A Menor Distância: Poesia em Português

Acacio

Podcast de poesia em português. Um poema por episódio, com duas leituras e três ângulos de escuta, em 10–20 minutos. Poemas contemporâneos só com permissão do autor.

Episodes

  1. Aug 13

    Luís Gama — Que Mundo é este? | A frase que parece o exame | Ep. 10

    Luís Gama — Que Mundo é este? | A frase que parece o exame | Ep. 10 No episódio 10 de A Menor Distância: Poesia em Português, leio e comento “Que Mundo é este?”, de Luís Gama. Duas leituras em voz alta e uma ideia central: existe uma diferença entre dizer “eu vejo” e dizer “não tem um que se salve”. A primeira frase aponta para casos concretos, exige atenção e pode ser examinada. A segunda parece lucidez, mas nasce imune a qualquer prova — e pode acabar servindo de licença para participar daquilo que denuncia. Neste episódio: • A repetição de “vejo” como linguagem de testemunho — e a passagem do panorama geral aos retratos individuais • As duas únicas palavras em itálico no poema, leis e Barão, lidas como aspas irônicas: nomes de legitimidades que o próprio poema desmente • Os “fidalgos d’estopa” e o dobrão enxertado no tronco da fidalguia: como o dinheiro fabrica linhagem, saber e autoridade • A provável continuidade entre “algum sandeu” e “o pateta”: uma carreira construída pelo brilho, pela indignação pública e pela dependência do poder • A assimetria da última estrofe: insultos para os outros, mas “que ventura!” quando a própria voz imagina entrar no mesmo circuito • Por que a frase “não tem um que se salve” pode parecer o exame — e substituí-lo Que Mundo é este? Que mundo? que mundo é este?Do fundo seio d'est'almaEu vejo... que fria calmaDos humanos na fereza!Vejo o livre feito escravoPelas leis da prepotencia;Vejo a riqueza em demenciaPostergando a natureza. Vejo o vicio enthronisado;Vejo a virtude cahida,E de corôas cingidaA estatua fria do mal;Vejo os traidores em chusmaVendendo as almas impuras,Remexendo as sepulturasPor preço d'aureo metal. Vejo fidalgos d'estopa,Ostentando os seus brasoens,Feio enxerto de dobroensNos troncos da fidalguia;Vejo este mundo ás avessas,Seguindo fatal derrota,Em quanto farfante arrotaPodres grandezas de um dia! Bronzea estatua — o rico surdoAos tristes ais da pobrezaAmostra com vil rudezaUma burra aferrolhada;Manequim de estupidezNo orgulho vão da cubiçaTem por divisa sediça— Alguns vintens e mais nada. O poder é só dos Cresos,A sciencia é de encommenda;Sem capital e sem rendaCom pouco peso — o que val?Talentos — palavroens ócos! —Que nunca deixaram saldo;Não ha substancia no caldoQue não tempera o metal! Sisudez... que feia masc'ra!Isso é peste, isso é veneno!Si é pobre, nasceu pequeno,Quem aspira a posição?!Não vê que é grande toleimaQuerer subir sem moeda,Pois não escapa da quedaQuem teve um leito no chão! Que se impertigue enfunadoAlgum sandeu que traz marca...Reparem que a bisca embarcaQue leva á véla o batel!E o povo que o vê fulgindoCom lantejoulas brilhantesNão olha p'ra o que foi dantes,E nem lhe enxerga o xarel! E o mais é que zune e grasnaO patéta aparvalhado!Parece que é deputadoOs Ministros fulminando;Grita, berra, espenoteia,Calumnia, faz intriga,Mas logo falla a barriga,E vai a têta chupando! Digam lá o que quizerem,Falle embora o maldizente;Eu bem sei que tudo mente,Sei que o mundo tem razão;Si eu tivesse na algibeiraAlguns cobres, que ventura! —Mudava o nome, a figura,Ficava logo — Barão! — Luís Gama, Primeiras Trovas Burlescas de Getulino (1859) Poema em domínio público.

