É tempo de morangos

Bruna Martiolli

Nosso áudio longo sobre a vida e coisas que as vezes eu não tenho com quem falar @brunamartiolli por aqui ✨

  1. Carta a minha filha

    12/17/2025

    Carta a minha filha

    Carta a minha filha - Ana Luísa Amaral Carta à Minha Filha Lembras-te de dizer que a vida era uma fila? Eras pequena e o cabelo mais claro, mas os olhos iguais. Na metáfora dada pela infância, perguntavas do espanto da morte e do nascer, e de quem se seguia e porque se seguia, ou da total ausência de razão nessa cadeia em sonho de novelo. Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se de junho, o teu cabelo claro mais escuro, queria contar-te que a vida é também isso: uma fila no espaço, uma fila no tempo e que o teu tempo ao meu se seguirá. Num estilo que gostava, esse de um homem que um dia lembrou Goya numa carta a seus filhos, queria dizer-te que a vida é também isto: uma espingarda às vezes carregada (como dizia uma mulher sozinha, mas grande de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te testamentos, falar-te de tigelas - é sempre olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua de mentiras, em carinho de verso. E o que queria dizer-te é dos nexos da vida, de quem a habita para além do ar. E que o respeito inteiro e infinito não precisa de vir depois do amor. Nem antes. Que as filas só são úteis como formas de olhar, maneiras de ordenar o nosso espanto, mas que é possível pontos paralelos, espelhos e não janelas. E que tudo está bem e é bom: fila ou novelo, duas cabeças tais num corpo só, ou um dragão sem fogo, ou unicórnio ameaçando chamas muito vivas. Como o cabelo claro que tinhas nessa altura se transformou castanho, ainda claro, e a metáfora feita pela infância se revelou tão boa no poema. Se revela tão útil para falar da vida, essa que, sem tigelas, intactas ou partidas, continua a ser boa, mesmo que em dissonância de novelo. Não sei que te dirão num futuro mais perto, se quem assim habita os espaços das vidas tem olhos de gigante ou chifres monstruosos. Porque te amo, queria-te um antídoto igual a elixir, que te fizesse grande de repente, voando, como fada, sobre a fila. Mas por te amar, não posso fazer isso, e nesta noite quente a rasgar junho, quero dizer-te da fila e do novelo e das formas de amar todas diversas, mas feitas de pequenos sons de espanto, se o justo e o humano aí se abraçam. A vida, minha filha, pode ser de metáfora outra: uma língua de fogo; uma camisa branca da cor do pesadelo. Mas também esse bolbo que me deste, e que agora floriu, passado um ano. Porque houve terra, alguma água leve, e uma varanda a libertar-lhe os passos. Ana Luísa Amaral, in 'Imagias (Um pouco só de Goya: Carta a minha Filha)'

    16 min

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