Salão de Bailes

Roberto Gamito

Farto de estar engaiolado nas convenções da comédia. Não tentem domesticar o apetite de um homem. Podcast de comédia e improviso. robertogamito.substack.com

Episodes

  1. 53m ago

    Baile 12 - O azar é o Deus Ex Machina da vida real

    amor, não há minutos de descanso que nos redimam após uma jornada de trabalho que nos escavaca sem oposição corpo, mente — pois a alma já está no prego há anos. prosseguindo em minúsculas, evitando acordar o deus dos inícios, chego ao microfone ou à folha cansado, sem saber quem sou, uma vez que desbaratei os passos a andar em círculos seguindo o trilho da produtividade. ajoelhar-me-ia todas as noites diante do altar do deus dos precários, caso o conhecesse. As minhas falangetas socorrem-me em momentos de maior aperto. Balbucio umas sílabas graças à tinta da caneta, leio um punhado de linhas de antanho e adormeço. nunca liguei muito à música, passei pela vida sem que me servisse de grande coisa. era-me um estorvo, preferiria estar a sós, trocando bolas com os meus pensamentos. a situação agudizou-se e dei-me conta que a uso no trabalho repetitivo com o fito de demolir cortesmente a monotonia. não logro imaginar Sísifo a sorrir, mas sou capaz de o percepcionar a cantarolar. O inferno da repetição, que de outra forma nos apresentaria a loucura de bandeja num empratamento de arregalar o olho mais exigente, pode ser adiado — por assim, arrefecido — pela música. Não há salvação por intermédio da arte, desafortunadamente. Quando muito, sofrível paliativo. Por ora, ainda não está tudo perdido. Todas as semanas tento aprender novas canções cantaroláveis no trabalho. Cinco estrelas no Spotify se me quiserem ajudar com o podcast. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit robertogamito.substack.com

    Baile 12 - O azar é o Deus Ex Machina da vida real
  2. Aug 7

    Baile 11 - Cadela gota a gota parida

    O álcool, vício corrente neste rectângulo luso desenhado por uma criança sem as bases de geometria, dá-nos, qual relação, o melhor e o pior da existência. A cadela líquida aguarda-nos com uma dicção espatifada no final da corrida dos copos. Cada um com o seu tempo nesta corrida sub-reptícia, nunca articulada enquanto tal. Porém, falemos dos precipitados. Quem chega lá por via de molhar o bicho na espuma de duas cervejas merece ser apedrejado com insultos tradicionalmente portugueses. Não te demores, porém também não te apresses. Embebedar-nos é — já cá faltava — como a comédia, tem a ver com timing. A menos que seja num casamento, aí não há alturas erradas. Se analisado pela perspectiva do capitalismo, o nosso vampiro ubíquo cuja sede de sangue nunca se extinguirá, haja alguém com interesse perene no nosso pescoço, o apressado merecerá honras de destaque. Bebe em contra-relógio porque tempo é dinheiro. Todavia se assim é, que o seja nos restantes departamentos da vidinha. O gestor que entoa a lengalenga da produtividade não pode, para bem do PIB e da coerência, ser praticante de sexo tântrico quando, em meio laboral, nos fode de supetão. Só na fornicação do trabalhador é que a burocracia — os papéis — é descartada. Estou por aí em certas redes sociais. No Spotify as cinco estrelas são bem-vindas. -Roberto Gamito This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit robertogamito.substack.com

