Tulices

Tullio Dias

Uma newsletter cheia de humor sarcástico, autodepreciativo e sincero sobre a vida. Crônicas de cultura pop, esquisoterismo e empreendedorismo. tulliodias.substack.com

Episodes

  1. 10/14/2025

    E aí, gatinha?

    Se você ligar a televisão no Discovery Channel para assistir a um documentário sobre os homens, certamente encontrará certos clichês de comportamento da espécie. Coisas como coçar o saco em público, não lavar a mão depois de mijar ou virar o pescoço para trás (como se fosse a Reagan, de O Exorcista) sempre que passam por uma mulher são características típicas do comportamento masculino. Se fosse para comparar com um animal, a melhor opção seriam os pombos. Pode reparar. Na maioria das vezes que um homem encontra uma mulher atraente (ou seja, todas elas), rola aquela mudança de postura. Estufa o peito (independente do chassi), muda o tom da voz e mostra um pouco da tão invejada autoestima do macho hétero. A pior parte é que a maioria nem percebe que faz isso. Eu mesmo só fui me dar conta quando meu amigo Thiago fez questão de me zoar — na frente de uma garota aleatória que estava na fila do Burguer King que achou graça e começou a rir. Aqui é preciso deixar claro que ela não estava rindo comigo, mas de mim. Humilhante assim. Talvez seja até mais constrangedor que buzinar para mulheres desconhecidas na rua. Eu nunca entendi essa. É herança do calhambeque do Roberto Carlos? Alguma mulher realmente vai dar atenção para um motorista de Uno? Reflexões a parte, hoje eu vou compartilhar porque nunca fui o cara que mexia com mulheres (e não foi porque nunca aprendi a fazer “fiu fiu”). Mas antes, preciso confessar que passei o domingo chorando vendo um documentário sobre Jeff Buckley — o que já diz muito sobre o tipo de homem que me tornei versus o que eu queria ser aos dez anos de idade... Domingo, 12 de outubro, dediquei minha tarde para assistir ao documentário It's Never Over, Jeff Buckley. Bem. Eu sabia que seria pesado e iria mexer demais comigo, mas não imaginava que seria tão pesado assim. Chorei a porra do filme inteiro. Primeiro porque o doc é lindo. Segundo porque é o Jeff Buckley. Terceiro porque eu faço essas coisas. O problema foi descobrir que o choro me deu crise de sinusite. Acordei com os olhos e a bochecha doendo. Ficar velho é uma desgraça. Nem me emocionar em paz posso mais. O doc não está disponível em nenhum streaming no Brasil por enquanto. A review sem spoilers está no Cinema de Buteco. Agora sim eu posso compartilhar meus motivos para nunca ter mexido com garotas aleatórias na rua. Tenho certeza que você vai rir do mesmo jeito da menina do Burguer King. Talvez eu seja mesmo um palhaço. Tudo começou em 1995. No alto do poder de observação que é possível ter aos dez anos de idade, identifiquei que um coleguinha chamado Marcos tinha um jeito especial com as garotas. Ele já tinha beijado mais vezes que fez aniversário na vida. Ele era dono de um harém da pré-adolescência. Éramos tipo versão genérica um do outro. Magrelos, baixinhos e com o mesmo corte de cabelo de Playmobil. A maior diferença era de atitude. Ele tinha, eu não. Mas como eu queria dar meu primeiro beijo na boca, fui pedir ajuda para o Marcos. “Cara, como você faz? Me ensina!”. Com dez anos de idade, o Marcos exalava confiança. Ou fingia muito bem. O que é praticamente a mesma coisa. Lembro dele sorrir enquanto explicava seu segredo. “É muito fácil. Você só precisa chegar na menina e falar ‘e aí, gatinha?’ e pronto.” Foi uma revelação estranha. Ao mesmo tempo frustrante e surpreendente. Acho que eu esperava algo diferente, quase místico. Descobrir que tudo se resumia a “e aí, gatinha?” parecia simples demais, mas eu tinha sede de conquista, sem nem ter ideia que beijo envolvia colocar a minha língua dentro da boca de outra pessoa. Marcos estava perto de mim quando escolhi a minha “gatinha”. Marcos me incentivou a chegar nela. Marcos disse que ela realmente era muito gatinha. Cheguei perto de uma loirinha e soltei o Avada Kedavra da sedução. Do jeito que o Marcos falava, era quase como um feitiço e nenhuma garota resistiria. “E aí, gatinha?” Com dez anos de idade, eu não tinha ideia do quanto falar aquilo era impactante. Me senti otimista. Me senti confiante. Eu seria o novo pavão mirim do pedaço. O menino que encantava garotas. Ou pelo menos foi como me senti durante os poucos segundos entre terminar de falar e a reação da garota. Enquanto Marcos usava suas armas para salivar, eu fiz a menina começar a chorar. Talvez ela tivesse alguma fobia de gatos. Nunca vou saber. O fato é que aquela criatura desgraçou a gritar e chorar muito na minha frente. Tudo que eu consegui fazer foi correr para o mais longe possível sem entender porra nenhuma. De repente fui cercado por um grupo de pirralhos. Eles me carregaram e arrastaram até a diretoria. No dia seguinte, os meus pais foram chamados na escola. Os pais da menina também. E ela chorou de novo quando me viu. E chorava todas as vezes que me encontrava no recreio. Precisei evitar sair da sala no recreio. Ou ficar escondido perto dos lugares onde o Marcos ficava com suas peguetes. A verdade é que peguei dois traumas de uma vez. Não apenas nunca ousei mexer com qualquer menina desconhecida, como evitei ao máximo lidar com loiras. Acabei descobrindo que meu destino era mais próximo do Jeff Buckley que poderia imaginar: emocionalmente confuso, mal compreendido, e com talento pra fazer gente chorar — de rir da minha cara. Ah. Também aprendi uma lição valiosa: nunca confiar em nenhum Marcos. Quer contribuir com a Newsletter? Além das assinaturas pagas no próprio Substack, você pode adquirir qualquer um dos meus ebooks. Todos os cinco livros estão disponíveis na Amazon.Três são técnicos — voltados para marketing digital e empreendedorismo.Dois são de ficção — pra quem gosta de histórias que parecem mentira (mas não são). Também faço consultoria de Instagram.Te ajudo a entender sua conta, parar de postar qualquer coisa e transformar seu feed num projeto com direção estratégica de verdade. 👉 Reserve um horário aqui. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit tulliodias.substack.com

