Clube Orekare Podcast

Orekare

Clube de Desenvolvimento Emocional para Pais e Filhos. clubeorekare.substack.com

  1. 16h ago

    NEWS#16 - MINHA FILHA NUNCA FARIA ISSO!

    Comecei a escrever essa news há alguns dias após ler um alerta que voltou a ser destaque na comunicação de especialistas comportamentais: o aumento da tendência das taxas de suicídios para meninas e adolescentes (10 a 19 anos). Quando um assunto como esse surge em alguma roda de conversa, ele tende a ser abordado de forma temerosa, com naturais lamentos e, por vezes, até sendo rejeitado, com algumas pessoas não querendo ouvir a respeito. Em situações como essa, já ouvi algumas mães repetindo frases como: * Que horror! * Deus me livre!! * Vamos mudar de assunto que não quero nem imaginar isso! Lamento informar: o medo, a rejeição do tema não vai nos livrar dele. Este é um assunto que requer nossa atenção. Por isso, é importantíssimo produzirmos conteúdos preventivos que nos façam pensar sobre o tema com a correta atenção. É o que apresentamos a seguir: informações que nos ajudarão a compreender esse cenário e a agir de forma preventiva, não apenas por nossas meninas e meninos, mas por toda a família. UM CUIDADO IMPORTANTE ANTES DE SEGUIR Falamos aqui de prevenção, mas sabemos que para algumas famílias esse tema não é estatística: é dor presente. Se você, sua filha, filho ou alguém que você ama está passando por sofrimento emocional intenso ou pensamentos de tirar a própria vida, não espere. Buscar ajuda não é fraqueza. A seguir, reforço: vamos entender melhor o cenário atual e como podemos agir de forma preventiva. DADOS INTERNACIONAIS Desde 2023, Zach Rausch (pesquisador do bestseller A Geração Ansiosa) já nos informava sobre a crise internacional de saúde mental. Em um dos seus artigos publicados aqui no Substack (na página AfterBabel, onde atua junto com Jon Haidt), ele destaca: A crise de saúde mental entre os mais jovens é internacional e começou muito antes da pandemia de 2020. O assunto não é novo, quem acompanha os dados publicados periodicamente já ouviu muito sobre isso, especialmente pós-pandemia. Mas o que eles vêm defendendo e comprovando através de estudos e pesquisas de um colegiado de especialistas, é como as taxas de suicídio já vinham aumentando entre adolescentes, especialmente meninas, não apenas nos países de língua inglesa mas também na Europa, Japão e Coreia do Sul desde o início de 2010 até 2020, ou seja, pré-pandemia. É claro que o impacto da pandemia teve seu preço. Em outro artigo publicado em AfterBabel, assinado por Thomas Potrebny e Karen Schrijvers, eles compartilham dados relevantes e afirmam: “As queixas de saúde psicológica e somática (física) entre adolescentes dobraram nos 41 países analisados ​​nas últimas três décadas (1994-2022). Em 2022, quase 60% das adolescentes (meninas) e cerca de 30% dos adolescentes (meninos) relataram apresentar múltiplas queixas de saúde mental por semana. A prevalência desses sintomas varia de país para país, mas a tendência geral é clara e piorou desde o início da pandemia de COVID-19. Embora o aumento do sofrimento entre adolescentes seja anterior à pandemia, ela parece ter exacerbado e acelerado essas tendências negativas. De fato, em 2022, todos os 41 países registraram a maior prevalência de queixas psicológicas já documentada”. Clicando aqui você pode conferir o artigo citado na íntegra e quais são os 41 países citados. Mas, não para aí, ainda que muitos tenham defendido que o impacto da pandemia era o fator mais agravante desse cenário, o fato é que chegamos a 2026 e novos dados apontam que as taxas de suicídio juvenil continuam aumentando internacionalmente, particularmente entre as meninas. Vale ainda destacar que ao longo das séries de mapeamento dos dados quanto ao perfil de gênero, a liderança sempre foi masculina. Portanto, essa mudança de perfil requer uma observação mais apurada. Em outro artigo, publicado no último dia 2 de julho, a psicóloga Jean M. Twenge analisa dados e fontes que confirmam: “as taxas de suicídio entre adolescentes do sexo feminino estão, de fato, aumentando em muitos países ao redor do mundo”. Ela destaca: “Os dados mostram um aumento de 2010-14 a 2020-22 - em todos os três grupos etários de adolescentes e jovens adultos (10-14, 15-19 e 20-24 anos) no Norte da Europa (que inclui Dinamarca, Finlândia, Islândia, Irlanda, Noruega, Suécia e Reino Unido). E o aumento não é pequeno — gira em torno de 50%. Também houve aumentos na taxa de suicídio feminino nesses três grupos etários na Europa Ocidental (Áustria, Bélgica, França, Alemanha, Luxemburgo, Holanda e Suíça) e na UE como um todo, e em dois dos três grupos etários (10-14 e 15-19 anos) no Sul da Europa (Grécia, Itália, Malta, Portugal e Espanha). A única região sem aumentos foi a Europa Central/Oriental (por exemplo, República Tcheca, Hungria, Romênia, Sérvia) — e mesmo lá, as reduções na taxa de suicídio foram menores para adolescentes do que para mulheres adultas. Uma ressalva: Mais do que outros indicadores de saúde mental, as taxas de suicídio podem ser influenciadas por muitos fatores... Existem também diferenças culturais e desenvolvimentos específicos de certos países ou regiões. Portanto, não se espera que as taxas de suicídio apresentem tendências semelhantes em todos os países”. Em outras palavras: estamos falando de um termômetro trágico, porém mais objetivo, pois quando diferentes países começam a apontar para a mesma direção ao mesmo tempo, isso indica um fenômeno global ou estrutural. ENQUANTO ISSO, NO BRASIL Em matéria publicada pelo G1 em agosto do ano passado (2025), foi apresentado um levantamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde que revelou o seguinte: A cada ano, cerca de mil adolescentes perdem a vida por suicídio no país. A cada dez minutos, um adolescente comete algum tipo de autolesão ou tenta tirar a própria vida no Brasil. A análise afirmava ainda que, “apenas nos últimos dois anos, a média diária chegou a 137 atendimentos a jovens entre 10 e 19 anos. E que, de forma geral, as estatísticas acompanham a densidade populacional”. Outra informação que vale nossa atenção são os dados divulgados pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE/ IBGE), que escancaram a gravidade do cenário: 28,9% dos adolescentes de 13 a 17 anos relatam tristeza frequente. No entanto, o recorte por gênero revela: enquanto 41% das meninas dizem se sentir tristes, a taxa entre os meninos é de 16,7%. Além disso, 25% das alunas — 1 em cada 4 — afirmam sentir que a vida não vale a pena ser vivida (frente a 12% dos meninos) Dados públicos existem para nos alertarem sobre reações que precisamos ter. Sabemos que vivemos em uma era onde precisamos reaprender a educar crianças e adolescentes diante de um mundo bem diferente do que vivemos décadas atrás. A escola não é mais a mesma, a cultura e a forma como a consumimos mudou, os relacionamentos estão inseridos em outras dinâmicas comportamentais e a estrutura familiar vem sentindo o preço de tudo isso. Antes de fechar conteúdos como esse, gosto de bater um papo com Jota Coelho, nosso especialista em combate à violência e ao bullying que atua em escolas e como conselheiro familiar. Jota vivencia o dia a dia de escolas e lares, ouvindo demandas familiares inimagináveis para muitos de nós. E ele nos alerta: “Quando olhamos de fora para dentro, tendemos a buscar a raiz do problema como algo que invade nossa casa, rouba nossas crianças e adolescentes, nos tornando todos vítimas de uma mesma tragédia social. Contudo, há um lugar que precede o ambiente social e digital: o ambiente familiar. É nele que podemos atuar de forma preventiva e ativa para a saúde emocional dos nossos filhos”. Abaixo, juntos, vamos mais aprofundar isso. CONECTIVIDADE AFETIVA Considerando as restrições de telas já impostas e um forte trabalho de conscientização que vem sendo feito, precisamos olhar para além do consumo das redes sociais e questionar: Por que ansiedade, baixa satisfação com a vida, sofrimento emocional, má saúde mental e solidão continuam a crescer entre adolescentes e/ou jovens adultos em muitos países ao redor do mundo? O ponto crucial aqui é compreendermos que: A saúde emocional familiar está fundamentada na sua conectividade afetiva. Podemos viver sob o mesmo teto, conviver diariamente e ainda assim não estar conectados. Sem pertencimento, acolhimento, confiança e laços profundos o suficiente, uma criança ou adolescente pode não se sentir vista nem valorizada, e, portanto, crescer desconectada e insegura em sua própria família. Talvez esse seja o nosso maior desafio atualmente. Olharmos para dentro de casa e compreendermos que vivemos todas as nossas relações em duas dimensões, a visível e a invisível. Na invisível: é onde a saúde emocional de todos os membros de uma família tem suas raízes profundas, pois é nela que o amor exerce a afetividade que nutre tudo que se tornará visível depois: relacionamentos, comportamentos, escolhas, e tudo isso depende da conectividade para se tornar bom fruto. Na visível: seguindo essa metáfora, na dimensão visível podemos até olhar para uma árvore e do nosso ponto de vista ela ser frondosa, mas seus frutos nos dirão se suas raízes estão saudáveis ou não. Raízes bem nutridas e irrigadas são a estrutura que fundamenta a conexão afetiva, desempenhando um papel fundamental para sua relação com o solo, sua força e resiliência diante de todos os tipos naturais de estresse e intempéries que virão. Assim como toda árvore enfrentará desafios naturais, a família também será impactada por seu ambiente, cultura, circunstâncias e tudo que afeta cada um de nós, tanto de forma positiva quanto negativa. NÃO ENTENDER ISSO CORRETAMENTE VEM SENDO NOSSO MAIOR PROBLEMA Na literatura científica exist

