa de espécies vegetais e animais, que assim foram constituindo as camadas de carvão mineral, petróleo e gás natural, que compõem o subsolo da crosta terrestre e do fundo dos oceanos. São destas jazidas de carbono que hoje extraímos intensamente os combustíveis que movem a economia mundial, poluem os ares, provocam a extinção de espécies e as mudanças climáticas que afligem todo o planeta. Em outras palavras, devolvemos para a atmosfera aquilo que processos geológicos levaram milhões de anos para dela retirar.   É fato consensual, destacado na última assembleia da ONU realizada na semana passada, que a continuidade desse modo de viver destruirá a vida na Terra em poucas décadas. Até mesmo o nosso presidente Lula, em seu discurso inaugural, defendeu a prioridade a ser dada a esta questão, embora o nosso país venha demonstrando descaso, especialmente no tocante ao uso da terra e à abertura de exploração de novas áreas petrolíferas em flagrante contradição ao discurso.   Há, ainda, na visão mundial, um aparente desvio de foco ao se menosprezar o papel dos oceanos na restauração de condições de vida e de clima mais sustentáveis para o planeta. Como bem diz José Eli da Veiga, o futuro da sustentabilidade é predominantemente azul turquesa e não apenas verde, como hoje é constantemente apontado. É necessário recuperar a capacidade de absorção do carbono pelos oceanos, de modo que eles, que cobrem ¾ da superfície da Terra, voltem a ser o grande agente de captação de carbono da atmosfera e, assim, propiciar o florescimento da vida.   Nós estamos matando a vida nos oceanos, que viraram a cloaca universal. São resíduos de petróleo, despejos de produtos químicos, bilhões de toneladas de plásticos, que se degradam em micro plásticos, hoje praticamente presentes nos tecidos de todos os animais do planeta. Alguns estudos apontam que a presença de micro plásticos nas placentas das mulheres é um dos fatores responsáveis pela redução de 50% da concentração de espermatozoides da atual geração de homens quando comparada a de seus avós. Além disso, é quase impossível saborear qualquer peixe sem estar se ingerindo uma certa quantidade de mercúrio e de outros metais tóxicos.   Promover a sustentabilidade é não apenas uma prioridade a ser dada na orientação da pesquisa científica, mas também na evolução da mentalidade dos políticos e das populações, conforme a cada dia as evidências da degradação do nosso planeta se tornam mais perceptíveis para todos.

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