  2. Jul 30

    Gomes Leal — O Selvagem | O homem que disse ter trancado tudo | Ep. 9

    Gomes Leal — O Selvagem | O homem que disse ter trancado tudo | Ep. 9 No episódio 9 de A Menor Distância: Poesia em Português, leio e comento “O Selvagem”, do poeta português Gomes Leal. Duas leituras em voz alta e uma ideia central: o falante diz ter fechado o passado, rasgado os livros e esmagado as próprias dores. Mas o corpo e o próprio poema o desmentem. O peito ainda é um covil, as dores continuam vivas como serpentes e, no fim, os cães encontram uma voz para o lamento que ele não consegue admitir. Neste episódio: • A solidão como escolha: “fechei”, “rasguei”, “calquei” — verbos de alguém que constrói o próprio isolamento • Os livros rasgados e duas noites opostas: ler para deixar o mundo entrar ou rasgar as páginas para mantê-lo do lado de fora • O peito como covil: não um túmulo, mas a toca escura de alguma coisa que ainda está viva • As dores como serpentes: quem não sente nada não precisa continuar a esmagar nada • O lamento dos cães e o fim em reticências: o homem que disse ter trancado tudo não consegue trancar o próprio poema Um poema por episódio. Duas leituras. Escuta atenta. Poema lido no episódio: “O Selvagem”Gomes Leal Eu não amo ninguem. Tambem no mundoNinguem por mim o peito bater sente,Ninguem entende meu sofrer profundo,E rio quando chora a demais gente. Vivo alheio de todos e de tudo,Mais callado que o esquife, a Morte e as lousas,Selvagem, solitario, inerte e mudo,— Passividade estupida das Cousas. Fechei, de ha muito, o livro do PassadoSinto em mim o despreso do Futuro,E vivo só commigo, amortalhadoN’um egoismo barbaro e escuro. Rasguei tudo o que li. Vivo nas durasRegiões dos crueis indifferentes,Meu peito é um covil, onde, ás escuras,Minhas penas calquei, como as serpentes. E não vejo ninguem. Saio sómenteDepois de pôr-se o sol, deserta a rua,Quando ninguem me espreita, nem me sente,E, em lamentos, os cães ladram á lua…

  3. Jul 16

    Álvaro de Campos — Todas as cartas de amor são | O amor ridículo | Ep. 8

    No episódio 8 de A Menor Distância: Poesia em Português, leio e comento “Todas as cartas de amor são”, de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa. Duas leituras em voz alta e uma ideia central: talvez as cartas de amor não sejam ridículas apesar de serem verdadeiras — talvez sejam ridículas porque são verdadeiras. O amor, quando tenta escrever, perde a pose. E é exatamente aí que se revela. Neste episódio: • O título como frase incompleta: “Todas as cartas de amor são” — e a palavra “ridículas” chegando depois da pausa, com mais peso • A repetição de “ridículas” como epífora: não um tropeço, mas um tambor que denuncia o que o falante tenta controlar • O ridículo como condição da carta de amor: sem exposição, sem vergonha, talvez não haja amor real • O parêntese final e a palavra “esdrúxulas”: entre o termo técnico, o sentido de estranheza e a autoconsciência do poema • O heterónimo como defesa brilhante: Pessoa inventa outro para não ser apanhado a sentir — e escreve o poema mesmo assim Um poema por episódio. Duas leituras. Escuta atenta. Poema lido no episódio: “Todas as cartas de amor são”Álvaro de Campos Todas as cartas de amor sãoRidículas.Não seriam cartas de amor se não fossemRidículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor,Como as outras,Ridículas. As cartas de amor, se há amor,Têm de serRidículas. Mas, afinal,Só as criaturas que nunca escreveramCartas de amorÉ que sãoRidículas. Quem me dera no tempo em que escreviaSem dar por issoCartas de amorRidículas. A verdade é que hojeAs minhas memóriasDessas cartas de amorÉ que sãoRidículas. (Todas as palavras esdrúxulas,Como os sentimentos esdrúxulos,São naturalmenteRidículas.)