    NEWS#16 - MINHA FILHA NUNCA FARIA ISSO!
  2. Jul 14

    O Silêncio Como Linguagem

    Introdução Zarhi El Malek Olá!! Está é a nova série de artigos de Janaina Mendes, e nela vamos navegar pelas águas da comunicação através das diversas formas que o silêncio significa para cada um de nós. Tudo que vem a seguir é válido como reflexão para irmos mais à fundo e entendermos como o silêncio, imposto ou escolhido, nos atinge emocionalmente e influencia nossas relações. Através dessa série abordaremos o significado e o custo do silêncio para mulheres, homens, jovens, crianças, adolescentes e até idosos, pois todos estão inseridos no ambiente familiar e seus silêncios comunicam muito mais do que imaginamos. Partindo deste princípio, prepare-se para descobrir como o silêncio também é capaz de mexer com nossas emoções de múltiplas formas. Ao fim deste artigo Janaina lança importantes questionamentos. Respondê-los honestamente é um exercício de autoconhecimento necessário para um entendimento mais profundo de si mesmo e para sua gestão emocional. Boa leitura, Zarhi Antes de começar, uma palavra sobre esta série Há coisas que demoram anos para encontrar palavras. Esta série é uma delas. Durante muito tempo observei mulheres inteligentes, sensíveis e profundamente capazes, mas caladas. Não por falta do que dizer. Mas porque, em algum momento da vida, aprenderam que o que tinham a dizer não cabia. Não era o momento certo. Não era o tom certo. Não era o lugar certo. E foram guardando. Guardando opiniões. Guardando sentimentos. Guardando perguntas que nunca fizeram. Guardando versões de si mesmas que nunca deixaram sair. Observei isso nos espaços de escuta, nos relacionamentos ao meu redor e também em mim mesma. Foi então que comecei a perceber que o silêncio, esse tema que parece simples, quase óbvio… é, na verdade, um dos territórios mais complexos e menos explorados da vida emocional humana. Porque nem todo silêncio diz a mesma coisa. Há o silêncio que protege. O silêncio que escuta. O silêncio que cura. O silêncio que pensa antes de falar e que, por isso, fala melhor. E há o silêncio que adoece. O silêncio que foi imposto. O silêncio que virou hábito sem nunca ter sido escolha. O silêncio que carregamos sem perceber e que, às vezes, parece simplesmente parte de quem somos. Esta série nasceu do desejo de iluminar essa diferença. Não para que todas falem mais. Mas para que todas falem e também, caso queiram, escolham calar com mais consciência, mais liberdade e mais verdade. Ao longo dos próximos artigos, vamos explorar o silêncio como linguagem, como herança, como ferida e como força. Vamos percorrer descobertas da psicologia, da neurociência e dos estudos sobre comunicação, sempre dialogando com aquilo que a experiência humana já sabe, mesmo antes de encontrar explicações científicas. Não será uma jornada de respostas prontas, será uma jornada de perguntas que valem a pena fazer. E a primeira delas é justamente a que abre o texto que você está prestes a ler. Antes de você ler a próxima frase, faça isto: - Pare; - Respire; - Observe o silêncio ao redor. Agora me diga: Esse silêncio está lhe dizendo alguma coisa? Crescemos acreditando que comunicação é sinônimo de fala; que quem cala, ausenta-se; e, que o silêncio é vazio. Mas a ciência e a experiência humana dizem outra coisa. O silêncio não é ausência de comunicação. É uma das suas formas mais poderosas. E entender isso pode mudar a forma como você se relaciona, como você se vê e, talvez, como você tem vivido. O que Albert Mehrabian nos ensinou sobre o que não dizemos Nascido em 1939, o psicólogo armênio-americano Albert Mehrabian chegou à psicologia com uma formação incomum: a de engenharia pelo MIT. Essa base analítica moldou a forma como ele investigou algo que a maioria de nós apenas intuía: a comunicação humana vai muito além das palavras que escolhemos. Durante a década de 1960, Mehrabian conduziu estudos específicos sobre como transmitimos sentimentos e atitudes. Seus achados ficaram conhecidos como a “regra 7-38-55”: na comunicação emocional, especialmente quando há contradição entre o que dizemos e como dizemos, apenas 7% do impacto vêm das palavras. Os outros 93% chegam pelo tom de voz, expressão facial, postura e gesto. E pausa. E silêncio. É fundamental entender o contexto: Mehrabian estudava situações específicas de incongruência emocional, quando o que a boca diz e o que o corpo comunica se contradizem. Não se trata de uma fórmula universal para toda comunicação. O próprio pesquisador passou anos corrigindo generalizações excessivas do seu trabalho. Contudo, o princípio que interessa para nós aqui é real e verificável na experiência cotidiana: Quando há contradição entre palavra e presença, a presença vence. Um olhar sustentado diz mais do que um parágrafo. A pausa antes de responder comunica algo que nenhuma palavra conseguiria capturar com a mesma precisão. Quem cala não para de falar, apenas fala de outro lugar. Dois tipos de silêncio e a diferença que muda tudo Aqui é onde a conversa fica mais honesta. Porque nem todo silêncio nasce do mesmo lugar. Na literatura sobre comunicação e psicologia, o silêncio humano é descrito em dois registros fundamentais. O silêncio escolhido: aquele que nasce da sabedoria, da escuta, da presença plena. Quem cala para ouvir de verdade. Quem pausa antes de falar, pois o que vai dizer merece cuidado. Quem sabe que nem toda verdade precisa de palavras para ser comunicada. Esse silêncio é poder. É maturidade. É um presente que se oferece ao outro. E o silêncio imposto: aquele que não nasce de dentro, mas foi construído por fora. Aprendido. Instalado. Muitas vezes, desde muito cedo. É o silêncio de quem foi interrompida tantas vezes que parou de começar. De quem percebeu que falar gerava conflito e que o custo do conflito era alto demais. De quem aprendeu, dentro de casa ou fora dela, que ocupar espaço era perigoso. De quem entendeu, às vezes, sem uma única palavra, que existir em voz alta era demais. A pergunta mais importante não é: “Você está em silêncio?”. A pergunta imprescindível é: “Quem escolheu esse silêncio: você ou o medo?”. O que a neurociência descobriu sobre o cérebro em silêncio Por décadas, cientistas acreditavam que o cérebro descansava quando não estava em tarefa ativa. Estavam errados. Marcus Raichle, neurologista da Universidade Washington, em St. Louis, identificou em pesquisas de neuroimagem algo que mudou a compreensão da ciência sobre o cérebro em repouso. Ele chamou de Rede de Modo Padrão (Default Mode Network) o sistema cerebral que se ativa exatamente quando paramos de focar no mundo externo: no descanso, no devaneio, no silêncio. Longe de “desligar”, o cérebro nesse estado realiza um trabalho essencial: integra memórias. Processa emoções. Constrói identidade. Conecta experiências que pareciam isoladas. Prepara insights que só chegam quando paramos de forçar. Em outras palavras: O silêncio não é ausência de pensamento. É onde o pensamento mais profundo acontece. Pesquisas subsequentes mostraram que esse estado de não foco externo aumenta a conectividade entre regiões do cérebro associadas à criatividade, ao autoconhecimento e à construção da narrativa de si mesmo. Você não se conhece no barulho. Você se conhece no silêncio. Dana Jack e o preço de calar o que é seu Em 1991, a psicóloga Dana Jack, pesquisadora da Universidade Western Washington com formação em Harvard, publicou um trabalho que movimentou o campo da psicologia clínica. Ao longo dos anos, ao estudar mulheres com depressão, ela identificou um padrão que se repetia com frequência perturbadora: mulheres que aprenderam a silenciar a própria voz, os próprios pensamentos, sentimentos e necessidades para preservar relacionamentos e evitar conflitos. Ela chamou esse fenômeno de autossilenciamento e desenvolveu uma escala clínica para medi-lo, a Silencing the Self Scale. Os dados foram reveladores: quanto mais uma mulher suprime a sua voz nos relacionamentos, maior a probabilidade de desenvolver depressão. A correlação era forte, consistente e se confirmou em diferentes culturas ao redor do mundo. Uma das afirmações da escala que mais me marcou é esta: “Tento esconder meus sentimentos quando acho que eles vão causar problemas no meu relacionamento.” Leia novamente. Não é uma afirmação de fraqueza. É uma afirmação de aprendizado. Alguém, em algum momento, ensinou que sentir era problema. E o corpo aprendeu a guardar. Mais de trinta anos de pesquisas depois, com 126 estudos analisados em revisão publicada em 2025, a conclusão permanece: o autossilenciamento crônico não protege. Ele adoece. O silêncio que você carrega sem saber que é seu Existe um tipo de silêncio que é ainda mais difícil de nomear. É o silêncio herdado. Padrões que vieram antes de você. Gerações de mulheres que calaram porque era mais seguro. Famílias inteiras que se comunicavam mais pelo que não diziam do que pelo que diziam. Religiões e culturas que confundiram silêncio com virtude, obediência com paz, apagamento com humildade. E você cresceu respirando esse ar. Sem perceber que estava adotando uma linguagem que não era sua. Sem perceber que o silêncio que parecia natural era, na verdade, um padrão aprendido. Aqui, o trabalho não é apenas falar mais. É se perguntar: “Esse silêncio é meu ou de quem veio antes de mim?”. Porque há uma diferença enorme entre escolher o silêncio com liberdade e carregar o silêncio como herança não questionada. O que o silêncio escolhido constrói Todavia, não quero terminar aqui. Porque o silêncio, o silêncio verdadeiro, escolhido, consciente é também onde nasce algo precioso. É no silêncio que você escuta o que realmente importa. É no silêncio que você para de reagir e começa a responder.

