Contos do Não-Lugar

Marina Silva

O Não-Lugar não é bem um lugar, mas você acaba se acostumando com a falta de coordenadas. essencialmentemari.substack.com

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  1. Aug 10

    Episódio 5: Essencialmente Nós

    O Não-Lugar hoje parecia transparente. Como se alguém tivesse lavado o vácuo com água de nascente cósmica e polido cada partícula de escuridão até ela brilhar como vidro soprado por anjos. O céu roxo estava tão límpido que as distâncias perderam o sentido — estrelas distantes pareciam ao alcance das mãos, e você quase esperava que, se esticasse os dedos, tocaria Andrômeda como quem colhe uma fruta madura. O rio de poeira estelar corria num silêncio absoluto, quase sagrado, como se até os barcos de origami em chamas azuis tivessem decidido queimar mais baixo hoje, em respeito a algo que ainda não tinha sido dito. A areia cinzenta que subia em espirais estava calma, flutuando como plumas lentas no espaço sem vento — cada grão uma meditação suspensa. O zumbido elétrico de baixa frequência estava quase inaudível. O Não-Lugar inteiro parecia estar prendendo a respiração. Aurora estava sentada na borda do poço cósmico, os cabelos ruivos caindo sobre os ombros como rios de cobre líquido, enquanto olhava para dentro da água de luz estelar. Hoje o poço não mostrava catástrofes. Não mostrava guerras, abraços ou encruzilhadas. Mostrava padrões microscópicos brilhantes — estruturas celulares pulsando em néon, redes neurais se conectando e desconectando como constelações vivas, membranas translúcidas vibrando em frequências impossíveis. Como se a água fosse uma imensa lente de microscópio revelando as células secretas do universo. — Sabe, eu não me canso de observar as mentes terrestres — comentou Aurora, traçando círculos na borda de pedra com a ponta dos dedos, no tom casual de quem puxa assunto numa madrugada sem fim. — Tem uma alma que eu venho assistindo faz uns dias. Agora há pouco, ela ficou encarando o próprio reflexo no espelho por horas. Tipo, horas mesmo. Tentando entender o que significa, afinal, ser “essencialmente” ela. O que é o núcleo quando você remove todas as camadas e máscaras? A Mulher de Branco aproximou-se, deslizando sobre o vácuo como uma aurora boreal em câmera lenta. Sua pele de luz estelar translúcida refletia os padrões geométricos que pulsavam no poço — como se ela própria fosse feita do mesmo material que a pergunta. — E ela chegou a alguma conclusão? — perguntou, sentando-se ao lado de Aurora com a naturalidade de quem se senta em nuvens há milênios. — Ah, as de sempre — Aurora deu um gole na caneca de argila, a fumaça estelar subindo em espirais que imitavam a forma de um DNA. — Se eles fazem uma leitura social de si mesmos, a resposta vem rápida, no piloto automático, feito um reflexo patelar: “Sou fulano, sou engenheiro, sou professora, sou irmão, sou filha, sou mãe, sou artista.” Ela bateu o dedo na borda do poço, pontuando cada rótulo. — São rótulos confortáveis, né? Funcionam como a pele que reveste o corpo: definem contornos, protegem as vísceras, permitem o atrito necessário com o mundo sem que a gente se dissolva. Dão forma ao amorfo. Mas o que me chamou atenção nessa alma é que ela começou a fazer uma investigação profunda dentro de si mesma. E percebeu a fragilidade de tudo isso. Percebeu que cada rótulo é um tecido que pode ser removido sem que a essência morra. — O que acontece quando o cenário muda? — a Mulher de Branco provocou com suavidade, os olhos-galáxia fixos em Aurora com a paciência de quem já conhece a resposta, mas quer ver a outra chegar sozinha. — Exato! Esse é o ponto — Aurora se entusiasmou, endireitando-se, os olhos acendendo com aquele brilho que tinha quando as peças se encaixavam. — Se o destino a impedisse hoje de exercer o trabalho dela... sei lá, cara, uma doença, um acidente, uma virada radical de vida... ela deixaria de ser quem é? Se a árvore genealógica dela fosse podada e ela não fosse mais irmã, ou se tivesse tomado rumos completamente diferentes e estivesse hoje vendendo arte na praia, com os pés sujos de areia e sal, o cabelo cheio de vento e sol... ela seria menos ela? Aurora fez uma pausa dramática, deixando a pergunta ecoar no vácuo. — Tipo… a nossa profissão, os nossos papéis familiares, a nossa arte, nada disso é o que somos. É só o que fazemos. O que estamos sendo neste momento, mas não o que somos. São as roupas que a alma veste para passear na matéria. Quase um carnaval cósmico. Lindas, coloridas, necessárias para a festa... mas não são a pessoa dentro da fantasia. A Mulher de Branco assentiu, e no poço a imagem mudou: uma silhueta humana translúcida flutuava no vácuo, e ao seu redor placas geométricas luminosas com palavras — “Trabalho”, “Família”, “Papel”, “Gênero”, “Título” — começaram a se desprender como pele morta, revelando no centro um núcleo brilhante de pura consciência dourada, pulsando como um coração de