No episódio 6 de A Menor Distância: Poesia em Português, leio e comento “Partindo”, de Eugénio Tavares. Um navio deixa Cabo Verde. A ilha ainda está visível, mas já começa a desaparecer: primeiro a terra, depois o lar, depois a montanha onde o amor se aninha. O poema acompanha esse afastamento sem transformar a partida em aventura. Aqui, partir é perder o mundo aos poucos. Mas o que me prende neste poema é a maneira como a amada se alarga. “Ó minha Primavera” não é só uma pessoa. É também a ilha, o clima, a luz, a estação afetiva que não viaja junto. E quando Tavares escreve “sem ti a Luz já não existe”, o verso parece exagero romântico — mas talvez seja a forma mais precisa de dizer o exílio. Neste episódio: – A partida como desaparecimento: a ilha, o lar e a montanha ficando para trás– A andorinha num ar de chuva: migração, fragilidade e retorno incerto– “Ventura ou lágrimas”: partir sem resposta para as perguntas que importam– “Ó minha Primavera”: quando a amada, a terra e a luz passam a ocupar o mesmo lugar Leitura integral do poema (2x) + análise em três lentes. Poema em domínio público. Um poema por episódio. Duas leituras. Escuta atenta. Partindo Triste, por te deixar, de manhãzinhaDesci ao porto. E logo, asas ao vento,Fomos singrando, sob um céu cinzento,Como, num ar de chuva, uma andorinha. Olhos na Ilha eu vi, amiga minha,A pouco e pouco, num decrescimento,Fugir o Lar, perder-se num momentoA montanha em que o nosso amor se aninha. Nada pergunto; nem quero saberAonde vou: se voltarei sequer;Quanto, em ventura ou lágrimas, me espera Apenas sei, ó minha Primavera,Que tu me ficas lagrimosa e triste.E que sem ti a Luz já não existe.