Quer dizer que você gostou de me ver admitindo algumas leves transgressões… Isso diz muito sobre nós. Se rir dos meus delitos te fez bem… talvez eu não seja o único criminoso aqui, querida(o) cúmplice. Recebi mensagens com comentários sobre a minha confissão de semana passada. Esperava ser recriminado, mas descobri que meu delito é mais comum que eu imaginava. É o famoso “quem nunca", não é mesmo? Mas agora o papo vai ficar sério. Te desafio a rir desta história. Te desafio a não querer abrir o iFood depois desta história. Respire fundo e vem viajar comigo para o distante ano de 2007, quando o mundo ainda tinha cores e eu era o baixista de uma banda cover de Muse. Na verdade, a gente já tinha canções autorais porque pelo menos em uma coisa o Lobão tem razão: não existe a menor graça em gozar com o pau do outro. A Amaturus era um quarteto. O Diego cuidava da voz e guitarra. Minha história com ele começou de um jeito engraçado uns seis, cinco anos antes: no ponto de ônibus saindo da escola, começamos a falar de futebol em uma época que nenhum dos dois realmente gostava do assunto. Viramos melhores amigos, tivemos nossas primeiras bandas juntos etc. Hoje ele é um advogado DJ fodão — e eu o enrolei seriamente quando quis montar um novo projeto ano passado. A bateria ficava por conta do Alexandre. No nosso primeiro encontro/ensaio, a gente tinha um alto-falante e fomos no McDonalds da Savassi mexendo com todo mundo na rua e cantando o rap da pamonha. Ele era um moleque com 17, 18 anos, com sua primeira banda e deu o “azar” de encontrar com gente muito louca das ideias. O Xandy ri desse dia até hoje. Por fim, o teclado era da Isabella. Ela era a pessoa quieta e séria da banda. Enquanto a gente tinha um sonho, ela só queria se divertir fazendo o que ela curtia. Talvez seja relevante adicionar o detalhe que a gente namorava. E que essa história tem uma conexão com o meu amigo de cinema 0800, mas hoje não quero falar sobre romances que deram muito errado. Fica para uma próxima. Pronto. Agora posso continuar a minha confissão. Eu não bebia muito em 2007. Também não ficava chapado com frequência. Nunca fazia nenhuma das duas coisas antes de um show (fosse para assistir ou tocar, gostava de ficar limpo — não sei o que tinha na cabeça, sinceramente). De vez em sempre, porém, o pós-show era um caos. Nesse dia em especial, a gente tinha terminado uma apresentação bem legal que tinham mais pessoas além das pessoas das próprias bandas que tocaram, e queimou um perto do carro do Diego. Não demorou para eu, Diego, Xandy e o amigo Henrique começar a tossir pra cacete de tão forte que era aquele cigarrinho do capeta. A Isabella caiu fora porque o bagulho dela era cachaça e cerveja. Natural para ela só mesmo o desprezo por quem conversa com poste ou fica rindo olhando para a parede. O Henrique, que hoje é baixista na atual banda do Xandy, foi o primeiro a sentir aquele vazio imenso nos devorando de dentro para fora. Nunca existiu uma larica tão intensa. Em 2007, com pouco mais de 20 anos, a gente era fodido de grana e desprovidos de fé no Deus do Gasto conhecido ou como Mastercard ou Visa, dependendo da sua bandeira. Poxa. Quem eu quero enganar? Eu estou fodido de grana até hoje. Me escuta chamar, Lotofácil da Independência. Nessas circunstâncias, cada nota encardida de R$ 1 fazia diferença, a gente realmente contava as moedinhas. Com sofrimento, a gente juntou uns R$ 20. Decidimos comer no lugar mais inóspito possível para uma noite de sábado. Estou falando do Habibs. Para quem não morava em Belo Horizonte nos anos 2000, é preciso explicar que o Habibs era um dos locais mais infernais para você ir em qualquer dia, mas especialmente no final de semana. Tinha fila para pegar