luz. — Então, o que resta na mesa de operação — perguntou a Mulher de Branco, a voz preenchendo o vácuo com uma profundidade antiga — quando removemos a pele, as camadas da personalidade e as linhas da biografia? O que sobra quando você tira tudo que é acessório? — A Consciência — respondeu Aurora, o olhar fixo no núcleo dourado que pulsava no poço. — Aquele espaço silencioso entre um pensamento e outro. Um vácuo existencial. Um gap sináptico da alma. Esse observador invisível que permanece o mesmo desde o primeiro choro na maternidade até o último suspiro na Terra. O corpo muda a cada sete anos, as células morrem e renascem, as crenças se transformam, os amores vêm e vão... mas Aquele que Observa? Continua igual. Imutável. Eterno. Como essa areia aqui — ela apontou para os grãos que subiam — sempre subindo, sempre a mesma, desde sempre. Ela pausou, mordendo o lábio. — Só que, para as mentes binárias deles, pensar “então eu sou essencialmente um espaço vazio? Eu sou o Nada?” soa quase assustador. Tipo, niilista mesmo. — Porque eles foram condicionados a pensar de forma binária — explicou a Mulher de Branco, e onde ela tocou o asteroide brotaram pequenas flores de luz. — Ou algo existe como matéria, ou não existe como vazio. Preto ou branco. Um ou zero. Ser ou não ser. Mas a realidade, pequena Aurora, não opera nessa simplicidade cartesiana. Ela ergueu a mão, e entre os dedos de luz nasceu uma partícula — cintilando, piscando, presente em dois lugares ao mesmo tempo. — O Vazio não é ausência; é potencial puro. É o útero de onde tudo nasce. É o silêncio entre as notas que torna a música possível. A vida caminha pela dualidade, mas o destino final é a Não-Dualidade. A integração. A individuação. É entender que o Vazio e a Forma são a mesma coisa vista de ângulos diferentes. — Mas viver só na abstração do “eu sou o vazio” não paga as contas deles e nem aquece o coração — ponderou Aurora, girando a caneca nas mãos. — Eles precisam de uma ponte entre o Ser e o Fazer. Entre a essência e a existência. — E essa ponte — completou a Mulher de Branco, a luz pulsando em tons de âmbar — é o Dharma. O Propósito Primordial. Aquilo que aquece e move o coração espiritual. É o acordo silencioso feito na sala de espera antes de mergulhar na densidade da carne. Para os espiritualistas, é aquele momento, antes da reencarnação, em que a alma define: “Nesta vida, eu vou descer para aprender e ensinar isto aqui.” O Dharma é a missão cirúrgica da alma na Terra. É a frequência única que você veio tocar na orquestra do universo. — E o mais bonito de ver nessa alma que eu estava observando — comentou Aurora, com um sorriso terno que iluminou o rosto — foi o desdobramento disso. A mente dela achava que o propósito era a profissão específica. Tipo, achava que ser aquilo era quem ela era. Mas quando silenciou de verdade para ouvir o coração, percebeu que as ferramentas de trabalho são apenas isso: ferramentas. Não são a missão. Aurora tocou a superfície do poço, e a água de luz estelar respondeu. — O verdadeiro Dharma dela é: amar quem teve o amor negado. A Mulher de Branco sorriu, e seu sorriso foi uma constelação inteira nascendo. A luz estelar do poço brilhou com mais intensidade, projetando duas imagens flutuantes no ar roxo, como espelhos cósmicos lado a lado. Na primeira, a alma vestia suas roupas habituais de trabalho e confortava alguém em profundo sofrimento, segurando a mão dele, olhando nos olhos com uma presença que dizia “você importa”. Na segunda, a mesma alma vendia pequenas esculturas numa praia distante, descalça, os pés sujos de areia, tratando um cliente marginalizado, alguém que todos ignoravam, com uma dignidade invisível, com um respeito que aquela pessoa não encontrava em nenhum outro lugar. Ambas as projeções emanavam a mesmíssima frequência dourada de amor. A mesma luz. A mesma assinatura energética. O mesmo Dharma. — Magnífico — sussurrou a Mulher de Branco, e a voz era reverência pura. — Se ela estivesse na praia, o Dharma continuaria o mesmo. Se estivesse num hospital, numa escola, numa prisão, numa floresta... o Dharma continuaria o mesmo. Porque o Dharma não é o que você faz. É como você faz. É a frequência que você emite. É a música que sua alma toca, independentemente do instrumento que você escolhe. Ela pausou, deixando o silêncio trabalhar. — O Dharma é como a gravidade: você pode tentar voar para longe, mas ele sempre te puxa para o centro de quem você é. E quando você se alinha a ele, surge uma paz sem atrito. Um encaixe perfeito. Como uma chave entrando na fechadura certa. — Só que essa certeza não é uma linha de chegada, né? — comentou Aurora, girando a caneca nas mãos, vendo a fumaça estelar dançar. — O autoconhecimento não é uma estrada reta onde você chega no quilômetro final e diz “pronto, me conheci, missão cumprida”. Não é assim que funciona. — Não — concordou a Mulher de Branco, e apontou

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