Anestesistas e Anestesiologistas

Marcio Augusto Lacerda

Olá, pessoal! Sejam muito bem-vindos ao podcast do Anestesistas e Anestesiologistas. O espaço dedicado à história, à prática e à evolução da nossa especialidade. Eu sou Marcio Augusto Lacerda, sou médico Anestesiologista e coordeno o conteúdo deste canal ..... Sigam-nos também em outras plataformas: -Instagram: https://www.instagram.com/anestesistaseanestesiologistas?igsh=MTJ2eWhiajdjeDBmdA%3D%3D&utm_source=qr -YouTube: https://www.youtube.com/@anestesistaseanestesiologistas

  1. Aug 8

    Peridural Torácica – Segurança Absoluta para Alguns e Riscos Desnecessários para Outros

    Fala, pessoal! Sejam bem-vindos a mais um episódio. Hoje vamos falar sobre uma das ferramentas mais poderosas — e ao mesmo tempo delicadas — da anestesiologia moderna: a Peridural Torácica (PT). Vamos passar rápido pelo o que você precisa saber para a prática e para a sua proteção jurídica.A peridural torácica é o padrão-ouro para analgésica em cirurgias de grande porte do tórax e abdome superior, como toracotomias, colectomias e hepatectomias, além do manejo de trauma com múltiplas fraturas de costela.A grande vantagem? Qualidade de analgesia. Ela reduz o uso de opioides sistêmicos, melhora a mecânica ventilatória do paciente no pós-operatório — diminuindo o risco de atelectasias e pneumonias — e ainda atenua a resposta metabólica ao estresse cirúrgico.Mas nem tudo são flores. É uma técnica de maior complexidade anatômica do que a peridural lombar, devido à angulação acentuada dos processos espinhosos.O grande desafio hemodinâmico é o bloqueio simpático: ao atingir os níveis de T1 a T4, podemos ter hipotensão e bradicardia severas por bloqueio das fibras cardioaceleradoras. E, claro, temos as complicações graves que todo anestesiologista teme: a toxicidade por anestésico local (LAST), o hematoma epidural e o abscesso.Na prática: recusa do paciente, sepse e coagulopatia são contraindicações absolutas. E atenção especial aos anticoagulantes! Respeitar os tempos de suspensão dos fármacos antes da punção e antes da retirada do cateter é o que separa um procedimento bem-sucedido de uma tragédia neurológica.Por falar em tragédia, a peridural torácica tem alto potencial de judicialização, principalmente por sequelas neurológicas motoras. O segredo para a sua segurança jurídica se resume em três pilares: Consentimento Informado claro: O paciente precisa saber dos riscos neurológicos antes de ir para a sala.Prontuário impecável: Anote os tempos de suspensão de anticoagulantes, os detalhes da punção e os testes realizados.Vigilância no pós-operatório: Bloqueio motor prolongado ou dor focal na coluna exige ressonância magnética imediata. O diagnóstico tardio de um hematoma epidural é a causa número um de condenações judiciais.CANGIANI, L. M. et al. Tratado de Anestesiologia SAESP. 9. ed. São Paulo: Editora Ateneu, 2021.GROPPER, M. A. et al. Miller's Anesthesia. 9th ed. Philadelphia: Elsevier, 2020.HORLOCKER, T. T. et al. Regional Anesthesia in the Patient Receiving Antithrombotic or Thrombolytic Therapy: American Society of Regional Anesthesia and Pain Medicine Evidence-Based Guidelines (Fourth Edition). Regional Anesthesia and Pain Medicine, v. 43, n. 3, p. 263-309, 2018.MANION, S. C.; BRENNAN, T. J. Thoracic Epidural Analgesia and Acute Pain Management. Anesthesiology, v. 115, n. 1, p. 181-188, 2011.SOCIEDADE BRASILEIRA DE ANESTESIOLOGIA (SBA). Diretrizes de Anestesia Regional e Anticoagulação. Rio de Janeiro: SBA, 2020.Resumindo: a peridural torácica transforma o pós-operatório do paciente, mas exige precisão técnica, vigilância contínua e documentação rigorosa. Ficamos por aqui hoje e até o próximo episódio!📚 Referências Bibliográficas

