Filotecnia

Fernando Miguel Santos

Por amor à arte. Pelo prazer do texto. Fernando Miguel Santos fernandomiguelsantos.substack.com

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  1. 20h ago

    Episódio 2 - Cultivar como Garrett

    Olá, sejam bem-vindos ao Filotecnia. Lembram-se de termos falado de campos semânticos? Pois a palavra que nos faz regressar até essa noção, hoje, é Cultura. É nítida e inegável a ligação entre, pelo menos, dois campos semânticos que a palavra comporta. É possível cultivar o que é agrário, mas também o que é gregário. Tanto se cultiva vegetais como ideais. Se por um lado nos parece que nada brota que não seja plantado nem regado, por outro não deixamos de nos digladiar com ervas daninhas, que apenas conhecimentos de botânica mais profundos do que o empirismo da “mão verde” nos explicam como ali chegaram. O mesmo acontece no mundo das ideias, das artes em geral e da literatura em específico, onde o sério cultivo se vê envolvido por queixumes daninhos sobre a falta de artistas ou autores dignos do que houve noutros tempos. Sobre isto, recordo o prefácio de Almeida Garrett a “O Auto de Gil Vicente”. Garrett debruça-se sobre o porquê de não existir teatro em Portugal. Parece-me que a semelhança com os dias de hoje, no mundo literário, são tão significativas quanto assustadoras. Diz assim: “Em Portugal nunca chegou a haver teatro, o que se chama teatro nacional, nunca; até nisso se parece a nossa literatura com a latina, que também o não teve. A cena romana viveu sempre de empréstimos gregos, nunca houve renda própria, a nossa andou fazendo “operações mistas” com a Itália e Castela, até que, fatigada de uma existência difícil, toda de privações e sem glória, arreou a bandeira nacional, que nunca içara com verdadeiro e bom direito, e entregou-se à invasão francesa.” À semelhança desta ausência de que Garrett se queixa, com legitimidade, há hoje um clamor que diz haver falta de quem escreva. Alguns editores de livros queixam-se de que não há autores. Ora, os autores, para introduzir uma referência adequada às festividades recentes, são como as bruxas do ditado: ninguém acredita neles, mas que os há, há. Como no tempo de Garrett há espaço para todo o tipo de importações. O que vem de fora continua a chegar com uma validação que parece, aos entorpecidos olhos que adiante descreverei, muito mais proveitosa. Continua Garrett: “A causa desta esterilidade dramática, desta como negação para o teatro em um povo de tanto engenho, em que outros ramos da literatura se têm cultivado tanto… não se pode explicar, dizem todos, e eu também o tenho dito. Mas é que nada se acha sem procurar. Ora vamos a ver. O teatro é um grande meio de civilização, mas não prospera onde a não há. Não têm a procura os seus produtos enquanto o gosto não forma os hábitos e com eles a necessidade. Para principiar, pois, é mister criar um mercado factício. É o que fez Richelieu em Paris, e a corte de Espanha em Madrid; o que já tinham feito os certames e concursos públicos em Atenas, e o que em Lisboa tinham começado a fazer D. Manuel e D. João III” E continua: “Depois de criado o gosto público, o gosto público sustenta o teatro, é o que sucedeu em França e em Espanha; é o que teria sucedido em Portugal, se o misticismo belicoso de el-rei D. Sebastião, que não tratava senão de brigar e rezar, — e logo a dominação estrangeira que nos absorveu, não tivessem cortado à nascença a planta que ainda precisava de muito abrigo e muito amparo.” E se reformulassemos o último parágrafo de Garrett? Assim ficaria: Depois de criado o gosto público, o gosto público sustenta os novos autores nacionais. É o que sucede em muitos países; é o que aconteceria em Portugal, se a lógica mercantil, que não trata senão de facturar e lucrar, e as celebridades e os autores estrangeiros que nos absorvem, não consumissem à nascença todos os recursos da terra onde a nova literatura se plantaria e encontraria abrigo e amparo. Dizem que não há autores. Eu digo para olharmos para o outro lado. Onde estão os editores? Os cultores de outrora foram substituídos, salvo excepções que merecem elogio, por seleccionadores de notoriedade, procurando quem tem