Salão de Bailes

Roberto Gamito

Farto de estar engaiolado nas convenções da comédia. Não tentem domesticar o apetite de um homem. Podcast de comédia e improviso. robertogamito.substack.com

  1. Sep 12

    Baile 15 - Tangerina descascada nunca será uma salada de frutas

    Neste século onde as coisas não param duas semanas com o mesmo nome, fruto de um rebranding doentio no sentido de aumentar a produtividade e alegrar gestores, accionistas e pessoas engaioladas em siglas, indivíduos que só conseguem pensar no mundo com um Power Point no background, cruzei-me com o insólito. Noutros tempos mais selvagens, tal episódio motivaria uma revolução. Embora não haja uma marca que não alardeie a sua pretensa sustentabilidade e comunique a quem quiser ouvir a sua suposta amizade com o meio ambiente, a realidade contradiz essa contínua lengalenga. Falta ouvir a outra parte interessada, a Natureza. Mas atiremos o exemplo para cima da mesa: cruzei-me com uma embalagem de plástico, pousada à balda num dos corredores do hipermercado, com uma tangerina descascada e ressequida lá dentro. Só isto era motivo para plagiarmos a intro célebre do Fernando Rocha. Porém, como nós vivenciamos a era da pós-profundidade, termo cunhado pelo Sevilhano (bom livro, já agora), a legenda que acompanhava a clementina murcha era: “salada de frutas”. Isto muda tudo, como diria o chatgpt. Uma fruta é uma fruta com casca; se descascada, uma salada de frutas. Eu, que raramente confeccionei salada de frutas em casa, pelo trabalho que dá, pelo sentido estético que é necessário a fim de combinar as cores das frutas numa taça para não passar vergonhas numa foto de redes sociais, furtei-me sempre. São águas passadas, o neoliberalismo selvagem (estou há anos a tentar descobrir o paradeiro do manso mas até ver sem sucesso) apresentou-me uma solução ou um desafio, um dos dois. Hoje basta-me descascar uma fruta. Jesus deu-nos a multiplicação dos pães; o marketing a multiplicação da fruta. Os nutricionistas não me deixam mentir: o marketing suplantou Cristo. Há também um comentário a uma cena de sexo escaldante em horário laboral num sítio impróprio para a vida. O elogio ao desejo. Trabalhos mais propícios para o sexo e tal deveria ser promovido logo na entrevista de emprego. Nós temos bom ambiente, diria o tipo dos recursos humanos, há sítios próprios para a fodanga, e se quiser, garantimos que o chefe se encontra nas imediações só para que o tesão seja ainda maior. Então, contamos consigo? Cinco estrelas no Spotify no Salão de Bailes. E estou por aí com outros podcasts, basta procurarem. Comecei um blog chamado Penúltimo Habitat. Eventualmente, merecerá uma visita vossa. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit robertogamito.substack.com

    Baile 15 - Tangerina descascada nunca será uma salada de frutas
  2. Aug 31

    Baile 14 - O nabo masculino é uma ave migratória

    A ferramenta macha, não raro marginalizada nas conversas humorísticas durante as quais se discute à parva sobre estética e texto, falhando quase sempre, merece outro tipo de reconhecimento. Se Umberto Eco fosse vivo, obrigá-lo-íamos a revisitar seu livro História do Feio com o fito de incluir um grosso — perdoem-me a brincadeira, todavia o tempo das minúcias já lá vai — capítulo sobre o pénis, o rapaz dos mil nomes. O eterno excluído da lei de rede social segundo a qual todos os corpos são bonitos, apetecíveis ao olhar e, em havendo consentimento e agenda, ao toque. Segundo estes estetas puritanos, o mundo é belo de uma ponta à outra, à excepção do nabo. O maior discriminado do século XXI, mais ainda quando não solicitado (as desculpas universais quando é a altura de oprimir). Atrever-me-ia a dizer que é este linchamento verbal de que é alvo condu-lo à disfunção eréctil e não os microplásticos, como afiança o livro Espermagedão, do qual espero a versão f´ílmica com expectativa e despojado de indumentária, supondo que o li bem. Neste episódio, ensaio a ideia que o pénis é uma ave migratória, a qual procura fazer ninho nas caixas de mensagens das influencers. Procuro pareceres esclarecidos, oriundos de estudiosos da vida selvagem, quer dizer, de biólogos e sexólogas. Eis a décima quinta dança deste vosso entrevado dançarino. Em princípio podemos encontrar-nos por aí em algumas redes quase sociais. Também comecei um blog há dias, o Penúltimo Habitat. O meu nome é Roberto Gamito e continuo com vontade de dançar. Sigam-me e/ou dêem 5 estrelas no Spotify ou na vossa plataforma de podcasts de eleição, o bochechudo agradece. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit robertogamito.substack.com

    Baile 14 - O nabo masculino é uma ave migratória
  3. Aug 15

    Baile 12 - O azar é o Deus Ex Machina da vida real

    amor, não há minutos de descanso que nos redimam após uma jornada de trabalho que nos escavaca sem oposição corpo, mente — pois a alma já está no prego há anos. prosseguindo em minúsculas, evitando acordar o deus dos inícios, chego ao microfone ou à folha cansado, sem saber quem sou, uma vez que desbaratei os passos a andar em círculos seguindo o trilho da produtividade. ajoelhar-me-ia todas as noites diante do altar do deus dos precários, caso o conhecesse. As minhas falangetas socorrem-me em momentos de maior aperto. Balbucio umas sílabas graças à tinta da caneta, leio um punhado de linhas de antanho e adormeço. nunca liguei muito à música, passei pela vida sem que me servisse de grande coisa. era-me um estorvo, preferiria estar a sós, trocando bolas com os meus pensamentos. a situação agudizou-se e dei-me conta que a uso no trabalho repetitivo com o fito de demolir cortesmente a monotonia. não logro imaginar Sísifo a sorrir, mas sou capaz de o percepcionar a cantarolar. O inferno da repetição, que de outra forma nos apresentaria a loucura de bandeja num empratamento de arregalar o olho mais exigente, pode ser adiado — por assim, arrefecido — pela música. Não há salvação por intermédio da arte, desafortunadamente. Quando muito, sofrível paliativo. Por ora, ainda não está tudo perdido. Todas as semanas tento aprender novas canções cantaroláveis no trabalho. Cinco estrelas no Spotify se me quiserem ajudar com o podcast. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit robertogamito.substack.com

    Baile 12 - O azar é o Deus Ex Machina da vida real

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