    Peridural Torácica – Segurança Absoluta para Alguns e Riscos Desnecessários para Outros
  2. Aug 5

    Música no Centro Cirúrgico

    Música no Centro Cirúrgico 🎶🏥 🟢 Os Benefícios: Ouvir música (especialmente as familiares e preferidas) pode reduzir o estresse, a ansiedade e a carga mental da equipe durante a cirurgia. 🧘‍♂️✨ ⚠️ Os Riscos: O volume alto é o maior inimigo! Ele prejudica a comunicação, mascara o som de alarmes vitais e aumenta as chances de erros. 📉🗣️ 🎚️ A Música Ideal (Regras de Ouro): Volume: Entre 50 e 60 dB 🔊 (A legislação brasileira - NR 17 - proíbe passar de 65 dB em ambientes de concentração). Ritmo: Estável, entre 60 e 80 bpm ⏱️. Estilo: Instrumentais ou com poucas letras, sem mudanças bruscas e sem graves muito fortes 🎸🚫. Audibilidade: Todos na sala devem conseguir conversar e ouvir alarmes em tom de voz normal 💬. 🔴 Quando DESLIGAR a música (Silêncio Obrigatório): Recepção do paciente e Time-Out (Checklist) 📋 Indução anestésica, despertar e extubação 🛌 Eventos críticos, emergências ou sangramentos 🚨 Disparo de alarmes de monitores ou bombas de infusão 🔔 ⚖️ Legislação e Protocolo (POP) no Brasil: As normas (NR 17 e ABNT) e conselhos (CFM e SOBECC) exigem vigilância constante e conforto acústico. O uso de fones de ouvido individuais é proibido 🚫🎧. A decisão de ouvir música deve ser da equipe, mas se houver qualquer intercorrência ou desconforto, a segurança do paciente exige o silêncio imediato! 🛑👨‍⚕️👩‍⚕️ Referências Bibliográficas American Society of Anesthesiologists. (2025). Statement on Distractions. Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). NBR 10152: Acústica - Níveis de pressão sonora em ambientes internos. Conselho Federal de Medicina (CFM). Resolução CFM nº 2.174/2017. El Boghdady, M., & Ewalds-Kvist, B. M. (2020). The Influence of Music on the Surgical Task Performance: A Systematic Review. International Journal of Surgery, 73, 101-112. Fu, V. X., Oomens, P., Sneiders, D., et al. (2019). The Effect of Perioperative Music on the Stress Response to Surgery: A Meta-Analysis. The Journal of Surgical Research, 244, 444-455. Fu, V. X., Oomens, P., Kleinrensink, V. E. E., et al. (2021). The Effect of Preferred Music on Mental Workload and Laparoscopic Surgical Performance in a Simulated Setting (OPTIMISE): A Randomized Controlled Crossover Study. Surgical Endoscopy, 35(9), 5051-5061. Grant, L., Nicholson, P., Davidson, B., Finch, S., & Manias, E. (2026). Communication Failures and the Influence of Noise in the Operating Room: A Prospective Cohort Study. Journal of Clinical Nursing. Ministério do Trabalho e Emprego (Brasil). Norma Regulamentadora 17 (NR 17) - Ergonomia. Narayanan, A., Khashram, M., & Fisher, J. P. (2025). Randomized Cross-Over Trial Comparing Stress Responses Amongst Undergraduates and Surgeons With and Without Background Music During Simulated Surgery. Scientific Reports, 15(1), 19461. Sociedade Brasileira de Enfermeiros de Centro Cirúrgico (SOBECC). Diretrizes de Práticas em Enfermagem Cirúrgica e Processamento de Produtos para a Saúde. Wahr, J. A., Prager, R. L., Abernathy, J. H., et al. (2013). Patient Safety in the Cardiac Operating Room: Human Factors and Teamwork: A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation, 128(10), 1139-69. Weldon, S. M., Korkiakangas, T., Bezemer, J., & Kneebone, R. (2015). Music and communication in the operating theatre. Journal of Advanced Nursing, 71(12), 2763-74.