  2. 09/30/2025

    Nem peixe?

    Fui assistir Uma Batalha Após a Outra (leia a análise) semana passada. Acho incrível quando acontece de em um intervalo curto de tempo, conferir produções fora de série. Nesse intervalo de duas semanas também vi Amores a Parte, A Vida de Chuck, Sirat e O Agente Secreto. Todos estarão na minha lista de melhores filmes de 2025 lá no Cinema de Buteco. Ainda não defini meu ranking oficial, mas vou deixar uma pré-lista de indicações especialmente para os assinantes da newsletter. 10- Serra das Almas (Netflix)9- Warfare (Prime)8- Amores a Parte (em breve no streaming)7- Homem com H (Netflix)6- Sirat (sei lá quando estreia)5- O Agente Secreto (estreia em novembro)4- Acompanhante Perfeita (HBO Max)3- A Vida de Chuck (em breve no streaming)2- Reformatório Nickel (Prime)1- Uma Batalha Após a Outra (cinema) É a primeira vez, desde quando iniciei o Buteco em 2008, que meu top 10 inclui três produções nacionais. Sem bairrismo: são filmes espetaculares mesmo. Como está o seu ranking? Uma pesquisa IBOPE de 2018 indica que 14% da população brasileira se declara vegetariana. Outra pesquisa mais recente, desta vez do Datafolha, revela 7% da população como vegana. Você sabe a diferença? Vegetariano: não come carne, mas consome ovo, leite, queijo etc. Vegano: não consome nada de origem animal. Em 2013, decidi parar de comer carne. Dependendo da pessoa (e do meu humor) eu conto duas histórias diferentes para explicar porque adotei esse estilo de vida. A versão engraçada: prometi que pararia de comer McFish se o Galo ganhasse a Libertadores. A maioria das pessoas fica incrédula — com aquela expressão que somente os desprovidos de entender um amor conseguem ter. A versão oficial: depois de ver o documentário Blackfish, sobre as baleias no Sea World e seu dever cívico de assassinar os responsáveis por transformar seu cativeiro em espetáculo. Fiquei tão impactado com o doc que tatuei uma baleia no meu antebraço na época em que abandonei as carnes. Conto qualquer uma dessas histórias porque aprendi que, nessa pauta, o que incomoda não é minha dieta, é o desconforto que ela causa em quem nunca parou pra pensar no próprio prato.Até porque, ainda é socialmente aceito fazer piada com o estilo de vida dos outros. Especialmente quando é diferente do seu. Depois de quase quinze anos, aprendi a criar silêncios incômodos — antes aliviados com sorrisos que não existem mais — quando perguntam “nem peixe?”. Peixe é verdura, por acaso? Particularmente, não acredito em limites para piadas. Qualquer coisa pode ser engraçada (e também precisa estar preparado para lidar com as consequências do que é dito). O problema é quando tentam te diminuir em comentários disfarçados de “piadas” e se você devolve a “brincadeira”, te chamam de radical.Tipo quando alguém fala: “vegetariano é aquela pessoa que olha para um churrasco e reclama de quantas vidas de alface foram extintas por essa farofinha?”, e você responde: “e carnívoro é aquele sujeito que julga vegetariano como se fosse uma seita, mas passa o sábado inteiro lambendo osso e justificando com ‘instinto primitivo’, quando seu maior instinto hoje é pedir iFood e evitar lavar a louça.” Não tem jeito. Nesse assunto é necessário muito controle para não falar tudo que penso e correr o risco de ser igual a todo extremista defendendo a sua causa/crença. Nada contra discutir e conversar com quem não está no jogo do deboche gratuito. Ou não repete as mesmas piadas de tio do pavê enquanto te oferece um pedaço de bicho morto no prato. Tanto o Michel, em Edifício Alvorada, quanto o Thiago, em O Almoço de Natal, são vegetarianos. Esse é um tema recorrente em tudo que escrevo. Não ligo de criar personagens extremistas. Assim como o terrorismo revolucionário é uma esperança em Uma Batalha Após a Outra, uso a literatura como veículo para tentar criar mais consciência nas pessoas. Ou só deixar os sócios da Friboi irritados. Uns sete, oito anos atrás, inventei uma estratégia para gerar desconforto inconsciente. Não uso mais a palavra “carnívoro”. Simplesmente é “não-vegetariano”. Parece que o jogo mudou, b***h. É gostoso quando você prova do mesmo prato que serve para os “não-cristãos” ou “não-brancos” ou “não-héteros"? Não ser o padrão é desconfortável? É uma estratégia passiva-agressiva. É sutil. E incomoda. Se depois de tantos anos ainda acham engraçado perguntar se eu como peixe, tudo bem. Eu rio também. Não da piada, mas da naturalidade com que você mastiga cadáveres. Bom apetite! Quer contribuir com a Newsletter? Além das assinaturas pagas no próprio Substack, você pode adquirir qualquer um dos meus ebooks. Todos os cinco livros estão disponíveis na Amazon.Três são técnicos — voltados para marketing digital e empreendedorismo.Dois são de ficção — pra quem gosta de histórias que parecem mentira (mas não são). Também faço consultoria de Instagram.Te ajudo a entender sua conta, parar de postar qualquer coisa e transformar seu feed num projeto com direção estratégica de verdade. 👉 Reserve um horário aqui. PS: Defender vegetarianismo tem um impacto muito mais forte/negativo que falar de política, religião, transar de meia ou futebol. Mas sou kamikaze por natureza. Foda-se. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit tulliodias.substack.com

