Existe uma cena na entrevista de Jeffrey Epstein a Steve Bannon que deveria ser exibida em todas as escolas do mundo ocidental. Não a cena em que o predador explica o sistema bancário fracionário com a fluência de quem conhece a engenharia do dinheiro por dentro. Não a cena em que descreve, sem um tremor de autoconsciência, a experiência de negociar a compra do Bear Stearns pelo JPMorgan a cobrar, de uma cela de dois metros e meio por três, vestindo um macacão marrom com a palavra trustee grafada errada nas costas. A cena decisiva é outra. Quando Bannon menciona Jesus de Nazaré, que também nunca escreveu nada, que também falava e outros registravam, Epstein responde: “Achei que ele fosse carpinteiro.” E sorri. Não é um sorriso de humor. É o sorriso de quem olha para baixo. O sorriso do homem que jantou com reis, geneticistas e presidentes, que administrava fortunas sem contrato verificável, que operou a maior rede de abuso sexual documentada da história moderna e que, diante da menção ao filho de um carpinteiro que dividiu a história em antes e depois, oferece um deboche. Um deboche reflexo, automático, desprovido de elaboração. Ali está o diagnóstico inteiro. Ali está a revelação de que tipo de alma habita o centro dessas estruturas de poder. E ali, precisamente ali, começa a revolta dos cordeiros. I. A democracia da informação, ou: quando o rebanho aprende a ler Quando o governo americano liberou os documentos do caso Epstein, não o fez por virtude. Fez porque foi obrigado. E fez do modo mais desonesto que a burocracia permite: milhões de páginas em PDFs não indexados, sem mecanismo de busca funcional, sem contexto, sem cruzamento. Era o equivalente a jogar uma biblioteca inteira de Alexandria no chão de um ginásio e dizer ao público: “Está tudo aí. Boa sorte.” O tom era de generosidade. A intenção era de sepultamento. O site justice.gov/epstein permite pesquisar documentos com a eficiência e a velocidade de quem não quer que você encontre nada. Os arquivos são enormes, a navegação é tortuosa, a relação entre documentos é opaca. Para um jornalista tradicional, munido de um notebook e boa vontade, seria necessária uma vida inteira para cruzar todas as informações relevantes. Era esse o plano. A inteligência artificial mudou a equação. Com ferramentas de análise de dados, indexação via Elasticsearch e um grafo de conexões em Neo4j, os milhões de documentos foram transformados em algo inteligível. O resultado: 1,3 milhão de entidades nomeadas. Pessoas, organizações, locais, valores monetários. 5,5 milhões de relacionamentos mapeados entre essas entidades. 190 mil endereços de email extraídos, muitos dos quais não foram censurados pelas autoridades. Porque quando se joga uma biblioteca no chão de um ginásio, confiando que ninguém vai ler, esquece-se de que alguém pode ensinar uma máquina a ler por você. Claude, modelo de inteligência artificial da Anthropic, operou como um assistente de investigação incansável: buscando padrões, cruzando nomes, lendo documentos inteiros, identificando conexões que nenhum ser humano teria tempo ou estômago de estabelecer sozinho. O modelo de capacidade máxima conduziu subinvestigações autônomas sobre a linguagem codificada de Epstein, as conexões brasileiras, o programa de eugenia e a rede científica que orbitava o predador. Pela primeira vez na história, um cidadão comum, munido das ferramentas certas, de uma conexão com a internet e de vontade, pôde fazer o que governos, promotores e órgãos de inteligência se recusaram a fazer durante duas décadas. A democratização da informação deixou de ser promessa e virou fato consumado. Os poderosos que se beneficiaram do sigilo deveriam estar prestando atenção. Mas como são poderosos e não inteligentes (a distinção é crucial), provavelmente não estão. Há um detalhe que merece registro cuidadoso. Após a publicação do primeiro artigo e a disponibilização do repositório público no GitHub, aproximadamente 1392 arquivos foram removidos do servidor oficial de documentos. Alguns diriam que é coincidência. Outros diriam que, quando cidadãos começam a ler o que o governo publicou, o governo descobre que publicou demais. O repositório permanece aberto aqui. Os dossiês completos estão disponíveis para qualquer pessoa que queira verificar, expandir ou contestar as conclusões apresentadas aqui. A verdade, ao contrário do que pensam seus inimigos, não precisa de proteção. Precisa apenas de hospedagem. II. A ciência que ninguém ensina: quando os psicopatas governam Existe um livro que deveria ser leitura obrigatória em todas as faculdades de ciência política, direito e administração pública do planeta. Não é. Pelas mesmas razões que o fazem necessário. O livro é Ponerologia: Psicopatas no Poder, do psicólogo polonês Andrew Lobaczewski. O termo vem do grego poneros, que significa