público antes de ter o que lhe oferecer. Isto resulta num mundo editorial que em vez de cultivar, proteger, regar e colher, prefere importar literatura e transplantar fama para o mundo literário, oferecendo de bandeja o espaço que existia para aqueles que praticam a escrita, que aqui se deve ler como Barthes a lia (habituem-se à presença de Barthes por aqui), a do scriptor, aquele que produz e se produz na actividade de escrever. Por altura do lançamento do meu último livro, “Memórias que uma Vacina não Apaga”, um memoir sobre o tempo da pandemia do ponto de vista de enfermeiro, confrontei-me com sérias dificuldades de distribuição. As editoras dos grandes grupos reagem à recepção de manuscritos maioritariamente com silêncio. “Se dentro de x dias não lhe dermos resposta, é porque é não.” Os distribuidores exigem que o livro tenha o crivo de um editor, mas muitos têm um largo histórico de preferência, para não dizer promiscuidade, com os grandes grupos editoriais. Isto quando não são parte do seu portefolio de negócios. As redes de livreiros exigem que os livros lhes cheguem através de distribuidores, o que fecha a pescadinha de rabo na boca. Para cúmulo, os autores mais incautos podem ser apanhados nas redes dos vanity publishers, por quem são seduzidos e conduzidos a pagar pela edição do seu livro, o que lhes garante uma conotação a uma prática que o mercado (sim, o mesmo mercado que criou este tipo de empresas) julga como má prática. O autor paga um serviço a uma editora que garante a publicação, o nome da chancela na capa, a disponibilização dos livros online e, com sorte, nas livrarias. Tudo se passa por consignação, as livrarias devolvem os exemplares à editora pouco tempo depois, ninguém trata da promoção e o autor fica refém de um contrato com uma empresa que o enganou. Resulta para quem quer editar o livro de quadras que escreveu em honra da padroeira da terra, mas não é a melhor solução para quem quer fazer uma carreira literária. Já me aconteceu. E só descobri a burla já o charlatão tinha fugido para o Brasil. Poderão perguntar-se por que razão os escritores não recorrem mais à edição de autor. Acontece que a APEL, Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, responsável pela atribuição do ISBN, o International Standard Book Number, o número padronizado internacionalmente que permite identificar o livro, limita a atribuição a três obras. Ou seja, o mesmo escritor só pode fazer três edições de autor. Depois, por ser considerado profissional, deve fazê-lo através de uma editora. Soa a demasiada burocracia? Imaginem para quem só quer escrever. Recentemente, ao preparar a publicação do meu próximo livro, tive oportunidade de contactar com um editor que alcançou algum sucesso comercial. Nunca lhe pedi a publicação da conversa, pelo que não revelarei o seu nome nem serei muito específico nos exemplos, mas relatou-me uma série de razões para que as minhas iniciativas tivessem pouco alcance. Que o ser publicado dependia quase em exclusivo do apelo comercial do livro; que as edições de autor ou em editoras independentes dos grandes grupos são como uma luta de formigas contra elefantes; que ser autor era diferente de ser escritor; que para alguém se poder considerar escritor, imagine-se, depende exclusivamente do reconhecimento dos pares e do meio. Isto não só nega a ideia supracitada do scriptor de Roland Barthes, como esquece particularidades como o baú de Pessoa, a obra de Kafka ou as várias histórias de reclusos que escrevem livros sem acesso a material de escrita, pensando-os, dando-lhes existência e só a posteriori materialidade. É que para depender dos pares e do meio é preciso que os pares e o meio saibam da nossa existência. Não é de descurar o facto de esta ser uma visão redutora do leitor, que fica remetido a um lugar subalterno. Claro que isto acontece em todas as áreas da nossa vida. Há uma progressiva mercantilização de todos os objectos. As editoras têm de subsistir e nenhum negócio se mantém de intenções artísticas irrealistas, o que não significa que não haja quem merecesse investimento… This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit fernandomiguelsantos.substack.com

