Conteúdo disponível em texto e áudio Telas, filhos e redes sociais. Como dar conta? Esse tema está todos os dias em evidência. E é, hoje, um dos fatores mais determinantes quando falamos de saúde mental e de relacionamento familiar. Muita informação, regras novas, muitas dicas, alertas necessários, riscos reais… e também, alguns alarmismos que apostam no medo para reforçar os perigos do ambiente online. Mas a verdade é que como sociedade, salvo exceções, nos viciamos juntos em telas, redes e na dependência constante de conexão como base de vida prática e funcional. Agora, diante de estudos que escancaram o seu lado sombrio, muitas vezes invisível para a maioria de nós, é natural que seja difícil aceitar que não dá mais para seguir confiando no que nos trouxe até aqui. Até porque, existem outros caminhos possíveis. Caminhos que apontam para um futuro mais saudável e consciente. UMA HISTÓRIA QUE VALE A NOSSA REFLEXÃO Todos nós estamos sendo cobrados quanto a uma educação digital e midiática mais consciente. Mas, é dentro de casa que essa batalha é mais desafiadora. Por isso trago aqui a história de Gay Longworth e Roxy Spiegel, mãe e filha. Segue um breve resumo: Roxy ganhou seu 1º smartphone aos 13 anos. Sua mãe relata: “Administrar as horas de uso já era um desafio, imagine então o conteúdo. As desculpas eram sempre plausíveis o suficiente: preciso para a escola, preciso para planejar, preciso para dormir". O que sua mãe não imaginava era que Roxy, com 13 anos, recebeu no Facebook uma mensagem de um garoto de 17 anos, da sua escola, e pediu para continuar a conversa pelo Snapchat. Ele era mais velho, popular e atraente, e ela se sentiu lisonjeada. Em poucos dias, ele já estava pedindo fotos, e quando ela dizia não, ele parava de mandar mensagens. Quando ele sumia, Roxy se sentia rejeitada. Quando voltava, pedia de novo e dizia que se ela não mandasse fotos, contaria para todo mundo que ela era frígida e chata, e aí ninguém ia querer mais falar com ela. Quando ela mandava as fotos, nunca era o suficiente. Noite após noite, ele seguia exigindo fotos mais explícitas para continuar interessado. Um dia Roxy decidiu não ceder mais e parou de enviar fotos. Foi difícil. Ela precisou de muita coragem. E quando estava começando a se sentir melhor, outro garoto da sua escola entrou em contato pedindo fotos dela nua. Ela tentou ignorá-lo e aí, ele lhe enviou quatro fotos dela, nua, que tinha recebido do outro garoto. Então, o ciclo recomeçou, se tornou de novo insuportável, até que ela o bloqueou de tudo. O resultado? Suas fotos nuas foram enviadas a outros garotos. Na escola, seus amigos pararam de falar com ela, e, por vezes, garotos gritavam das janelas das salas de aulas pedindo fotos para eles também. A diretoria da escola acusou Roxy de enviar fotos nuas para os garotos, e disse mais: “que, felizmente, por consideração a ela, não chamariam a polícia”. Tudo isso fez com que Roxy, acreditasse que a culpa, realmente, fosse dela. Assim, aos 13 anos, após ser aliciada, coagida, chantageada e considerada culpada, ela teve um surto psicótico que quase a matou. Aos 14, ela achava que sua vida tinha acabado, que não tinha mais motivos para viver, e as vozes na sua cabeça diziam que ela era uma “vadiazinha estúpida” que havia arruinado sua própria vida. Tentativas de suicídio frustradas aconteceram, até que um dia ela fugiu. Desesperada, sua mãe acionou a polícia devido o seu desaparecimento. Contudo, ao entender o fato, o policial que a atendeu lhe explicou como era importante denunciar formalmente o que havia ocorrido na escola, para que Roxy entendesse que ela era a vítima. Porque vergonha mata. Roxy foi encontrada, precisou ser internada em um clínica psiquiátrica, e gradualmente seu tratamento foi surtindo efeito. Dos 15 aos 18 anos a solidão e a culpa ainda predominavam. Nesse período, a reconexão com sua mãe aconteceu através de cartas nas quais elas escreviam o que sentiam, pois ainda era difícil falar. O relacionamento delas, mesmo cheio de rachaduras, com muito amor e compreensão foi curado. Depois, as cartas se transformaram em livro. Por fim, Roxy, agora com 23 anos, transformou sua dor em ajuda ao criar o projeto Behind Our Screens - em tradução literal: por trás das nossas telas - porque ela sabe o que é sofrer em silêncio. Juntas, mãe e filha contam sua história no livro “When You Lose It: Two voices”, Ainda sem tradução para o português. O relato delas que trago aqui foi publicado via After Babel. SEGURANÇA DIGITAL Nesse momento há um movimento global que luta pela proibição do acesso às redes sociais para crianças e adolescentes. Países como Dinamarca, Itália, França e Alemanha variam um pouco a idade base, mas de forma geral, mantém o acesso a partir dos 13 anos com consentimento dos pais. 13 anos, mesma idade que Roxy recebeu seu 1º smarthphone. 