A Menor Distância: Poesia em Português

Acacio

Podcast de poesia em português. Um poema por episódio, com duas leituras e três ângulos de escuta, em 10–20 minutos. Poemas contemporâneos só com permissão do autor.

Episodes

  1. 4d ago

    Álvaro de Campos — Todas as cartas de amor são | O amor ridículo | Ep. 8

    No episódio 8 de A Menor Distância: Poesia em Português, leio e comento “Todas as cartas de amor são”, de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa. Duas leituras em voz alta e uma ideia central: talvez as cartas de amor não sejam ridículas apesar de serem verdadeiras — talvez sejam ridículas porque são verdadeiras. O amor, quando tenta escrever, perde a pose. E é exatamente aí que se revela. Neste episódio: • O título como frase incompleta: “Todas as cartas de amor são” — e a palavra “ridículas” chegando depois da pausa, com mais peso • A repetição de “ridículas” como epífora: não um tropeço, mas um tambor que denuncia o que o falante tenta controlar • O ridículo como condição da carta de amor: sem exposição, sem vergonha, talvez não haja amor real • O parêntese final e a palavra “esdrúxulas”: entre o termo técnico, o sentido de estranheza e a autoconsciência do poema • O heterónimo como defesa brilhante: Pessoa inventa outro para não ser apanhado a sentir — e escreve o poema mesmo assim Um poema por episódio. Duas leituras. Escuta atenta. Poema lido no episódio: “Todas as cartas de amor são”Álvaro de Campos Todas as cartas de amor sãoRidículas.Não seriam cartas de amor se não fossemRidículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor,Como as outras,Ridículas. As cartas de amor, se há amor,Têm de serRidículas. Mas, afinal,Só as criaturas que nunca escreveramCartas de amorÉ que sãoRidículas. Quem me dera no tempo em que escreviaSem dar por issoCartas de amorRidículas. A verdade é que hojeAs minhas memóriasDessas cartas de amorÉ que sãoRidículas. (Todas as palavras esdrúxulas,Como os sentimentos esdrúxulos,São naturalmenteRidículas.)

  2. Jul 2

    Cesário Verde — Manias | A crueldade do olhar | Ep. 7

    No episódio 7 de A Menor Distância: Poesia em Português, Acácio lê e comenta “Manias”, de Cesário Verde. Um soneto cruel, satírico e desconfortável: uma mulher respeitável por fora, cruel por dentro; um homem preso à própria devoção; e um narrador que parece enxergar tudo — até percebermos que o olhar dele também tem a sua mania. Neste episódio: A hipocrisia da dama que vai à missa enquanto trata o outro com desprezoA devoção do “bom rapaz” — entre amor, autoengano e sofrimento real“Tremente” como a palavra que muda o tom do poemaO prazer cruel de reconhecer tipos humanos — e o lugar do leitor dentro desse olhar Um poema por episódio. Duas leituras. Escuta atenta. ManiasCesário Verde O mundo é velha cena ensanguentada,Coberta de remendos, picaresca;A vida é chula farsa assobiada,Ou selvagem tragédia romanesca. Eu sei um bom rapaz, — hoje uma ossada —,Que amava certa dama pedantesca,Perversíssima, esquálida e chagada,Mas cheia de jactância, quixotesca. Aos domingos a déia, já rugosa,Concedia-lhe o braço, com preguiça,E o dengue, em atitude receosa, Na sujeição canina mais submissa,Levava na tremente mão nervosa,O livro com que a amante ia ouvir missa! Termos do poema:Jactância: ostentação, vaidade exibicionistaQuixotesca: grandiosidade delirante, fora de proporção com a realidadeDengue: maneirismo afetado, postura delicada e exageradaDéia: forma coloquial e ligeiramente depreciativa de “senhora”Tremente: que treme; no episódio, a palavra que muda o tom do retrato Domínio público: Cesário Verde morreu em 1886; sua obra está em domínio público.

  3. Jun 18

    Eugénio Tavares — Partindo | Exílio, primavera e luz perdida | Ep. 6

    No episódio 6 de A Menor Distância: Poesia em Português, leio e comento “Partindo”, de Eugénio Tavares. Um navio deixa Cabo Verde. A ilha ainda está visível, mas já começa a desaparecer: primeiro a terra, depois o lar, depois a montanha onde o amor se aninha. O poema acompanha esse afastamento sem transformar a partida em aventura. Aqui, partir é perder o mundo aos poucos. Mas o que me prende neste poema é a maneira como a amada se alarga. “Ó minha Primavera” não é só uma pessoa. É também a ilha, o clima, a luz, a estação afetiva que não viaja junto. E quando Tavares escreve “sem ti a Luz já não existe”, o verso parece exagero romântico — mas talvez seja a forma mais precisa de dizer o exílio. Neste episódio: – A partida como desaparecimento: a ilha, o lar e a montanha ficando para trás– A andorinha num ar de chuva: migração, fragilidade e retorno incerto– “Ventura ou lágrimas”: partir sem resposta para as perguntas que importam– “Ó minha Primavera”: quando a amada, a terra e a luz passam a ocupar o mesmo lugar Leitura integral do poema (2x) + análise em três lentes. Poema em domínio público. Um poema por episódio. Duas leituras. Escuta atenta. Partindo Triste, por te deixar, de manhãzinhaDesci ao porto. E logo, asas ao vento,Fomos singrando, sob um céu cinzento,Como, num ar de chuva, uma andorinha. Olhos na Ilha eu vi, amiga minha,A pouco e pouco, num decrescimento,Fugir o Lar, perder-se num momentoA montanha em que o nosso amor se aninha. Nada pergunto; nem quero saberAonde vou: se voltarei sequer;Quanto, em ventura ou lágrimas, me espera Apenas sei, ó minha Primavera,Que tu me ficas lagrimosa e triste.E que sem ti a Luz já não existe.

  4. Jun 4

    Augusto dos Anjos — O Morcego | O que entra no quarto à noite | Ep. 5

    No episódio 5 de A Menor Distância: Poesia em Português, leio e comento “O Morcego”, de Augusto dos Anjos. Um morcego entra no quarto à noite. O poeta se assusta, tenta expulsá-lo, toca-o com um pau — mas o animal não desaparece. No fim, o poema revela o que já estava rondando desde o início: a consciência humana, aquilo que entra sem pedir licença e que não conseguimos manter fora. Mas o que me prende neste poema não é só a metáfora. É a ambiguidade. O morcego incomoda, invade, perturba. Mas isso não significa que seja monstruoso. Há coisas que queremos expulsar sem destruir — porque, no fundo, sabemos que nos pertencem. Neste episódio: O quarto como espaço invadido: a noite, o corpo e o susto inicial A sede ambígua: quem arde, o morcego ou o poeta? O contra-ataque: o esforço de retomar o quarto A consciência como aquilo que entra imperceptivelmente Leitura integral do poema (2x) + análise em três lentes. Poema em domínio público. Um poema por episódio. Duas leituras. Escuta atenta. O Morcego Meia noite. Ao meu quarto me recolho. Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede: Na bruta ardência orgânica da sede, Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. "Vou mandar levantar outra parede..." — Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho, Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. Esforços faço. Chego A tocá-lo. Minh'alma se concentra. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça, à noite, ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto!

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