  3. Jun 30

    SUA ATENÇÃO, SEU TESOURO: COMO SAIR DO MODO AUTOMÁTICO E TRANSFORMAR SUA MENTE

    Olá!! Como está você? 2026 já chegou à sua metade, e não sei você, mas do lado de cá parece que o tempo acelerou forte! E como não temos mais tempo à perder, nessa virada de semestre, semana começando, que tal colocar sua atenção em um novo lugar? Sua atenção ou desatenção tem enorme influência sobre os seus pensamentos. Mas quando você escolhe, intencionalmente, para onde focará sua atenção, está definindo o que quer pensar. E não para aí. Quando você escolhe o que pensa, isso transforma a sua capacidade de lidar com todas as áreas da sua vida porque você se torna um gestor consciente dos seus pensamentos, ações e emoções. É comum acharmos que temos controle total dos nossos pensamentos até começarmos a observá-los com atenção. Na prática, ao fazer isso a gente acaba descobrindo que nem tudo que encontramos na nossa mente, de fato, é nosso. Afinal, tudo o que você vê, lê e ouve, tudo, em todo o lugar, de alguma forma, vai gerar em você uma ação ou reação. Seja por concordância, discordância, curiosidade ou desejo, a maioria de nós, ao não pensar sobre o que pensa, acaba, ainda que sem querer, se deixando levar por opiniões e pensamentos que não são nossos; ou, pior, entrando em modo “manada”. COMO COMEÇAR Comece observando suas respostas automáticas. Sabe aquelas respostas e julgamentos prontos, que às vezes a gente até tem na ponta da língua? Palavras que pulam das nossas bocas como reações tão rápidas que nem chegamos a pensar antes de falar. Ao prestar atenção, será natural começar a perceber alguns pensamentos intrusos. Pensamentos intrusos são aqueles que surgem do nada, e que você nem sabe por que está pensando naquilo. Alguns até parecem ecoar repetidamente, se misturam em nossos sentimentos e nem sabemos bem por que estão ali. Não tenha medo de encará-los. Ao encontrar um desses, pergunte-se: De onde veio esse pensamento? Porque estou pensando isso? Ao começar a pensar sobre o que você pensa, provavelmente, encontrará palavras, frases, e até opiniões inteiras que vem de fora; fruto daquilo que vemos, ouvimos e repetimos sem pensar bem no que realmente acreditamos a respeito. A partir dai, seja intencional e comece a escolher bem que pensamentos deseja cultivar. SABE PORQUE ISSO É IMPORTANTE? Todos os dias ao ouvirmos, lermos notícias ou conferirmos redes sociais, com o que nos deparamos? Há uma overdose de violência, indignação, desonestidade, especulações, provocações… que nos dias de hoje, facilmente podemos traduzir em ondas de desesperança, medo, injustiças, julgamentos… tudo isso em modo automático. Isso sem falar em toda propaganda, retórica, publicidade, e, claro: algoritmos e narrativas. Todos disputando a nossa atenção como a moeda mais valiosa desse tempo. Essa enorme quantidade de disputa pela nossa atenção, não vai desacelerar. Então, aprender a ser intencional no seu pensar é a sua melhor garantia de higiene mental e cuidado emocional. Assim sendo, comece a inserir na sua mente pensamentos saudáveis e que fortalecerão valores e princípios transformadores para a sua vida nos dias de hoje. Escolha pensar naquilo que é bom. Cultive pensamentos justos e honestos. Seja intencional em trocar o que é malicioso e perverso pelo que é sem segundas intenções e sincero. Aposte no que é real, amável, gentil e que vai na contramão da indiferença. Não seja ingênua (o). Questione o que precisa ser questionado, e valorize o que gera equilíbrio. NÃO ESQUEÇA Ao pensar sobre o que pensa, você estará treinando seu pensamento crítico. Ao alimentar sua mente com pensamentos baseados em valores importantes para todos, você não está floreando as dificuldades da vida, ou se tornando alguém cego para as dores do mundo. Está aprendendo a inserir no seu contexto de visão de mundo equilíbrio, opinião bem fundamentada e esperança. Isso acontece porque quando reconhecemos o quanto somos bombardeados por medos, injustiças, violência, etc, enxergamos como somos influenciados a não questionar caminhos, posicionamentos ou consequências. E isso vale para tudo. Até para a forma como você se vê. Se você escolhe ter pensamentos honestos a seu respeito, isso te ajudará, por exemplo, a identificar pensamentos de autosabotagem. Além de ajudar a compreender melhor seus sentimentos e emoções. Também vale para a forma como passamos a olhar para o outro com mais atenção e gentileza. E isso muda a forma como nos relacionamos dentro e fora de casa. Pensamentos baseados em bons valores e princípios te farão exercitá-los diariamente de forma intencional e, acredite, eles têm poder para mudar seu humor, produzir ânimo e te ajudar a ser a sua melhor e mais saudável versão. QUANTO ÀS REDES SOCIAIS Todos sabemos, mas não prestamos a devida atenção. Ligue o alerta! Plataformas digitais são modelos de negócios que dependem 100% da sua atenção e têm se tornado cada vez mais poderosas porque a esmagadora maioria de nós, doa parte do nosso tempo para o faturamento delas. No começo do ano passado, a pesquisa da Consumer Pulse afirmou que brasileiros passam, em média, 9 horas e 13 minutos online. Deste tempo, 3 horas e 32 minutos por dia navegando em mídias sociais. Alô meu caro leitor adulto, isso é sobre você! A dopamina fácil não é só a zona de fuga mais letal da realidade, mas é também a maior porta aberta para deixarmos nosso cérebro atuar em modo de absorção sem obstáculos, especialmente dentro das bolhas tão comuns que encontramos por lá. Sem contar em como feeds nos levam a perdas cognitivas, ganhos em ansiedade, impulsividade e até dificuldades em tomadas de decisão. Faça qualquer pesquisa online sobre o assunto e você encontrará, basicamente, a mesma resposta. O que a neurociência está dizendo, em linguagem direta, é: as redes sociais literalmente destreinam a capacidade que seria necessária para o domínio do próprio pensamento. Não se engane achando que esse cenário de alto impacto mental é só sobre crianças e adolescentes. Não! É sobre todos nós, com maior impacto neles devido à faixa etária. Todos os dias recebemos mais informações que confirmam o tamanho do deserto mental e cognitivo no qual estamos inseridos, e só há um caminho para mudar essa realidade: mudando a forma como usamos nossas redes sociais e dispositivos eletrônicos. PORTANTO Ciente de tudo isso, comece agora a rever onde tem depositado seu tempo e atenção. Quanto à sua vida online, aprenda a recalibrar seu feed. As dicas abaixo vão te ajudar: Atente quantas vezes você pega no seu celular desnecessariamente. Por que faz isso? Já é um gesto automático? São as notificações? Que tal desativá-las e passar você a gerir de quanto em quanto tempo verificará suas mensagens? Defina quanto tempo por dia considera saudável navegar em sua rede social. Ative um controle de tempo. Ele vai te mostrar quanto do seu tempo está sendo usado ali e a maioria de nós se surpreende quando começa a conferir. Faça uma boa curadoria do seu feed. O algoritmo sempre vai tentar ganhar sua atenção com o que engaja mais, e nesse pacote vem de tudo. Ao escolher quem seguir, o que silenciar ou parar de seguir, esta também é uma forma de investir em conteúdo que possa agregar valor. Desconecte do que te faz mal e conecte com o que te fará bem. Quanto mais tempo gastamos online, menos tempo vivemos offline. As horas não voltam, e se não investirmos nosso tempo e atenção nas coisas boas e importantes da vida, perderemos momentos e conexões que um dia cobrarão seu preço, especialmente em família. Detox é bom, mas precisa ser sustentável. Vejo muita gente deletando sua rede social por uma semana e, depois, à medida que volta a usá-la, assim como um viciado, perde a mão novamente. E sejamos bem honestos: As redes sociais não pretendem desaparecer. Somos nós que estamos enriquecendo os bolsos das Big Techs e cobrando delas medidas que nos protejam. Devemos cobrar o que precisa ser cobrado, contudo não podemos esquecer que é nossa a responsabilidade de não dar a elas a moeda que está nas nossas mãos: a minha e a sua atenção desmedida. Não esqueça: filhos aprendem mais com o que fazemos do que com o que falamos. Eles nos observam, comparam o que falamos “versus” o que fazemos. Investir tempo e atenção no nosso relacionamento com eles é fundamental para as boas conexões que faltam hoje. POR FIM Espero que nosso papo tenha feito sentido e que essa seja uma semana onde os seus pensamentos comecem a gerar novas perspectivas, visão ampliada e que você possa começar a ver em si a transformação que mais precisa hoje. Acreditamos que a comunicação tem o poder de despertar, tratar e curar. Sabemos que nenhuma sociedade será saudável enquanto as famílias não forem. E como não há famílias saudáveis sem adultos equilibrados emocionalmente, é por isso que estamos aqui toda semana, entregando conteúdo real, para pessoas reais. Se esse conteúdo fez sentido, o próximo passo é simples: inscreva-se. Seja um assinante gratuito ou pago, você escolhe. Curta, comente e compartilhe. Multiplique essa mensagem, porque quanto mais pessoas entenderem isso, mais pessoas serão alcançadas. E pessoas que mudam, transformam o mundo. Por hoje, eu fico por aqui! A gente se vê na próxima semana! Até lá!! Get full access to Clube Orekare at clubeorekare.substack.com/subscribe