    Episódio 2 - Cultivar como Garrett
  2. Oct 30

    Episódio 1

    Bem-vindos ao Filotecnia. Faz hoje 20 anos que começou uma aventura. Falemos de literatura. Há uma frase que se repete, tão arrepiante quanto natural em algumas vozes: não gosto de ler. Categórica e demasiado definitiva, não me parece que tenha equivalente em nenhuma outra forma de manifestação artística. “Não gosto de música”. Não gosto de pintura. Não gosto de cinema. Estas frases, igualmente possíveis e igualmentes secas, não são seguramente tantas vezes pronunciadas. Qual género de música, qual canção? Que estilo de quadro, de que época? Cinema de que origem? Longas metragens ou séries? Estas seriam as perguntas que, respondidas, caracterizariam de forma mais fiel o gosto de alguém. Quanto à literatura não há esta especificidade entre aqueles que se declaram não-leitores. Mas isso não existe. Desde que alfabetizados, sabemos ler. E cada vez se lê mais, embora não necessariamente livros. Cada vez há maiores quantidades de texto a serem consumidas. Perante isto, é curioso que não haja uma gradativa forma de aproximação ao texto literário, uma progressiva elaboração do gosto. Há quem aponte culpas à escola e à forma como se abordam os textos canónicos. Muito se poderá dizer, também, sobre o próprio cânone. Há quem diga que a leitura é demasiado solitária ou que exige um esforço maior do que ouvir música no carro. A questão é que só se pode ler com olhos de ler. Com a prática, um leitor entusiasmado consegue ler caminhando e passando entre as pessoas, mas a leitura tem esta particularidade de querer ser exclusiva. Não se compadece da partilha de atenção. Ainda bem! Não é a única. O teatro também nos exige exclusividade. No que toca à actividade do espectador ou do leitor aí reside uma grande diferença. O teatro tem espectadores, que esperam, como indica o nome, que assistem. Há potencial para se ser mais ou menos activo. Já a leitura dificilmente é passiva. Exige uma acção do leitor. O fenómeno dos audiolivros resolve ligeiramente a questão, ocupando um espaço vazio que existia entre a literatura e a arte sonora, que nos remete para os primóridos da poesia em que a performance era parte integrante da, agora denominada, experiência literária. Mas também levanta outras questões. Disso falaremos noutro episódio. Ler é um fenómeno que sempre foi marginal na sociedade. Foi exclusivo dos que tinham poder económico e possibilidade de se instruir, depois passou a ser daqueles que tinham tempo para o fazer e agora é uma exigência para a maioria das actividades profissionais, o que não significa que se leia. Chamemos à conversa Roland Barthes. “Entendo por literatura não um corpo ou uma série de obras, nem mesmo um sector do comércio ou do ensino, mas o grafar complexo dos traços de uma prática: a prática de escrever. Eu viso com ela essencialmente o texto, quer dizer, o tecido de significantes que constitui a obra, porque o texto é a própria nivelação da língua e é no interior da língua que a língua deve ser combatida, transviada: não pela mensagem de que ela é o instrumento, mas pelo jogo de palavras de que é palco. Posso pois dizer indiferentemente: literatura, escrita ou texto.” E continua adiante: “Entre as forças da literatura quero indicar três, que ordenarei sobre a forma de três conceitos gregos: Matesis, Mimesis, Semiosis.“ Dessas forças, a primeira, Matesis, responde em parte à nossa pergunta. Por isso, Barthes continua: “Se por um qualquer excesso de socialismo ou de barbárie todas as nossas disciplinas fossem retiradas do ensino, exceptuando uma, a literatura deveria ser a disciplina salvaguardada, porque todas as ciências se encontram disseminadas no monumento literário.” E ainda: “O paradigma que aqui proponho não obedece a uma divisão de funções; não visa colocar de um lado os sábios e os investigadores, e do outro os escritores e os ensaístas; considera, pelo contrário, que a escrita acontece sempre que as palavras tenham sabor (saber e sabor têm a mesma etimologia em latim).” Saber. Sabor. Até a palavra sabor nos fica a saber a qualquer coisa na língua. Estamos habituados a ouvir