  4. Jul 2

    Cesário Verde — Manias | A crueldade do olhar | Ep. 7

    No episódio 7 de A Menor Distância: Poesia em Português, Acácio lê e comenta “Manias”, de Cesário Verde. Um soneto cruel, satírico e desconfortável: uma mulher respeitável por fora, cruel por dentro; um homem preso à própria devoção; e um narrador que parece enxergar tudo — até percebermos que o olhar dele também tem a sua mania. Neste episódio: A hipocrisia da dama que vai à missa enquanto trata o outro com desprezoA devoção do “bom rapaz” — entre amor, autoengano e sofrimento real“Tremente” como a palavra que muda o tom do poemaO prazer cruel de reconhecer tipos humanos — e o lugar do leitor dentro desse olhar Um poema por episódio. Duas leituras. Escuta atenta. ManiasCesário Verde O mundo é velha cena ensanguentada,Coberta de remendos, picaresca;A vida é chula farsa assobiada,Ou selvagem tragédia romanesca. Eu sei um bom rapaz, — hoje uma ossada —,Que amava certa dama pedantesca,Perversíssima, esquálida e chagada,Mas cheia de jactância, quixotesca. Aos domingos a déia, já rugosa,Concedia-lhe o braço, com preguiça,E o dengue, em atitude receosa, Na sujeição canina mais submissa,Levava na tremente mão nervosa,O livro com que a amante ia ouvir missa! Termos do poema:Jactância: ostentação, vaidade exibicionistaQuixotesca: grandiosidade delirante, fora de proporção com a realidadeDengue: maneirismo afetado, postura delicada e exageradaDéia: forma coloquial e ligeiramente depreciativa de “senhora”Tremente: que treme; no episódio, a palavra que muda o tom do retrato Domínio público: Cesário Verde morreu em 1886; sua obra está em domínio público.

  5. Jun 18

    Eugénio Tavares — Partindo | Exílio, primavera e luz perdida | Ep. 6

    No episódio 6 de A Menor Distância: Poesia em Português, leio e comento “Partindo”, de Eugénio Tavares. Um navio deixa Cabo Verde. A ilha ainda está visível, mas já começa a desaparecer: primeiro a terra, depois o lar, depois a montanha onde o amor se aninha. O poema acompanha esse afastamento sem transformar a partida em aventura. Aqui, partir é perder o mundo aos poucos. Mas o que me prende neste poema é a maneira como a amada se alarga. “Ó minha Primavera” não é só uma pessoa. É também a ilha, o clima, a luz, a estação afetiva que não viaja junto. E quando Tavares escreve “sem ti a Luz já não existe”, o verso parece exagero romântico — mas talvez seja a forma mais precisa de dizer o exílio. Neste episódio: – A partida como desaparecimento: a ilha, o lar e a montanha ficando para trás– A andorinha num ar de chuva: migração, fragilidade e retorno incerto– “Ventura ou lágrimas”: partir sem resposta para as perguntas que importam– “Ó minha Primavera”: quando a amada, a terra e a luz passam a ocupar o mesmo lugar Leitura integral do poema (2x) + análise em três lentes. Poema em domínio público. Um poema por episódio. Duas leituras. Escuta atenta. Partindo Triste, por te deixar, de manhãzinhaDesci ao porto. E logo, asas ao vento,Fomos singrando, sob um céu cinzento,Como, num ar de chuva, uma andorinha. Olhos na Ilha eu vi, amiga minha,A pouco e pouco, num decrescimento,Fugir o Lar, perder-se num momentoA montanha em que o nosso amor se aninha. Nada pergunto; nem quero saberAonde vou: se voltarei sequer;Quanto, em ventura ou lágrimas, me espera Apenas sei, ó minha Primavera,Que tu me ficas lagrimosa e triste.E que sem ti a Luz já não existe.

  6. Jun 4

    Augusto dos Anjos — O Morcego | O que entra no quarto à noite | Ep. 5

    No episódio 5 de A Menor Distância: Poesia em Português, leio e comento “O Morcego”, de Augusto dos Anjos. Um morcego entra no quarto à noite. O poeta se assusta, tenta expulsá-lo, toca-o com um pau — mas o animal não desaparece. No fim, o poema revela o que já estava rondando desde o início: a consciência humana, aquilo que entra sem pedir licença e que não conseguimos manter fora. Mas o que me prende neste poema não é só a metáfora. É a ambiguidade. O morcego incomoda, invade, perturba. Mas isso não significa que seja monstruoso. Há coisas que queremos expulsar sem destruir — porque, no fundo, sabemos que nos pertencem. Neste episódio: O quarto como espaço invadido: a noite, o corpo e o susto inicial A sede ambígua: quem arde, o morcego ou o poeta? O contra-ataque: o esforço de retomar o quarto A consciência como aquilo que entra imperceptivelmente Leitura integral do poema (2x) + análise em três lentes. Poema em domínio público. Um poema por episódio. Duas leituras. Escuta atenta. O Morcego Meia noite. Ao meu quarto me recolho. Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede: Na bruta ardência orgânica da sede, Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. "Vou mandar levantar outra parede..." — Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho, Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. Esforços faço. Chego A tocá-lo. Minh'alma se concentra. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça, à noite, ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto!

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