    Baile 11 - Cadela gota a gota parida
  3. Aug 1

    Baile 10 - Farto da raiva de classe alta do Bill Burr

    Considerandos de jaez colérico sobre os émulos do Bill Burr em terras lusas. A necessidade de resgatar do fundo do raio estagnado, atulhado de rostos de narciso, uma raiva que nos sirva, conduziu-me a este episódio. Neste império de rebranding incansável nas bordas do qual o Salvador Martinha é apenas um micro-evangelizador, onde as palavras são sempre a caricatura do que poderia um discurso rigoroso, só músculo e disponível para rija zaragata, não há comédia capaz de vivificar quem anda a fazer piscinas entre a vida e a morte ou, se preferirem termos mais canónicos, casa-trabalho, trabalho-casa, supondo que, neste smog neoliberal amiúde confundido com nevoeiro do qual nem restos de Salvador nos escutam as preces, são dois apeadeiros indiscerníveis. Fartinho de iconoclastas de esplanada que vêem em cada martelinho o martelo do Thor, justificando assim a impossibilidade de o manejar. Avanço por aí em várias frentes, semeando rastilhos antes que tudo arda. Encontram-me, caso queiram ou não haja ocupações para neurónios acamados, desnorteados de tanto estímulo açucarado, no Spotify disseminado numa fauna luxuriante de podcasts. Algum há-de estar conforme o vosso apetite. Dêem o próximo passo, não me obriguem a recrutar um tipo de marketing a fim de nos fantasiar um encontro criador-público. A arte é a perturbação nas águas estagnadas ou não é nada. Enquanto o marasmo não regressa — e ele só sabe regressar —, o homem singra. O humorista é, por definição, insubornável. Nunca menos que a cabeça do Rei, esse é o verdadeiro legado dos bobos, os derradeiros regicidas. * Roberto Gamito This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit robertogamito.substack.com

    Baile 10 - Farto da raiva de classe alta do Bill Burr
  4. May 16

    Baile 1 - A convenção é uma finta vossa

    O Salão de Bailes, tal como a maioria das coisas que as minhas falangetas e neurónios dão à luz, nasce da necessidade. Resume-se a isto: pôr a fome em discurso. Careço de pachorra para o inferno do mesmo instalado na comédia e em outros tantos ateliers onde nem sequer há vontade de semear bigodes nas convenções. A Mona Lisa atravessa com o vagar de personagem de acção numa cena de explosões um corredor prenhe de artistas contemporâneos e sai imaculada. Talvez até mais penteada do que entrou. Tudo se assoma à mão do artista como se saísse de uma fábrica. O iconoclasta tornou-se uma lenda; a emancipação da obra, conto de fadas. Recebemos o mundo e as notícias sobre o mesmo de joelhos, confundimos a coisa e a sua representação em virtude de a nossa cosmovisão ser de origem ciclópica, quer dizer, literal. Vergamo-nos com prontidão, receosos de que, se exibíssemos a verticalidade — coisa rara em todas as épocas —, nos cortariam a ração, a razão e as rimas fáceis. O humor que se baba por todos os lados, sem dentes e sem garras, mais manso que fera, fugindo do incómodo como o Diabo da cruz, seca-me, em vez de me vivificar. Cada vez me interessa menos essa via. Releio obras de Swift, Rabelais, Cervantes, Sterne e envergonho-me do meu século. Estou em crer que Apolo e a razão foram congeminações de Dioniso (basta ler na diagonal A História da Loucura de Foucault), o deus da embriaguez, do vinho, da tragédia, comédia e insânia e, não esqueçamos, da orgia. Dioniso deu à luz uma ninhada de olímpicos numa câmara anecóica quando o sangue o invadiu, assumindo-se como a única música verdadeira. Chegamos ao amor cansados, sem idioma à altura de explicar o nosso atraso. E isso nota-se na comédia. Quando muito, legendamos o outro e o mundo enfadonhamente. Gostava de experimentar outra senda. Permitam-me esta ousadia. Urge regressar ao inferno acompanhado de Dionísio (outra forma de o grafar) — não me importo de ser seu escravo se este for o labor — como sucede na peça de Aristófanes. Desta vez resgataríamos não os tragediógrafos (felizmente os mestres da tragédia abundam no nosso tempo), mas os maiores comediógrafos, bobos, bufões, rufias com verve, quiçá nos recordassem que a comédia sempre foi sinónimo de liberdade. Eis o primeiro episódio. Estará disponível no Spotify e em breve noutras plataformas. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit robertogamito.substack.com

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