    Música no Centro Cirúrgico
  3. Jul 26

    Manobra de Heimlich

    🍷 **Jazz, luzes de neon, um jantar chique e... uma rolha de carne na garganta?!** 🥩 Nos loucos anos 70, desmaiar no meio do restaurante era tão comum que ganhou o apelido digno de filme *noir*: a **"coronária do café"**. Todo mundo em volta jurava que era um ataque cardíaco, mas o vilão real era bem menos glamouroso: um pedaço de bife mal mastigado bloqueando a traqueia! 🕵️‍♂️ A recomendação médica da época? Dar bons tapas nas costas da vítima. Só tinha um probleminha gravitacional: bater nas costas funcionava igual a bater em uma garrafa para tirar a rolha... a força só empurrava a comida ainda mais para o fundo! 🍾💥 É aí que entra o **Dr. Henry Heimlich**, um cirurgião rebelde que olhou para os nossos pulmões e enxergou um grande fole de lareira. Ele descobriu que um "abraço por trás" com um belo tranco no diafragma ejetava o obstáculo pela pura força do ar comprimido! 🌬️🚀 Mas a melhor parte da história é o motim midiático. Sabendo que a burocracia médica levaria anos para aprovar sua técnica, Heimlich deu uma de herói subversivo: "furou a fila" da ciência e vazou os diagramas diretos para os jornais, colunas de fofoca e revistas femininas! 🗞️🗣️ Ele colocou o passo a passo pendurado com ímã nas geladeiras de todo o país antes mesmo das grandes associações médicas darem o aval. O establishment médico pirou? Com certeza! Houve brigas de ego, tretas com a Cruz Vermelha e muita controvérsia. 🥊 Mas, no fim das contas, a ousadia (e teimosia) brilhante desse médico transformou garçons, taxistas e avós nos maiores e mais improváveis heróis de todos os tempos. 🦸‍♀️🦸‍♂️ Salva esse post e manda para aquele amigo que tem o péssimo hábito de comer rápido demais (só por precaução)! 👀👇 #ManobraDeHeimlich #CuriosidadesHistoricas #MedicinaRebelde #PrimeirosSocorros #HistoriaDaCiencia #Anos70 #Curiosidades #FatosDesconhecidos

    Manobra de Heimlich
  4. Jul 24

    "Rebranding” em Anestesiologia

    Na Natureza (ou melhor, na Anestesiologia), nada se cria, nada se perde... Tudo sofre rebranding! ♻️💸 Se Lavoisier fosse anestesiologista hoje, provavelmente choraria de rir. O progresso na nossa área muitas vezes não é uma linha reta rumo ao desconhecido, mas um verdadeiro carrossel corporativo: nós constantemente revisitamos o mesmo ponto, apenas com uma embalagem gourmet, um nome em inglês e um código de barras assustadoramente mais caro. A indústria aprendeu que requentar a ciência é altamente lucrativo. Pegam um anestésico da década de 1950, enfiam em bolhas de gordura de liberação lenta e cobram o equivalente a ouro líquido para entregar praticamente o mesmo resultado do bloqueio bem feito de sempre. Ou então pegam a velha, esquecida e baratíssima Clonidina, dão um "tapa no visual" para aumentar a seletividade e a vendem como a patricinha Dexmedetomidina. E a academia não fica para trás na gourmetização! 🔠 Nada consagra mais uma técnica jurássica do que dar a ela uma sigla chique. OFA (Opioid-Free Anesthesia)? É a boa e empoeirada anestesia multimodal com drogas da época da Guerra do Vietnã, só que com marketing de startup. LIA nos protocolos de ortopedia? É literalmente o cirurgião jogando anestésico na ferida, um conceito absolutamente revolucionário... do ano de 1905. O pêndulo do pragmatismo é irônico. Abandonamos drogas excelentes por histeria coletiva (alô, Droperidol banido por anos devido a arritmias raras) e abraçamos tecnologias caríssimas para encurtar despertares em 10 minutos, apenas para descobrir que a intervenção médica mais impactante do século continua sendo a mesma: simplesmente ler o rótulo da seringa antes de injetar. Mas, no fim do dia, os receptores do corpo humano ignoram solenemente o nosso marketing. Rir disso não é desmerecer a especialidade, mas aplaudir sua resiliência. A roda da anestesia pode até ser requentada várias vezes, pintada de neon e superfaturada, mas, inquestionavelmente, ela gira de forma muito mais suave e absurdamente mais segura para os nossos pacientes hoje. 🎡💉