  4. Jun 22

    SOB PRESSÃO: ATÉ ONDE AGUENTAR É SAUDÁVEL?

    Olá! Como vai você? Tudo bem? Como tem sido seus dias por aí? Hoje, nosso papo vai ser sobre pressão, perseverança e depressão. Temas que a gente acha que tem clareza sobre, mas, te garanto: sempre temos algo mais a observar e aprender para não nos tornarmos parte dos índices crescentes de adoecimento emocional que nos cercam. Como já falei aqui, este Clube nasceu com o propósito de nos despertar e capacitar a lidar primeiro com as nossas dificuldades, conflitos e traumas, cujas dores e consequências comportamentais impactam diretamente nossas relações familiares e geracionais. Passo boa parte do meu tempo atenta a informações comportamentais e creio, que, ainda que você não se debruce sobre isso da mesma forma que eu, facilmente entende como temos enfrentado situações absurdas envolvendo crianças, adolescentes e suas relações sociais e familiares. Nada disso acontece de forma gratuita. Desde que começamos a super validar sentimentos, temos visto o quanto perdemos em saúde emocional. Por acaso você já parou para se perguntar por que isso acontece? Esse cenário também é fruto de como temos sido moldados por pressões com as quais lidamos todos os dias e que cobram seu preço dentro dos nossos lares, impactando diretamente na conexão profunda entre pais e filhos. O QUE ISSO TEM A VER COM A SUA SAÚDE EMOCIONAL Como adultos, independente de sermos mães ou pais, sabemos que a vida é repleta de conflitos e muitas das nossas dificuldades emocionais e comportamentais tem sua base em nossas relações familiares. Isso é geracional, sabemos. Tanto que o conceito de nos educarmos quanto aos nossos sentimentos e emoções permanece em alta. Há psiquiatras, psicólogos, especialistas comportamentais, educadores socioemocionais, gurus e personas diversas abordando o tema amplamente. Independente a quem você dá mais crédito nesse sentido, uma coisa é certa: Existem dados que apontam dois extremos opostos: de um lado, a ausência de atenção parental empurra crianças e adolescentes para a busca de pertencimento em grupos de risco, especialmente online, onde encontram acolhimento que não tem em casa. Do outro lado, o exagero oposto: pais que superprotegem e evitam qualquer desconforto para o filho também abrem brechas danosas. E não sou quem diz, pesquisas confirmam associação entre superproteção parental e maiores índices de ansiedade e depressão. Entre a ausência e o excesso, o que parece faltar é o mesmo: limite com presença. Não estou especulando. Estou afirmando: se os dois pontos de partida começam na forma como estamos lidando com a próxima geração, o que não estamos vendo a nosso respeito? Como lidar com esse cenário? É importante que você possa olhar primeiro para si e compreender como está a sua saúde emocional. Se estamos bem e saudáveis, se nosso olhar está atento a ler corretamente nossos sentimentos, ambientes e contextos, tendemos a formar a próxima geração com mais saúde emocional real. E por mais óbvio que seja a conexão dos indicadores de bem-estar - como satisfação com a vida, esperança e moral - com a nossa qualidade de vida emocional, é fácil observarmos que é exatamente nesses mesmos lugares que, gradualmente, vamos sendo derrotados quando precisamos lidar com as pressões do dia a dia. É quase como um desdobramento natural: pressão gera reação, seja ela silenciosa ou explícita. Ela pode vir de diversas fontes, e, a forma como lidamos com ela vai definir a nossa capacidade de administrá-la e colocá-la no seu devido lugar. Vem entender melhor isso! PRESSÃO É ESTRESSE? Sim, é. Anos atrás, tentando descobrir alguns desconfortos físicos, tive que fazer uma bateria de exames. E ao fim, o diagnóstico foi estresse. O médico foi categórico: para ficar bem eu precisaria entender como lidar com meu estresse. Mas havia um problema maior: eu não sabia o que era estresse. De fato, só descobri isso 10 anos depois quando o estresse ignorado se tornou fator decisivo para que eu desenvolvesse distimia - identificada somente após mais 2 anos de observação médica em busca de compreender dificuldades emocionais e cognitivas que eu já não podia mais ignorar. Sim, a distimia - hoje tecnicamente chamada de Transtorno Depressivo Persistente (TDP) - pode ser desenvolvida ao longo da vida. E, embora algumas pessoas tenham uma predisposição genética ou traços de personalidade que as tornam mais vulneráveis, ela não é necessariamente algo com que a pessoa nasce. O estresse crônico e prolongado, especialmente quando ignorado por anos, é um dos principais gatilhos para o seu desenvolvimento. Histórias como a minha, continuam a acontecer em escala crescente apesar de todos os alertas, informações e ações preventivas que temos disponíveis hoje. A minha história não é uma exceção, e por isso trabalho continuamente para que outras pessoas não tenham que lidar com as mesmas dificuldades e desafios que, hoje, se tornaram déficits permanentes na minha vida por falta de atenção e conhecimento. Talvez você esteja aí pensando: Mas, como assim você não sabia o que era estresse? Todos nós vivemos sob algum tipo de pressão. Parte dela é saudável e fundamental para o nosso desenvolvimento. Outra parte, pode ser destrutiva, seja a curto, médio ou longo prazo. Mas essa linha divisória, entre o que nos constrói ou nos destrói, por vezes é tênue, e pode ser ignorada sem sequer nos darmos conta. Ninguém escolhe desenvolver burnout, ansiedade ou depressão, contudo nossas escolhas diárias, às vezes pequenas e aparentemente inofensivas, podem sim nos levar a desenvolver esses mesmos problemas. Eu te explico: A pressão saudável funciona como um motor propulsor que nos faz crescer. Ela vai nos dando entendimento sobre o mundo e como devemos nos posicionar diante dele. Um novo desafio no trabalho, uma mudança de cidade ou país, o nascimento de um filho ou um projeto desafiador, um problema pessoal inesperado, um concurso disputado, encarar um vestibular ou uma competição esportiva, são exemplos de situações que geram pressões naturais da vida. Pressões que nos ensinam a lidar com desafios e geram experiências importantes para o nosso amadurecimento emocional. Coisas que nos tiram da zona de conforto e nós, fisiologicamente falando, fomos feitos para dar conta delas. Nosso corpo tem um sistema de resposta ao estresse que foi desenhado para ser temporário e funciona assim: Quando surge o fator estressante, nosso cérebro, de forma positiva, mobiliza energia para enfrentá-lo (a chamada alostasia). Aumenta o foco, melhora a cognição e até amplia a satisfação quando o resultado é alcançado. Tarefa concluída, quando essa pressão passa, nosso cérebro desliga esse sistema e retorna ao equilíbrio. Naturalmente cíclico e eficiente. Repito: liga sob pressão, desliga quando ela termina. Entretanto…. quando esse ciclo não termina e permanece ativo, sem nos dar folga, eis o que acontece: Nosso cérebro, para dar conta, terá que funcionar em modo sobrecarga. Sem descanso, o dano chega. Esse é o famoso estresse crônico. Nele, sentimos que as demandas do ambiente superam completamente ou continuamente os nossos recursos para dar conta delas. O dia termina e essa sensação permanece, assim como no dia seguinte e no outro, e no outro…. Essa pressão, pode vir, por exemplo: Do trabalho excessivo - aquele que acumula porque é incabível em 24 horas; Da pressão para bater metas inviáveis; Do fazer o seu trabalho e o do outro, até mesmo dentro de um relacionamento amoroso; De ignorar a necessidade de descanso saudável - inclua aqui a falta de sono adequado; De tentar dar conta de tudo de forma perfeita…. e outras tantas coisas que de tão normalizadas na nossa rotina já nem parecem mais excessos. E assim, na grande maioria das vezes, a maior pressão se esconde nessas ações tão cotidianas que nem dimensionamos mais a proporção real do desgaste porque, na nossa mente, estamos fazendo o que precisamos fazer para dar conta da vida. Estamos mesmo? Quando uma tragédia, um luto, ou algo sobre o qual não temos controle gera pressão, às vezes é mais fácil compreendermos sobre como lidar com isso do que com pressões que permitimos e, até validamos como necessárias para o nosso sucesso. RESILIÊNCIA Sem conseguir nos parar, nosso cérebro começa a gerar sinais físicos como alertas que tentam chamar nossa atenção. Assim como aconteceu comigo, a saúde física sentiu o baque, e, ao ignorá-la, fui gradualmente esgotando minhas reservas emocionais a ponto de alterar a minha própria química cerebral, me levando a distimia. Quando falamos sobre reservas emocionais, não podemos esquecer que emoções e sentimentos seguem em desenvolvimento constante, não importando o nosso nível de amadurecimento pessoal. Apesar de falarmos muito a esse respeito, à medida que temos validado nossa atual cultura de performance, a forma como temos feito isso, criou um ciclo de comparações sem precedentes. Ao mesmo tempo, aprendemos que lidar com a pressão e ser resiliente são habilidades importantes no atual mercado de trabalho. Mas eu te pergunto: E a perseverança? Nos empurra para a resiliência ou nos torna escravos da pressão? Precisamos incluir a perseverança nessa história porque facilmente a confundimos com a resiliência. E é aqui que mora o perigo, porque a perseverança pode ser tanto aliada quanto vilã. Existem estudos científicos sérios e bem validados que nos mostram como a perseverança tem um teto, um limite saudável, e quando não o respeitamos transformamos perseverança em pressão capaz de nos machucar feio. Para entender melhor, tenha em mente que: Perseverança é a continuidade da vontade diante de um objetivo, apesar dos obstáculos encontrados, do cansaço ou da tentação de desistir. É sobre sustentar o esforço ao longo do tempo, mesmo quando o caminho é difíc