  3. 09/23/2025

    Molho de tomate

    Comemorei três anos de casamento no último dia 21 de setembro. O prêmio, além da esposa, foi jantar no Gennaro, um restaurante italiano lotado — mas com tomates realmente gostosos. Eu tenho uma coisa com tomates. Nas duas vezes que jantamos no Est! Est! Est!, fiquei absolutamente apaixonado pelo tomate. É o melhor que já comi na minha vida. Uma pena que cada visita ao restaurante seja um bônus a mais na conta da minha gerente do Itaú. A cozinha trouxe duas entradas para a gente (não foi presente, diga-se de passagem), o que dependendo do ponto de vista é um problema. Afinal, quero reduzir meu panceps e economizar. As duas coisas estão diretamente conectadas com o controle da gula e evitar restaurantes indianos, mexicanos e/ou italianos. Mas como você resiste a entradas italianas? Foram quatro brusquetas surreais e depois vieram uns pães com queijo e nozes. Preferi a brusqueta pelos tomates. Natalia preferiu o treco com as nozes. Depois da entrada, pedi um ravioli de muçarela de búfala. A primeira impressão foi que enviaram pouca comida. Acho que queriam ter papel ativo na minha dieta. Mas esses pratos gigantescos dos restaurantes italianos enganam a gente. Senti como se fosse a porra de uma tijela de açaí de 500 ml, só que com molho de tomate e ravioli de queijo. Era muita comida. Natalia pediu um macarrão com cogumelo do cheiro forte. Não ousei descobrir o gosto daquilo, especialmente porque o cheiro não era nada convidativo. Quando você pede um prato com shitake, é melhor não irritar o garçom ou o cozinheiro. Ou você não vai conseguir diferenciar o aroma característico de uma possível mijada remunerada de um funcionário irritado. A comida estava muito boa. O molho de tomate era "real”. Sem essas porcarias industrializadas que a gente insiste em chamar de molho. Não sei você, mas queria encontrar um bom lugar para comprar tomates e preparar molhos tão bons quanto os desses mafiosos. E deu para pagar tudo sem muito choro. Se fosse no Est! Est! Est!, a conta teria ficado 700% mais alta — mas aquele tomate... Três anos de casamento. É muito tempo. Especialmente para quem nunca teve um relacionamento que durasse tanto sem qualquer interrupção. Ou pausas. Ou tempo. Me sinto o Michael Phelps dos relacionamentos. Pela minha experiência, o maior desafio de um casamento é a questão financeira. Desde que iniciamos nossa história juntos, passei por três empregos: uma empresa fechou, a outra descobriu que não precisava mais de redatores em um mundo de IA, e a terceira era o bingo da cultura tóxica. Natalia segura as contas porque eu sou um fodido. O amor é cego e filantrópico. Às vezes me pergunto se ela tem consciência que está pagando todos os pecados das vidas passadas. Ou então, eu devo ser muito engraçado, decidido, parceiro e bom de cama. Uma dessas coisas, definitivamente, é mentira. (Você sabe qual delas!)Talvez ela continue aqui pelo cinema e música de graça. O plano é dar um jeito de ter jantar e viagem de graça também. O comunismo venceu. Ou porque ela saiba que logo vou ganhar na loteria. Pode ser o plano de investimento financeiro dela. O que é peculiar, já que o perfil de investidor dela é bem conservador. Justo no amor, ela adota um perfil agressivo. Gosto de ficar casado porque o Steven Tyler não mentiu quando escreveu: “life is a journey not a destination”. Cada novo dia é uma forma de reinterpretar aquela pessoa, acompanhar sua evolução, suas frustrações, suas alegrias, suas conquistas etc. A gente não consegue isso em relacionamentos porção-única. O gostinho da novidade é meio shitake, no final das contas. E eu não gosto de cogumelos. Nem que mijem em mim. Você sabe o que eu gosto… Molho de tomate. Um bom molho de tomate não fica pronto em cinco minutos (quem fala isso, não sabe o que está fazendo — e provavelmente arruinou bons tomates). Precisa de calor para apurar o sabor, deixar a mágica dos temperos acontecer, jogar tudo no liquidificador etc. É como um casamento. A cada dia fica mais profundo e consistente. E o ingrediente secreto da receita é o tempo. Você precisa misturar bons ingredientes. Cebola, cenoura, pimentão, manjericão, alho… e tomates. Você não precisa ter dedo verde para entender que o cultivo, cuidado e preparo desses alimentos são bem diferentes. A mesma coisa acontece quando um perfil investidor conservador se derrete por um louco agressivo. Quando fogo se mistura com água. Quando uma tartaruga se apaixona por um coelho. E precisa de talento para fazer a mistura dar certo. O sabor é afrodisíaco. Também posso dizer que um bom molho de tomate nunca é uma receita finalizada. Sempre há como inovar, mudar uma coisa ou outra, trocar a ordem (exceto a parte das cebolas com açafrão e páprica. Essa parte é sempre o começo de tudo) e adaptar a receita para o momento. A gente sabe reconhecer o outro pela energia, na vibração, no olhar, nas palavras não ditas. Às vezes, não tem cenoura ou cebola ou pimentão. Ou tudo necessário para fazer um molho. Nesse caso, que bom que existe o sócio favorito da minha fatura de cartão de crédito: iFood. Por fim, quando acontece o raro caso de sobrar molho de tomate, afinal, pessoas casadas têm fome, você guarda, congela e usa de novo no outro dia (especialmente quando você é pobre). Três anos ensinam a conservar amor, cuidado, paciência e parceria. Acredite quando digo: não tem nada melhor no mundo que um bom molho de tomate. Cuide do seu molho. Faça mais molho. Quer contribuir com a Newsletter? Além das assinaturas pagas no próprio Substack, você pode adquirir qualquer um dos meus ebooks. Todos os cinco livros estão disponíveis na Amazon.Três são técnicos — voltados para marketing digital e empreendedorismo.Dois são de ficção — pra quem gosta de histórias que parecem mentira (mas não são). 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  4. 09/16/2025