13 anos, mesma idade em que ela declara que: “Quando aprendíamos sobre “segurança online” na escola, sempre parecia algo completamente distante da nossa realidade. Os professores não entendiam, e as informações pareciam muito distantes das nossas experiências. Os estudos de caso pareciam extremos e, sinceramente, eu achava que jamais seria a pessoa tola o suficiente para acabar nessas situações. Não havia a menor possibilidade de isso acontecer comigo”. Roxy Spiegel, Assim como com a Roxy e sua família, a maioria dos pais e adolescentes que passam por situações similares também nunca acreditaram que algo assim poderia acontecer com eles. No Brasil, a partir de 2026, o acesso as redes sociais para menores de 16 anos passa a depender da vinculação a um responsável e de mecanismos de proteção mais rígidos. Com isso, as recomendações serão as seguintes: * A partir de 12 anos: aplicativos de mensagens (como WhatsApp), desde que os pais possam controlar as funções e o uso; * A partir de 14 anos: chatbots de IA generativa, como ChatGPT, e marketplaces; * A partir de 16 anos: redes sociais, aplicativos com compartilhamento de localização ou coleta de dados, e plataformas que utilizem algoritmos de engajamento contínuo; Até o momento recomendações. Isso ainda não está imposto por lei. A DECISÃO DA AUSTRÁLIA Neste momento, a decisão da Austrália em ser o primeiro país do mundo a aprovar uma lei federal de banimento total das redes sociais para menores de 16 anos, sem opção de consentimento dos pais para acesso mais cedo, é algo inédito e que está dando muito o que falar. A lei australiana passa a valer a partir desta quarta-feira, dia 10 de dezembro. E a plataforma que não cumprir as novas diretrizes, estará sujeita a multas de quase 50 milhões de dólares australianos (no câmbio de hoje, algo em torno de R$ 170 milhões). Com isso, as plataformas passaram as duas ultimas semanas enviando alertas para todas as contas que acreditam serem de menores de 16 anos, informando: “Devido às leis da Austrália, em breve os menores de 16 anos não poderão mais usar as redes sociais”. Até agora, o governo australiano bloqueou dez plataformas: Facebook, Instagram, Snapchat, Threads, TikTok, X, YouTube, Reddit e as plataformas de streaming Kick e Twitch. Está no radar a expansão para jogos online; o que já fez com que Roblox e Discord adotassem verificações de idade em alguns recursos. O Governo Australiano entende que rolagem, conteúdos curtos e inapropriados são danosos, e, que, ao impedir comunicação via redes sociais atuará contra interações de risco. Acesse aqui a Matéria completa ou assista o vídeo abaixo. Reações contra e à favor ganharam relevância e, nesse meio tempo, dois adolescentes decidiram processar seu Governo. Um deles, Noah Jonas, de 15 anos, alega: “Em vez de excluir adolescentes das redes sociais, até porque nós não somos o problema, a gente deveria estar excluindo as coisas ruins das redes sociais, como o bullying online, os predadores e os conteúdos explícitos”. Do alto dos seus 15 anos, Noah acredita no que argumenta porque sua imaturidade não permite que ele perceba algo fundamental: a ausência de predadores ou de conteúdo explícito não muda o fato de que os algoritmos foram criados para capturar e reter nossa atenção. E, assim, independente do tipo de conteúdo consumido, o próprio formato dessas plataformas — veloz, fragmentado, incessante — já é suficiente para produzir perdas cognitivas, impactos mentais e danos comportamentais. Então, como fazer alguém de 15 ou 10, 11, 12, 13 ou 14 anos, que há anos tem seu próprio celular, compreender aquilo que até muitos adultos não conseguem enxergar? REGRAS Nesse sentido, a psicóloga Jean M. Twenge acaba de lançar o livro 10 Regras para Criar Filhos em um Mundo de Alta Tecnologia, no qual ela defende que estabelecer regras é a melhor solução para lidar com esse momento digital. Em seu artigo publicado na Generation Tech, Jean M. Twenge, escreve: Passei a última década focada principalmente em duas coisas: pesquisar o impacto negativo do tempo gasto em frente às telas na saúde mental dos adolescentes e criar três filhos, da infância à adolescência. Como muitos pais, tenho medo pelos meus filhos e me sinto frustrada por não conseguir protegê-los completamente. Mas também estou cada vez mais convencida de que esse problema tem solução. A solução são regras – não regras vagas ou ambiguas, não regras do tipo “cada criança é diferente”, não regras ludicas do tipo “nada de tecnologia”, não regras do tipo “vamos apenas conversar com as crianças”, mas sugestões concretas para adiar e limitar o uso de dispositivos, permitindo que seus filhos participem do mundo moderno da tecnologia. Conversar simplesmente não basta. Crianças precisam de regras porque são crianças. Elas simplesmente não têm o mesmo discernimento ou autocontrole