  5. Jun 6

    QUE HISTÓRIA VOCÊ CONTA SOBRE SI MESMO?

    Olá!! Como vai você? Tudo bem? Por aqui, eu e Janaina Mendes estamos saindo de uma boa virose, e caso você esteja me ouvindo via podcast, e se deparar com um voz “meio capenga”, me dê um desconto, por favor... mas, cá estou! Pronta para compartilhar esse artigo escrito a duas mãos, e que acreditamos que vai falar com você. Vamos fechar juntas a nossa série sobre IDENTIDADE. Aqui no Clube, abordamos outros tantos temas de trabalho, mas posso te afirmar sem medo: tudo começa na nossa percepção sobre nós mesmos. E nesse sentido, nos aprovar ou reprovar, implica diretamente na forma como vamos viver ou sobreviver neste mundo. Se como indivíduos isso é fulminante, como pais e mães isso gera desdobramentos capazes de alcançar gerações, seja para o bem ou para a dor. Como quem tem cicatrizes causadas pela rejeição e aprendeu a valorizá-las, enquanto trabalhava nesse texto, entre percepções, entendimentos, estudos e pesquisas, a frase que me marcou foi: Todo aquele que está carente de ser reconhecido é porque não tem convicção da sua identidade. Essa verdade, lançada de forma veemente, não veio de um badalado especialista comportamental, nem de um renomado pesquisador ou algum coach de sucesso, mas de um teólogo. Paulo Borges Jr, é teólogo e engenheiro, alguém que por formação escolheu o transcendente e o racional. Sua afirmação sobre identidade tem como base a graça diante de um Deus que nos ama incondicionalmente. O interessante disso, é que Dan P. McAdams, renomado professor de desenvolvimento humano e política social, um dos principais pesquisadores do mundo no campo da psicologia narrativa, famoso por estudar histórias de aceitação e redenção do ponto de vista científico, afirma: A identidade assume a forma de uma história completa, com cenário, cenas, personagens, enredo e temas. Ou seja, você não tem uma identidade simplesmente porque existe, mas você a constrói ativamente ao longo do tempo, narrando para si mesmo a sua versão da vida e seus fatos, a partir da sua própria interpretação. Ficou claro? Os dois estão falando, basicamente, a mesma coisa: A busca por reconhecimento é uma necessidade inerente daquele que tem sua identidade fragmentada. Na prática, a forma como interpretamos o mundo, as circunstâncias, os relacionamentos, as aprovações, rejeições, alegrias ou tristezas da vida, está profundamente ancorada em quão amada e aceita uma pessoa, realmente, se sente. A forma como essa história é construída começa dentro de casa, nas nossas relações parentais. Somente na nossa adolescência e na vida adulta, começamos a “editar a nossa versão sobre quem somos ou desejamos ser”. É o que McAdams chama de identidade narrativa, a história de vida interna e dinâmica que um indivíduo constrói para entender sua vida. Ao longo das últimas semanas, temos falado sobre como nossos sentimentos não são capazes de nos definir porque eles oscilam de acordo com o quanto uma pessoa se sente amada, pertencente, aceita ou importante. Por isso, temos afirmado: Sua identidade é a base fundamental da sua saúde emocional. Se ela é sólida, você não confundirá o que sente, em momentos de vulnerabilidade, com quem você, de fato, é. Até aqui, nós já passamos por alguns pontos cruciais sobre reconhecermos quem somos em essência. Mas, calma! Reconhecer onde nossa identidade está vulnerável, e precisa de atenção, é só a primeira parte desse processo. A segunda, e mais difícil, é mudar. A terceira e imprescindível, é: diante de erros e acertos, nos manter conscientes de que sabemos quem, de fato, somos. Independente do quanto ainda seremos comparados, questionados e confrontados. Por isso, para fechar essa série precisamos falar sobre coragem, mudança e processo. A CORAGEM DE MUDAR Saber não é o mesmo que agir. Você pode ter se reconhecido ao longo de cada artigo dessa série. Pode ter se visto em cada linha sobre rejeição, performance e pertencimento. Pode ter sentido aquela fisgada no peito, aquele “é exatamente isso” e, ainda assim, seguir fazendo tudo do mesmo jeito. E não é porque você é fraco. É porque mudar dói. Mesmo quando a mudança é boa. Existe um paradoxo curioso na jornada do autoconhecimento: quanto mais você se enxerga com clareza, mais sente a responsabilidade de agir de acordo com o que agora vê. Claro que é mais fácil, e muito mais confortável, continuar sendo o personagem que aprendeu a ser do que enfrentar o trabalho de se tornar quem você realmente é. Contudo, quem precisa se esforçar para sentir-se parte, sabe como é exaustivo tentar agradar aos outros sendo quem você não é. Se esforçar para ser aprovado, para sentir-se amado e pertencente nos corrói por dentro. Mas, saiba: a mudança real não começa com uma decisão grandiosa, mas, sim, com aquela decisão pequena e honesta. Aquela que você tem medo de admitir até para si mesmo. Começa quando você para de culpar o ambiente e pergunta: O que eu tenho feito com o que eu sei? Até quando vou suportar a dor de não me aprovar? De permitir que os outros definam meu valor? Ainda assim, assusta abrir mão da versão mais conveniente de si mesmo. Aquela que achamos ser a mais conveniente por que acreditamos ser a que mais agrada a todos. Quando nos sentimos assim, precisamos compreender: o que rejeitamos em nós a ponto de não termos coragem de sermos nós mesmos? Todos tem defeitos e qualidades, a forma como lidamos com cada uma das nossas características define qual delas prevalecerá. Por exemplo, uma pessoa ser melancólica não é necessariamente algo ruim, porque melancolia não é sinônimo de depressão. Como traço comportamental, a melancolia está presente em pessoas mais analíticas, criativas, observadoras e introspectivas. Como estado emocional passageiro, que expressa tristeza ou reflexão mais profunda, a melancolia pode ser usada como trampolim para uma maior compreensão sobre seus sentimentos e perspectivas, porque ela não nega a dor que a aflige. Por outro lado, se uma pessoa aceita a melancolia como um transtorno de humor, no qual a tristeza prevalece, se torna muito difícil viver com ela. E isso se encaixa perfeitamente nas respostas encontradas nos estudos de Dan P. McAdams, onde ele alega que a maneira como as pessoas constroem histórias coerentes sobre suas vidas, impacta diretamente em sua saúde psicológica, influenciando até o bem-estar das próximas gerações, e na aceitação da vida, especialmente em contextos de sofrimento e adversidade. Percebe? Mudar não significa virar outra pessoa. Significa ter a coragem de ser, ou resgatar, quem você já é em essência. Reconhecendo defeitos e qualidades, lidando com cada um deles de forma madura e construtiva. Nesse processo, muita gente espera sentir coragem antes de agir. No entanto, a coragem não vem antes, ela vem durante. Ela nasce no exato momento em que você, mesmo com medo, dá o primeiro passo. Por que, de fato, coragem nunca foi ausência de medo. Você não vai acordar amanhã sem medo de ser rejeitado, sem o reflexo condicionado de se diminuir, sem a voz que lhe diz que é perigoso demais ser você mesmo. No entanto, você pode aprender a reagir e mudar, apesar disso. A pergunta não é: quando vou estar pronto? A pergunta é: o que farei hoje com o que já sei? O PROCESSO Muitos de nós tem como maior inimigo nessa jornada não se aprovar. Quem não se aprova se torna inseguro e dependente da validação alheia. Por isso, atente: Autoaceitação não significa que você não reconhece seus desafios ou defeitos. Muito pelo contrário: significa que ao se reconhecer em sua totalidade, você pode, de forma honesta, encarar suas qualidades e defeitos de forma construtiva, aprendendo a superar o que não é legal e a validar o que é bom. Nós, adultos, mesmo ajustando aquilo que sabemos que precisa de mudança, naturalmente, vamos conviver com os gatilhos de uma vida inteira habituada a nossa versão anterior. E o mais interessante é que, gradualmente, os gatilhos se tornam alertas positivos, que nos ajudam a não voltar atrás, nem permitir que nos coloquem de volta em caixas que nunca nos couberam. E não podemos esquecer que vivemos na era digital, onde performar se tornou epidemia coletiva. Rotina, casa, trabalho, viagens, lifestyle…. tudo isso se tornou comparável em tempo real. Ser emocionalmente saudável em um mundo mentalmente adoecido é um desafio real. Ter clara noção do seu valor em meio a uma geração que foi conduzida a acreditar em justificativas emocionais para não confrontar verdades incômodas, é algo ousado! Ter opinião própria e posicionamento coerente aos seus valores em ambientes polarizados é difícil. Por mais lowprofile que sejamos, mesmo que não queiramos nos comparar, ao abrir um instagram ou linkedin, nos deparamos com o sucesso do outro. E, acredite, dia a dia, a comparação uma hora ou outra vai emergir. Quando menos esperamos, sem a menor pretensão, estamos julgando o outro. Pior, à medida que continuamos, repetidamente a colocar parte da atenção nesse ambiente, ou apenas a consumir a vida dos outros nele, tendemos a nos tornar ainda mais julgadores do que aprovamos ou desaprovamos também em nós. Validar nossa identidade pessoal é algo processual porque também estamos vivendo em uma identidade social, na qual o ambiente tanto nos influencia quanto nos cobra ser parte dele. Nesse cenário, uma das maiores armadilhas do processo de transformação é achar que ele precisa acontecer em silêncio, na força do esforço individual, sem que ninguém saiba que você está mudando. Contudo, o verdadeiro pertencimento, aquele do qual falamos ao longo de toda esta série, também se aplica à sua própria jornada. Você precisa de espaços seguros para errar enquanto muda. Precisa de relações que não lhe cobrem a versão finalizada de si mesmo antes do processo. Precisa de v