    Armas Salvam Vidas SQN

    Um influente político norte-americano de direita foi assassinado covardemente na última quarta-feira e a internet só fala desse assunto. Afinal, o que isso muda na vida de quem vive no Brasil?O acontecimento ofuscou até mesmo o curioso cenário atual de presidente ex-presidiário vs ex-presidente presidiário no Brasil. A maioria nunca tinha ouvido falar de Charlie Kirk. E tudo bem — ninguém é obrigado a consumir lixo estrangeiro fora os filmes da Marvel. Mas eu explico. Ele era uma versão ianque do Nikolas Ferreira com mais capacidade de falar merda e de desafiar seu presidente — dizem que a relação de Trump com Kirk azedou por conta da insistência do falecido em investigar o caso Epstein. O seu legado agora é enaltecido por quem nunca tinha ouvido falar dele e seu arsenal de ideias radioativas. Dizer que ele morreu por suas ideias seria um exagero. Ele morreu apesar delas. É claro que não se justifica a morte de ninguém — mas também não se canoniza o vilão só porque virou mártir. "Nunca é certo justificar o extermínio em massa de pessoas sob o pretexto de que elas são indesejadas. Foi assim que chegamos a Auschwitz, o maior horror do século XX". Em seguida, questionado se estava comparando a interrupção da gravidez com o Holocausto, ele afirmou: "Absolutamente, estou. Na verdade, é ainda pior." — Via UOL Kirk não gostava da palavra “empatia”. Nas palavras dele: "um termo inventado da nova era que causou muitos danos". Vou pular a parte dele falar que se a filha de 10 anos fosse estuprada e engravidasse, ela teria a criança ou seus pensamentos sobre a Lei dos Direitos Civis de 1964. Ele provavelmente defendia o racismo inverso. Ele também tinha um lado profeta, como na sua defesa das armas de fogo. “Acho que vale a pena ter o custo, infelizmente, de algumas mortes por armas de fogo a cada ano, para que possamos manter a Segunda Emenda e proteger nossos outros direitos dados por Deus. Isso é um acordo prudente. É racional…” Me chamaram a atenção por “supostamente” celebrar a morte do sujeito. Acho que existe uma grande diferença entre comemorar e não se importar. Podemos lamentar o acontecimento e ser indiferente com a vítima. Complexo e insensível? Calma. O crime foi covarde. Em hipótese alguma podemos concordar ou apoiar a violência, seja ela contra quem for. Ter esse pensamento não precisa fazer de ninguém hipócrita de lamentar por Charlie. Segundos antes de ser atingido, o sujeito, literalmente, estava com o microfone na mão mentindo sobre pessoas trans serem responsáveis pela maior parte dos tiroteios em massa nos EUA. No caso de Charlie Kirk, sua grande mensagem foi “armas salvam vidas”. Ninguém vai discordar que ele era um péssimo embaixador da própria causa. De longe, a gente observa as consequências do crime político ou de vingança dos defensores da empatia. O responsável por beneficiar o PCC a partir de fake news, por exemplo, iniciou uma caça às bruxas querendo que donos de empresa demitam funcionários de esquerda. Como não bastasse, também incentivou a violência: “seja a extrema-direita que eles tanto tem medo.” Mas por que um assassinato político norte-americano deveria preocupar brasileiros? Porque os mesmos padrões de incitação e polarização se replicam aqui. Os nervos estão aflorados após a condenação a 27 anos e 3 meses de prisão do genocida, que muitos chamam de perseguição. Cazuza dizia “eu vejo o futuro repetindo o passado”. Estamos em 2018 de novo? É o mundo invertido dos presidentes brasileiros? Isso me deixa confuso. Quando um irresponsável incita a sua audiência assim, ele não está defendendo seu país. É apenas o ódio e a desordem falando. Assim como o finado Charlie, Nikole não tem a mínima ideia do que é empatia e muito menos se preocupa com as consequências de mais violência. Meu receio é que em breve a gente não precise mais viajar para a Disney para se sentir nos EUA. Bastará ir em qualquer evento público, em escolas ou universidades, e correr o risco de descobrir o que a cultura deles têm de pior. “Você está exagerando… Não é bem assim.” Essa polarização não é abstração teórica. Ao questionar publicamente a ironia da morte de Kirk em uma publicação no Instagram, experimentei em pequena escala o mesmo padrão de violência verbal que ele ajudou a tentar normalizar.Tudo que fiz foi perguntar: “Qual foi a grande mensagem dele? Armas salvam vidas?” e tive que fazer um grande exercício de controlar meu sarcasmo para não ajudar (mais) o autor do post original. Uma pergunta pertinente, especialmente porque “armas salvam vidas” é a mensagem do cara. Recebi mil ofensas. Algumas poucas eram engraçadas, embora a maioria escancarasse o baixo nível do brasileiro médio. Não existiu espaço para discussão. Foram direto para ataques e ameaças de morte, como se fosse ficar tudo bem cometer crime em público. Dizem que não devemos discutir política, religião e futebol. Isso é uma forma de não expor a incapacidade natural de ouvir e respeitar quem pensa diferente. Não existe evolução se a gente vive na zona de conforto. Não discutir política é exatamente o que fez existir um ex-presidente (futuro) presidiário e seus filhotes, como o Nikolas e outras aberrações. A seletividade moral salta aos olhos. Quando Leo Lins foi condenado a prisão por piadas escrotas, muitos dos que agora se doem por Charlie defenderam a liberdade de expressão com unhas e dentes. Na época, defendi o direito de fazer piada — e fui chamado de nazista. Hoje, justiceiros atacam quem ironiza que Kirk não desviou de balas como desviava de perguntas. E, sim, também é curioso ver a esquerda repetindo o que antes chamava de absurdo.Queria acreditar que as pessoas aprenderam que o humor não existe apenas para ser válvula de escape, mas como ferramenta para causar desconforto e reflexão. Mas é só mais um episódio da guerra de direita x esquerda. No fim, nem esquerda, nem direita desviam das próprias contradições, enquanto a maioria das pessoas apenas tenta desviar das balas — algumas de chumbo, outras de ignorância, todas disparadas em nome de alguma causa ‘maior’. PS: Descobri a existência do termo “Whataboutismo”. Basicamente, é quando você fala um monte de coisa para alguém de direita e a pessoa responde “e o Lula?” de forma totalmente aleatória e sem sentido. Ou seja, responder uma acusação com uma contra-acusação. Foi difícil ignorar o massacre em Gaza como um ponto que realmente merece preocupação e lamentação. E fracassei miseravelmente nisso agora. Quer contribuir com a Newsletter? 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  5. 09/09/2025

