Luís Gama — Que Mundo é este? | A frase que parece o exame | Ep. 10 No episódio 10 de A Menor Distância: Poesia em Português, leio e comento “Que Mundo é este?”, de Luís Gama. Duas leituras em voz alta e uma ideia central: existe uma diferença entre dizer “eu vejo” e dizer “não tem um que se salve”. A primeira frase aponta para casos concretos, exige atenção e pode ser examinada. A segunda parece lucidez, mas nasce imune a qualquer prova — e pode acabar servindo de licença para participar daquilo que denuncia. Neste episódio: • A repetição de “vejo” como linguagem de testemunho — e a passagem do panorama geral aos retratos individuais • As duas únicas palavras em itálico no poema, leis e Barão, lidas como aspas irônicas: nomes de legitimidades que o próprio poema desmente • Os “fidalgos d’estopa” e o dobrão enxertado no tronco da fidalguia: como o dinheiro fabrica linhagem, saber e autoridade • A provável continuidade entre “algum sandeu” e “o pateta”: uma carreira construída pelo brilho, pela indignação pública e pela dependência do poder • A assimetria da última estrofe: insultos para os outros, mas “que ventura!” quando a própria voz imagina entrar no mesmo circuito • Por que a frase “não tem um que se salve” pode parecer o exame — e substituí-lo Que Mundo é este? Que mundo? que mundo é este?Do fundo seio d'est'almaEu vejo... que fria calmaDos humanos na fereza!Vejo o livre feito escravoPelas leis da prepotencia;Vejo a riqueza em demenciaPostergando a natureza. Vejo o vicio enthronisado;Vejo a virtude cahida,E de corôas cingidaA estatua fria do mal;Vejo os traidores em chusmaVendendo as almas impuras,Remexendo as sepulturasPor preço d'aureo metal. Vejo fidalgos d'estopa,Ostentando os seus brasoens,Feio enxerto de dobroensNos troncos da fidalguia;Vejo este mundo ás avessas,Seguindo fatal derrota,Em quanto farfante arrotaPodres grandezas de um dia! Bronzea estatua — o rico surdoAos tristes ais da pobrezaAmostra com vil rudezaUma burra aferrolhada;Manequim de estupidezNo orgulho vão da cubiçaTem por divisa sediça— Alguns vintens e mais nada. O poder é só dos Cresos,A sciencia é de encommenda;Sem capital e sem rendaCom pouco peso — o que val?Talentos — palavroens ócos! —Que nunca deixaram saldo;Não ha substancia no caldoQue não tempera o metal! Sisudez... que feia masc'ra!Isso é peste, isso é veneno!Si é pobre, nasceu pequeno,Quem aspira a posição?!Não vê que é grande toleimaQuerer subir sem moeda,Pois não escapa da quedaQuem teve um leito no chão! Que se impertigue enfunadoAlgum sandeu que traz marca...Reparem que a bisca embarcaQue leva á véla o batel!E o povo que o vê fulgindoCom lantejoulas brilhantesNão olha p'ra o que foi dantes,E nem lhe enxerga o xarel! E o mais é que zune e grasnaO patéta aparvalhado!Parece que é deputadoOs Ministros fulminando;Grita, berra, espenoteia,Calumnia, faz intriga,Mas logo falla a barriga,E vai a têta chupando! Digam lá o que quizerem,Falle embora o maldizente;Eu bem sei que tudo mente,Sei que o mundo tem razão;Si eu tivesse na algibeiraAlguns cobres, que ventura! —Mudava o nome, a figura,Ficava logo — Barão! — Luís Gama, Primeiras Trovas Burlescas de Getulino (1859) Poema em domínio público.