mesa, era gritaria, criança chorando, enfim. Você precisava ser desprovido de amor próprio, ser muito jovem ou estar chapado para achar uma boa ideia comer lá. Nós quatro atendíamos a todos os requisitos. Quatro mulambos babando de fome, rindo pra cacete e com os olhos cerrados entraram no Habibs aquela noite. A zoeira era nosso tempero enquanto a fome dava socos nas nossas barrigas, foi um milagre a gente conseguir a mesa antes de sermos expulsos pelo garçom cara de cu que nos recepcionou. Fizemos o pedido imediatamente. A larica não sabe esperar. Foram 30 esfihas (queijo, carne e frango — eu não era vegetariano ainda) e quatro refrigerantes para colocar um pouco de glicose no corpo. Contrariando as nossas expectativas, no meio daquela zona, um garçom entregou nosso pedido muito rápido. Mais rápido ainda foi o nosso apetite. Devoramos as esfihas em segundos. Nisso, o Henrique foi sagaz de colocar a bandeja em uma outra mesa. Ficamos sem entender nada, mas o Henrique tinha um plano mágico inspirado por altos níveis de THC. Ele esperou o garçom que registrou os nossos pedidos passar perto da gente e reclamou. “Pô, mano! As esfihas não chegaram até agora!”. Olhei para a cara do Alexandre, que naquela altura já conseguia entender onde ele estava, e virei para o Diego, que tava rachando de rir. Como o cara mais chato do rolê, e com a barriga cheia, ativei o DVM. Departamento de Vai dar Merda. Eu virei um pequeno burocrata anarquista calculando nossos riscos e como a gente pagaria a fiança. Meu pai teria orgulho de saber que o filho de repente sabia fazer contas. “Véi, a gente não tem grana para pagar essas esfihas novas, caralho!”. O Henrique, com muita calma e tranquilidade, falou que ia dar tudo certo. E deu. De repente chegou outra bandeja. E os quatro mulambos esfomeados atacaram novamente. Até sobraram esfihas. A nossa barriga doía de tanto que a gente estava rindo. Aposto que o maior crime culinário que você já cometeu foi colocar ketchup na pizza. Agora, tenta superar a adrenalina de comer esfiha roubada e pagar só metade delas. Se você for uma esfiha, mantenha distância da gente. Você foi avisada. Fomos embora com a barriga doendo de tanto comer… e rir. O Henrique ficava rindo dizendo que ninguém iria esquecer o dia que a gente roubou esfihas no Habibs. “Se organizar direitinho, todo mundo janta de graça.” Esse filho da puta tinha razão. Até hoje eu lembro desse dia e me encho de orgulho sabendo exatamente o quão perigoso posso ser. Se você for uma esfiha, claro. Semana que vem, vocês receberão uma newsletter de um milionário com dinheiro o suficiente para pagar a fiança pela revelação pública do terceiro e (até então) último ato criminoso desta minha faceta alternativa. Vou confessar como o mercado mais inflacionado da cidade quase me fez avacalhar todas as chances de um candidato vencer o pleito municipal em 2016 porque eu estava, para variar, com fome. Quer deixar um apoio para eu gastar todo o seu dinheiro com drogas, bebidas, apostas e advogados? Brincadeira. Só vou gastar 90% do dinheiro com drogas, bebidas e apostas. Os outros 10% é para pagar meu remédio de pressão (que é da farmácia popular, mas você não precisa saber disso) e pagar conta para minha esposa não pedir divórcio. Tenho cinco livros disponíveis na Amazon. Três são técnicos — voltados para marketing digital e empreendedorismo.Dois são de ficção — pra quem gosta de histórias que parecem mentira (mas não são). Também faço consultoria de Instagram.Te ajudo a entender sua conta, parar de postar qualquer coisa e transformar seu feed num projeto com direção estratégica de verdade. 👉 Reserve um horário aqui. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit tulliodias.substack.com