    Pequenos Delitos (Parte III): O Garfo

    Você escuta casos de furtos e roubos de carros, motos, cônjuges, dinheiro etc. Isso é o tipo de roubo"normal". Entrar no cinema sem pagar ou ludibriar garçom é diferente, mas pouco radical. Uma vez vi um programa da Márcia com uma mulher que roubava a água da salsicha de cachorro-quente da vizinha. Isso sim é um roubo radical. Meu último crime aconteceu em 2016, quando eu finalmente havia conseguido um novo emprego desde que o governo Dilma começou com minha demissão. Ninguém mandou trabalhar para o outro candidato, não é verdade? Saí de uma eleição presidencial para uma disputa municipal. O desafio era muito menor, mas longe de ser mais simples. Primeiro porque me colocaram para um trabalho de campo. Queria ficar por conta das táticas ninjas de procedência pouco ou quase nada éticas, porém me escalaram para conversar cara a cara com os deputados e vereadores. Era um caos porque 90% deles viviam no século passado. Nenhum tinha rede social. Não entendiam porra nenhuma do que era Instagram, Facebook etc. Pelo menos arrumei emprego/freela para algumas pessoas. Dentre as atividades mais loucas, estava uma visita na sede de uma das maiores torcidas do Cruzeiro. Eu sou atleticano. Considerei não ir, mas lembra quando falei que gente jovem faz merda? Com 30 anos de idade, eu ainda fazia muita merda. Além disso, eles não iriam matar um enviado de um parceiro político. Não me mataram, pelo menos. Brincadeiras a parte, foi quando conheci o Fubá. Ele é o torcedor do Cruzeiro que fica de roupa amarela de costas para o campo. Trocamos uma ideia, ele descobriu que eu era atleticano só de olhar para a minha cara, e encontramos algo em comum para reclamar: Globo, Flamengo e como o Corinthians tirou dois títulos de Atlético e Cruzeiro. Eles estavam fazendo churrasco na sede, mas eu já era vegetariano e fiquei apenas na cerveja. Cerveja remunerada, diga-se de passagem. Depois foi o baseado remunerado, balançando o ombrinho observando os preparativos da torcida para o jogo que aconteceria logo mais tarde. Até me convidaram para ir junto. Tive que recusar porque precisava voltar para o QG da campanha e trabalhar a tarde toda, mas ninguém insistiu. Afinal, estavam apenas sendo simpáticos de convidar um atleticano. Mal sabia que se eu tivesse ido, talvez teria evitado cometer um crime… Antes da visita de campo, dos líquidos e da fumaça, deixei minha marmita na geladeira do QG. Quando voltei, óbvio, adivinha quem atacou de novo? A velha amiga larica. Sempre ela. Maconha pode deixar a gente de boa, mas acabei de perceber que ela foi o elemento em comum para dois crimes. Ela só não é culpada porque existe outro elemento em comum em todos os crimes: falta de dinheiro. Peguei um copo plástico para tomar café e deixei meu almoço esquentando no microondas. Foi só então que percebi a situação. Eu tinha a comida, mas não tinha como comer a comida. Esqueci a porra dos talheres em casa. E acredite se quiser, mas não existiam garfos ou facas no escritório. Esses políticos economizam até nisso. Chapado (de fome) fiquei com a marmita na mão e tentando entender como resolver o problema sem precisar apelar para comer arroz e feijão com as mãos. Foi quando bateu (a ideia). No dia anterior, eu fui lanchar em um mercado super inflacionado da cidade. Vamos chamá-lo de Azul-grama (risos). Eles tinham garfos e facas lá. Fechei a marmita e saí do escritório para uma caminhada desintoxicante até o mercado. Quando cheguei, não fui para o corredor de talheres. Fui para o restaurante, pedi um pão de queijo e um garfo. Paguei pelo pão de queijo e guardei o garfo no meu bolso. Fui embora sorrindo com a minha coragem e ousadia. Um pequeno passo para o garfo. Um grande passo para minha ficha criminal. Eu era um rapaz de classe média perigoso saindo do Azul-grama com um garfo furtado escondido no bolso. Ei, esfihas! Ainda estou de olho em vocês. Me senti muito incrível e vitorioso (na minha playlist mental tocava “We Are the Champions", do Queen) enquanto esquentava a marmita novamente e, enfim, pude me alimentar adequadamente. Eu era um ladrão alimentado. Pronto para ter horas da minha vida roubadas por um candidato mequetrefe que não investiu nem em garfos e talheres no QG. Lavei o garfo, enfiei ele no bolso, fui para a nossa sala e compartilhei toda a aventura com a minha colega Carol. Pois é. Eu era um jovem. Jovens falam demais. Jovens fazem… Ao invés de guardar segredo, tive que abrir a boca para a pessoa mais sacana da equipe — e por isso mesmo, uma das poucas que eu gostava de conversar. A Carol ficou séria. “Mas… você furtou um garfo no Azul-grama? Eles têm câmeras, cara. Você é muito burro. Imagina quando os seguranças chegarem aqui e falarem com a coordenadora? O que você acha que ela vai fazer com você? E tá esquecendo que o escritório dos concorrentes é pertinho do nosso? A gente perdeu a eleição por sua causa. Isso foi muito idiota.” Dividido entre acreditar no que ela falou e lembrar o quanto ela tinha um senso de humor ácido, escolhi acreditar. Minha consciência ficou pesada. “Porra, Carol! Eu não quero ser preso e perder outra eleição. Não vai ficar bem no meu currículo ser o cara que fez um muquirana perder a prefeitura porque roubou um garfo no Azul-grama! Vou lá devolver.” Carol chegou até a me ameaçar. “Se você não devolver, eu vou te denunciar, seu ladrãozinho!” Com o cu na mão, voltei correndo para o mercado. Cheguei no restaurante, agachei no chão perto de um balcão e quando me levantei, falei que tinha achado um garfo no chão. O moço me agradeceu e seguiu a sua vida, levando meu parceiro de aventuras embora. Quando voltei, aquela filha da puta tinha contado tudo que fiz para algumas pessoas e estava chorando de rir da minha cara. Ela perguntou que porra eu tinha na cabeça de ter acreditado nela e ter devolvido o garfo, afinal, alguém poderia precisar um dia. E é isso. Essa foi a minha vida criminosa em três atos. Meu último roubo foi o coração da minha esposa, mas isso ninguém vai denunciar — exceto ela mesma, claro. Quer contribuir com a Newsletter? Além das assinaturas pagas no próprio Substack, você pode adquirir qualquer um dos meus ebooks. Todos os cinco livros estão disponíveis na Amazon.Três são técnicos — voltados para marketing digital e empreendedorismo.Dois são de ficção — pra quem gosta de histórias que parecem mentira (mas não são). Também faço consultoria de Instagram.Te ajudo a entender sua conta, parar de postar qualquer coisa e transformar seu feed num projeto com direção estratégica de verdade. 👉 Reserve um horário aqui. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit tulliodias.substack.com