    "Rebranding” em Anestesiologia
  5. Jul 12

    As Varias Formas de Fazer a Monitorização Cerebral

    Você confia cegamente no número do seu monitor de profundidade anestésica? 🧠⚡ Nossa mais recente revisão traz um comparativo direto das principais tecnologias de monitorização cerebral intraoperatória e nocicepção. Se você utiliza BIS, SedLine, Entropia, Conox ou Narcotrend, aqui estão as mensagens centrais para levar para o centro cirúrgico: 🔹 O número não é absoluto: Monitores de EEG processado fornecem estimativas probabilísticas da profundidade hipnótica, mas não medem a consciência diretamente.🔹 A regra de ouro é integrar: Nunca tome decisões baseadas apenas no índice numérico. Integre o valor com o EEG bruto, espectrograma, anestésico utilizado, qualidade do sinal e contexto clínico.🔹 Atenção aos não-GABAérgicos: Fármacos como cetamina, dexmedetomidina e óxido nitroso podem gerar padrões de EEG que resultam em índices paradoxais ou pouco confiáveis.🔹 Nocicepção não é receita de bolo: Tecnologias como ANI, SPI, qNOX e PPI avaliam respostas autonômicas ou musculares e funcionam como excelentes adjuvantes. No entanto, nunca devem guiar o uso de opioides de forma isolada.🔹 Não há um monitor vencedor: A melhor tecnologia é aquela que responde ao seu problema clínico específico e é interpretada por uma equipe treinada. A verdadeira competência não é apenas ler a tela, mas interpretar o paciente. Qual tecnologia de monitorização você tem mais familiaridade na sua prática diária? Conta pra gente nos comentários! 👇 legenda_instagram PDF Aberto

    As Varias Formas de Fazer a Monitorização Cerebral
  6. Jul 11

    Monitorização Cerebral em Anestesia

    Monitorização Cerebral em Anestesia: Por que você deve olhar muito além do número? 🧠⚡ A monitorização da profundidade anestésica através do EEG processado (como o BIS) foi um divisor de águas na nossa especialidade. No entanto, guiar a conduta baseando-se apenas em um número de 0 a 100 pode ser uma grande armadilha clínica. Baseado na excelente revisão do Dr. Marcio Augusto Lacerda, destacamos por que a prática anestésica atual exige o domínio da leitura do Espectrograma e do traçado bruto: Cuidado com as Falsas Elevações: O uso de eletrocautério, atividade muscular facial (EMG) ou até marcapassos podem elevar o valor numérico do BIS de forma enganosa. O número subiu abruptamente? Antes de administrar mais hipnótico, sempre valide a qualidade do sinal (SQI) e cheque os artefatos. Cada Fármaco tem sua Assinatura: O espectrograma permite literalmente "ver" a ação da droga no cérebro. Enquanto o Propofol e os voláteis criam um padrão clássico Alfa-Delta, a Cetamina promove ondas rápidas (podendo manter o BIS entre 60-80 mesmo em anestesia profunda) e a Dexmedetomidina mimetiza o sono fisiológico. Populações Especiais Exigem Cautela: O cérebro idoso produz menos ondas Alfa e entra muito mais facilmente em Burst Suppression (surto-supressão). Reduzir as doses e evitar a supressão excessiva no espectrograma é um passo fundamental para prevenir o delirium pós-operatório. A Evolução é Visual: Já superamos a era do "número cego". A matriz de densidade espectral mostra em cores o que está acontecendo: cores quentes indicam alta energia elétrica; cores frias, silêncio. Isso permite antecipar tendências antes mesmo do número alterar. O monitor não substitui o anestesiologista. A verdadeira segurança do paciente está na integração entre tecnologia, neurofisiologia aplicada e o seu julgamento clínico. Você já tem o hábito de guiar sua conduta analisando as cores e ondas do espectrograma? Compartilhe sua experiência nos comentários! 👇

    Monitorização Cerebral em Anestesia

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