o campo lexical da gastronomia aplicado aos livros. Diz-se que se degustam as frases, que os livros são devorados, que as passagens são deliciosas, os parágrafos sumarentos e que, no fim de um grande texto ficamos saciados. Há quem fale em termos de viagem. O texto é um périplo e, ao lê-lo alargamos os nossos horizontes, chegando mesmo a rasgar fronteiras do pensamento. A aventura não vive longe. Ficamos taquicárdicos com o suspense, sentimos a força do mar homérico, sabemos que não se pode agradar a gregos e troianos e temos um tendão que é tão nosso quanto de Aquiles. Vivemos um tempo em que o problema da relação com o texto é o analfabetismo secundário. Sabemos ler, mas não lemos. Sabemos ler, mas não sabemos realmente ler. Claro que esta é uma grande generalização e, como todas as generaliações, nas suas fronteiras, é injusta. O importante é fazermos a viagem que nos faça sentir o sabor da literatura. Aquela viagem que tem sabor doce, mas que, ao rasgar horizontes, tem amargos de boca que nos mostram os lados da vida que são tão ou mais sangrentos que a espada de Aquiles. Temos de viver essa odisseia que nos acelera, nos localiza, nos diminui perante o insondável e nos confronta com o sublime. Porque o texto está em todo o lado. No cinema, nos guiões, no teatro, nas memórias descritivas das artes gráficas, nas letras das canções, nas vozes dos improvisadores. Temos de provar os textos. “ No domínio do saber, para que as coisas se tornem no que são, no que foram, é necessário um ingrediente, o sal das palavras. É esse gosto das palavras que torna o saber apetecível, fecundo”, diz Barthes. Alargue-se esta noção. Há textos que são insossos, outros bem temperados - e bem comportados -, e outros que nos rebentam com o palato. A aproximação ao texto é como apresentar um novo ingrediente a um bebé. Ele toca, prova, talvez não goste deste primeiro contacto e depois as papilas gustativas começam a identificar aquele sabor. Instala-se uma familiaridade. Tudo o que for semelhante vai ser reconhecido e apreciado positivamente. Funciona como um músculo. O prazer aumenta quando se ultrapassa a linha do sofrimento, daquela dor, até que ela mesma se torna prazerosa, porque nos recorda essa adaptação que nos melhora e nos fortalece. Há viagens, ou corridas, mais longas, ou mais curtas, outras que nos lesionam e reclamam um tempo de recuperação, outras que nos empurram adiante, que nos fazem aproveitar o dia solarengo e outras que nos fazem ter vontade de viver numa gruta em Ogígia ou numa ilha do Mississipi em que todos somos fugitivos. O fenómeno que dá lugar ao texto moldou a natureza humana. Há textos sagrados que marcam a fé e a crença, como a Bíblia, o Corão e a Torá, outros com implicações políticas como o Manifesto Comunista, as Constituições, as leis, os decretos. Há livros que dão vida e livros que matam. Cada livro destes vive dos textos anteriores e esses de outros, numa rede imensa, um sistema que se altera a cada nova inclusão, que por sua vez será modificada pela reorganização sistemática, dialogando permanentemente com a correnteza desde discurso textual. Somos produto, quer leiamos muito ou pouco, quer sejamos bons ou maus leitores, deste fenómeno. Se lhe dermos atenção e para ele contribuirmos talvez a vida se possa decorar de cores novas. Diziam alguns avós de algures, agarra-te aos livros para seres alguém. Somos alguém só por existirmos, mas a nossa dimensão biológica trouxe-nos até à capacidade de pensar e de criar. A ficção tem a verosimilhança que se lhe pede, que nos mostra não o que é, mas o que poderia ser, o que poderia ter sido e o que pode vir a ser. Assim dizia Aristóteles. Que não se exija da literatura a verdade platónica. Se Platão deixou os poetas fora da cidade, chamemo-los. Que entrem, através destas nossas leituras, na urbe que temos de construir, desconstruir e recriar. É pensando que a vida ganha sentido para além daquilo que é a redundância aparente do dia-a-dia. Não … This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit fernandomiguelsantos.substack.com

    Episódio 1

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