  6. 09/02/2025

    Pequenos Delitos (Parte II) — Larica no Habibs

    Quer dizer que você gostou de me ver admitindo algumas leves transgressões… Isso diz muito sobre nós. Se rir dos meus delitos te fez bem… talvez eu não seja o único criminoso aqui, querida(o) cúmplice. Recebi mensagens com comentários sobre a minha confissão de semana passada. Esperava ser recriminado, mas descobri que meu delito é mais comum que eu imaginava. É o famoso “quem nunca", não é mesmo? Mas agora o papo vai ficar sério. Te desafio a rir desta história. Te desafio a não querer abrir o iFood depois desta história. Respire fundo e vem viajar comigo para o distante ano de 2007, quando o mundo ainda tinha cores e eu era o baixista de uma banda cover de Muse. Na verdade, a gente já tinha canções autorais porque pelo menos em uma coisa o Lobão tem razão: não existe a menor graça em gozar com o pau do outro. A Amaturus era um quarteto. O Diego cuidava da voz e guitarra. Minha história com ele começou de um jeito engraçado uns seis, cinco anos antes: no ponto de ônibus saindo da escola, começamos a falar de futebol em uma época que nenhum dos dois realmente gostava do assunto. Viramos melhores amigos, tivemos nossas primeiras bandas juntos etc. Hoje ele é um advogado DJ fodão — e eu o enrolei seriamente quando quis montar um novo projeto ano passado. A bateria ficava por conta do Alexandre. No nosso primeiro encontro/ensaio, a gente tinha um alto-falante e fomos no McDonalds da Savassi mexendo com todo mundo na rua e cantando o rap da pamonha. Ele era um moleque com 17, 18 anos, com sua primeira banda e deu o “azar” de encontrar com gente muito louca das ideias. O Xandy ri desse dia até hoje. Por fim, o teclado era da Isabella. Ela era a pessoa quieta e séria da banda. Enquanto a gente tinha um sonho, ela só queria se divertir fazendo o que ela curtia. Talvez seja relevante adicionar o detalhe que a gente namorava. E que essa história tem uma conexão com o meu amigo de cinema 0800, mas hoje não quero falar sobre romances que deram muito errado. Fica para uma próxima. Pronto. Agora posso continuar a minha confissão. Eu não bebia muito em 2007. Também não ficava chapado com frequência. Nunca fazia nenhuma das duas coisas antes de um show (fosse para assistir ou tocar, gostava de ficar limpo — não sei o que tinha na cabeça, sinceramente). De vez em sempre, porém, o pós-show era um caos. Nesse dia em especial, a gente tinha terminado uma apresentação bem legal que tinham mais pessoas além das pessoas das próprias bandas que tocaram, e queimou um perto do carro do Diego. Não demorou para eu, Diego, Xandy e o amigo Henrique começar a tossir pra cacete de tão forte que era aquele cigarrinho do capeta. A Isabella caiu fora porque o bagulho dela era cachaça e cerveja. Natural para ela só mesmo o desprezo por quem conversa com poste ou fica rindo olhando para a parede. O Henrique, que hoje é baixista na atual banda do Xandy, foi o primeiro a sentir aquele vazio imenso nos devorando de dentro para fora. Nunca existiu uma larica tão intensa. Em 2007, com pouco mais de 20 anos, a gente era fodido de grana e desprovidos de fé no Deus do Gasto conhecido ou como Mastercard ou Visa, dependendo da sua bandeira. Poxa. Quem eu quero enganar? Eu estou fodido de grana até hoje. Me escuta chamar, Lotofácil da Independência. Nessas circunstâncias, cada nota encardida de R$ 1 fazia diferença, a gente realmente contava as moedinhas. Com sofrimento, a gente juntou uns R$ 20. Decidimos comer no lugar mais inóspito possível para uma noite de sábado. Estou falando do Habibs. Para quem não morava em Belo Horizonte nos anos 2000, é preciso explicar que o Habibs era um dos locais mais infernais para você ir em qualquer dia, mas especialmente no