Sala das Máquinas

Carlos Mattos

Onde a engenharia real acontece — longe do palco, perto da máquina. A Sala das Máquinas em áudio: Travessias narradas pelo autor sobre carreira internacional em tecnologia, Bancadas selecionadas sobre arquitetura e engenharia de software, e em breve o Convés — entrevistas longas com quem constrói de verdade. Por Carlos Mattos: CTO regional para a América Latina, autor de O Código Invisível, 25 anos construindo software para bancos no Brasil, EUA, Europa e México. saladasmaquinas.substack.com

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  1. Jan 5

    O dia em que parei de gostar de código

    Em 2017 parei de gostar de escrever código. Levou três meses pra entender o motivo. Quem trabalha com software por tempo suficiente conhece a sensação. Você abre o editor, olha pra tela, e o que era prazer virou tarefa. O código sai, os testes passam, o cliente aceita. Mas a coisa que te trazia pra mesa todo dia, sem precisar de café nem reunião de motivação, sumiu. Naquele ano eu estava liderando entregas pesadas. Projetos grandes, equipes em três fusos, prazo apertado. Achei que era cansaço. Tirei alguns dias de folga, voltei. Não mudou nada. Achei que era idade. Naquela altura eu já tinha quase vinte anos de carreira. Mas idade não explica perder o gosto pelo que você sempre amou fazer. A virada veio numa sexta à noite, sem cerimônia. Eu queria entender como rodava o Cosmos DB com a API do MongoDB. Não tinha cliente cobrando, não tinha sprint correndo, não tinha apresentação na semana seguinte. Só curiosidade. Atualizei o Visual Studio, instalei o SDK, abri o navegador e fui caçar exemplos. Quebrou na primeira tentativa. Quebrou na segunda. Na terceira rodou. Eu fiquei feliz que nem criança que acabou de armar um quebra-cabeça. Foi ali que entendi. Eu não tinha parado de gostar de código. Tinha parado de aprender. Os projetos do trabalho, por mais difíceis que fossem, estavam no meu repertório. Não tinham mais surpresa. E surpresa é o combustível, não o produto da escrita de código. Quem programa sabe disso desde o primeiro hello world: o barato é descobrir como a coisa funciona, não fazer a coisa funcionar pela milésima vez. Aquela noite com o Cosmos DB me devolveu o gosto. Voltei pro hábito de reservar tempo, toda semana, pra mexer em alguma coisa que eu não dominava. Pequeno. Sem pressão. Sem obrigação de virar palestra, post ou apresentação interna. Em 2026, o problema é o oposto Nove anos depois, tudo mudou. A pergunta que me preocupava em 2017 era “como mantenho a curiosidade num trabalho que virou repetição?”. Em 2026 a pergunta é outra: “como decido o que aprender quando todo dia sai uma ferramenta nova?”. Quem trabalha com tecnologia hoje vive afogado em novidade. O LinkedIn cospe lançamentos a cada hora. Toda semana tem um modelo novo, um framework novo, um SDK novo, um benchmark novo, um agente novo. A indústria inteira entrou em modo de gritaria. Não dá pra acompanhar tudo. E tentar acompanhar é o caminho mais curto pra outra crise: o esgotamento. Resolvi inverter o método. Em vez de correr atrás do que está em alta, voltei à pergunta que sempre funcionou. O que me deixa curioso de verdade? A resposta nem sempre é a tendência da semana. Às vezes é uma coisa antiga que eu nunca entendi direito. Às vezes é um problema do trabalho que merecia atenção e eu adiava. Às vezes é uma ferramenta que apareceu há dois anos e só agora faz sentido testar. Curiosidade não tem cronograma de release. O que aprendi nesses vinte e cinco anos é simples. A bateria do programador não recarrega com férias. Férias resolvem cansaço, e cansaço é um problema diferente. O que recarrega a bateria é descobrir alguma coisa nova, mesmo que pequena, mesmo que ninguém vá ver. Se você está nesse ponto da carreira em que abrir o editor virou obrigação, não é sinal de que a profissão acabou pra você. É sinal de que você parou de aprender. E em 2026, com tanta coisa nova batendo na porta, parar de aprender é uma escolha estranha. Você não precisa correr atrás de tudo. Precisa só achar uma coisa que te deixe curioso de novo. Bússola. Cansaço se trata com descanso. Tédio com curiosidade. Não confunda os dois remédios. Carlos Mattos é CTO regional para a América Latina em uma consultoria global de tecnologia focada em serviços financeiros, autor de O Código Invisível e Microsoft Regional Director desde 2017. Escreve da Cidade do México. Sala das Máquinas é uma publicação financiada pelos leitores. Para receber novas publicações e apoiar meu trabalho, considere se tornar um assinante gratuito ou pago. Get full access to Sala das Máquinas at saladasmaquinas.substack.com/subscribe

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Onde a engenharia real acontece — longe do palco, perto da máquina. A Sala das Máquinas em áudio: Travessias narradas pelo autor sobre carreira internacional em tecnologia, Bancadas selecionadas sobre arquitetura e engenharia de software, e em breve o Convés — entrevistas longas com quem constrói de verdade. Por Carlos Mattos: CTO regional para a América Latina, autor de O Código Invisível, 25 anos construindo software para bancos no Brasil, EUA, Europa e México. saladasmaquinas.substack.com