  6. May 28

    COMO FOI A ESCOLA HOJE?

    Todos os dias, a cena se repete em milhares de lares: A porta se abre, a mochila é deixada de lado e vem a pergunta quase automática: “Como foi a escola hoje?”. Na maioria das vezes, a resposta vem em uma frase curta: “Tudo bem”. Muitas vezes, para nós, pais, esse retorno costuma bastar para acalmar o coração. Se não há reclamações na agenda e as notas estão em dia, presumimos que tudo caminha bem. Afinal, fomos condicionados a acreditar que acompanhar a vida escolar dos nossos filhos consiste em inspecionar o dever de casa e os estudos, garantir o material em ordem e cobrar o desempenho nas provas. Mas sabemos que a vivência escolar é uma jornada ampla, que vai muito além de resultados e notas num boletim. A escola não é apenas o lugar onde nossos filhos aprendem disciplinas como matemática, línguas, história e ciências. É o palco onde eles testam seus limites, onde aprendem a lidar com a rejeição, com a amizade, com a frustração e com a própria identidade. Acompanhar a vida escolar dos nossos filhos é olhar para eles de verdade. Para uma criança ou um adolescente, o dia a dia na escola é uma jornada intensa de socialização. Enquanto os professores explicam a matéria em sala de aula, uma série de outros aprendizados silenciosos acontece nos corredores, no pátio e na hora do lanche. É preciso compreender que, muitas vezes, a maior dificuldade de um aluno não está na interpretação de um texto, mas na interpretação dos sinais sociais ao seu redor. A dinâmica dos grupos é um desses fatores essenciais. Como nossos filhos se sentem no recreio? Eles têm com quem sentar e conversar ou o momento do intervalo gera ansiedade? A sensação de pertencimento a um grupo é um dos pilares da autoestima nessa fase. Também há a relação com as próprias emoções. Como eles lidam quando erram uma resposta na frente de todos? Eles se sentem seguros para expressar suas dúvidas ou têm medo de parecer menos inteligentes que os colegas? E o que dizer sobre o ambiente físico e social? A escola é percebida por nossos filhos como um porto seguro ou como um território de constante avaliação e julgamento? Quando passamos a olhar para esses aspectos, percebemos que o desinteresse por uma matéria ou a queda repentina em uma nota nem sempre são dificuldades cognitivas ou de aprendizado. Muitas vezes, são reflexos de como estão se sentindo em relação aos colegas, aos professores ou a si mesmos. Para nos aproximarmos dos nossos filhos por meio desse universo, é importante transformar o diálogo diário. Se a pergunta tradicional só gera respostas monossilábicas, que tal mudar a abordagem? Que tal demonstrar interesse genuíno pela experiência humana deles, e não apenas por uma prestação de contas acadêmica? Olhar para a rotina escolar sob essa perspectiva nos convida a uma reflexão profunda sobre o nosso papel na formação dos nossos filhos. Por isso, é essencial mantermos um canal de diálogo sempre aberto. Quando estamos, de fato, próximos deles, as vivências escolares, das mais simples às mais complexas, se tornam momentos de conexão e oportunidades para ensinarmos valores importantes, como resiliência, respeito às diferenças, honestidade e empatia. Que possamos, como pais, assumir o lugar de parceiros nessa jornada de aprendizado que vai muito além da sala de aula! Gostou da reflexão? Fez sentido para você? Então, compartilhe com quem você acha que precisa ouvir essa mensagem. Se você tem dúvidas ou quer deixar seu comentário, queremos te ouvir! Se você entende a importância do nosso trabalho, apoie o Clube Orekare com uma assinatura paga. Junte-se a nós para que possamos levar consciência socioemocional para mais famílias! Obrigada e até a próxima! Get full access to Clube Orekare at clubeorekare.substack.com/subscribe