final de semana. Tinha fila para pegar mesa, era gritaria, criança chorando, enfim. Você precisava ser desprovido de amor próprio, ser muito jovem ou estar chapado para achar uma boa ideia comer lá. Nós quatro atendíamos a todos os requisitos. Quatro mulambos babando de fome, rindo pra cacete e com os olhos cerrados entraram no Habibs aquela noite. A zoeira era nosso tempero enquanto a fome dava socos nas nossas barrigas, foi um milagre a gente conseguir a mesa antes de sermos expulsos pelo garçom cara de cu que nos recepcionou. Fizemos o pedido imediatamente. A larica não sabe esperar. Foram 30 esfihas (queijo, carne e frango — eu não era vegetariano ainda) e quatro refrigerantes para colocar um pouco de glicose no corpo. Contrariando as nossas expectativas, no meio daquela zona, um garçom entregou nosso pedido muito rápido. Mais rápido ainda foi o nosso apetite. Devoramos as esfihas em segundos. Nisso, o Henrique foi sagaz de colocar a bandeja em uma outra mesa. Ficamos sem entender nada, mas o Henrique tinha um plano mágico inspirado por altos níveis de THC. Ele esperou o garçom que registrou os nossos pedidos passar perto da gente e reclamou. “Pô, mano! As esfihas não chegaram até agora!”. Olhei para a cara do Alexandre, que naquela altura já conseguia entender onde ele estava, e virei para o Diego, que tava rachando de rir. Como o cara mais chato do rolê, e com a barriga cheia, ativei o DVM. Departamento de Vai dar Merda. Eu virei um pequeno burocrata anarquista calculando nossos riscos e como a gente pagaria a fiança. Meu pai teria orgulho de saber que o filho de repente sabia fazer contas. “Véi, a gente não tem grana para pagar essas esfihas novas, caralho!”. O Henrique, com muita calma e tranquilidade, falou que ia dar tudo certo. E deu. De repente chegou outra bandeja. E os quatro mulambos esfomeados atacaram novamente. Até sobraram esfihas. A nossa barriga doía de tanto que a gente estava rindo. Aposto que o maior crime culinário que você já cometeu foi colocar ketchup na pizza. Agora, tenta superar a adrenalina de comer esfiha roubada e pagar só metade delas. Se você for uma esfiha, mantenha distância da gente. Você foi avisada. Fomos embora com a barriga doendo de tanto comer… e rir. O Henrique ficava rindo dizendo que ninguém iria esquecer o dia que a gente roubou esfihas no Habibs. “Se organizar direitinho, todo mundo janta de graça.” Esse filho da puta tinha razão. Até hoje eu lembro desse dia e me encho de orgulho sabendo exatamente o quão perigoso posso ser. Se você for uma esfiha, claro. Semana que vem, vocês receberão uma newsletter de um milionário com dinheiro o suficiente para pagar a fiança pela revelação pública do terceiro e (até então) último ato criminoso desta minha faceta alternativa. Vou confessar como o mercado mais inflacionado da cidade quase me fez avacalhar todas as chances de um candidato vencer o pleito municipal em 2016 porque eu estava, para variar, com fome. Quer deixar um apoio para eu gastar todo o seu dinheiro com drogas, bebidas, apostas e advogados? Brincadeira. Só vou gastar 90% do dinheiro com drogas, bebidas e apostas. Os outros 10% é para pagar meu remédio de pressão (que é da farmácia popular, mas você não precisa saber disso) e pagar conta para minha esposa não pedir divórcio. Tenho cinco livros disponíveis na Amazon. Três são técnicos — voltados para marketing digital e empreendedorismo.Dois são de ficção — pra quem gosta de histórias que parecem mentira (mas não são). Também faço consultoria de Instagram.Te ajudo a entender sua conta, parar de postar qualquer coisa e transformar seu feed num projeto com direção estratégica de verdade. 👉 Reserve um horário aqui. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit tulliodias.substack.com