mal, perverso. Lobaczewski escreveu-o durante o regime comunista na Polônia e publicou-o sob circunstâncias quase tão sombrias quanto seu conteúdo. É o tipo de obra cuja existência o sistema considera inconveniente, o que é sempre um bom sinal de que merece ser lida. A tese central é elegante na sua simplicidade e aterradora nas suas implicações. Em qualquer sistema de poder suficientemente grande e suficientemente antigo, os psicopatas tendem a migrar para o topo. Não porque sejam mais inteligentes. Porque são desprovidos dos freios morais que impedem a maioria das pessoas de mentir, manipular, trair e destruir para obter vantagem. Em democracias saudáveis, os filtros institucionais, a imprensa livre, o judiciário independente, a sociedade civil vigilante mantêm os psicopatas em xeque. Quando esses filtros falham, o resultado é o que Lobaczewski chama de patocracia: o governo dos patológicos. O caso Epstein não é uma aberração. É um sintoma. Considere a sequência. Um homem sem diploma ensina numa escola de elite. Entra num dos maiores bancos do mundo sem credenciais. Administra a fortuna de um bilionário sem contrato formal verificável. Opera uma rede de tráfico sexual por duas décadas. Recebe, ao ser finalmente preso, uma sentença de treze meses com privilégios de saída diária. Quando a operação é finalmente desmantelada, os cúmplices recebem imunidade, as vítimas não são informadas e o acusado principal morre na prisão antes de poder falar. Em nenhum ponto dessa cadeia um único adulto em posição de autoridade fez a coisa certa na hora certa. Isso não é incompetência. É sistema. A corrupção que permeia essas redes de poder não é primariamente financeira. É moral. A corrupção financeira é consequência; a corrupção moral é causa. E funciona por sinalização. Quando o presidente dos Estados Unidos tem um caso extraconjugal com uma estagiária na Casa Branca e a nação responde com um encolher de ombros coletivo, a mensagem que chega à classe dirigente é inequívoca: está tudo bem. O desvio é normal. A transgressão não tem custo. A libertinagem sexual, longe de ser fraqueza privada, torna-se moeda de troca e mecanismo de controle. Quem participa entra no círculo. Quem se recusa fica de fora. Epstein entendeu isso melhor do que ninguém. Sua genialidade, se é que podemos profanar a palavra, não estava nas finanças. Estava na compreensão de que, num mundo onde os poderosos têm apetites que não podem satisfazer publicamente, o homem que fornece a satisfação em ambiente controlado se torna indispensável. E o homem que filma tudo se torna intocável. III. “Achei que ele fosse carpinteiro.” A alma do sistema, desnuda Voltemos à entrevista. Epstein descreve, com a familiaridade de quem frequenta o clube, seu ingresso no conselho da Rockefeller University. Conta que David Rockefeller o apresentou à Comissão Trilateral. Que na ficha de inscrição, ao lado de presidentes e laureados do Nobel, escreveu: “Jeffrey Epstein. Just a good kid.” Achava engraçado. Ninguém mais achou. Ele fala sobre o sistema bancário de reservas fracionárias com a clareza de quem explica a um aluno lento como o mundo funciona. Descreve a crise de 2008 como quem descreve um experimento de laboratório que deu errado, com a mesma frieza clínica, a mesma distância emocional. Bannon pergunta repetidamente, quase implorando por um lampejo de humanidade: “Você nunca teve um momento de autoconsciência? Nunca se perguntou como chegou àquela cela?” Epstein responde que não. Que a cela e a mansão são “dois lados da mesma moeda”. Que ele se considera um eremita, não um estoico. Que os estoicos não são muito felizes. É o retrato perfeito do que Lobaczewski descreveu. A ausência total de remorso disfarçada de sofisticação filosófica. A falta de empatia embalada em linguagem de salão. E então vem o momento. Bannon compara Epstein ao Satanás de Milton, o arcanjo que preferiu reinar no Inferno a servir no Céu. Epstein diz que o diabo lhe dá medo. E Bannon, num raro momento de sinceridade brutal, diz: “Você tem todos os atributos. É incrivelmente inteligente. O diabo é brilhante.” Minutos depois, quando Bannon menciona que Sócrates, Platão e Jesus nunca escreveram nada, que apenas falavam e outros registravam, Epstein interrompe: “Achei que ele fosse carpinteiro.” É preciso pausar aqui e pesar cada grama desse momento. O homem que armazenou esperma num banco de criopreservação na Califórnia. O homem que encomendou trinta kits de DNA da 23andMe num único pedido. O homem que planejava inseminar vinte mulheres simultaneamente num rancho no deserto do Novo México. O homem cujos documentos registram a expressão “premies we are breeding”, pronunciada por um neurocientista que ele financiava. O homem em cuja residência foi encontrado um quadro de Bill Clinton vestido de mulher. Esse homem, diante da menção ao Cristo, o ú