  7. May 26

    ACEITAÇÃO X PERTENCIMENTO: QUANDO SER ACEITO CUSTA CARO DEMAIS

    Esta é a continuação da nossa jornada sobre identidade. Este é o nosso quarto artigo da série. Em cada um deles estamos aprofundando o entendimento sobre camadas que precisam ser melhores compreendidas sobre o tema. Se no primeiro texto a pergunta era “quem você acredita ser?”, no segundo vimos como a rejeição falsifica a identidade. No terceiro, fomos mais à fundo no entendimento sobre como a influência da rejeição nas nossas experiências emocionais é capaz de moldar o nosso valor pessoal. Agora, chegamos a uma camada ainda mais funda: Muitas pessoas não vivem como realmente são porque aprenderam que, para serem aceitas, precisam deixar de pertencer a si mesmas. VOCÊ JÁ SE PEGOU SENDO ALGUÉM QUE NÃO É, E SENDO APLAUDIDO EXATAMENTE POR ISSO? Existe um tipo de cansaço que não vem do excesso de trabalho, nem da falta de sono. Vem de passar anos administrando a impressão que você causa. Vem de operar na força de uma vigilância constante para garantir que o seu entorno aprove quem você é. Aos poucos, aprendemos a sobreviver através da adaptação. E, sem perceber, nasce uma versão socialmente aceitável de nós: educada, funcional, admirada. No entanto, ela pode ser profundamente distante da nossa identidade original — aquela essência autêntica e singular que deveríamos manifestar no mundo. Isso é aceitação baseada em performance. E ela cobra um preço alto demais. O problema real não é apenas que o mundo nos conduz à máscaras; o problema é quando começamos a acreditar que precisamos delas para continuar recebendo afeto e validação. Existe algo muito mais profundo, seguro e transformador do que a mera aceitação de um ambiente. Chama-se PERTENCIMENTO Enquanto a aceitação pergunta: “O que eu preciso fazer ou performar para ficar?” O pertencimento responde: “Você não precisa barganhar; você já é parte.” O PREÇO INVISÍVEL DA CULTURA DA PERFORMANCE A aceitação social quase sempre funciona como uma moeda de troca. Aprendemos rapidamente quais partes de quem somos são celebradas e quais causam desconforto; quais emoções precisam ser reprimidas e quais versões recebem aplausos. É aí que começa uma perigosa negociação interna. Por exemplo, para não parecer “demais”, reduzimos nossa intensidade — que, na verdade, é o nosso traço de originalidade. Silenciamos nossas dores para não incomodar e blindamos nossas vulnerabilidades por medo da rejeição ou da punição. Sem notar, nos tornamos emocionalmente editáveis. O ser humano até consegue suportar a pressão externa por um tempo, mas o que ele não consegue tolerar a longo prazo é o desgaste de viver desconectado de si mesmo. A performance pode até proteger nossos medos, temporariamente, mas o que começou como um mecanismo de sobrevivência rapidamente se transforma em uma prisão invisível. Ninguém foi feito para viver fingindo. CONEXÃO SEM MEDO: A BASE DA SEGURANÇA RELACIONAL Existe uma diferença gritante entre tentar se encaixar e realmente se conectar. Tentar se encaixar é uma resposta baseada no medo e no controle: você observa o ambiente e se molda para ser o que o outro espera. Já o pertencimento é baseado na autenticidade, que exige o oposto: a coragem de aparecer exatamente como se é. A aceitação exige adaptação constante as regras flutuantes. O pertencimento exige apenas a verdade. É por isso que tantas pessoas são amplamente admiradas, mas mantêm uma solidão profunda. Ser celebrado pela função que você exerce ou pela utilidade que você tem não significa ser conhecido no seu coração. Ser incluído não significa pertencer. O pertencimento real nasce da segurança relacional — a certeza de que a verdade e o afeto caminham juntos. As pessoas só conseguem ser honestas e transparentes onde o medo do abandono foi anulado. Uma das maiores crises atuais é que muitos aprenderam a gerenciar conexões através do controle e da performance, mas nunca aprenderam a descansar dentro de um vínculo seguro. A REJEIÇÃO E A NECESSIDADE DE APROVAÇÃO Você já reparou como algumas rejeições tocam lugares muito mais profundos do que deveriam? Um comentário frio, uma exclusão silenciosa ou uma sensação constante de inadequação têm o poder de alterar nossa percepção de mundo. Quando alguém vive sob a atmosfera da rejeição constante, ela começa a reorganizar sua própria identidade em torno da falta de segurança. A inadequação deixa de ser um momento ruim e passa a ser a lente pela qual ela enxerga a vida. É desse terreno fértil que surgem: A necessidade crônica de agradar e a busca por aprovação; A hipervigilância emocional (tentar prever o que o outro quer); O esgotamento mental nas relações. O efeito mais devastador desse ciclo é a crença de que precisamos conquistar o direito de sermos valiosos. Toda a vida se transforma em uma tentativa silenciosa de merecimento. Mas o valor humano não funciona como uma recompensa por bom desempenho. Você não tem valor porque acertou o alvo; você tem valor intrínseco pelo simples fato de existir. VÍNCULOS QUE NÃO COBRAM PEDÁGIO O desenvolvimento socioemocional saudável nos mostra uma lógica clara: o desenvolvimento real não começa no comportamento perfeito, começa na qualidade do vínculo. A identidade sempre precede a maturidade. Quando operamos na lógica de que precisamos merecer o afeto, entramos em falência emocional. A régua da performance nunca para de subir: o que foi suficiente ontem, deixa de ser amanhã. Tudo muda quando entendemos que o nosso valor é fixo e inegociável, independentemente da aprovação alheia. - O que também não deve ser compreendido como validação de condutas inapropriadas ou desrespeitosas - O pertencimento verdadeiro estabelece uma aliança segura que diz: “Eu não vou retirar o meu respeito ou o meu afeto se você falhar”. Essa segurança é o único solo fértil onde a mudança real e o amadurecimento acontecem. A lógica do crescimento saudável inverte a lógica do mercado: primeiro vem a conexão segura, depois vem o processo de desenvolvimento. O DESCANSO QUE A APROVAÇÃO NUNCA ALCANÇOU Há pessoas cercadas de troféus, cargos e elogios que continuam se sentindo vazias. Isso acontece porque a aprovação externa funciona como água salgada: quanto mais você consome, mais sede você tem. Da mesma forma, a aprovação funciona como um analgésico, mas não cura a raiz da rejeição. Só o pertencimento cura. Pertencer é ter o direito de descansar sem a obrigação de provar seu valor a cada segundo. É não viver a vida sob uma auditoria emocional constante. É saber que a sua vulnerabilidade não vai quebrar o vínculo com as pessoas que importam. Ambientes saudáveis não usam a punição, o silêncio ou a ameaça de afastamento como ferramentas de controle. Pelo contrário, é a estabilidade do vínculo que dá ao indivíduo a coragem necessária para crescer, assumir responsabilidades e se transformar. O descanso não é o prêmio para quem atingiu a perfeição; o descanso é o ponto de partida para se viver com clareza e autonomia. O FIM DOS ESCONDERIJOS Quando você desliga a sua performance… quem sobra? Talvez essa seja a pergunta mais desconfortável — e necessária — da atualidade. Durante muito tempo, a performance foi a sua armadura. Você aprendeu cedo a polir a sua imagem para evitar a dor da exclusão. Ajustou, editou e controlou tanto que, em algum momento, ficou difícil distinguir quem você realmente é de quem você aprendeu a ser para sobreviver. Mas existe uma liberdade extraordinária que começa quando percebemos que o respeito e a conexão real nunca exigiram a nossa exaustão. O pertencimento não espera que você apresente uma versão impecável. Ele cria o espaço seguro para que a sua versão real apareça e seja aprimorada. Afinal, maturidade emocional não é a ausência de falhas; é o fim dos esconderijos. Existe um lugar — em relações seguras, em lideranças saudáveis e dentro de você mesmo — onde a verdade não ameaça o afeto, onde a vulnerabilidade não é um perigo, mas sim um convite para a conexão real. O pertencimento verdadeiro não quer apenas acolher quem você é hoje; ele liberta a sua essência original, aquela que o medo ensinou você a esconder. A grande questão que fica para o nosso próximo passo não é mais sobre como ser mais aceito pelos outros. O convite de hoje é que você responda a uma pergunta fundamental: Você está disposto a abrir mão do controle das máscaras e começar a pertencer à sua própria verdade? Na próxima semana, eu volto para fecharmos a nossa série IDENTIDADE! Enquanto isso, não deixe de refletir sobre o que temos compartilhado em cada um dos nossos artigos sobre o tema. Se você não viu os anteriores, confira abaixo: * VOCÊ É QUEM ACREDITA SER? * VOCÊ NAO É UMA RÉPLICA - COMO A REJEIÇÃO FALSIFICOU SUA IDENTIDADE * O QUE SEUS SENTIMENTOS REVELAM SOBRE O SEU VALOR PESSOAL Se você está nos ouvindo no Spotify ou Youtube, confira nossa playlist. Se quiser receber nosso conteúdo direto na sua caixa postal, inscreva-se abaixo. Até o nosso próximo encontro! Get full access to Clube Orekare at clubeorekare.substack.com/subscribe