  7. 08/26/2025

    Pequenos Delitos: Cinema 0800

    É sempre engraçado quando um escritor iniciante revela seu plano de lançar não apenas um livro, mas logo uma trilogia. É um misto de autoestima, megalomania, excesso de tempo livre e loucura. Lançar um livro já exige coragem. Planejar uma trilogia sem terminar nem o primeiro capítulo do volume I é quase um distúrbio psiquiátrico. Com publicações semanais desde março na newsletter, feitas sem IA, diga-se de passagem, eu posso me dar ao luxo de iniciar uma deliciosa aventura culposa e criar minha própria trilogia de crônicas sobre os pequenos delitos que cometi ao longo da vida. E eu não vou revelar essas três histórias só porque tenho uma advogada (o que não significa que não seja importante ter alguém para ajudar a manter o meu réu primário), mas porque outro dia pensei no quanto ser adulto significa aceitar o que te dizem que é certo ou errado — ao contrário dos jovens, que sabendo ou não da chance de dar merda, fazem mesmo assim. OK. Jovens podem ser bem idiotas. Na maioria das vezes, eles são extremamente idiotas. E eu fui um idiota que descobriu vários jeitos de não pagar para ir ao cinema ao longo da vida. Muito antes do Cinema de Buteco existir, antes dos convites para sessões de imprensa, pré-estreias e cartões VIP, eu era um jovem fodido, munido apenas de uma boa dose de cara de pau e oportunismo. Antes de me incriminar publicamente, quero compartilhar a grande novidade que preparei. Dias atrás decidi que precisava voltar com meu último podcast. O Papo de Buteco iniciou suas atividades em 2019 e era o meu momento talk show. Amava a dinâmica das edições com convidados especiais e as discussões no estilo mesa redonda, e sinto falta disso. O problema é que o Papo de Buteco envolve produção e gente demais. Eu não quero esperar, combinar, agendar, desmarcar etc. Quero fazer. Procrastinação é um câncer crônico cuja cura é entrar em ação. Quando você tem muitas ideias, se ficar apenas pensando, elas provavelmente nunca vão existir de verdade. Lembrei do Shot, o Podcast de Cinema Mais Rápido da Internet Brasileira. E decidi que ele iria voltar no formato plug and play. Gravo a leitura da análise, subo o vídeo para o Substack e ele distribui para o YouTube e Spotify. Simples assim. E só estou contando isso porque fiz a mesma coisa com essa newsletter, que também vai se tornar um podcast semanal com distribuição no YouTube e Spotify. Ou seja, além de ler, você pode ter o desprazer de me ver ou ouvir. Ou as duas coisas. Espero que você goste (entenda: se inscreva para acompanhar no Spotify e YouTube). Em 2002, 2003, chegando perto dos 20 anos de idade, eu era um rato do BH Shopping (também conhecido como o mais antigo e badalado da cidade). Enquanto a maioria dos mocinhos e mocinhas iam para o shopping no final de semana para “azarar” (flertar é mesmo uma maldição, afinal), eu ia toda quarta-feira para o cinema com um colega da escola. Quando você é jovem, existe o sentimento de achar um pouco depressivo ir ao cinema sozinho. Como eu disse, os jovens fazem e pensam muita merda. O Dino é um cara alto e magro. Alto o suficiente para tornar uma viagem de ônibus extremamente desconfortável. Às vezes a gente precisava pegar o circular 21, tipo uma versão gourmetizada de uma Kombi. O espaço era apertado até para quem não anda com a cabeça nas nuvens. O Dino muitas vezes ficava encolhido entre um banco e outro, já que ficar em pé significava imitar o Tropeço da Família Adams e ficar com a cabeça torta. Não sei se ele ficava mais p**o com a viagem ou com o tanto que eu zoava. Que sorte não existir smartphone naquela época. Existia um motivo para a gente ir ao cinema junto: jovens ficam mais corajosos quando estão acompanhados. Especialmente quando é para fazer coisa errada. Desde cedo, quando a minha avó era a minha parceira de cinefilia lá em 1996, eu havia reparado que a saída do cinema era meio desorganizada. Eles não conseguiam controlar quem entrava ou saía das salas. Minha avó tinha dinheiro. Ela não acharia essa informação útil, mas eu guardei isso até colocar em prática. Começou de forma inocente. “Perdi o começo do filme, moço! Vou assistir e ir embora, ok?”. E eu ficava. Com frio na barriga, comecei a me aventurar a trocar de salas só para ver se dava certo. De repente, eu já estava organizando os horários e ordem dos filmes que assistiria para saber quanto tempo precisaria esperar até trocar de salas. Me tornei um pequeno empreendedor da trapaça. Eram duas, três e até quatro sessões no mesmo dia — gastando apenas com um ingresso. Quando o Dino ficou sabendo, ele não pensou duas vezes antes de começar a participar comigo. Aprendi desde cedo a importância de se planejar. Seja para fundar uma startup ou invadir sessões de cinema, o segredo do sucesso é o mesmo: planilha (ou bloquinho e caneta). Mas às vezes, nossos delitos dependem da sorte e do momento. Se você acha que pular de sessão é crime, espera até saber a próxima história. Vamos precisar abrir um inquérito. 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