  8. May 18

    O QUE SEUS SENTIMENTOS REVELAM SOBRE O SEU VALOR PESSOAL

    Olá!! Tudo bem?? Como vai você? Espero que bem e que nosso tema de hoje possa te ajudar a sentir-se ainda melhor com você mesma(o). Se você tem acompanhado nosso conteúdo, sabe que eu e a Janaina Mendes temos feito uma dobradinha aqui sobre um tema que é base fundamental para a sua saúde emocional: IDENTIDADE. No último texto dela, Jana nos mostrou como a rejeição é ardilosa em falsificar sua identidade. Hoje, vamos mais a fundo para compreender como essa falsificação se justifica através dos nossos sentimentos e, chega até, a determinar o quanto acreditamos que valemos. Aprofundar esse entendimento é fundamental para seu autoconhecimento, suas relações familiares, pessoais e até profissionais. E é ainda mais urgente se você é pai ou mãe, porque é exatamente este legado emocional que, sem perceber, você compartilha hoje. Se você ainda não faz parte do Clube, este é um bom momento para se juntar a nós. SENTIMENTOS NOS DEFINEM? Sentimentos são respostas verdadeiras à experiências pelas quais passamos. Contudo, se em nossa identidade há quebras causadas, por exemplo, pela rejeição, por traumas, por palavras que nos levaram a nos ver de forma equivocada sobre nós mesmos, naturalmente, estaremos à mercê de sentimentos distorcidos. E eles doem, mesmo quando empurrados para baixo do tapete. Lembro o dia que ficou claro meu problema com a rejeição. Estava em uma livraria e um livro me chamou atenção - A Raiz da Rejeição, de Joyce Meyer - e ao lê-lo me reconheci como alguém que estava sempre em busca de aprovação, que mesmo não tendo culpa de nada, se sentia culpada. Quando estamos embasados em percepções equivocadas, essas “raízes” crescem e geram outras pequenas raízes. Assim, a autora destaca: Aquilo em que você estiver enraizado determinará o fruto em sua vida. Se você estiver enraizado na rejeição, no abuso, na vergonha, na culpa ou em uma auto-imagem pobre, se estiver enraizado no pensamento “Há-algo-errado-comigo”!, então todos esses problemas começarão a se desenvolver em sua vida. Você começa a pensar: “Bem, o meu eu REAL não é aceitável, assim preciso produzir um FALSO eu”! Você pode realmente rejeitar-se porque alguém mais o rejeitou, e então se torna cheio de confusão e tormento interior. A sua “árvore” começa a carregar frutos ruins da depressão, do negativismo, da falta de autoconfiança, da ira, da hostilidade, do espírito controlador, da crítica, do melindre, do ódio e da autopiedade. Raízes determinam frutos! Frutos podres vêm de raízes podres... e frutos bons vêm de raízes boas. Se você está enraizado na aceitação e no amor, então desenvolverá boas coisas em sua vida; coisas como domínio próprio, mansidão, fidelidade, bondade, benignidade, paciência, paz, alegria e amor. Já alguém emocionalmente machucado, não conseguirá contextualizar o momento e tende a sentir-se ofendido ou rejeitado independente do que, de fato, tenha ocorrido. À medida que lia aquele livro, fui compreendendo melhor do que se tratava a tal da rejeição. Entre reconhecer que vivia imersa em uma sensação permanente de que havia algo errado em mim e compreender como sair desse lugar, levou tempo. No meu caso, a rejeição fazia parte do legado emocional que recebi dos meus pais. Os dois - pai e mãe - carregavam essa mesma dor e só pude compreendê-la em mim depois de encontrar sua verdadeira raiz. E o mais importante: quando desde muito cedo somos “educados” através desse tipo de visão errônea sobre quem somos, tendemos a acreditar que não há lugar para nós nesse mundo, porque rejeição rouba pertencimento. Sem pertencimento, não cabemos em lugar algum, ainda que aquele seja, de fato, o nosso lugar. E porque estamos falando de rejeição? Por que a rejeição e a desaprovação, tem poder para modificar nossa arquitetura emocional para toda a nossa vida. E a infância é o terreno mais fértil para escondê-la profundamente em nós. VALOR PESSOAL Como você define valor pessoal? Esta é uma percepção, realmente, muito pessoal. E diferente da autoestima, que tende a ser mais flutuante, o valor pessoal é intrínseco, está profundamente enraizado em nós. E é interessante perceber, que, na grande maioria das vezes, nem sequer verbalizamos ou temos uma definição pronta para isso. Contudo, sua percepção de valor pessoal influencia não somente a sua vida e a forma como você se vê, mas também alcança a forma como as pessoas te percebem. Ela também está profundamente conectada ao legado emocional que você carrega e repassa. Então, uma forma simples de você entender como enxerga seu valor, é começar refletindo sobre a seguinte pergunta: Você acredita que é amada(o) por quem você é, independente do que você faz ou do que os outros pensam sobre você? Quando alguém não consegue reconhecer ou validar seu valor pessoal, é como se coisas boas só fossem para os outros e não para ela. Não somente isso, mas também quando alguém se justifica muito ou tem a necessidade de exaltar seu valor para ser reconhecido, a base da quebra emocional é a mesma. Assim, não importa quão bem-sucedida, competente ou admirada essa pessoa seja, sem ter consciência do seu valor, ela se esforça para caber nos lugares que deseja pertencer, e, esse esforço parece nunca ser suficiente para dar conta dessa necessidade. DE ONDE VEM TUDO ISSO? A conexão entre sentimentos e percepção de valor, reconhece a rejeição como maior destruidor ativo de valor pessoal em nossa sociedade. E tudo isso tem como base nossas relações parentais. Ronald P. Rohner é professor emérito de Desenvolvimento Humano e Estudos Familiares e Antropologia na Universidade de Connecticut, nos EUA. É dele o estudo mais abrangente sobre rejeição parental já realizado no mundo. Ronald atua há quase 6 décadas, já tendo observado entre 200 a 300 mil pessoas ao longo desse tempo, em todos os continentes do mundo (exceto Antártica). E ele afirma: A dor da rejeição parental é universal, não é circunstancial, nem cultural. É humana. Em sua Teoria Interpessoal de Aceitação-Rejeição (IPARTheory), Ronald P. Rohner, ele re-afirma: “O amor dos pais é o fator mais importante na vida de uma criança”. É em casa onde aprendemos os fundamentos básicos sobre amor incondicional e aceitação, que gerarão a segurança e a confiança necessárias para a correta percepção do nosso valor pessoal, que permeará por toda a nossa vida. Isso é tão profundo e real, que na introdução à IPARTheory, Rohner destaca a seguinte informação: “Depois de estudar milhares de crianças e adultos em todos os principais grupos étnicos na América, bem como internacionalmente, fica claro que a necessidade das crianças de serem amadas pelos pais e outros cuidadores significativos é uma necessidade humana universal, provavelmente de base biológica. Quando as crianças não satisfazem essa necessidade adequadamente, elas tendem a responder da mesma maneira - sem levar em conta as diferenças de raça, gênero, etnia, idioma ou outras condições definidoras. Além disso, a pesquisa revela que os efeitos negativos às vezes associados a comportamentos parentais, como punição corporal e controle restritivo, são mais frequentemente devidos aos sentimentos de rejeição que esses comportamentos podem produzir nas crianças, mas não à punição ou ao controle em si.” Esse final me chama muita atenção, pois o que o autor afirma é: O que realmente machuca uma criança, no seu desenvolvimento psicológico/ emocional, não é a regra ou a punição em si, mas a forma como ela reconhece a rejeição, a falta, o amor ou a indiferença. Para qualquer um de nós, a rejeição, especialmente a parental, é o maior de todos os danos. Através dela, a baixa autoestima gera autoavaliação negativa. A insegurança emocional gera dificuldade em confiar nos outros. A hostilidade e a agressividade podem emergir como respostas defensivas. E atente: a rejeição faz com que problemas em relacionamentos e uma maior vulnerabilidade emocional se tornem parte da vida adulta. ME RECONHECI, E AGORA? O QUE POSSO FAZER? Recomeçar. Reconhecer é o primeiro passo. Quando descobri a rejeição e comecei a ter clareza de sua presença, precisei rever meu entendimento sobre mim e sobre o mundo ao meu redor. Gradualmente fui identificando os danos, aprendendo a lidar com eles, mas prioritariamente, aprendendo a não ter medo de ser quem eu sou. Creio que o desafio maior é reencontrar nossa essência e confiar em quem somos, sendo honestos e conscientes dos nossos erros e acertos, defeitos e qualidades. Conscientes que nosso valor é único, intransferível e que, podemos sim, recomeçar e reconstruir até mesmo o nosso sentir. POR ONDE COMEÇAR Consciente de tudo que apresentamos até aqui, que tal recomeçar respondendo novamente: Você acredita que é amada(o) por quem você é, independente do que você faz ou do que os outros pensam sobre você? Vá mais fundo: Você se sente amada(o) independente do que tem, do cargo que ocupa ou de quanto dinheiro há na sua conta bancária? Você se sente confortável em ser quem é? Você se aprova? Se sua resposta for não em pelo menos uma das perguntas acima, é hora de começar a questionar o que te faz sentir assim. Responda: Você sente que precisa agradar para se sentir pertencente? O que te faz sentir assim? Esse sentimento tem fundamento onde? Isso te leva à alguma dor, ressentimento ou dúvida sobre você? Informação precisa de ação para se tornar conhecimento prático. Lembre-se: o entendimento racional não mudará seus sentimentos de forma automática. Depois de reconhecer, busque compreender-se melhor. Leva tempo, requer vontade de mudança, e, como toda ferida, as vezes dói enquanto cicatriza. Autoconhecimento é fundamental nessa jornada. Saber identificar seus sentimento

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Clube de Desenvolvimento Emocional para Pais e Filhos. clubeorekare.substack.com